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<journal-id journal-id-type="nlm-ta">Revista da Abralin</journal-id>
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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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<publisher-name>Associação Brasileira de Linguística</publisher-name>
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      <article-id pub-id-type="doi">10.25189/RABRALIN.V20I2.1834</article-id>
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          <subject content-type="Tipo de Contribuição">Relatório de Pesquisa</subject>
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        <article-title>Notas sobre a gramaticalização de conectores causais x-que</article-title>
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      <volume>20</volume>
      <issue>2</issue>
      <issue-title>Publicação Contínua 2021</issue-title>
      <elocation-id>10.25189/rabralin.v20i2.1834</elocation-id>
      <history>
        <date date-type="accepted" iso-8601-date="06/08/2021" />
        <date date-type="received" iso-8601-date="26/04/2021" />
      </history>
      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">Este artigo investiga a gramaticalização de três conectores causais formados a partir da associação de uma base léxico-gramatical ao item <italic id="italic-1">que</italic>: <italic id="italic-2">já que</italic>, <italic id="italic-3">posto que</italic> e <italic id="italic-4">visto</italic> <italic id="italic-5">que</italic>. Para tanto, adota uma perspectiva funcionalista de análise, que, pautando as relações entre estrutura e usos linguísticos, concebe a gramática como um sistema variável e emergente. Com base em dados recolhidos de uma amostra longitudinal, identifica os principais mecanismos que atuam na gramaticalização desses conectores, quais sejam, reanálise, analogia, metáfora e metonímia. As análises apontam para uma relação complementar entre os mecanismos cotejados, que, no caso dos elementos em pauta, operam tanto na dimensão da forma quanto na dimensão do significado, corroborando a natureza complexa dos processos de gramaticalização. </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-4">This paper investigates the grammaticalization of three causal connectives formed by a lexical-grammatical base associated with the item <italic id="italic-9feff4b53b87e7debe02dc0bc288f85d">que</italic>: <italic id="italic-7d9fa64fdc6040771ac8c3fcf9e3805b">já que</italic>, <italic id="italic-57fec52bb69313a86755bb6c33adffa0">posto que</italic> and <italic id="italic-4250a5967811f28556dde87cbf561294">visto que</italic>. To this end, it is aligned to a functionalist perspective of analysis, which, based on the relationships between structure and linguistic uses, conceives grammar as a variable and emergent system. Based on data collected from a longitudinal sample, it identifies the main mechanisms performed in the grammaticalization of the connectives in question, namely reanalysis, analogy, metaphor and metonymy. The analyses indicate complementary relationships among these mechanisms, which, in the case of the elements under investigation, operate both at a formal and a semantic dimension, corroborating thus the complex nature of grammaticalization processes. </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">Gramaticalização</kwd>
        <kwd content-type="">Conectores <italic id="italic-cd60a3f3e0bcea0e5b147b025dfcd106">x-que</italic></kwd>
        <kwd content-type="">Causalidade</kwd>
      </kwd-group>
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    <sec id="heading-4735dddf6badda6642ec9d0b4897b5b2">
      <title>Introdução<xref id="xref-a4a6cc657143788d26b109d3fc863a38" ref-type="fn" rid="footnote-4e691851742c977e1f3d38488af3e3e3">1</xref></title>
      <p id="heading-68f280ff9ded5d98147e9e047a8cfbfd">Na perspectiva funcionalista, os estudos de gramaticalização têm se mostrado bastante profícuos para a compreensão de mudanças nos níveis morfossintático e semântico-pragmático. Nesse ramo de investigação, destacam-se trabalhos que abordam (re)arranjos no paradigma de conectores em diferentes línguas (KORTMANN, 1997; BARRETO, 1999; WANG; HUANG, 2006; FAGARD, 2009; RODRIGUES, 2018). Alinhados a uma visão cognitivo-funcional da linguagem (BYBEE, 2010), esses trabalhos descrevem, em perspectiva sincrônica e/ou diacrônica, processos responsáveis pela emergência de novos (usos de) itens linguísticos que podem atuar no domínio da junção intra- e interoracional.</p>
      <p id="paragraph-2">O presente estudo, de caráter qualitativo, pauta-se pelo método diacrônico (COSERIU, 1979)<xref id="xref-dee5553fc7883fc65a69c9191ea6e0ea" ref-type="fn" rid="footnote-d6ab71db0ef84f13cb4b60fc5375cdcb">2</xref> para aventar e discutir hipóteses explicativas sobre a gramaticalização de conectores causais do tipo <italic id="italic-cb6c74dd4008e4c6b1b86bee5dd72afa">x-que</italic>. Tais conectores, na medida em que são formados pela integração entre uma base léxico-gramatical e o item <italic id="italic-2794d7820c5855dea8214342b2a6ae06">que</italic>, podem ser, por exemplo, de natureza i) nominal: <italic id="italic-3a7d33a6c472bd6813391adeb407cdf6">por causa que</italic>; ii) verbal: <italic id="italic-b235ca515d1583635342772ebd20279d">posto que</italic>,<italic id="italic-570f528a122b338ca56849c9b98cbe67"> visto que</italic> ou iii) adverbial: <italic id="italic-6">já que</italic>, <italic id="italic-7">pois que</italic>. Dessa forma, a partir de dados coletados de uma amostra longitudinal (AMORIM, 2017), são descritos, neste trabalho, processos de mudança formal e funcional envolvidos na emergência de três conectores <italic id="italic-8">x-que</italic> que expressam causalidade: <italic id="italic-9">já que</italic>, <italic id="italic-10">visto que</italic> e <italic id="italic-11">posto que</italic>. </p>
