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        <article-title>Pazuello sob defesa de @direitasiqueira: Proposta para uma metodologia de análise de ações persuasivas de <italic id="italic-1">memes</italic> com base na TBS</article-title>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="07/12/2021" />
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      <issue-title>Estudos de argumentação multimodal em distintas perspectivas</issue-title>
      <elocation-id>10.25189/rabralin.v20i3.1956</elocation-id>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">O presente artigo tem por objetivo propor uma metodologia para operacionalizar uma análise ancorada na Teoria dos Blocos Semânticos (TBS) ante ações persuasivas que se apresentam, ao menos em certo grau, ocultas em um tipo emergente de enunciação multimodal: os <italic id="italic-441b4d41c4db73c9611ac20b57851d1c">memes</italic>. Concebendo-se a persuasão conforme definida por Walton como a ação de provar uma tese, partiu-se do reconhecimento da significação da imagem contida em um <italic id="italic-2">meme</italic> em circulação. Tratando assim tal imagem como um signo, procurou-se, manter do signo a face do significado, reformulando-se a face significante. Passou-se, então, a representar a imagem por duas chaves, “{ }”, entremeadas pela palavra cuja significação é prefigurada pelo mesmo aspecto que prefigura a significação da imagem. Procurou-se, então, descrever o papel de tal signo no <italic id="italic-3">meme</italic>, tanto no nível diegético como no nível extradiegético. A partir da noção de explícito e de implícito desenvolvida pela TBS, concluiu-se que a imagem, admitida como signo, atua na construção explícita da prova no nível diegético e na construção implícita da tese no nível extradiegético. Espera-se, ao se propor a articulação dos subsídios teóricos da TBS com um enunciado de materialidade híbrida, contribuir, ainda que modestamente, para avanços metodológicos no âmbito da discussão sobre a argumentação multimodal.</p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">Argumentação</kwd>
        <kwd content-type="">Teoria dos Blocos Semânticos</kwd>
        <kwd content-type="">Implícitos</kwd>
        <kwd content-type="">Multimodalidade</kwd>
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    <sec id="heading-a4f4e9d53fbeff35ffe61b9c6b90c1b1">
      <title>Introdução</title>
      <p id="heading-9bd7fe0ab9450213b88d0ea3355293ca">Diante da significativa presença de matérias verbovisuais na circulação discursiva contemporânea, o presente artigo tem por objetivo introduzir a possibilidade de uma análise multimodal ancorada em proposições da Teoria dos Blocos Semânticos (TBS). Mais especificamente, pretende-se propor uma metodologia para a aplicação de noções da TBS acerca da implicitude na descrição de ações persuasivas que se apresentam, ao menos em certo grau, ocultas em um tipo emergente de enunciação de materialidade híbrida: os <italic id="italic-2c65abca5cad8286164ad7204a63bba6">memes.</italic></p>
      <p id="paragraph-9529dd2e05dada3d7aba0055c17a8d97">Com efeito, em redes sociais abertas ou fechadas, nas que congregam pequenos grupos de conhecidos com forte afinidade ideológica ou nas que reúnem pessoas com as mais diferentes visões de mundo, os <italic id="italic-3c3dd83019af3ce92924cddf9d1af965">memes</italic> surgem muitas vezes, com sua feição provocadora, como amparo à defesa deste ou daquele ponto de vista ou ainda como suporte à desqualificação de uma ou outra perspectiva.</p>
      <p id="paragraph-1ce5f0a4609aafc9a4941999d57bcd43">Entretanto, essas admiráveis unidades do discurso contemporâneo são aparentemente mais associadas à brincadeira ou à zombaria que à persuasão. Certamente, os <italic id="italic-052640ed7d25c02cfecd2695769f97f3">memes</italic> realizam também com bastante frequência, por meio de um humor lúdico, uma ação recreativa. Ocorre, porém, que tais ações não são excludentes, podendo um <italic id="italic-cbe9ac3e5badfaa5bf9369739a47c2d1">meme</italic>, a um só tempo, divertir e persuadir. O que, então, entenebreceria a sua ação persuasiva?</p>
      <p id="paragraph-51b48bad2aa4d334cc5452cde2954652">Antes de mais nada, é preciso pontuar que, ancorados nas proposições de Douglas N. Walton, tomamos a noção de persuadir como sinônimo de provar a própria tese (WALTON, 2012 [1989])<xref id="xref-8be248d36986e9cdb9b2ca0ba3640bca" ref-type="fn" rid="footnote-26737b242047fdf74827165367c611b9">1</xref><xref id="xref-1bbe6f043c189a38c9afa85c3ba2c897" ref-type="bibr" rid="book-ref-b08321d87b3b46d1dc7db882650e3ffb">[1]</xref>. Distanciamo-nos, assim, na concepção do termo, das proposições de Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, para quem a ideia de persuasão está relacionada a uma restrita amplitude do efeito pretendido pelo discurso argumentativo<xref id="xref-3b36879afe4f1941b319fc52bbe8bfb7" ref-type="fn" rid="footnote-8444998de8ba4a361d88598b0bc2e242">2</xref>, embora não deixemos de crer que, na prática, as enunciações que se valem de <italic id="italic-9882d623a616a75639ac1ab7dd2bbb94">memes</italic> não costumem se voltar ao que os autores chamam de auditório universal<xref id="xref-aea636cb890012aa889d134c0b234f73" ref-type="fn" rid="footnote-a5957650fff049ae806608048bafc574">3</xref> (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005 [1958])<xref id="xref-69f4f9887832c2702cbb6f92cd0bcdf8" ref-type="bibr" rid="book-ref-04820874c5a883961c756786ae961e4c">[2]</xref>.</p>
      <p id="paragraph-02cd819e6037b71fbbd548b7aa43d2ed">Feito esse esclarecimento, podemos dizer acreditar que uma das razões de os <italic id="italic-b248d296b6c139fa3e94540beb652cac">memes</italic> terem obnubilada sua ação persuasiva se baseia no fato de que, como objetos postos em uso isoladamente do fio do discurso que integram, não raras vezes deixam no ar qual é efetivamente o embate que travam. Em outras palavras, se geralmente um <italic id="italic-33d975b4403759800872bf4509cc2e27">meme</italic> entra em determinada enunciação como o único elemento de tal enunciação (seja ela um post de Facebook, Instagram ou Twitter ou uma mensagem de Whatsapp ou Telegram), sem que necessariamente o locutor enuncie nada antes ou depois que o prenuncie ou explique, acaba frequentemente implícita a tese a qual tal <italic id="italic-1c95f6f38983b27e75738c67a4f02058">meme</italic> busca provar. E, consequentemente, enevoa-se também o estatuto de prova que tal <italic id="italic-4">meme</italic> possa ter.</p>
      <p id="paragraph-b9a5513d76e69eea1ac0a495fd2a69cb">A implicitude da tese, porém, não é o mesmo que sua ausência. Eis por que cremos ser relevante abrir caminho para que a TBS, sendo ela uma teoria com robusto aparato relacionado aos implícitos, pressupostos ou subentendidos, possa ser operacionalizada não apenas em enunciações de materialidade verbal, mas também de materialidade verbovisual.</p>
      <p id="paragraph-86d946b55b2fa95caea68adcc30b6cd0">Não se busca aqui equiparar a outras concepções de argumentação a noção de argumentação proposta por Jean-Claude Anscombre e Oswald Ducrot em estudos que resultaram na clássica obra <italic id="italic-dc9d74307a46cb3dcc9ffac3ff109d16">L’argumentation dans la langue</italic> (ANSCOMBRE; DUCROT, 1983)<xref id="xref-b165f23c55940d61f4692505cc08bfd0" ref-type="bibr" rid="book-ref-6b45b1e12367e22055508f40573cbb27">[3]</xref>, posteriormente reformulada por Marion Carel em sua tese <italic id="italic-7b6df1cc29fad87929768d832aa6f32b">Vers une formalisation de la théorie de l'argumentation dans la langue</italic> (CAREL, 1992)<xref id="xref-47711bc5f1899bfb6e7c657e8e4770a0" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-bc23f477666763d95f052eca58e0be69">[4]</xref>, que daria origem à TBS. Essa empreitada entraria em contradição com as proposições, elas mesmas, de Anscombre e Ducrot, corroboradas por Carel, considerando que os autores entendem a argumentação não como um processo justificatório a serviço da persuasão, mas como uma relação entre proposições estabelecida pela língua<xref id="xref-4f25a8a685115340b498cadfee520c0b" ref-type="fn" rid="footnote-5ce152e6dce036813adf4a714101edbb">4</xref>.</p>
      <p id="paragraph-96902574191e01001468094c36674f39">Também não se busca contrariar, ao tratarmos <italic id="italic-b4e13297521bf61c711abced09fbad3a">memes</italic> – com suas materialidades híbridas – como enunciados, a concepção de enunciado delimitada por Ducrot ainda antes de Carel propor sua tese. Se é verdade que o autor definiu enunciado como a “manifestação particular” da uma frase (DUCROT, 1987 [1984], p. 164)<xref id="xref-240f9b2a5439333ab2c5929dc99690f9" ref-type="bibr" rid="book-ref-5ce1717d09cdcee40dfe44a756a3b3de">[5]</xref>, é verdade também que a frase obteve, na concepção de Ducrot, um estatuto de abstração tal que não pode, jamais, ser observada em si mesma<xref id="xref-7b90b3360a8ff5eee00778cd3ab31204" ref-type="fn" rid="footnote-3bef79efefd8ccd0545b2db1f37955c3">5</xref>. Assim, não há incoerência em imaginarmos que, além de fonemas ou de fontes gráficas que constituem palavras, ao menos determinadas imagens possam também significar e, com isso, integrar frases manifestas em enunciações.</p>