      <p id="paragraph-3">O surgimento de conectores perifrásticos, a partir da integração entre uma base e o item <italic id="italic-12">que</italic> (origem latina: <italic id="italic-13">quod</italic>, <italic id="italic-14">quid</italic>), tem sido verificado desde o latim tardio. Segundo Baño (2010), os conectores latinos <italic id="italic-15">eo quod</italic>, <italic id="italic-16">pro eo</italic> <italic id="italic-17">quod</italic> e <italic id="italic-18">propter quod</italic>, utilizados na expressão de relações causais, formaram-se a partir do mesmo modelo construcional – <italic id="italic-19">[x-que]<sub id="subscript-1">conect</sub></italic><xref id="xref-9260c19dc22da01e58c3ae921a67c3a7" ref-type="fn" rid="footnote-3a609c223c588146d5671db533d1ef87">3</xref> – que se tornou produtivo na formação de locuções conectivas, nas línguas românicas. Assim, no português, a ampliação do paradigma de conectores resulta, principalmente, desse processo por meio do qual nomes, verbos, advérbios e preposições se combinam com a partícula <italic id="italic-20">que</italic> para recategorizarem-se em locuções conectivas (Cf. SAID ALI, 1971; BARRETO, 1999).</p>
      <p id="paragraph-4">Além desta <italic id="italic-21">Introdução</italic> e das <italic id="italic-22">Considerações Finais</italic>, este texto organiza-se em cinco seções. Na seção 1, são abordados os pressupostos teóricos que subsidiam o tratamento da mudança linguística em perspectiva cognitivo-funcional; na seção 2, explicitam-se os aspectos metodológicos que orientam a investigação; as seções 3, 4 e 5 são dedicadas à análise dos processos de gramaticalização, respectivamente, dos conectores <italic id="italic-23">já que</italic>, <italic id="italic-24">posto que</italic> e <italic id="italic-25">visto que</italic>. </p>
      <p id="paragraph-d46c3b6d82f2fa112d29a01747e55b2e" />
    </sec>
    <sec id="heading-2dee920b892a3387989eea5d2d303c68">
      <title>1 Comunicação, cognição e gramaticalização</title>
      <p id="paragraph-1d13f366d9de2235953a06f5d3530abb">A língua, sob um viés cognitivo-funcional (BYBEE, 2010; MARTELOTTA, 2011), constitui um sistema no qual dados da experiência com o mundo sociofísico são reconfigurados em dados conceptuais e, por fim, codificados como material linguístico. Nessa perspectiva, considera-se, portanto, que o processamento das estruturas linguísticas, cujo ponto de partida encontra-se na realidade exterior, passa por um <italic id="italic-96936f71641514cd42dbf4e229c199bf">filtro</italic> cognitivo e segue para a codificação no plano linguístico. Dessa forma, o mundo biofísico e a cognição<italic id="italic-b9d143bb762af858c96ffd188d848708"> </italic>vinculam-se por um processo de <italic id="italic-3cf21bfa35995a73041bc48fe56ec00e">retroalimentação</italic>: relações da realidade exterior alimentam a cognição do mesmo modo que a cognição alimenta (a percepção de)essas relações exteriores. Na dimensão linguística, destaca-se o papel da pragmática, que, entendida como o componente circunscrito pelo uso, pode afetar/<italic id="italic-6699b2e5de3a272b195f6f3c5ddf80bb">filtrar</italic> as relações entre o mundo sociofísico e a cognição. </p>
      <p id="paragraph-38ce2e388abdf93790b5cf81e5e4c8f7">Dessa maneira, a variação e a mudança linguística podem ser explicadas a partir de aspectos da comunicação – pragmática – e de processos mentais – cognição –, como propõem diversos modelos de análise linguística desenvolvidos no âmbito do paradigma genericamente referido como Funcionalismo (Cf. NEVES, 2018). Um desses modelos é a gramaticalização (HOPPER; TRAUGOTT, 2003[1993]), uma vertente teórico-metodológica dedicada a investigar mudanças morfossintáticas e semântico-pragmáticas que, em sentido amplo, envolvem trânsitos (unidirecionais) do léxico para a gramática. O termo gramaticalização também designa o próprio objeto de investigação dessa vertente, referindo-se, portanto, ao processo pelo qual itens lexicais, em contextos/construções específicos, afastam-se de um polo de lexicalidade e assumem função (mais) gramatical:</p>
      <p id="paragraph-cb8a45a40a3fe57e0527d00e19825c5e"> -</p>
      <p id="paragraph-2fe50588f26eb9db33eda2e5acb1e86c">Existe, assim, inerente aos sistemas lingüísticos, uma tendência à economia interna, que os faz utilizar elementos velhos para expressar idéias novas. Esse é o móvel básico do <italic id="italic-a681108192659ad5db2c23ef1efe0d7e">continuum </italic>da gramaticalização, que preenche sentidos/funções advindos das relações estritamente lingüísticas, portanto dos elementos <bold id="bold-1">gramaticais</bold>, utilizando elementos <bold id="bold-2">lexicais</bold>, de sentidos/funções advindos das relações entre o mundo exterior e a língua, já disponíveis em dada língua. (COSTA, 2003, p. 67 – grifos da autora)</p>
      <p id="paragraph-6"> -</p>
      <p id="paragraph-7">A gramaticalização, conforme assinala Diewald (2011, p. 366), “é um tipo de mudança linguística complexo e multifatorial que não consiste de um único processo, mas de um conjunto de processos que interagem entre si”<xref id="xref-3997c9bc6b44d2754de9d0585809f919" ref-type="fn" rid="footnote-2ba9024eee38acb2d2129b0a35356d3d">4</xref>. Na complexidade desse processo, encontram-se propriedades e mecanismos que evidenciam interrelações entre pragmática e cognição na mudança linguística (Cf. GÖRSKI et al., 2004). No caso da gramaticalização dos conectores aqui investigados, essas relações se revelam nos mecanismos de reanálise, analogia, metonímia e metáfora<xref id="xref-e00977e183b510f2212a02d062c3fb7a" ref-type="fn" rid="footnote-94fc63bb0f34f226eba5ccb6cbd1968d">5</xref>.</p>
      <p id="paragraph-8">De natureza essencialmente cognitivo-funcional, esses mecanismos costumam operar, em processos de gramaticalização, de maneira interrelacionada<xref id="xref-2fb82941e3a3d7ea5cae2647b22693c3" ref-type="fn" rid="footnote-0d909f7976e93400b9bc4b2e41c3fab5">6</xref>, impactando diferentes dimensões linguísticas. Assim, reanálise e analogia figuram como mecanismos que atuam, respectivamente, nos eixos sintagmático e paradigmático; a metonímia e a metáfora, por sua vez, representam mecanismos primariamente semânticos, pois acionam mudanças de sentido (HOPPER; TRAUGOTT, 2003). </p>
      <p id="paragraph-9">De maneira bastante sumária, tais mecanismos<xref id="xref-a9242d957dfed8818781d35c660548f2" ref-type="fn" rid="footnote-e803bfc25575900f32b6268ec1c20991">7</xref> podem ser assim definidos: </p>
      <p id="paragraph-10" />
      <list list-type="order" id="list-d85c079457b11d5b28dbaab4937a4d32">
        <list-item>
          <p><italic id="italic-f34e349b937af14ea2369c3acb24a074">reanálise</italic>: opera uma reinterpretação no eixo sintagmático, que, motivada pela contiguidade de duas entidades linguísticas, redefine as fronteiras de constituintes, criando uma nova forma (LANGACKER, 1977). </p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p><italic id="italic-f60b6dd40062e01a62991bf7abf4f186">analogia</italic>: implementa-se pela adoção de um parâmetro, determinado pela alta frequência e regularidade de uma entidade linguística, tomada como modelo para generalização de uma construção ou de uma regra (BYBEE, 2010). Pode, com isso, criar uma nova forma dentro de uma categoria ou promover a migração de uma forma para categoria distinta. </p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p><italic id="italic-2ec57955022b5e8f4ba084c2acd1460c">metáfora</italic>: processo de reconceptualização semântica que prevê transferência unidirecional de sentidos de um domínio experiencial (concreto) para domínios mais abstratos (HOPPER; TRAUGOTT, 2003).</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p><italic id="italic-33a8c13b2aedca31e696345e6d3e199e">metonímia</italic>: aciona sentidos emergentes entre elementos em contiguidade, disparando, assim, por inferência pragmática, a assimilação de novos sentidos em uma construção linguística (HOPPER; TRAUGOTT, 2003). </p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-18" />
      <p id="paragraph-20">Os mecanismos da gramaticalização revelam, dessa maneira, o papel decisivo dos usuários da língua na promoção da mudança linguística: seja, por exemplo, reinterpretando fronteiras de constituintes, seja inferindo ou estendendo sentidos, são as suas ações interacionais – e os seus consequentes efeitos cognitivos – que alteram arranjos semânticos e estruturais. </p>
      <p id="paragraph-de8c336be2be3b37bbdc365202223230" />
    </sec>
    <sec id="heading-8fa74dde1ab7f55e2ed0c1d677874408">
      <title>2 Aspectos metodológicos</title>
      <p id="paragraph-634fbe5cc72de0f5b3fda2951a9caa18">O material de investigação deste trabalho consiste em uma amostra longitudinal organizada por Amorim (2017), contendo textos datados dos séculos XIII ao XXI<xref id="xref-69a2b3bacc25bdb9ce71468265605f74" ref-type="fn" rid="footnote-7f43473c6997e744c37eb64f67168410">8</xref>. Inspirando-se em proposta de periodização adotada por Barreto (1999), Amorim (2017) distribui os textos da amostra em quatro sincronias, quais sejam, português arcaico (séculos XIII-XV), português moderno (séculos XVI e XVII), português contemporâneo I (séculos XVIII-XX) e português contemporâneo II (amostra de fala do século XXI). O autor explica que, para a organização do <italic id="italic-7cc6ed87937bb86e4dac503b9cc295ff">corpus</italic>, manteve simetria qualitativa, selecionando textos com padrões semelhantes em termos de gêneros e tradições discursivas, e quantitativa, de modo que cada século dispusesse de um total de 11000 palavras, correspondendo, assim, a 33000 palavras por sincronia, salvo a amostra de fala, que, representada apenas pelo século XXI, totaliza 31000 palavras (AMORIM, 2017, p. 76). </p>
      <p id="paragraph-bd4e8844215d897f7e9169fd6ceb2bf6">Algumas análises, entretanto, baseiam-se em dados recolhidos do “Corpus do Português” (DAVIES; FERREIRA, 2006), que, dispondo de mais de 45 milhões de palavras, reúne textos (do século XIV ao século XX) escritos e falados, viabilizando, por meio de ferramentas de busca, o levantamento e a aferição da frequência de dados por variedade do português (europeu ou brasileiro), sincronia e tipo textual (oral, ficção, jornalístico e acadêmico). No presente trabalho, os dados desse <italic id="italic-2ef7b8a12f49167f656cde926cbd785d">corpus</italic> foram extraídos da subamostra “Gênero/Histórico”, sem que houvesse refinamentos qualitativos ou quantitativos, visto que foi utilizada, paralelamente à amostra de Amorim (2017), apenas para fins de comparação no que concerne à localização temporal dos dados<xref id="xref-e084854079712067b455c106d11ce753" ref-type="fn" rid="footnote-33ba491b7044aa9296b15663104d2fdf">9</xref>. </p>
      <p id="paragraph-87b5b5230c342f27d85c45c08eb73f7b">Quanto aos dados, a tabela a seguir exibe, em valores absolutos, um panorama da distribuição diacrônica dos conectores causais <italic id="italic-0161ed40b6fb3d15203e14543c4a7b3c">x-que</italic>, atestando a sua baixa frequência no <italic id="italic-3324374023660b05f837af4ef7332e4b">corpus</italic>: </p>
      <table-wrap id="table-figure-5bde8b66e251d9e4ccf3ffaa0f3dfac1">
        <label>Table 1</label>
        <caption>
          <title>TABELA 1-<bold id="bold-b49d6293f9a21fc48c12fb155a0ffbfa"> </bold>Conectores causais <italic id="italic-93a50e300430eadc87c7ee4308894dc5">x-que</italic> em diacronia</title>
          <p id="paragraph-928b502f13398a3579aabb68af7ea234">Fonte:  elaborada pelo autor</p>
        </caption>
        <table id="table-32b2d772484f8584f72e7d9e8e83a3d2">
          <tbody>
            <tr id="table-row-a3539078a8b095c7248f90465b4a8a99">
              <th id="table-cell-9ce9ad7efafe2f3006e6b23227fc57e4">
                <bold id="bold-3d98963f8f3509c290e24cfdb9e8368f">Conector <italic id="italic-1dc51faf0da420cf5b8586922aad2df9">x-que</italic></bold>
              </th>
              <th id="table-cell-c2146a0236889a68aef53e1bc81917c4">
                <bold id="bold-e25d2a46774a45523d26f67883473648">Português Arcaico (XIII-XV)</bold>
              </th>
              <th id="table-cell-f06aeabc1eda3d0705ab8bb21fcbf6fc">
                <bold id="bold-a48ee3cf321b692ce63265e6b63a8e33">Português Moderno (XVI-XVII)</bold>