      <p id="paragraph-bebe17422dbc35543462882c7b71a461">Destacamos que Carel mesmo chegou a afirmar, em entrevista a Julio Cesar Machado, que certa intuição a levava a crer que o que as imagens comunicam poderia ser “parafraseável, frequentemente, por encadeamentos argumentativos” (CAREL; MACHADO, 2016, p. 39)<xref id="xref-667a36000c0459ec95f06216e7f6da91" ref-type="fn" rid="footnote-9c0bd56ba90c9e8019177d709f24bb2a">6</xref><xref id="xref-692dc54d1d795755e069c36ec621e982" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-8f2fd0bf2aa27960c06bf8d9f1ba5319">[6]</xref>. É, aliás, a partir dessa capacidade de significar assumida por determinadas imagens que propomos, na parte analítica deste artigo, o passo que consideramos fundamental na operacionalização do aparato desenvolvido pela TBS ante enunciações híbridas tais como os <italic id="italic-3c7d93e4149be2cff8913b618c8afa6b">memes</italic>.<strike id="strike-through-1"/></p>
      <p id="paragraph-09b4fb9e72f2cd55605d18272a31f142">Respeitando, então, as concepções de argumentação e de enunciado de Anscombre, Ducrot e Carel, o que se busca no presente artigo é, a partir de um pequeno <italic id="italic-9c78dd28dff2c7873d419ff79064bbf4">corpus</italic>, apresentar como, a despeito da materialidade híbrida dos <italic id="italic-34601f8005979c3ad7fcac8c9037ef1d">memes</italic>, é possível desenvolver uma metodologia a fim de, a partir de certas noções da TBS, descrever o mecanismo pelo qual a circulação de um determinado <italic id="italic-599e8b05dd7133e976df0610e80e19b3">meme</italic> pode trazer, implícito nele mesmo, a tese da qual se pretende que ele seja prova, restaurando assim seu próprio estatuto de prova.</p>
      <p id="paragraph-0fae496e45ef0874266fa44066175132">Para realizar o projeto, valemo-nos de uma publicação retirada da rede social Twitter em abril de 2021, na ocasião em que o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello, pouco mais de um mês após deixar a pasta em meio à pandemia do Coronavírus, foi fotografado em um shopping de Manaus sem cumprir a determinação local de utilizar máscara em lugares públicos. No próximo item, procuramos descrever nosso <italic id="italic-b549f1f3ed538a445067f09f0f09f04a">corpus</italic> e situá-lo dentro da concepção de <italic id="italic-d82f117c075c12c86579918c35f8bf7b">meme</italic>. Em seguida, fazemos um breve relato das proposições mais recentes da TBS acerca dos implícitos. Logo depois, apresentamos nossa análise, amparada por uma metodologia que leve em conta a significação de imagens, para, finalmente, expormos nossas conclusões.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-42941132c37f47216e639f121d5fb10f">
      <title>1. Um ,[object Object], em circulação</title>
      <p id="heading-47704cb9e9048e5a159d4d6d54991ef3">O termo <italic id="italic-8527ca6aaa0f6c5eac6513b8a506e0cd">meme</italic> foi proposto por Richard Dawkins em 1976, no último capítulo da obra <italic id="italic-9c279f054daf0d79da01da915e3b7b5c">O gene egoísta</italic>. Intitulado “Memes: os novos replicadores”, o texto procura delimitar um objeto que, embora não seja de ordem biológica (como o descrito pelo autor ao longo do livro), mas cultural, assemelha-se ao gene em sua capacidade de replicação. O biólogo vale-se, entre outros exemplos, de estudo a respeito dos cantos de pássaros, que se perpetuam não por questões genéticas, mas pelo fato de cada nova ave procurar imitar suas iguais. E acrescenta que tal reprodutibilidade comporta mutações, como no caso em que novos cantos surgem pela incapacidade de alguns pássaros produzirem imitações perfeitas. O conceito de <italic id="italic-55ad9a4c97be401ea0dc25b378691d1b">meme</italic>, então, nasce analógico: Dawkins cita slogans e modas do vestuário como exemplos deles (DAWKINS, 2007 [1976])<xref id="xref-19cf11819694cec1a77a5248575bf805" ref-type="bibr" rid="book-ref-2f9e893b01a91cc3429e74978ce281dd">[7]</xref>.</p>
      <p id="paragraph-89b87ab785d53cfd915bf0bae27ad70a">Partindo do estudo de Dawkins e revisando uma série de trabalhos que de alguma forma se debruçaram sobre a questão, Limor Shifman propôs, em sua obra <italic id="italic-c52340a1f4ebe6c23b678fa93ec76fb4">Memes in digital culture</italic> (SHIFMAN, 2014)<xref id="xref-829745094a15643f5e413d64cbcaf2df" ref-type="bibr" rid="book-ref-2f08563b38d8c1980e8ff772d1c129c1">[8]</xref>, uma já clássica concepção de <italic id="italic-85a10c0a1d457b4343ac1b5a69c96da6">meme</italic> de internet na qual nos ancoraremos. Na obra, a autora define <italic id="italic-a9338db93b61074913d03063502016fb">memes</italic> de internet a partir de três predicados: “(a) um grupo de itens digitais que compartilham características comuns de conteúdo, forma e/ou postura, que (b) foram criados com consciência uns dos outros, e (c) foram circulados, imitados e/ou transformados via internet por muitos usuários”<xref id="xref-4fd523c4796729ae26006b2d2e7e8258" ref-type="fn" rid="footnote-2815393c95ec2bb12ea516e1dc5ff285">7</xref> (SHIFMAN, 2014, p. 41)<xref id="xref-5e0057f29e219370ae87e24a01873721" ref-type="bibr" rid="book-ref-2f08563b38d8c1980e8ff772d1c129c1">[8]</xref>. Shifman enfatiza que a mutabilidade do <italic id="italic-65f8407e83d22c5552c7ddf4dba1beda">meme</italic> de internet é muito mais intensa que a do <italic id="italic-5">meme</italic> analógico de Dawkins, o que faz com que tal mutabilidade se torne uma de suas mais notáveis características.</p>
      <p id="paragraph-9307774887c919617976ca6cb38b8a6e">Isso posto, podemos apresentar a publicação da qual nos valemos para cumprir nossos propósitos. Trata-se de um post de 26 de abril realizado pela conta @direitasiqueira que reproduzimos na Figura 1:</p>
      <fig id="figure-panel-a46f08efba818131ac6f87fd2318f358">
        <label>Figure 1</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 1 - O <italic id="italic-cee9a479dadcad032d6e97f94fe66ddb">corpus</italic></title>
          <p id="paragraph-5053a7790fc7b997572cbb152fd0a81f">Fonte: Disponível em: &lt;<ext-link id="external-link-1" ext-link-type="uri" xlink:href="https://twitter.com/direitasiqueira/status/1386764878971559945">https://twitter.com/direitasiqueira/status/1386764878971559945</ext-link>&gt;. Acesso em 14 set. 2021</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-77de34373260b2c34363ab82e5fe3f04" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-be4efae43c05bd0a18df8ca7eaac80c1">Com o intuito de representar, de forma crítica, o modo de agir de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, a conta @direirasiqueira, que possui cerca de 170 mil seguidores, constrói a personagem Coronel Siqueira, cujo avatar retrata um senhor de aproximadamente 60 anos. Bastante atuante em defesa do presidente e de seus auxiliares mais próximos, a personagem é profícua na produção de textos em caixa alta, permeados de exclamações e, por vezes, emojis. Embora fictício, Coronel Siqueira frequentemente provoca confusões, tendo já sido, inclusive, rebatido pelo colunista do jornal <italic id="italic-c09135e2b93b1c77ea4a9b6c9dda1f59">Folha de S.Paulo</italic> e da rádio Bandnews Reinaldo Azevedo. Os desacertos provocados pela personagem foram tema de reportagem “Tão absurdo que parece real: conheça as ‘vítimas’ do Coronel Siqueira”<xref id="xref-f31bed62db83a49f4efd74301d2748d9" ref-type="fn" rid="footnote-c93fe7079eac62ac5ab932ac04f33394">8</xref>, publicada pelo jornal <italic id="italic-9055b21318a5ae0cf66cae9f01d70d5a">Metrópoles</italic>.</p>
      <p id="paragraph-aca49dc3c3e30c443583eaabc9616f84">O post em questão traz uma imagem do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello um dia antes, em 25 de abril de 2021, caminhando no Manauara Shopping, em Manaus. A imagem original, feita pela fotógrafa Jaqueline Bastos e postada por ela em redes sociais, teve grande repercussão em veículos de comunicação por apresentar Pazuello, 42 dias depois de deixar o governo, circulando sem máscara no centro comercial da capital amazonense. Devido à pandemia do Coronavírus, as autoridades locais haviam editado decreto tornando obrigatório o uso do equipamento em lugares públicos<xref id="xref-ae057134e9310b1ff2a4ba5fc89fb7e2" ref-type="fn" rid="footnote-4d32ad33661fb8280c33f80e48802ce1">9</xref>.</p>
      <p id="paragraph-06689455366d9a3328d85b1ee9dbeba2">Após a publicação, a foto foi amplamente replicada com as mais diversas intervenções, muitas delas colocando situações inusitadas em segundo plano, já que uma das observações feitas com grande frequência sobre a imagem original era que, ao fundo, um homem de porte físico muito semelhante ao de Pazuello, com blusa branca e bermuda jeans, passeava mascarado.</p>
      <p id="paragraph-c7a4de9fcc8785871d82b2938e834a78">A reprodutibilidade da imagem em posts diversos, que a transformam e a integram a um grande diálogo com suas semelhantes, faz com que a publicação escolhida por nós como <italic id="italic-3110b0135d47701afa5b736b76b6d3bc">corpus</italic> esteja de acordo com a definição de <italic id="italic-58ab2b3b383686b382d93e89b22e4c30">meme</italic> de internet proposta por Shifman.</p>
      <p id="paragraph-60ca5b5b69a0dd8c99ab1fb0fcccb178">Na forma que o <italic id="italic-38a89c017c59b5f7421db31f81f40080">meme</italic> tomou no enunciado que selecionamos, há uma máscara grosseiramente pintada por meio digital sobre o rosto de Pazuello da foto original. A intervenção faz menção a outras imagens, publicadas cerca de seis meses antes, em 17 de novembro de 2020, no site oficial do Centro de Avaliações do Exército Brasileiro.</p>
      <p id="paragraph-0f84befdff47c7cadcc049fb8ca85c8e">As fotografias do órgão militar, que acompanhavam um texto cujo objetivo era divulgar um exercício de socorro a vítimas de trauma, foram também adulteradas digitalmente para que todos os retratados parecessem mascarados. Na Figura 2 reproduzimos uma das imagens, recuperadas pelo portal Congresso em Foco por meio de “cache” do Google após serem apagadas. A manipulação digital ocorreu no rosto do militar à esquerda:</p>
      <fig id="figure-panel-ea1695052b6de05f5b04defaab2bda17">