              </th>
              <th id="table-cell-10e4669eccc837b04c455354fd99f88a">
                <bold id="bold-edd40dd54576d1f81c4043cba64d1ab2">Português Contemporâneo I (XVIII-XX)</bold>
              </th>
              <td id="table-cell-21bf83c51b9ae4a5bfbc589d76059d8f">
                <bold id="bold-7457378a72b9e3c33a792f2abe19ec7d">Português Contemporâneo II <italic id="italic-46b9298eeaa892ae7d796464c23f045f">amostra de fala</italic> (XXI)</bold>
              </td>
              <td id="table-cell-dac118822aee68b1204eacd0ae19f2db">
                <bold id="bold-a988e68a1b5f3a2734c735d569b64a3c">Total</bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7f1472fc4c7a120b4dddbc91c18bd0eb">
              <td id="table-cell-36ac5cafa7d797c526c97df65cdd4585">
                <italic id="italic-aa1bbb59f0dc91d1c75ca7baa0b4de99">Pois</italic>
                <italic id="italic-83eb567620f3d8bb40669e1a49fc9e9f">que</italic>
              </td>
              <td id="table-cell-890d728fbbc975f4f55392dc7e6b23d4">10</td>
              <td id="table-cell-446cd6fbba142eda751354c8ed9c215e">3</td>
              <td id="table-cell-8caf047cb79f3523dc8ce573e93f10d3">-</td>
              <td id="table-cell-2af36c5ad5db881c95b2a1018d7d9f4b">-</td>
              <td id="table-cell-a619276dbe4e9e755e3cec3aec42dff9">13</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7cad14a2af31cfb8a86dfcdbd58548ad">
              <td id="table-cell-2a84bda34edcefcb03eec4bbb5c59c00">
                <italic id="italic-2cc5c394230c6e45a604b60bd6c85c40">Já que</italic>
              </td>
              <td id="table-cell-9eb27b1c1a58b2aaa0837b54ca2386e1">-</td>
              <td id="table-cell-7ba6a23c1f5284df54e1018456ee5da8">3</td>
              <td id="table-cell-27f05e3f84f531f7b93575b4e8a85be9">2</td>
              <td id="table-cell-b74aa54d8f300c66fd0e266c66aa9fd9">1</td>
              <td id="table-cell-fee13f8f66f3e171731b247eb0f877c1">6</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-5340e1e7d3d4f54f11f9dc611732fbf0">
              <td id="table-cell-757d57c6671fd4bdeb710ca9448d7779">
                <italic id="italic-f0c82a65d81f2f727ee02a36f635f732">Posto que</italic>
              </td>
              <td id="table-cell-e7bfda9df778542c8d59ceff43b2101e">-</td>
              <td id="table-cell-ee1c88d2305139ca8d652db7a05124dd">2</td>
              <td id="table-cell-c2704712dab9834fe4218d3eab27d403">-</td>
              <td id="table-cell-d15417094c4f9b14e092c09c69b81339">-</td>
              <td id="table-cell-81b3df8685a6e18328fb40f9834cc341">2</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-af83f27677920c4ddd40fcd3cf5d4079">
              <td id="table-cell-c783ba37e6281f650e956b9aa9bcee9e">
                <italic id="italic-e9db1faadbf956e0a5ab42303db664a3">Visto que</italic>
              </td>
              <td id="table-cell-b8ce414a6a592ef3c2d841d8e18a1a41">-</td>
              <td id="table-cell-b45b2abafc5e4d17ca44742eb53646d8">-</td>
              <td id="table-cell-aeece95c49b9fe607f3b5c9e734516ac">3</td>
              <td id="table-cell-61ae7313912891eef03c9297b8008531">-</td>
              <td id="table-cell-a2ab8addd57e3957deefd9bd9e2bd097">3</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-05761c8a06c7de73ca64b4a3c7b2c0da">
              <td id="table-cell-a0441be3041807670b87adb1f985b052">
                <italic id="italic-93bdfb8ba4351ff143e900880622319d">Por cause que</italic>
              </td>
              <td id="table-cell-51aa1fe2743fdb373fd44b7e0d437222">-</td>
              <td id="table-cell-2cef2bda7954210f3d2f024d8a470637">-</td>
              <td id="table-cell-a4bb793a2a59f1f64038370063894240">-</td>
              <td id="table-cell-c4fb205f95185edfdfecbc385875d54b">18</td>
              <td id="table-cell-0ba2faee277d8eb6d2909c335aeeb938">18</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-2dd8ec702abd66dfb58e53a0d313252d">
              <td id="table-cell-7176ce6b3ee961f80dfc51a1fa397d1b">Total</td>
              <td id="table-cell-7932cd62c9a3deb5132cfffe2e344ee0">10</td>
              <td id="table-cell-4cdf84994bb567d8e5ca0a62c0e298a0">8</td>
              <td id="table-cell-4fcec145b2507c0a75437fb1e44b61ba">5</td>
              <td id="table-cell-8564fe85a3b8f4252c28aa447844d99f">19</td>
              <td id="table-cell-f6acb1fd7ef26f6816a63357abab1a7f">42</td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-5">Neste estudo, como já apontado, consideram-se apenas os conectores <italic id="italic-8cd66047a4970c7ef20529da37aae5af">já que</italic>, <italic id="italic-582e0a91e23f903b62735b784e35b7b9">posto que</italic> e <italic id="italic-42aeaaff4a7d680b48d548c0f0317bf2">visto que</italic>.<xref id="xref-57a39ca89cfa81ae1ef17c98595df341" ref-type="fn" rid="footnote-9a98dbc04d062f1d72b9f3d55c80cf0c">10</xref> Com base em pressupostos teórico-metodológicos da gramaticalização (KORTMANN, 1997; HOPPER; TRAUGOTT, 2003; BYBEE, 2010; DIEWALD, 2011; MARTELOTTA, 2011), busca-se descrever as mudanças formais e semântico-pragmáticas que explicam a emergência dos conectores em pauta, tomando-as como propriedades que, ao longo desse processo, evidenciam a atuação de mecanismos de gramaticalização.</p>
      <p id="paragraph-1e0bf23622d9fddf5d9f13996e11749c"> Contudo, a baixa frequência de dados representa uma limitação metodológica – ainda que este trabalho se paute por uma abordagem qualitativa –, já que inviabiliza considerações conclusivas acerca das mudanças experimentadas pelos conectores em estudo; daí apresentarem-se, conforme se registra no título deste texto, “notas” sobre a gramaticalização desses conectores, as quais, muitas vezes, assumem o estatuto de <italic id="italic-6eadc1b8aeb4a791e1a57916b9c53874">hipóteses explicativas</italic>. </p>
      <p id="paragraph-89be9eaf71e2d842395217c36d188dbb" />
    </sec>
    <sec id="heading-abc399bf9ebd4f45871c6f1588dcb3c7">
      <title>3 Gramaticalização de <italic id="italic-7c13936a2de1742631a7ee3b99fda941">já que </italic></title>
      <p id="paragraph-0f47e62be1fd292573ecd2bce42562d9">Entre os conectores estudados neste trabalho, <italic id="italic-384486a0c7c6198bb72ec7a053119de2">já que</italic> representa a forma de registro mais antigo, sendo identificada a partir do século XVI<xref id="xref-755be633884044536fade3f3467454fa" ref-type="fn" rid="footnote-9b28d03be2dde1d4c36624679cc5079f">11</xref>: </p>
      <p id="paragraph-3d91064ac55f79c38dde30003d85c0b8" />
      <p id="paragraph-977eb212177ade435ff8d3ba9d898007">(1) ... djzemdo lhe que o podja bem fazer pq dele não auia de aver sospejta <italic id="italic-aa8aef4ca75f33c1ddc475cba3df364d">ja q</italic> o tjnhão em tam boa comta. (CDA, XVI) </p>
      <p id="paragraph-8cecbda1f7248b5f7ed45e75d6d1ca26" />
      <p id="paragraph-3b6792f55aa9e0db62179852a2373883">Segundo Barreto (1999), a gramaticalização de <italic id="italic-f59465f0b22a16c34d25195a5590f591">já que</italic> se deve a uma reorganização sintagmática – reanálise – ocorrida em contextos em que o advérbio <italic id="italic-077129b623723afb49c275171bb46ca2">já</italic> e o conector causal <italic id="italic-6936e187111c3eb27e70ea1a39fdc070">que</italic>, dispostos em sequência, puderam ser reinterpretados como uma única construção, resultando na recategorização <italic id="italic-5e9b0ee9dcab7d71a66ebcfb47af9ccc">já/que&gt; já que</italic>. Em relação à mudança semântica envolvida nesse processo, a autora explica que o item <italic id="italic-81c5752c6f1b7a96304bf20b3a3cc927">que</italic>, tendo sentido causal nos contextos propícios à reanálise, desencadeou uma metonímia pela qual <italic id="italic-75a94b2c9719fdfcd43ca369ad1a2ccf">já</italic> assimila esse sentido. Assim, conforme proposta de Barreto, a gramaticalização de <italic id="italic-c9b6db0990519f289a09de90420761c4">já que</italic> tem a seguinte representação: </p>
      <fig id="figure-panel-de18ea348a2d29fe6075fc3bbeadfe99">
        <label>Figure 1</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-8e3ddddc7cd0b05b6ae01b33eaf3a245" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-db0b16339ef3339c8c450ee2f0c99a98" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1.PNG" />
      </fig>
      <p id="paragraph-afd6987794120f44361366d170b21d78">No <italic id="italic-dc0a1638eb668ad6481d5ee31b48594c">corpus</italic> do presente trabalho, não se verifica contexto sugestivo da reanálise que teria dado origem ao conector <italic id="italic-1944bc4c7f9c06bef7c9e3385b7214d2">já que</italic>; outras pesquisas, contudo, corroboram a atuação desse mecanismo no seu percurso de gramaticalização, apresentando dados bastante ilustrativos: </p>
      <p id="paragraph-d28f4e0d2c9a3ed7c281051f95546f96" />
      <p id="paragraph-ec063d847a00735422f3e355124368f5">(2) ... fazia um tempo <italic id="italic-0c90848390713cffdadf6a6161d04408">já que<bold id="bold-8ad1c402597354badf715db571094e56"> </bold></italic>a gente num tava se entenden::do sabe? (AC-035 apud GALBIATTI, 2008, p. 64)</p>
      <p id="paragraph-3baee645537500b29f8c8e253eb2bb0d">(2a) [fazia um tempo <italic id="italic-0454e97a08333c640d7c0f13e2a7bea4">já</italic>] [<italic id="italic-b8b291bf21baa95b48ad4df8df990302">que</italic> a gente num tava se entendendo].</p>
      <p id="paragraph-6db0a838bf36454da077c9dfe743687b">(3) ...e a sua eigreja assi deles livrou, ca os que mal quer ela, ben assi os eixilla. A que por nos salvar ... E porend' a eigreja sua quita é <italic id="italic-5cb656302a63866f3eb8324f4e72df6d">ja, que</italic><bold id="bold-30e9a2dde60238929f7b82d1948e10c8"> </bold>nunca Mafomete poder y averá. (<italic id="italic-07600dbd43ff35ae9c3e6a91c741d628">Cantigas de Santa Maria</italic>- séc. XIII apud FERNANDES, 2019, p.103)</p>
      <p id="paragraph-95b9d30e4a95e1a3a4ff8eafdfa22a31">(3a) [E porend' a eigreja sua quita é <italic id="italic-417a36f19ceb3952f8f284fbd45732b5">ja</italic>]<bold id="bold-3"> </bold>[<italic id="italic-8cc1d6d80bed99806e41ef17274732c0">que</italic><bold id="bold-4"> </bold>nunca Mafomete poder y averá]</p>
      <p id="paragraph-fddff5c6284e03477a9308484e89d684" />
      <p id="paragraph-d7e200fd9c9cf65d6af3b7fba078b926">Nos exemplos acima, <italic id="italic-6136a22c6de9e6e1715b97f888bd33f7">já</italic> e <italic id="italic-dbcb48838f90067f241c94ac1a9f94aa">que</italic> pertencem a segmentos oracionais distintos, não constituindo, portanto, uma forma gramaticalizada. Em (2), <italic id="italic-17189464ca17f59c057f1c1902638266">já</italic> mantém o seu estatuto adverbial, enquanto <italic id="italic-9e0554e049df2b72e28c18b4e5fb7f69">que</italic> é um relativizador. O exemplo (3), identificado em texto do português arcaico, além de ilustrar um estágio primário da gramaticalização de <italic id="italic-eeb261b97474a43c5a86394202e85d39">já que</italic>, parece corroborar a argumentação de Barreto (1999), segundo a qual o adverbial <italic id="italic-56067a61969259e70597947deb6e56c5">já</italic>, por metonímia, teria assimilado o valor causal de <italic id="italic-b8d81c22902a11d01db858f6b642ad8a">que</italic>: “E por isso a sua igreja é livre já, que [pois] nunca Maomé poder nela terá”. </p>
      <p id="paragraph-ad58af833a2bf3cd46c98042d989372c">Entretanto, dados apresentados por Galbiatti (2008) revelam que a reinterpretação sintagmática que dá origem a <italic id="italic-9fe46f7eb704bc9a231094d931e985e2">já que</italic> instancia-se em contextos nos quais <italic id="italic-e1b7a5ec513b6927eb5391b4546868f2">que</italic> tem outras funções gramaticais, além da de conector causal apontada por Barreto (1999), podendo representar um pronome relativo, como em (2) acima, ou uma conjunção integrante, como no exemplo a seguir, no qual se observa que o advérbio <italic id="italic-e5a6ac7dfc5301459b997af206ef09fc">já</italic> figura entre o verbo e a oração que nele se encaixa:</p>
      <p id="paragraph-f5ab17249913c62a82c9a967ba77b622">
        <bold id="bold-5" />
      </p>