        <label>Figure 2</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 2 – Foto de militar com máscara pintada divulgada por centro do Exército</title>
          <p id="paragraph-d888f0c72c4d56e2278f7e4b72885f24">Fonte: Disponível em: &lt;https://congressoemfoco.uol.com.br/area/governo/exercito-faz-manipulacao-tosca-em-foto-para-fingir-que-militares-usavam-mascara/&gt;. Acesso em 20 out. 2021</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-da4e24fd7f742615087814028c242cb7" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="2.jpg" />
      </fig>
      <p id="paragraph-9fc27c6b3d1966b995e9963232d6706d">A publicação foi bastante criticada na ocasião por órgãos de imprensa e tornou-se também alvo de comentários jocosos em redes sociais a ponto de serem retiradas do ar e de o Exército abrir um procedimento para apurar o ocorrido. O episódio, porém, ficou na memória da web, sendo recuperado na publicação de @direitasiqueira.</p>
      <p id="paragraph-5d5d3f4a8c5d8ed7d83a566d223b1aee">Feita essa breve descrição do <italic id="italic-b3da7168eb295270d2b6650360a7afa6">corpus</italic>, passamos, a seguir, a apresentar alguns fundamentos da TBS dos quais nos valeremos durante a análise.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-38f5d7773392364ab205b7643e283525">
      <title>2. TBS: Os fundamentos basilares, os explícitos e os implícitos</title>
      <p id="heading-a287ffb86594193a5a5952d6d8fce107">Tida, ao menos inicialmente, como a versão radical da Teoria da Argumentação na Língua (ADL), desenvolvida por Anscombre e Ducrot desde os anos 1970<xref id="xref-4a5230eb2b105b8b23b93a52e1d2c5d2" ref-type="fn" rid="footnote-1056a6a3e25b3c7ec8249c60d5d174ad">10</xref>, a TBS foi inaugurada com a apresentação da tese de Carel, <italic id="italic-a31adabe03fc932e5bb73799ca6c83b5">Vers une formalisation de la théorie de l'argumentation dans la langue</italic>, em 1992 (CAREL, 1992)<xref id="xref-faa56d1acece7d77baff57c99dd43230" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-bc23f477666763d95f052eca58e0be69">[4]</xref>. Na obra, a autora propôs uma revisão da teoria de Anscombre e Ducrot por considerar que a noção de <italic id="italic-a1e4438d5993a4858122723150904047">topos</italic>, integrada à ADL, contrariava um de seus axiomas: a concepção não referencial da língua. Desde então, como uma teoria viva, a TBS vem sofrendo constantes revisões, podendo o livro <italic id="italic-4924a253099f9035675ce9c2fa8a6df6">L’Entrelacement argumentatif</italic>, publicado por Carel em 2011 (CAREL, 2011)<xref id="xref-c1455712b937a7e7385ca46c308da392" ref-type="bibr" rid="book-ref-536687bc909c56de391f5f7e89523e95">[9]</xref>, ser considerado o marco do desenlace da fase inicial da teoria (também chamada de fase standard), centrada no conceito de bloco semântico, em sua fase atual, centrada no conceito de quase-bloco.</p>
      <p id="paragraph-facbf4a3a01ff7adc8044a48d8fa0596">Uma apresentação detalhada da TBS, e de suas modificações ao longo dos últimos 30 anos, extrapola nossos objetivos. Para tanto sugerimos as sínteses feitas por Machado no artigo <italic id="italic-d68c3e9a9c904c3dfaa4cba7355b8fe6">A Teoria dos Blocos Semânticos em revisão</italic> (MACHADO, 2017)<xref id="xref-c73e8a1ef5ea3ca88db541cf5ac70dc4" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-38a3138876b5347dee15b6409721b0ad">[10]</xref> e, mais recentemente, por Lauro Gomes nos itens 2.2 e 2.3 de seu livro <italic id="italic-87887e11f39620f56f6eebe58134e3ec">Discurso artístico e argumentação</italic> (GOMES, 2020). Um compêndio atualizado da teoria encontra-se na obra coletiva <italic id="italic-1a9f81188088cdc0ba205a5f80f8c1e2">Curso de semântica argumentativa</italic>, organizada por Carel, Machado, Louise Behe e Corentin Denuc (BEHE, <italic id="italic-250d1f1d7f5a459e6ea28df935a55ecc">et al.</italic>, 2021)<xref id="xref-b64b2d5679650183f5ed68c2d7176ae9" ref-type="bibr" rid="book-ref-802bafec4bef3780e51bb1ef135c322d">[11]</xref>.</p>
      <p id="paragraph-b6b8dca96240dffc9dc9e3bf06220544">Para os fins deste trabalho, procuraremos enfocar especificamente a distinção entre explícitos e implícitos feito por Carel no artigo <italic id="italic-064d7b63386a3f8ed1cc13ea11375817">As argumentações enunciativas</italic>, de 2018 (CAREL, 2018)<xref id="xref-3179106cc09221765b1fe7cf86ec4748" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-64e00fa8c792ad185a31271b2e638840">[12]</xref>. Sendo os implícitos, pressupostos ou subentendidos caros a Ducrot desde antes da consolidação da ADL<xref id="xref-d46b70480298824e28cf716ec0468bf6" ref-type="fn" rid="footnote-cdd4a8582376bd41db356f910299261e">11</xref> e objetos de volumosa teorização por Carel<xref id="xref-06eefba9afb5838c6d4bc609141aa5d4" ref-type="fn" rid="footnote-6662216820b24bea69880531db24ad71">12</xref>, é particularmente na obra citada que autora detalha uma noção que nos parece central para nossas pretensões: a concepção do que Carel chama de “interpretável”.</p>
      <sec id="heading-211a7d4c1a218db928e34595cd026083">
        <title>2.1 Fundamentos basilares da TBS</title>
        <p id="heading-dbd9099e3905af8ede94bb6892bee291">Antes de apresentarmos tal concepção, é necessário pontuar, de modo muitíssimo breve, alguns fundamentos basilares da TBS, a começar pela tese central da teoria, segundo a qual todo enunciado, ou conjunto de enunciados, pode ser parafraseado por encadeamentos argumentativos<xref id="xref-0e7827f98ce18ded19094fbb4451e8ff" ref-type="fn" rid="footnote-43a655e9b71f824f438596f7337e5228">13</xref>. Os encadeamentos são entendidos como o conjunto de duas proposições relacionadas por meio de uma conjunção do tipo “portanto” ou do tipo “no entanto”. Diz-se, então, na terminologia da TBS, que um enunciado “evoca” um encadeamento. O encadeamento, por sua vez, descreve o sentido do enunciado. Aqueles cujas proposições se relacionam por uma conjunção do tipo “portanto” são chamados de normativos, e aqueles cujas proposições se relacionam pela conjunção do tipo “no entanto” são chamados de transgressivos.</p>
        <p id="paragraph-271d70cc6d806ae9878d6fee1c19425c">Para citarmos um exemplo caro à TBS, podemos dizer que o enunciado:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-437bd8081fc44c42875f4894722d63bb">
          <list-item>
            <p>(1) Pedro foi prudente</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-942c14549529cce156871d54328cdaa2">Evoca o encadeamento:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-fb66898df48b2c59468f9adc8f1e3dc9">
          <list-item>
            <p>(1’) Pedro enfrentaria um perigo portanto tomou precauções</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-a67d384d4ab1c1bffe4cfc199b855877">Ainda vale mencionar que, conforme a TBS, os encadeamentos possuem uma estrutura, relacionada à significação, chamada de aspecto, que pode também ser normativo ou transgressivo. Na terminologia da TBS, diz-se que um encadeamento “concretiza” um aspecto. No caso do exemplo citado, poderíamos dizer que o encadeamento (1’) concretiza o aspecto:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-2d8eb75e78138e8e282bb95d3c0ffc29">
          <list-item>
            <p>(1’’) PERIGO DC PRECAUÇÃO</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-1ed6d0ead3bb5476c9eccc9443e7deee">Na nomenclatura do aspecto, grafado em maiúscula, usa-se “DC” para indicar uma relação normativa e “PT” para indicar uma relação transgressiva.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-9f38afe26679607d85bad0f4ed35536b">
        <title>2.2. Explícitos, implícitos e a noção de “interpretável”</title>
        <p id="heading-51595a4bd32177487297591182d46ab8">Feita essa brevíssima exposição, podemos nos voltar ao artigo <italic id="italic-3ddfb457baf13979b4e91d98ade3d067">As argumentações enunciativas </italic>(CAREL, 2018)<xref id="xref-668899c40b15a736d242e67394c36385" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-64e00fa8c792ad185a31271b2e638840">[12]</xref>, publicado em 2018 tanto em francês como em português, sob a tradução de Leci Borges Barbisan, na revista <italic id="italic-2d19d0dc4482f0062aca674eec027b4a">Letrônica</italic>, no qual Carel propõe fazer um balanço sobre a oposição entre encadeamentos explícitos e encadeamentos implícitos e, para isso, apresenta a noção de “interpretável”.</p>
        <p id="paragraph-e6bb133fc4204f7123fa95764d924372">Carel parte, então, do exame de um fenômeno observado na novela <italic id="italic-cf3f214c192881bada9c511d0721ba17">Claude Gueux</italic>, de Victor Hugo. Escrito com propósito panfletário, o texto busca atacar a severidade do sistema de Justiça francês. Em seu trecho final, transforma-se em um manifesto, deixando a narração em segundo plano. O posicionamento do autor, porém, se revela não apenas nesse momento, mas surge implicitamente desde o princípio da obra. À vista disso, Carel volta-se especificamente para o primeiro parágrafo que, após se iniciar com a descrição do frio e da fome que sofreu Gueux e sua família quando a personagem título enfrentava o desemprego durante um inverno parisiense, termina da seguinte forma: “O homem roubou. Eu não sei o que ele roubou, eu não sei onde ele roubou. O que eu sei é que desse roubo resultaram três dias de pão e de fogo para a mulher e para a criança e cinco anos de prisão para o homem”<xref id="xref-68aee97333802fc29f6dd93d5628f31a" ref-type="fn" rid="footnote-dc66301aef07913f0d3cbccd61019cf3">14</xref> (HUGO, 2016 [1834], p. 3)<xref id="xref-5f13faf5e981c30a24cb426932c7bbc5" ref-type="bibr" rid="book-ref-f7080a3053e066dc35ac7a76edd2a5aa">[13]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-612eb496f1e2f2a50a376ef4145f1502">Ancorando-se nesse último enunciado:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-009f9213f88a07e24e7f6597ac370084">