      <p id="paragraph-11">(4) ... assim é pouco distância que têm ... MIL QUILÔMETRO quinhentos metro cê vê <italic id="italic-c9afe1281595895b2bea147570436d11">já que<bold id="bold-6"> </bold></italic>a montanha: assim:: é alta ... aí:... voltando né? volta pra praia do la::do... (AC-087 apud GALBIATTI, 2008, p. 64)</p>
      <p id="paragraph-12">(4a) [quinhentos metro cê vê <italic id="italic-f52c90f8cfe82f9f6c2d177aace1b513">já</italic>] [<italic id="italic-f78c4d09eb651d7e2895a4c9ba67575c">que</italic> a montanha é alta]</p>
      <p id="paragraph-13" />
      <p id="paragraph-14">É preciso frisar que, embora a hipótese de Galbiatti (2008) se baseie apenas em dados do português contemporâneo, trata-se de uma proposta pertinente para a compreensão da gramaticalização de <italic id="italic-ac9b7039e2eee6ec62d0ee7be783acc4">já que</italic>, pois, segundo o <italic id="italic-25d47d5bb9648aa1fbc5ca5eaf8a82a7">princípio do uniformitarismo</italic> (LABOV, 1972), tendências de variação ou mudança verificadas na fase atual da língua estão sob efeito dos mesmos condicionantes que atuaram em sincronias pretéritas<xref id="xref-9bde719651fdef79a32ae0107be78e2f" ref-type="fn" rid="footnote-4e80af250101f05af92b709e86f0dcf5">12</xref>. </p>
      <p id="paragraph-15">Desse modo, considerando a proposta de Galbiatti e o fato de que o emprego causal de <italic id="italic-1a9379ff54ffe40c90d1c8f1d29260c6">que</italic> é bastante raro na história do português (Cf. AMORIM, 2017; OLIVEIRA, 2020), pode-se buscar um percurso distinto daquele descrito por Barreto (1999), para explicar a aquisição do sentido causal de <italic id="italic-78055c027a8b5c7b27e47ef939f3f3a2">já que</italic>. Longhin-Thomazi (2004), ao investigar a gramaticalização de conectores de base adverbial, apresenta dado em que <italic id="italic-27">já</italic>, no português arcaico, carreia sentido ambíguo, podendo indicar tempo ou causa: </p>
      <p id="paragraph-16" />
      <p id="paragraph-17">(5)<italic id="italic-28"> </italic>E quanto esto souberom em terra de Judea, fezerom gram planto por Jonatas, cuidando que era morto. E os gentijs, que moravam a rredor de Judea, disserom: <italic id="italic-29">já </italic>os Judeus nom ham princepe, teremo-los do mundo. E ajuntou Triphom sua hoste pêra vijm a terra de Judea para a destroir... (14BMP, p.406 apud LONGHIN-THOMAZI, 2004, p. 229).</p>
      <p id="paragraph-f8bdbbb7d76ab9da0b3cc1064ae13e06" />
      <p id="paragraph-19">A identificação desse dado adiciona uma nova hipótese para a compreensão da mudança semântica efetivada (acionada?)<xref id="xref-f066a1755d3eabc32e65361136611b9b" ref-type="fn" rid="footnote-1a43cd2a7ceb100bcf9e468e1063e8fd">13</xref> pela reanálise que deu origem ao conector <italic id="italic-30">já que</italic>: dada a produtividade de processos de mudança caracterizados pela trajetória <italic id="italic-31">tempo&gt;causa</italic>,<xref id="xref-94b98d152c9971400a21fb8458f47040" ref-type="fn" rid="footnote-f622541a6f0723d953021a1826b80d48">14</xref> fenômeno que se deve ao fato de a noção de sequencialidade temporal estar implícita na relação de causalidade, o desenvolvimento de sentido causal observado na gramaticalização de <italic id="italic-32">já que</italic> implementa-se também por metáfora – e não apenas por uma metonímia disparada pelo emprego causal de <italic id="italic-33">que</italic>, conforme defende Barreto (1999). Assim, como explica Fernandes (2019), a noção de tempo codificada pelo advérbio <italic id="italic-34">já</italic> (passível ela própria de sofrer deslizes para o domínio de causalidade) representa um domínio-fonte a partir do qual, com a reanálise, emerge o sentido causal (mais abstrato) de <italic id="italic-35">já que</italic>. </p>
      <p id="paragraph-694dd8d36cbb21379215c98f33e645cf">Corrobora essa última hipótese<bold id="bold-8"> </bold>o fato de o advérbio <italic id="italic-36">já</italic> apresentar a noção aspectual de perfectividade (CÂMARA, 2006), que, ao indicar conclusão/resultado, aponta para uma relação entre o ponto inicial e final de um evento. Esse traço favorece uma leitura causal, que, em sentido estrito, envolve um <italic id="italic-37">evento-causa</italic> (ponto inicial) e um <italic id="italic-38">evento-efeito</italic> (ponto final). Nesse caso, o elemento <italic id="italic-39">que</italic>, seja relativizador, seja conjunção integrante, assimila um sentido que emerge em <italic id="italic-40">já</italic>, o que remete a um processo metonímico com trânsito contrário aos casos em que o advérbio se liga ao <italic id="italic-41">que</italic> com função de conector causal: </p>
      <fig id="figure-panel-19365338a0a2a77b8c1ba76267acaca4">
        <label>Figure 2</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-6e8f493ab9cfaeb64ddf6e381e6af8d7" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-541a1d56f0e93aaf6f565972f6220c33" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="2.PNG" />
      </fig>
      <p id="paragraph-69dda14693fa2da63cd79242705c1a4b">Dessa forma, metonímia e metáfora atuam como mecanismos complementares na gramaticalização de <italic id="italic-ea73d6f98f54f7a3758552d64b71360f">já que</italic>: a primeira acionando a emergência e assimilação de sentidos entre as formas <italic id="italic-933d90873f467a3e23ada90fd625d818">já</italic> e <italic id="italic-31a34da7d17464308d34383708f9ae70">que</italic>, e a segunda endossando uma transferência desses sentidos para um domínio mais abstrato, ou seja, o da causalidade. Com isso, o esquema da gramaticalização de <italic id="italic-df9301999f328532882e2ba38fbb27fd">já que</italic> tem a seguinte reformulação: </p>
      <fig id="figure-panel-6addc39e9f788ec6c02c07102cb5a203">
        <label>Figure 3</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-7bf1ef4f783f8c96bbb4e36200d1dbef" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-e1bcda9334519022d70fbfb1370d1c02" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Figura 1.png" />
      </fig>
    </sec>
    <sec id="heading-32140ff7a983871157064cf47cd6cb74">
      <title>4 Gramaticalização de <italic id="italic-12570bd6046aa2528869a74e391a06c1">posto que</italic></title>
      <p id="paragraph-ef37d78c948bff799482cd0b75fc2d6f">De registro aparentemente mais tardio que <italic id="italic-246ee991fc2eefd7f2f01886191008ed">já que</italic>, o uso causal do conector <italic id="italic-e0af9fb808439b6674587e35d65f9d1c">posto que</italic> é encontrado, no <italic id="italic-614a09128d44ae5d693d620ebe58d2cb">corpus</italic> desta pesquisa, em textos datados a partir do século XVII<xref id="xref-05ea9ea83cbb340ed4eb34043ec982e3" ref-type="fn" rid="footnote-5386fe0a4e73826887994801c4883e59">15</xref>: </p>
      <p id="paragraph-62653496be66803a664b2f70b0df53ba" />
      <p id="paragraph-3c0810337b11f8e226893ee73a706ca5">(6) Porque o valor do Gouernador Fernam de Sousa, &amp; o grande cuidado, &amp; vigia com que todo este mes, de noyte, &amp; de dia, assistio armado no campo com seus capitaẽs, não deixou lugar a se atreuer o pirata saltar em terra, onde em breues horas tiuera certa sua perdição; mas <italic id="italic-28a2b9abce21ab28f317e722352aeb69">posto que</italic> não leuou aqui o castigo que merecia, não lhe faltou na Capitania do Spirito Santo, 100. legoas da Bahya pera a banda do Sul, onde aportou a 12. de Março de 625...(JVC, XVII)<xref id="xref-4fa8cacc85f5bd5ccd406dd53dd5ec66" ref-type="fn" rid="footnote-477a5ab67af432e335b8e6932141e074">16</xref></p>
      <p id="paragraph-e44995c54269bd8d6720df3798c6d32f" />
      <p id="paragraph-4839d547b8d41800f5261c4dba008f1b">Como conector concessivo, observa-se a sua gramaticalização já no século XIV:</p>
      <p id="paragraph-a0d77d6a83d03f54311e86df6f3778cb" />
      <p id="paragraph-a439fc43d0626f32c7e94cd424c039bf">(7) E dise-lhe o tirãno que, se nõ cessasse de chamar o nome de Jhesu, que lhe mãdaria talhar a lingua, e dise-lhe Sancto Ignacio: <italic id="italic-1ca1d4500b7a876d28b0d7f8465baf00">posto que</italic> me talhes a lingua, nõ cessarey porem de chamar o nome de Jhesu, porque o tenho scripto emno meu coraçom. (OE, XIV)</p>
      <p id="paragraph-1632bf7ab99f00a04b16e0e0be29057f" />
      <p id="paragraph-73b55b1b78e6ce583d55d203b52c3e3b">Ao abordar o processo de gramaticalização de <italic id="italic-90f23a0d6c5603123d9debee8c7a3d67">posto que</italic>, Barreto (1999) também reconhece o seu uso causal como mais tardio que o concessivo, apontando a reanálise como o mecanismo responsável por sua emergência: </p>
      <p id="paragraph-8bd3ada9b1e8a4d298630237e2baa872"> -</p>
      <p id="paragraph-b7b3664e1402b780cf49b5c5af6d44ac">A forma do particípio passado do verbo <italic id="italic-8239663dc0bd4b64d170920e11b56adc">pôr</italic>, <italic id="italic-4760809540f1fd2e697987cd9581e481">posto</italic>, inicialmente, seguida de uma oração substantiva subjetiva, introduzida por uma conjunção integrante <italic id="italic-e785a5fbd52ac4635cb5f56e0a990ced">que</italic>, após a reanálise do período, reuniu-se à conjunção, dando origem a uma conjunção concessiva.” (BARRETO, 1999, p. 395). </p>
      <p id="paragraph-ab8671066545825cb0af4363e5ff0f9c"> -</p>
      <p id="paragraph-e39b944b5a2427c0a9d2ec66a2890a40">Entretanto, a explicação da autora carece de dados que ilustrem o contexto favorável à reanálise descrita acima. No <italic id="italic-62603a2a06ad02392fbe74f6394551cc">corpus</italic> do presente trabalho, também não é possível identificar ocorrências em que a forma verbal <italic id="italic-7cc6e5de2b26db39473ddf75bf8ed246">posto </italic>integre uma oração matriz na qual se encaixa uma oração subjetiva introduzida por <italic id="italic-543e1c719dfba4542f69618893c4ea9d">que</italic>.<xref id="xref-9fb7f7dba49ecb40d1388cfb1e570362" ref-type="fn" rid="footnote-d1322855514f3f57dc022980295ba203">17</xref> Assim, dada a aparente escassez de contextos reveladores da reanálise de <italic id="italic-29ea7aba9c5ff0ebf55350a0cf3e895c">posto que</italic> em sincronias pretéritas, é necessário considerar o princípio do uniformitarismo – como o faz Galbiatti (2008) ao tratar da gramaticalização de <italic id="italic-5bb5a494c8e033e2e7ad23aee268b7a1">já que</italic> –, para, a partir de dados do português contemporâneo, entrever os possíveis contextos em que <italic id="italic-7313416f1aadf8e6d146aed845f6b17b">posto que</italic> teria sido reanalisado como uma forma conectiva, conforme mostram os exemplos a seguir, obtidos pela consulta ao “Corpus do Português”: </p>
      <p id="paragraph-b1417a56bf531523f922c705fceff550" />
      <p id="paragraph-547246d044daf389fb7ca3e8d524d9cf">(8) Deus tem <italic id="italic-f7e9e513adcd7ebb3fd978f50ce1c870">posto que</italic>, quando o justo comete erros, pecados e males depois de crer em Jesus, eles devem ser lavados de todos esses pecados crendo no batismo... (bjnewlife.org) </p>
      <p id="paragraph-2a1826284a2557a3b033a340f96840d2">(8a) [Deus tem <italic id="italic-7341e855315dc4c8df24b5e5d943387f">posto</italic>] [<italic id="italic-10adad3aa209b6282c7a44aecaaef944">que</italic> quando o justo comete erros...]</p>
      <p id="paragraph-b43771dbb024506159a9dea9e779314d">(9) Concordo com o texto, sempre foi <italic id="italic-646dbfafbd8477ff12be66bd24805fb7">posto que</italic> temos que procurar algo mais, temos que ser melhor. (<ext-link id="external-link-4" xlink:href="http://www.exoticlic.com/2010/07/alguma-coisa-esta-faltando-o-vazio-que.html">exoticlic.com</ext-link>)<underline id="underline-1"> </underline></p>
      <p id="paragraph-72a1ce93ef27b2619f542759d287e2b6">(9a) [sempre foi <italic id="italic-d5113f6daa77e7b7a29f2f7d794aaff6">posto</italic>] [<italic id="italic-15c5d6a0dc04cd7a6523c73a23d3080d">que</italic> temos que procurar algo mais...]<underline id="underline-2"/></p>
      <p id="paragraph-500fcf8dbe3ce0fb3fff22bd0bd9a1e4" />