          <list-item>
            <p>(2) O que eu sei é que desse roubo resultaram três dias de pão e de fogo para a mulher e para a criança e cinco anos de prisão para o homem</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-5e9b84f0436941de4f4f29ecbd45ee58">Carel propõe, como encadeamento argumentativo evocado por ele, a seguinte paráfrase:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-ca8829fac9379ddd1195e780478c17c6">
          <list-item>
            <p>(2’) O roubo era tal que a mulher e a criança tiveram pão e fogo durante três dias NO ENTANTO o homem ficou preso cinco anos</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-778ea3e6f144feda65da0d2b083bb1a8">A autora nota então que, embora o encadeamento evocado pelo enunciado não trate de injustiça, o trecho leva o leitor a crer que a sociedade foi injusta com Claude Gueux e que deveria ser transformada. Carel questiona: “De onde vem isso?” E ela mesma a responde: “No centro do fenômeno encontram-se as ligações que são tecidas entre as palavras e as estruturam no sistema” (CAREL, 2018, p. 111). Ou seja, para a autora, a menção implícita à injustiça e à necessidade de se transformar a sociedade francesa parte não do enunciado e tampouco do encadeamento por ele evocado, mas do aspecto concretizado por tal encadeamento. Que aspecto é esse? Carel o apresenta da seguinte forma:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-0057e3527e22d8923f4bcaa39bd5ef9d">
          <list-item>
            <p>(2’’) NEG-FALTA PT PUNIÇÃO<xref id="xref-019e2bb19896161e2ac6062d057ed0b0" ref-type="fn" rid="footnote-ace1c6eceec1bdbcf103f98502428d53">15</xref></p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-bbb3bcc799d320b9ca9c5e16d75d1767">É esse aspecto, propõe a autora, que, prefigurando a significação da palavra “injustiça”, estaria na origem do enunciado implícito:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-a71872e923395ee0ce2f6ef94def8da0">
          <list-item>
            <p>(3) A sociedade foi injusta com Claude Gueux]</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-3af39464ea525dda35932ecf1caee190">Parece, a nosso ver, que conforme a descrição de Carel o implícito instaura-se por meio de um processo inverso ao explícito. Se, na explicitude, parte-se de um enunciado que, evocando um encadeamento, concretiza um aspecto, na implicitude é o aspecto que faz emergir o enunciado. </p>
        <p id="paragraph-71372369336461e7ae33ba5a75d2fc32">Em sua terminologia, Carel diz, então, que um encadeamento como (2’) é “interpretável” por um enunciado como (3) se o aspecto concretizado por (2’) prefigura o significado de palavra relevante de (3). A autora então conclui: “Para descrever as etapas desse procedimento, eu direi que um encadeamento argumentativo (e) é ‘interpretável’ por um enunciado (F) se o enunciado (F) evocasse (e) explicitamente” (CAREL, 2018, p. 112)<xref id="xref-b161df610a3488199c020811ac70f78a" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-64e00fa8c792ad185a31271b2e638840">[12]</xref>. </p>
        <p id="paragraph-169683b56e2f95847f2e114a1358c4c9">De fato, o enunciado:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-121e125475b024939ba755676540b6e5">
          <list-item>
            <p>(3) A sociedade foi injusta com Claude Gueux</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-b0730c63e73949c89e15e264d910b34b">Poderia evocar o encadeamento:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-ae0735e11bbe14abf96f2c3bbd265011">
          <list-item>
            <p>(2’) O roubo era tal que a mulher e a criança tiveram pão e fogo durante três dias no entanto o homem ficou preso cinco anos</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-3">Considerando que esse encadeamento concretiza o aspecto:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-0775d1551bc9fc2bb3f17e45356c10d8">
          <list-item>
            <p>(2’’) NEG-falta PT punição</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-2618f26304d61fb8b293a39e6abfc612">Que, por sua vez, é prefigurado na significação da palavra “injustiça” contida em (3). </p>
        <p id="paragraph-c6cc404fbd596989ff39f3acd16039ad">Tendo apresentado a concepção de “interpretável”, poderíamos terminar nossas considerações teóricas a respeito da TBS. Mas, apenas para que não deixemos pela metade as reflexões de Carel acerca do potencial de tal noção, gostaríamos de tecer um último comentário. Até aqui, é possível notar a capacidade da proposição da autora para a descrição dos meios pelos quais pode surgir, a partir de um enunciado explícito, outro enunciado implícito. </p>
        <p id="paragraph-56f6915ab9a35d947cd48808cc3bc627">Ocorre que, segundo Carel, esse novo enunciado é também capaz de evocar não apenas o encadeamento do qual é “interpretável”, mas um novo encadeamento<xref id="xref-a82b8259bd0f280582b096b7018d9d87" ref-type="fn" rid="footnote-d26d17f93b9c6284f5176bd3796ae98b">16</xref>.</p>
        <list list-type="bullet" id="list-503f6c5db8fbb270cf4913824349e86d">
          <list-item>
            <p>(3’) A sociedade foi injusta com Claude Gueux portanto nós devemos reformá-la</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-22ce599dc793f4b32ebb9d53cf534f65">Que, por sua vez, concretiza o seguinte aspecto:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-e7c2b68e9fb3b556e9c1182d25afccf0">
          <list-item>
            <p>(3’’) falta DC deve ser corrigida</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-7">É assim, ao fim desse processo, que, segundo a autora, o enunciado inicial (2), extraído da obra de Hugo, leva o leitor a concluir pela necessidade da reforma da sociedade. Carel resume o processo da seguinte forma:</p>
        <p id="paragraph-28636a1b3843cc34f8281478ba4e2c96">.</p>
        <p id="paragraph-a680edb0f9888432f3864394f2511bb4">Do enunciado (E) ao encadeamento implicitamente evocado (f), encontram-se os intermediários de (e) e de (F): de um lado, (E) evoca explicitamente (e); depois (e) é interpretado pelo novo enunciado (F); e, enfim, (F) evoca explicitamente o encadeamento (f). [...] De modo indigesto, isso será resumido na definição: (f) é implicitamente evocado pelo enunciado (E) se (E) evoca explicitamente um encadeamento (e) interpretável por um enunciado (F) evocando explicitamente (f). (CAREL, 2018, p. 112)<xref id="xref-5fe55bcdf0f44662dfd7bc3c93d64f61" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-64e00fa8c792ad185a31271b2e638840">[12]</xref></p>
        <p id="paragraph-99758818b7c4131f7228c8716fec443a">.</p>
        <p id="paragraph-14d4fbd934f9f887bdcbb81ca0d31b67">A autora sublinha que “o encadeamento implicitamente evocado (f) faz parte do sentido de (E)” (CAREL, 2018, p. 112)<xref id="xref-010372fa1eaf08e675434ea59bba8190" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-64e00fa8c792ad185a31271b2e638840">[12]</xref> e diz que, embora no caso analisado o encadeamento implícito seja acessório para a compreensão do sentido do enunciado explícito (e, ao mesmo tempo, essencial para a compreensão da estrutura geral da obra <italic id="italic-fd4f966aff9790b7315a67c12191df01">Claude Gueux</italic>), há casos em que os encadeamentos implicitamente evocados podem ocupar uma parte central no sentido do enunciado (CAREL, 2018, p. 113)<xref id="xref-3c19057cbf80486517dce1fd4709c52f" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-64e00fa8c792ad185a31271b2e638840">[12]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-6e348cfa7626da2a35f9cf74cc7d3a02">Passamos a seguir à análise do nosso <italic id="italic-aa5b48e51e556ca8961009d7fc56380a">corpus</italic>.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-096ee2075a357e5410fa1450f969b105">
      <title>3. Uma proposta de metodologia e de análise</title>
      <p id="heading-b9524d7ba78533157de270e94b76a232">Comecemos, então, nosso desafio de propor uma metodologia de análise da implicitude aos moldes da TBS no <italic id="italic-8756ac4c6174e7e59d234ba65bbcde28">corpus</italic> de materialidade híbrida selecionado para descrever o que entendemos ser uma ação persuasiva por ele realizada.</p>
      <p id="paragraph-a024c1e0cc4254ae651914c2c195b992">De início, identificando em tal <italic id="italic-fec414e0c26557d29ba877011c973b13">corpus</italic> certa semelhança com a obra <italic id="italic-0bc6aa0c81e4cf73cde8322c9cd635c0">Claude Gueux</italic> observada por Carel: há, em ambos, uma encenação. Sejamos mais precisos. Assim como em <italic id="italic-ca5cb8b77baa9b91e9df7ab2ff3d97dc">Claude Geuex</italic> é apresentada uma narrativa em que a personagem título é punida pelo sistema de Justiça francês, em nosso <italic id="italic-f901062d61b6dd49446101f1239296bd">corpus</italic> é exibida uma situação também fictícia na qual um apoiador do presidente Jair Bolsonaro vale-se de uma foto divulgada pelo Exército para rebater a acusação de que o ex-ministro Eduardo Pazuello andava sem máscara em um shopping.</p>
      <p id="paragraph-3dd22f8cb0ad8710364f05b0b6c0ebea">Entretanto, diferentemente do que ocorre no primeiro parágrafo de <italic id="italic-c23c7509f3fd86fdceb38dd9f7415894">Claude Gueux</italic>, há no <italic id="italic-d2530879d664dda9d4eab9cc16af9a9c">meme</italic> uma personagem que fala. Tal fenômeno imprime certa complexidade à encenação, tendo em vista que, além do <italic id="italic-f29cacba283f6ec07e6ffb0dbb81abe7">meme</italic> em si enunciar, a personagem dentro do <italic id="italic-155426f2fd9249407efa0dca38030673">meme</italic> também enuncia. Com isso, devemos, antes de tudo, distinguir os enunciados do nível diegético (ou seja, do nível interior à história narrada) e do nível extradiegético (ou seja, do nível da narração ela mesma)<xref id="xref-29970f618232afd05063e4a567d7a5e9" ref-type="fn" rid="footnote-9d9af91460b92d360aaa322ec3d9993b">17</xref>. No Quadro 1 discriminamos os enunciados (4) diegético e (5) extradiegético: </p>
      <fig id="figure-panel-8363abf99b17f310ea55f94b36cb2402">
        <label>Figure 3</label>
        <caption>
          <title>QUADRO 1 – Enunciado diegético e enunciado extradiegético no meme</title>
          <p id="paragraph-7ad543d228d9884c185f9906e5e050ad">Fonte: Elaborado pelos autores deste artigo.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-045930e05c1d9d0340f3cef583e099f1" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="3.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-2dd21bff1c6d51ddc5eb8ca14d0237b8">Feita essa distinção, apresentamos a metodologia que queremos sugerir, subdividida em três fases. Em primeiro lugar, para operacionalizar um exame nos moldes da TBS, vamos nos voltar para a imagem que a personagem Coronel Siqueira, apoiador do presidente Jair Bolsonaro, diz ter sido divulgada pelo Exército, tratando tal imagem como signo e, a exemplo do procedimento sugerido por Carel na entrevista a Machado (CAREL; MACHADO, 2016)<xref id="xref-9654874e353246fe03662bff772debb8" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-8f2fd0bf2aa27960c06bf8d9f1ba5319">[6]</xref>, buscando definir sua significação.</p>
      <p id="paragraph-548fc453206471c6fd92fc1d73db4344">Em seguida, descreveremos como esse signo participa de encadeamentos argumentativos evocados tanto pelo enunciado diegético como pelo enunciado extradiegético. No nível diegético, ao descrever tal participação, procuraremos caracterizar o que identificamos ser a prova da tese, necessária à ação persuasiva. Aqui, entretanto, devido mesmo à implicitude da tese, cremos que ainda não parecerá tão evidente o estatuto de prova disso que, desde então, chamaremos de prova. </p>
      <p id="paragraph-99acec0cf488ccfaf31a143f21a7b348">Será necessário, como dissemos na introdução, que se exiba a tese implícita, ela mesma, para que a ação persuasiva – ou seja, a ação que Walton definiu como sendo a de “provar uma tese” (WALTON, 2012 [1989], p. 7)<xref id="xref-2ade3312c5a38ce545df3d70d70e7a01" ref-type="bibr" rid="book-ref-b08321d87b3b46d1dc7db882650e3ffb">[1]</xref> – se manifeste integralmente. </p>
      <p id="paragraph-b043ad84a9bee196db0d3442aab24e89">No trecho final de nossa análise, então, nos centraremos no enunciado extradiegético para, finalmente, apontarmos como um encadeamento evocado por tal enunciado é interpretável por outro enunciado, que, por sua vez, explicita a tese a ser defendida, completando assim nossa descrição.</p>
      <sec id="heading-fbdee2657f16f5edfc0f71869675cb71">
        <title>3.1. A imagem como signo</title>
        <p id="heading-824f76851994b3f164a1b88a2413ed12">Compreender a significação da imagem que integra um determinado enunciado é, a nosso ver, um requisito para que se possa examinar tal enunciado com base nas proposições da TBS. Esse será, então, nosso passo inicial: determinar o aspecto argumentativo que a imagem concretiza. Assim, delimitaremos o que a imagem significa e, com isso, poderemos, no transcorrer da análise, enunciá-la, com alguma modificação técnica, por um termo que é prefigurado por sua significação.</p>
        <p id="paragraph-c385846271ade20279f44f2ba3ea10a1">Pois bem, como falamos no item 1, no qual apresentamos nosso <italic id="italic-7f1ecca3a3fe4467cca9f00609a91cb4">corpus</italic>, a imagem de Pazuello mascarado que a personagem bolsonarista Coronel Siqueira diz ter sido divulgada pelo Exército dialoga com outras postadas no site oficial do Centro de Avaliações do Exército Brasileiro. As máscaras grosseiramente pintadas por meio digital nas imagens foram, também já dissemos, alvo de reportagens críticas e comentários jocosos em redes sociais a ponto de serem apagadas. </p>
        <p id="paragraph-c21915316e57d05b678c18ea80be63b0">Focalizemos na Figura 2 (acima) e consideremos sua publicação pelo Centro de Avaliações do Exército Brasileiro como sendo o enunciado (6). A partir dele, podemos dizer que é evocado o seguinte encadeamento:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-f8f238c160463860ee919c14bd23e8a9">
          <list-item>
            <p>(6’) Centro do Exército divulgou imagem como sendo o que ocorreu durante exercício militar no entanto imagem foi manipulada</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-581de805302c880f985387773ce470da"> Sendo assim, tal encadeamento concretiza o seguinte aspecto:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-258560ba743f3714a91d1366540fb71c">
          <list-item>
            <p>(6’’) APRESENTADO COMO REAL PT MANIPULADO</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-4dfb5ac7ed4f2801c494ab5bd9117381">Aqui é importante notar que que (6’’) prefigura a significação de <italic id="italic-df7d58862ba5e682739bd097a749d66d">fake news – </italic>ou seja, (6’’) está inscrito na significação de <italic id="italic-f122fcf5bf718572dca0a2c6a07c85a6">fake news</italic>. Podemos dizer que a foto postada pelo Centro de Avaliações do Exército Brasileiro, ao concretizar o aspecto (6’’), significa “<italic id="italic-983bea072ca01a9d7230ea610261e7ab">fake news</italic>”.</p>
        <p id="paragraph-ef1b10fa02bcd7037bbd914acd827382">Ora, a foto de Pazuello, ao ser apresentada como verdadeira pela personagem bolsonarista Coronel Siqueira e, ao mesmo tempo, conter a máscara igualmente grosseiramente pintada por meio digital, concretiza o mesmo aspecto (6’’):</p>
        <list list-type="bullet" id="list-8f43cc6ffd1ff5694305c6f75909330a">
          <list-item>
            <p>(6’’) APRESENTADO COMO REAL PT MANIPULADO</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-a688d2a9995fef71eab754d810a30a0c">De onde conclui-se que ela mesma também significa “<italic id="italic-86dd3838717e6c026b8033c4ed240d70">fake news</italic>”. Chegamos, assim, à significação da imagem que a personagem bolsonarista Coronel Siqueira diz ter sido divulgada pelo Exército.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-72e229c807371f48fe034ff1fd93f58d">
        <title>3.2. A imagem no enunciado diegético e a construção da prova</title>
        <p id="heading-fd45e8a6c14387d9226ba07df07ede4c">Passemos ao segundo momento de nossa análise. Ainda sem nos preocuparmos com a significação já determinada da imagem, podemos notar que o enunciado diegético (4) evoca o encadeamento (4’) representado no Quadro 2:</p>
        <fig id="figure-panel-ded4eee05a379f748ea1f69a47a661af">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <title>QUADRO 2 – Representação multimodal do encadeamento argumentativo (4’), evocado pelo enunciado diegético (4) do <italic id="italic-06300016a184b81861f2f5b83614d322">meme</italic></title>
            <p id="paragraph-039a177370dcaf58af0cce85cfede2f3">Fonte: Elaborado pelos autores deste artigo.</p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-3c88f42fd5d8fb4ce177edb2d70e9cd9" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="4.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-fff3d39c5154c0c0aef9a404d7241455">Notemos agora que a relação entre a palavra “verdadeira” e a imagem concretiza, também no interior da diegese, o aspecto (4’’) representado no Quadro 3:</p>
        <p id="paragraph-2" />
        <fig id="figure-panel-8bc764b72728a4e1df42f1d4e50fd146">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <title>QUADRO 3 – Representação multimodal do aspecto argumentativo (4’’),  concretizado pelo encadeamento (4’) evocado pelo enunciado diegético (4) do <italic id="italic-73456782ba8f6b2c47de0cd6e31d8097">meme</italic></title>
            <p id="paragraph-96eb7bd04086a4242e685746821807b4">Fonte: Elaborado pelos autores deste artigo.</p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-a177ea12fb52c97db0957991a78e88ec" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="5.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-27bccfabece7bdcab68b0bb75d9ffb9a">Agora, apresentamos o movimento fundamental de nossa metodologia: tendo já concebido a imagem como signo e associado à sua face formal, uma segunda face, que compreende sua significação<xref id="xref-05aa501e32f4814718414a145eb5b7ed" ref-type="fn" rid="footnote-e9d2a500c5c649a15a666d4e7de8d524">18</xref>, vamos procurar manter essa segunda face, que é a que nos interessa para operacionalizar as proposições da TBS, enquanto remodelamos sua face formal. Desse modo, buscamos uma representação que, deixando a face formal do signo em segundo plano, realce sua significação. Passamos, então, a representar a imagem por duas chaves “{ }”, entremeadas pela palavra cuja significação é prefigurada pelo mesmo encadeamento que prefigura a significação de tal imagem.</p>
        <p id="paragraph-9e6001a63091bd505c030f422f90a402">No nosso caso particular, substituímos a imagem de Pazuello mascarado por “{ <italic id="italic-afbd6e4bdf523bf7b102cadff02812b4">fakenews</italic> }”. Chegamos assim à segunda representação do aspecto argumentativo (4’’):</p>
        <list list-type="bullet" id="list-03e707d8d6bb923d71289bd0794fbc4e">
          <list-item>
            <p>(4’’) { <italic id="italic-bd291a184b8db4291bfc641b0f9ef907">FAKE NEWS</italic> } DC ACREDITAR</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-ef3b2137ed5369bcfc0c61c1f67ea1e5">Caracterizado dessa forma, fica evidente que o enunciado (4) apresenta um paradoxo, ou seja, se opõe ao senso comum<xref id="xref-4ee245a48c44dea41c06b89a81fad0be" ref-type="fn" rid="footnote-e400911fc1f4e0227b71b94fca9d6b65">19</xref>. À primeira vista, pode parecer estranho, mas é isso mesmo: na diegese do <italic id="italic-023f55f7a69eb0ce04f1a4b1f18b434f">meme</italic>, a personagem Coronel Siqueira, apoiador do presidente Jair Bolsonaro, enuncia algo que contraria a doxa, já que relaciona de modo positivo “<italic id="italic-41abefff419689486dedc1b842c18f23">fake news</italic>” (significada pela imagem de Pazuello mascarado) e “acreditar”.</p>
        <p id="paragraph-5919d2ff7ac10ee697c790a210422641">É justamente isso que entendemos ser a prova da tese – tese esta, reforcemos, implícita e ainda a ser descrita.</p>
        <p id="paragraph-97e8dcfe8bc61c49c73aad8905d4dc87">Note-se que, na construção da prova, o aspecto argumentativo que prefigura a significação <italic id="italic-1065d71aad630698a59d4b6051b17ba2">“fake news”</italic> é concretizado, inicialmente, por uma imagem anterior à enunciada pelo <italic id="italic-47bb1e9331d2738773f4cfc0db158d2b">meme </italic>– a imagem postada no site oficial do Centro de Avaliações do Exército Brasileiro, na qual a relação entre as proposições do aspecto argumentativo (“APRESENTADO COMO REAL” e “MANIPULADO”) goza de ampla aceitação. </p>
        <p id="paragraph-0e257845fb52f2fca59f79d3b6ac8599">Isso é relevante porque o que dá força para que o que entendemos como prova seja considerado prova não é a personagem bolsonarista Coronel Siqueira acreditar em <italic id="italic-cfb56337540f5ed7389f8fad250f7487">fake news</italic>, mas o discurso no qual acreditam apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, tal como discurso do Exército, ser relacionado a aspectos que prefiguram a significação de <italic id="italic-ce1754068975f8402f10b95891e2f78a">“fake news”</italic>. </p>
      </sec>
      <sec id="heading-6e4aa52696115152eb232ba6923d953c">
        <title>3.3. A imagem no enunciado extradiegético e a construção da tese</title>
        <p id="heading-797c0a97b97a7c4826bd428463cd6bdf">Nessa fase final da análise, devemos reconhecer que a construção do enunciado extradiegético (5) é sutil. Podemos mesmo dizer que um dos únicos (senão o único) índices de sua existência é a apresentação da personagem Coronel Siqueira, apoiador do presidente Jair Bolsonaro, como enunciando algo que apresenta um paradoxo. Se não houvesse paradoxo – ou seja, se a enunciação da personagem bolsonarista Coronel Siqueira evocasse apenas encadeamentos que concretizassem aspectos ditos contextuais (ou seja, nem doxais, nem paradoxais)<xref id="xref-704faccd10a841baa52c3baa542f706a" ref-type="fn" rid="footnote-ad660d259165a9cbf998210427ede419">20</xref> – tudo se desmancharia: não haveria crítica, nem prova, nem tese. É, pois, pela oposição ao paradoxo, que se constrói o enunciado extradiegético (5).</p>
        <p id="paragraph-348379157598d52cae1d9838217e01f0">Feita essa observação, podemos dizer que o enunciado extradiegético (5) evoca o encadeamento (5’) representado no Quadro 4:</p>
        <fig id="figure-panel-b64e365002c635aac562528acd9d1263">
          <label>Figure 6</label>
          <caption>
            <title>QUADRO 4 – Representação multimodal do encadeamento argumentativo (5’),  evocado pelo enunciado extradiegético (5) do meme</title>
            <p id="paragraph-e3c6ac03bfa271595f1a92ad5c1226b6">Fonte: Elaborado pelos autores deste artigo.</p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-f0fb22995106431c485a168310541eaf" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="6.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-d169393308d23248e46e89c571a6f890">Tal encadeamento concretiza o aspecto (5’’) – notadamente oposto ao aspecto (4’’) – representado no Quadro 5:</p>
        <fig id="figure-panel-32754703f2040025e88546218906d2e6">
          <label>Figure 7</label>
          <caption>
            <title>QUADRO 5 – Representação multimodal do aspecto argumentativo (5’’),  concretizado pelo encadeamento (5’) evocado pelo enunciado extradiegético (5) do meme</title>
            <p id="paragraph-c64efea91e870b428809469e9fbfa308">Fonte: Elaborado pelos autores deste artigo.</p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-0fca0cdc84d17865b0ce3fb245420407" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="7.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-fc4380b18d3a83a2d242756f25eed609">Agora, novamente para melhor operacionalizar as proposições da TBS, convertemos a imagem de Pazuello mascarado por sua substituta “{ <italic id="italic-c2acaf3d95209e0099ba575b9c8b1e0c">fake news</italic> }” tanto no encadeamento argumentativo (5’) como no aspecto argumentativo (5’’). Chegamos assim às segundas representações de (5’) e (5’’):</p>
        <list list-type="bullet" id="list-9e91cc2edf76b46b6aa1adbf93b05f02">
          <list-item>
            <p>(5’) Apoiador de Bolsonaro vê { <italic id="italic-5093deda41e03c00a2dbd2f762f82834">fake news</italic> } NO ENTANTO ACREDITA</p>
          </list-item>
        </list>
        <list list-type="bullet" id="list-51c25a3e11306395550c20c795822f99">
          <list-item>
            <p>(5’’) { <italic id="italic-b0dd663595326103c706b4d38eb2f193">FAKE NEWS</italic> } PT ACREDITAR</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-9676ae617c2aea2939a0b69e531d2671">Aqui, então, valemo-nos da noção de “interpretável”. Se o aspecto (4’’), por sua própria natureza paradoxal dificilmente poderia prefigurar a significação de uma palavra<xref id="xref-c5cc5a61773c1006cfa3ae002303fbb0" ref-type="fn" rid="footnote-2b43170374fc5b928c86dd6a245f11b8">21</xref>, o aspecto (5’’) prefigura a significação de “ludibriar”.</p>
        <p id="paragraph-b55d5194f3e3eb062836fb6f7711f6f1">Temos então, finalmente, um novo enunciado (7) que contém a palavra cujo sentido é prefigurado por (5’’):</p>
        <list list-type="bullet" id="list-cc30c490ed4debbf569a3e08faa60ca4">
          <list-item>
            <p>(7) Apoiadores de Bolsonaro são ludibriados</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-68063bd2250518c55cacfb3fe67ac8c4">Eis aí a tese implícita, cuja prova já vimos e agora fica mais evidente: a dita falsidade do discurso no qual apoiadores do presidente Jair Bolsonaro acreditam, identificado com a palavra <italic id="italic-bc8c30db28ca5dec5d5355e31c8542c3">fake news</italic>. A tese, então, surge em um enunciado “interpretante”<xref id="xref-5d7b5bd262369cff899c5bd4d1dbfa1d" ref-type="fn" rid="footnote-353859328be2743047de910d8df96aff">22</xref>, tendo em vista que (5’) é “interpretável” por (7), uma vez que (7) contém a palavra “ludibriado”, cujo significado é prefigurado por (5’’).</p>
        <p id="paragraph-8261beaea4c20b9dd4d479406ffd22bd">Terminamos aqui nossa proposta de análise. Apenas para torná-la um pouco mais, digamos, buliçosa, gostaríamos de acrescentar que, se tomássemos a língua viva – viva a ponto de sermos capazes de perceber, ao longo de nossas curtas vidas, transformações (algumas delas profundas) dessa senhora que, no caso do português, possui quase 1 mil anos –, poderíamos considerar que o aspecto argumentativo (5’’) prefigura certa significação que passou a receber a palavra “gado” em tempos recentes, ao menos para determinados grupos contrários ao presidente Jair Bolsonaro. Se assim considerássemos, poderíamos dizer que o encadeamento (5’) é interpretável pelo enunciado (7b):</p>
        <list list-type="bullet" id="list-5d11729e3effc59e152787332d8b5d2a">
          <list-item>
            <p>(7b) Apoiadores de Bolsonaro são gado</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-cbd1cc4561392fd80907b827901a972c">Com efeito, (5’) seria, nessas circunstâncias, evocado tanto por (7) como por (7b). Essa, no entanto, é uma discussão mais ampla, que para ser levada a cabo necessitaria do cotejo da TBS com algumas noções de variação linguística, sobretudo diacrônica e diastrática, e também, com estudos da metáfora, uma vez que a nova significação de “gado” parece-se originar do mesmo domínio-fonte de expressões como “vaca de presépio” e “comportamento de manada”. Por ora, pensamos ter consumado o que pretendíamos ser o esboço de uma metodologia que vise trazer às análises multimodais a contribuição do extenso aparato da TBS.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-087f00ce34f1f46cc1c5170260bf5163">
      <title>4. Conclusão</title>
      <p id="heading-6bc09081a0a7aa21062ce612867ccadb">Concluímos assim esta que pretender ser uma proposta inicial de operacionalização de conceitos da TBS para a descrição de fenômenos observados em enunciados multimodais. Nessa primeira aproximação, procuramos, particularmente, apresentar uma metodologia que tornasse possível a análise da implicitude, aos moldes da TBS, na descrição de ações persuasivas de <italic id="italic-d989e74636edb63edfd6ce39762e6f42">memes</italic>. Para tanto, foi decisivo o fato de termos observado como signo a imagem presente em um determinado <italic id="italic-21d9e72e338bd7402c9fc4f58e00f80e">meme</italic> em circulação. O passo que consideramos fundamental em nossa metodologia foi termos reformulado a face formal de tal signo sem alterarmos a face da sua significação, de modo a realçar essa segunda face, já que foi ela primordial na operacionalização da análise.</p>
      <p id="paragraph-e78f973da58ec216c70eb755307ea76e">Pensamos que, especialmente no caso que apresentamos, cujo foco, como dissemos, eram as ações persuasivas, não tão flagrantes, de enunciados integrados por <italic id="italic-6efc70e769afc9803a1af62fb4b030ce">memes</italic>, a TBS, com seu robusto aparato da teoria acerca de implícitos, pressupostos e subentendidos traga subsídios singulares. Esperamos, assim, ao sugerirmos uma possibilidade de articulação de tais subsídios a um enunciado de materialidade híbrida, tenhamos contribuído, ainda que modestamente, para o avanço metodológico no âmbito da discussão sobre a argumentação multimodal.</p>
      <p id="paragraph-1ab016250769fc8fd58d2da81c596ad6">Cremos ainda que, a partir de nossos resultados, novas questões se colocam. Uma delas diz respeito à aceitabilidade do movimento persuasivo apresentado, sendo possível que, mesmo amparado pela significação, ele possa ser alvo de perguntas críticas e, à luz de proposições como as de Douglas Walton, Chris Reed e Fabrizio Macagno, considerado falacioso. Se, com base no extenso compêndio dos autores, possamos talvez considerar estar diante de uma argumentação por exemplificação (WALTON; REED; MACAGNO, 2008, p. 314)<xref id="xref-36e5b0b5c894f077acb7ed06dcb1ad85" ref-type="bibr" rid="book-ref-375a994736e4e83f32f32799c7c0eb82">[14]</xref>, torna-se legítimo nos questionarmos o quanto a significação fortalece a generalização feita a partir da publicação realizada pelo Centro de Avaliações do Exército Brasileiro. Esse, porém, é um passo adiante. O que queríamos dar, encerramos aqui.</p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-26737b242047fdf74827165367c611b9">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-cc20d2fb1013fcece9b8bab7694d858f">Em sua obra <italic id="italic-21ef3ba74da69ebe26a92c3f92316019">Lógica Informal</italic>, Walton afirma que o diálogo persuasivo é aquele em que “cada parte tem como objetivo persuadir a outra parte de sua tese (conclusão, ponto de vista), tendo como método provar a própria tese” (WALTON, 2012 [1989], p. 7)<xref id="xref-befb2247656e0deb0d38b112d7949ef2" ref-type="bibr" rid="book-ref-b08321d87b3b46d1dc7db882650e3ffb">[1]</xref>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-8444998de8ba4a361d88598b0bc2e242">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-675d9e7845efc4de1c9e11e688d5f37a">No Tratado da Argumentação, Perelman e Olbrechts-Tyteca propõem “chamar de persuasiva a uma argumentação que pretende valer só para um auditório particular e chamar convincente àquela que deveria obter a adesão de todo ser racional” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005 [1958], p. 31).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-a5957650fff049ae806608048bafc574">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-115012ec57d5f1e743ccfc7a5f8ba901">Pereleman e Olbrechts-Tyteca definem o auditório universal como aquele "constituído pela humanidade inteira, ou pelo menos por todos os homens adultos e normais" (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005 [1958], p. 33-34).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-5ce152e6dce036813adf4a714101edbb">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-700e8a12042bbf44bfa2e7cf043513f0">Anscombre e Ducrot assim definem a argumentação: “A argumentação, tal como a concebemos, satisfaz de sua parte duas condições. Para nós, com efeito, um locutor realiza uma argumentação quando ele apresenta um enunciado E1 (ou um conjunto de enunciados) com a intenção de fazer admitir outro (ou um conjunto de outros) E2. Nossa tese é que na língua existem restrições que regem esta apresentação. Para que um enunciado E1 possa ser dado como um argumento em favor de um enunciado E2, não é suficiente que E1 dê razões para se consentir com E2. A estrutura linguística de E1 deve, além disso, satisfazer certas condições para que ele seja apto a constituir, no discurso, um argumento para E2” (ANSCOMBRE; DUCROT, 1983, p. 8)<xref id="xref-098f7ec1c85e18d5a7da738dbdbead5e" ref-type="bibr" rid="book-ref-6b45b1e12367e22055508f40573cbb27">[3]</xref>. Texto original em francês: “L'argumentation, telle que nous la concevons, satisfait pour sa part aux deux conditions. Pour nous en effet, un locuteur fait une argumentation lorsqu'il présente un énoncé E1 (ou un ensemble d'énoncés) comme destiné à en faire admettre un autre (ou un ensemble d'autres) E2. Notre thèse est qu'il y a dans la langue des contraintes régissant cette présentation. Pour qu'un énoncé E1 puisse être donné comme argument en faveur d'un énoncé E2, il ne suffit pas en effet que E1 donne des raisons d'aquiescer à E2. La structure linguistique de E1 doit de plus satisfaire à certaines conditions pour qu'il soit apte à constituer, dans un discours, un argument pour E2” (ANSCOMBRE; DUCROT, 1983, p. 8)<xref id="xref-b24d604ebf4d79d89eddd67b0f18955b" ref-type="bibr" rid="book-ref-6b45b1e12367e22055508f40573cbb27">[3]</xref>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-3bef79efefd8ccd0545b2db1f37955c3">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-0ede58b7b381860513896b326826f6e2">No conhecido capítulo final de O dizer e o dito, em que traça o esboço da Teoria Polifônica da Enunciação, Ducrot assim define frase e enunciado: “Para levar a bom termo esta descrição, parece-me necessário estabelecer e manter (mesmo se isto custa um pouco) uma distinção rigorosa entre ‘o enunciado’ e uma ‘frase’. O que eu chamo “frase” é um objeto teórico, entendo por isso, que ele não pertence, para o linguista, ao domínio do observável, mas constitui uma invenção desta ciência particular que é a gramática. O que o linguista pode tomar como observável é o enunciado, considerado como uma manifestação particular, como a ocorrência hic et nunc de uma frase” (DUCROT, 1987 [1984], p. 164).<xref id="xref-b4ad5d55fd96b308ce4e2ea3d6972da8" ref-type="bibr" rid="book-ref-5ce1717d09cdcee40dfe44a756a3b3de">[5]</xref></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9c0bd56ba90c9e8019177d709f24bb2a">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-21a1238fdb2792cf27c2f3755a7a62c9">Agradecemos à professora Cristiane Dall’Cortivo Lebler pela lembrança da menção feita por Carel, durante a entrevista a Machado, a respeito da possibilidade de imagens significarem. Nela, a autora cita como exemplo afrescos surgidos durante a peste negra, no século XIV, conhecidos como <italic id="italic-058d858718f851d51648da708fd2e9cc">Danças Macabras</italic>, nas quais estão representadas figuras de diversas classes sociais sempre acompanhadas de esqueletos. Afirma a autora: “Estas danças macabras comunicam que a morte toca todo mundo. Em particular, elas comunicam: <italic id="italic-94b322827722e8f4fcbbcea18d8eb63e">mesmo se alguém é poderoso, ele não pode escapar da morte</italic> (poderoso PT NEG-conseguir)” (CAREL; MACHADO, 2016, p. 39-40)<xref id="xref-80af6f58bca2c0f99ecf40acd6a6c292" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-8f2fd0bf2aa27960c06bf8d9f1ba5319">[6]</xref>.<strike id="strike-through-3d401509be094169ab0535e82d0d5551"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-2815393c95ec2bb12ea516e1dc5ff285">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-c5d946d486214bdaf42b001d8d955586">Texto original em inglês: “(a) a group of digital items sharing common characteristics of content, form, and/or stance, which (b) were created with awareness of each other, and (c) were circulated, imitated, and/or transformed via the Internet by many users” (SHIFMAN, 2014, p. 41)<xref id="xref-52af948351e09edb7e88bd1a8a3d129e" ref-type="bibr" rid="book-ref-2f08563b38d8c1980e8ff772d1c129c1">[8]</xref>. Tradução pelos autores deste artigo.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c93fe7079eac62ac5ab932ac04f33394">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-3883b33ac151cd90dddbb30031dcbb65">Disponível em &lt;<ext-link id="external-link-3" ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.metropoles.com/brasil/tao-absurdo-que-parece-real-conheca-as-vitimas-do-coronel-siqueira">https://www.metropoles.com/brasil/tao-absurdo-que-parece-real-conheca-as-vitimas-do-coronel-siqueira</ext-link>&gt;. Acesso em 14 set. 2021.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-4d32ad33661fb8280c33f80e48802ce1">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-35f9e1d55d091168da7fc4fea9afe357">Questionado sobre a situação ao depor na CPI da Covid, em 20 de maio de 2021, no Senado Federal, Pazuello justificou a situação dizendo que, após a máscara que usava ter-se estragado, entrou no shopping para comprar outra. Disponível em &lt;<ext-link id="external-link-7789792e9f8a8b2cfc91d2f20c47a132" ext-link-type="uri" xlink:href="https://legis.senado.leg.br/comissoes/reuniao?0&amp;reuniao=9998&amp;codcol=2441">https://legis.senado.leg.br/comissoes/reuniao?0&amp;reuniao=9998&amp;codcol=2441</ext-link>&gt;. Acesso em 14 set. 2021.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-1056a6a3e25b3c7ec8249c60d5d174ad">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-767163895b3dab119551278da1853b86">A despeito de o livro <italic id="italic-546103c0504a72eb3c533a967a9da24b">L’argumentation dans la langue</italic>, que reuniu os conceitos centrais da teoria de Anscombre e Ducrot, ter sido publicado, em sua primeira versão, em 1983 (ANSCOMBRE; DUCROT, 1983)<xref id="xref-e8d3c3596e254111e5ea170f410fc4c6" ref-type="bibr" rid="book-ref-6b45b1e12367e22055508f40573cbb27">[3]</xref>, consideramos que a ADL tem seu marco inicial no artigo<italic id="italic-fb19a1c84015c1f9ff5b922996770caf"> </italic>de mesmo nome,<italic id="italic-6"> </italic>incluído no número 42 da revista <italic id="italic-7">Langages</italic>, de 1976 (ANSCOMBRE; DUCROT, 1976)<xref id="xref-c1de60e90e09384ed0079f04751567ce" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-dc7ffacda35aa076265b22c5b28e6379">[15]</xref>. Antes disso, porém, Ducrot já vinha desenvolvendo conceitos que integrariam a ADL.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-cdd4a8582376bd41db356f910299261e">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-1f77e8de4d5361259087772d4881d48b">A pressuposição é tratada pelo autor na obra <italic id="italic-3b6f6c23a1163152f6c80142d820b97e">Qu'est-ce que le structuralisme?</italic>, de 1968 (DUCROT, 1968)<xref id="xref-9336fa497a8cf00a64d4ed566aa2321c" ref-type="bibr" rid="book-ref-23a09700ccccbd8a2ac4cac7a0ed7073">[16]</xref>, e é um dos problemas centrais de <italic id="italic-222975d44b7b98410d21d4b085421c5d">Dire et ne pas dire</italic>, de 1972<italic id="italic-443d3de2c11c389e4d279628201076e4"> </italic>(DUCROT, 1972)<xref id="xref-73ce8df6174af2ddc74c260e14dc1065" ref-type="bibr" rid="book-ref-2bdbc5712f253e574a6c61ebad7b5472">[17]</xref></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-6662216820b24bea69880531db24ad71">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-93e837d9dc578d13a226a28be6417ef0">Se na obra inaugural da atual fase da TBS, Carel já sumarizava seus esforços para adequar as proposições de Ducrot acerca da pressuposição a seu quadro teórico, subdividindo-a em “pressuposição de frase” e “pressuposição lexical” (CAREL, 2011, p. 376-381)<xref id="xref-4c707397a67cf3e75d5b0b885d1ab216" ref-type="bibr" rid="book-ref-536687bc909c56de391f5f7e89523e95">[9]</xref>, em seu texto mais recente sobre o assunto, o capítulo <italic id="italic-74e2ef1a864f2d41c2ed7436a8e9f639">A pressuposição na TBS</italic>, que integra a obra <italic id="italic-6481eed06e1ab1d52d4401649d0b885f">Curso de semântica argumentativa</italic> (BEHE, <italic id="italic-58bd982458a003a796dda380f3bd8488">et al.</italic>, 2021, p. 169-180)<xref id="xref-630baf1fc80ec9225f099bd9ad581631" ref-type="bibr" rid="book-ref-802bafec4bef3780e51bb1ef135c322d">[11]</xref>, a autora aprofunda a classificação propondo uma subdivisão da pressuposição em dois eixos: “pressuposição gramatical/ pressuposição lexical”, semelhante à já presente na obra de 2011, e “pressuposição argumentativa/pressuposição co-significada”.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-43a655e9b71f824f438596f7337e5228">
        <label>13</label>
        <p id="paragraph-4b15b2b89a1f8d186c3d2dda10503834">Os princípios basilares da TBS reunidos neste subitem estão expostos, como dissemos, de forma muitíssimo breve. Tais princípios vêm sendo formulados por Carel desde a obra inaugural da TBS e uma explanação mais detida e atualizada pode ser encontrada na já citada obra <italic id="italic-8c90cf5a1fff98d08707e45253b6a387">Curso de Semântica Argumentativa</italic>, da qual Carel participa com o prefácio e três capítulos e Ducrot, com outros cinco, além de uma série de pesquisadores que há anos colaboram com a construção da teoria também deixarem expressiva contribuição (BEHE, <italic id="italic-7ceffea8bd41e68a68f9f488604c4126">et al.</italic>, 2021)<xref id="xref-deff4311367e67674aec306b3a9a9edc" ref-type="bibr" rid="book-ref-802bafec4bef3780e51bb1ef135c322d">[11]</xref>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-dc66301aef07913f0d3cbccd61019cf3">
        <label>14</label>
        <p id="paragraph-14d02a1633743d586ee7e1655fd8b2c4">Texto original em francês: “L’homme vola. Je ne sais ce qu’il vola, je ne sais où il vola. Ce que je sais, c’est que de ce vol il résulta trois jours de pain et de feu pour la femme et pour l’enfant, et cinq ans de prison pour l’homme.” Tradução de Leci Borges Barbisan no corpo do artigo <italic id="italic-68dee3315d390fa63cc298be57c243b3">As argumentações enunciativas</italic> (CAREL, 2018)<xref id="xref-d490263b8241d8a424f0ec2ae76c1e46" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-64e00fa8c792ad185a31271b2e638840">[12]</xref>.   </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ace1c6eceec1bdbcf103f98502428d53">
        <label>15</label>
        <p id="paragraph-64a8fed2bbc0b496a98f45999b231729">No quadro da TBS, “neg” representa não apenas a negação, mas tudo o que seus autores batizaram de modificador desrealizante inversor, ou seja, um termo que inverte o que vem a seguir. A noção de modificador desrealizante inversor é detalhada por Ducrot nos artigos <italic id="italic-2c1e285ec1de2fef11c4eae5b434c5bc">Les modificateurs déréalisants</italic> (DUCROT, 1995)<xref id="xref-652d1674b0ef6675f8ff227e77fc0ff5" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-0c6e43bda912c2ad55d3fb3da1934b2f">[18]</xref> e <italic id="italic-56fab0b66f24860fb178fb7a4eb869e2">Os internalizadores</italic> (DUCROT, 2002 [2002])<xref id="xref-452a03d661437ece47e7d62130172b24" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-ac73d848ec1172e40a529aff217556b7">[19]</xref>. Em seu texto, Carel cita os termos “pouco”, “muito pouco”, “pequeno” como exemplos de termos que podem cumprir essa função.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d26d17f93b9c6284f5176bd3796ae98b">
        <label>16</label>
        <p id="paragraph-8875b218c5d7ee7f9d88cbeaf3957683">Embora a autora não faça referência a isso, cremos que essa duplicidade se deva ao fato de, na nomenclatura atual da TBS, a significação das palavras compreender tanto aspectos argumentativos como quase-blocos (BEHE, <italic id="italic-c1aa4c248fc369b6cee212431e27da9a">et al.</italic>, 2021, p. 138)<xref id="xref-70829a70c6acfca8f48fee9b7d00a233" ref-type="bibr" rid="book-ref-802bafec4bef3780e51bb1ef135c322d">[11]</xref>. Assim, o “interpretável” parece estar relacionado à significação de palavras contidas no novo enunciado prefigurada diretamente pelo aspecto que não contém tais palavras (ou seja, a argumentação interna da palavrava, na terminologia da TBS-standard), enquanto o outro encadeamento possa estar relacionado à significação das mesmas palavras contidas no novo enunciado prefigurada pelos aspectos do quase-bloco que contém tais palavras (isto é, a argumentação externa, na terminologia da TBS-standard). </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9d9af91460b92d360aaa322ec3d9993b">
        <label>17</label>
        <p id="paragraph-00f55bdf6c4eda0a2832dde9d9da9d74">Utilizamos aqui o termo diegese conforme proposto por Étienne Souriau: “tudo aquilo que pertence [...] à história contada, ao mundo suposto ou proposto pela ficção” (SOURIAU, 1953)<xref id="xref-25405c96cff4b30d39b91afd093e81a4" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-d441adef636f98871ed9e389690d3403">[20]</xref>. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e9d2a500c5c649a15a666d4e7de8d524">
        <label>18</label>
        <p id="paragraph-1bc90ff2be72a2fdcdcb6219be3ca696">Seguimos aqui a proposição de Ducrot, que define o signo como o par formado por uma face formal, o significante, e uma face semântica, a do significado (BEHE, <italic id="italic-408d272a8c5d6869c29409a52495707a">et al.</italic>, 2021, p. 78)<xref id="xref-fa79f195432eaeee12bf8a65ba2e5fb7" ref-type="bibr" rid="book-ref-802bafec4bef3780e51bb1ef135c322d">[11]</xref>. Apesar de o autor seguir a tradição de Ferdinand de Saussure e Émile Benveniste, sua delimitação terminológica é um tanto distinta da de seus antecessores.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e400911fc1f4e0227b71b94fca9d6b65">
        <label>19</label>
        <p id="paragraph-0713eec6ffbd59fe1f65367875bd80ca">Carel defina doxa e paradoxo em função da conformidade à língua. Para isso, se vale da noção de quase-bloco que, por ultrapassar nossos objetivos, não especificamos aqui. Uma discussão aprofundada sobre o assunto consta do artigo <italic id="italic-2b05e110fb916324d1f94c83df38dc93">Significação e argumentação</italic>. Diz Carel na obra: “É no nível dos quase-blocos que se definem a doxa e o paradoxo. Um quase-bloco é doxal se ele está lexicalizado e um quase-bloco é paradoxal se seu complementar no interior de um quadrado de inversão é doxal” (CAREL, 2017, p. 18)<xref id="xref-40f03c25a15a3238daab8441dea83b71" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5da5565a9383ef458e17629b44984938">[21]</xref>. Daí decorrem a doxalidade ou paradoxalidade dos encadeamentos e aspectos.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ad660d259165a9cbf998210427ede419">
        <label>20</label>
        <p id="paragraph-5e81180bfa32a3a7d2c56362084136ac">No quadro da TBS, contextual é tudo o que não é doxal nem paradoxal. Carel cita o exemplo do encadeamento: “Meu gato miou portanto o disco parou”. Uma profícua discussão sobre o contextual consta da obra já citada de Gomes, <italic id="italic-c4bd262dd9c2e3f248f58e8a5dd9cb07">Discurso artístico e argumentação</italic> (GOMES, 2020)<xref id="xref-31ac0b4ef8f69f4f351f64e7ffa82bb1" ref-type="bibr" rid="book-ref-767b033927db061017184ba226e17a18">[22]</xref>. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-2b43170374fc5b928c86dd6a245f11b8">
        <label>21</label>
        <p id="paragraph-568f8e1ee8013e0bec3d1508918e4a90">A TBS identifica “masoquista” uma palavra cuja significação é prefigurada por um aspecto paradoxal, no caso o aspecto paradoxal sofrer DC satisfação (CAREL; DUCROT, 1999)<xref id="xref-a99cc20f8cac3f375ffbc6538fbc41d7" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-54d33c41883a893bb096caf7c0af61f9">[23]</xref>. Tal fenômeno, porém, parece ser bastante raro. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-353859328be2743047de910d8df96aff">
        <label>22</label>
        <p id="paragraph-3128c6f4283eaff6a67bb078e2f3beeb">Carel não se vale de nenhuma nomenclatura para designar o enunciado pelo qual um encadeamento é “interpretável”. Assim, assim, na ausência de um termo técnico, adotamos, provisoriamente, o termo “interpretante”.  </p>
      </fn>
    </fn-group>
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