      <p id="paragraph-2790e524e85978d40b08ced01a71f80e">Nos dois exemplos, as formas <italic id="italic-27838b4aada05bf658a32595c463cc33">posto</italic> e <italic id="italic-ae133b8894cac9dd37bc65fb76cd4bd5">que</italic> pertencem a segmentos sentenciais distintos, visto que a primeira, constituindo o núcleo de uma locução verbal (<italic id="italic-0bdc502df4854827fdf3928cc573436d">tem posto</italic>; <italic id="italic-80318108f036891db68f41c1409c522f">foi posto</italic>), está no escopo de uma oração matriz, enquanto a segunda introduz uma oração encaixada. No entanto, tendo em vista que a gramaticalização primária de <italic id="italic-21d720f3df897eeea1ad66b23c78dc89">posto que</italic> deu origem a um conector concessivo, os exemplos acima parecem ilustrativos apenas para a compreensão de aspectos estruturais desse processo, não revelando como teriam se dado as mudanças semântico-pragmáticas nele envolvidas. </p>
      <p id="paragraph-22">Com base nos dados deste e de outros trabalhos (BARRETO, 1999; MANOLIO, 2018), verifica-se que a mudança nos usos de <italic id="italic-de924d4ed6f9257a536196c8eb55b688">posto que</italic>, entre os séculos XIV e XVII – concessivo &gt; causal –, destoa de uma trajetória de mudança semântica amplamente atestada em diversas línguas, uma vez que, cognitiva e diacronicamente, a noção de causa seria primária em relação a de concessão, e não o contrário, como evidencia o estudo tipológico de Kortmann (1997). </p>
      <p id="paragraph-23">Kortmann (1997) mostra que deslizamentos semânticos, experimentados por conectores adverbiais de uma vasta amostra de línguas europeias, revelam-se diacronicamente unidirecionais. A partir da identificação de quatro grandes sistemas semântico-cognitivos, a saber, Tempo, Modo, Lugar e CCCC (causa, condição, contraste e concessão), o autor explica que a noção de causa é mais básica (cognitivamente menos complexa) que a de concessão; por conseguinte a emergência do sentido concessivo costuma ser, em processos de gramaticalização de uma mesma forma, posterior à do sentido causal. Com isso, pode-se afirmar que, no caso do conector <italic id="italic-dc29ad93573892f0015d67a879a31b0b">posto que</italic>, a trajetória de mudança é bastante inesperada, pois o seu emprego como conector concessivo data do século XIV, enquanto o seu uso como conector causal parece se firmar só a partir do século XVII. </p>
      <p id="paragraph-24">No entanto, cabe salientar que o emprego causal de <italic id="italic-98b63bfe8bc67e5607da7fdbe9269f54">posto que</italic> não surge em detrimento do uso concessivo, que se manteve produtivo (Cf. BARRETO, 1999). É possível, então, que a relação diacrônica entre <italic id="italic-ce3f5df573dd2595f625c85d6be3b568">posto que</italic> concessivo e sua variante causal não seja derivativa: a mudança concessão&gt;causa verificada na trajetória desse conector pode estar relacionada a outros correlatos contextuais, e não a um processo diacrônico-metafórico pelo qual um domínio semântico-pragmático serve de fonte para a criação de um novo domínio (espaço&gt;tempo&gt;causa, por ex.). O exemplo a seguir, retirado do “Corpus do Português”, corrobora essa hipótese, na medida em que exibe emprego causal de <italic id="italic-f67d0f3ce5418d1473e2e50e60e19941">posto que</italic> já no século XV, período, portanto, mais próximo ao que se verifica a sua gramaticalização em conector concessivo: </p>
      <p id="paragraph-25" />
      <p id="paragraph-26">(10) O grande ffe de molher: a qual creeo seer tanta virtude nas vistiduras de xpistto que soomente por as tocar logo reçeberia saude: a qual pellos phisicos non podia auer <italic id="italic-66d9feb52ebfb878a1ed2f64328a59bf">posto que</italic> tanto despendeo com elles que emproueçeo. (EEER, 1497) </p>
      <p id="paragraph-27">(10a) [a mulher não poderia obter saúde pelos médicos, <italic id="italic-5aff353223f0cf3a1a3a38661d7ed28a">pois</italic> tanto gastou com eles que empobreceu]</p>
      <p id="paragraph-28" />
      <p id="paragraph-29">Assim, pode-se apontar a morfologia verbal da oração introduzida por <italic id="italic-e483367e829a7434db0edeebd2167a7c">posto que</italic> como uma das coordenadas contextuais que motivam o seu emprego causal: de acordo com Barreto (1999, p. 396), o surgimento do sentido causal de <italic id="italic-5c6fcf9a2ba31a325e863f0087f2d933">posto que</italic> atrela-se ao fato de ele se conectar a orações com verbo no indicativo, propriedade bastante incomum no seu uso concessivo. Essa observação encontra respaldo na amostra examinada nesta pesquisa, em que o emprego causal de <italic id="italic-429c3c34398325e15eb3ba6ace6c0228">posto que</italic> é observado em orações com verbo no indicativo, diferentemente do seu uso como concessivo, o qual, categoricamente, está circunscrito a segmentos com verbo no subjuntivo. </p>
      <p id="paragraph-30">Diversos trabalhos atestam a relação entre causalidade e o modo verbal indicativo. Neves e Braga (2016), em estudo sobre as orações causais no português culto falado, evidenciam que mais de 95% delas apresentam verbo no indicativo. Ao investigar as diferentes formas de codificação morfossintática da noção de causa, Carvalho (2002) mostra que o uso do indicativo figura como a principal convergência entre estruturas causais paratáticas e hipotáticas, corroborando, portanto, que “o <italic id="italic-bdf377b2d3f65f3d90fce6f9dd63ca8c">indicativo</italic> é o modo votado para expressar causa, já que a expressão da causa constitui uma proposição com certo grau de certeza” (NEVES, 2000, p. 818 – destaque da autora)<xref id="xref-9805c9718f021be6309aa5b0a59a98de" ref-type="fn" rid="footnote-38af4c46add514f622e4ff7b52539b40">18</xref>. </p>
      <p id="paragraph-31">Desse modo, a mudança de sentido observada em <italic id="italic-2f4cea2abb27c158652e14c81a2761e6">posto que</italic> pode ser de natureza metonímica: coordenadas contextuais licenciaram uma leitura causal, promovendo uma trajetória inusitada do ponto vista semântico-pragmático, mas compreensível, se considerado que a mudança linguística, operada pela criatividade e imprevisibilidade do discurso, alinha-se a tendências possíveis, e não a padrões absolutos (MARTELOTTA, 2011). Nesse caso, portanto, a mudança é instanciada por inferências que subjazem à morfologia verbal (subjuntivo <italic id="italic-e77e0b32e5e20f3653832cc95f58c41c">vs.</italic> indicativo).</p>
      <p id="paragraph-32">Outra hipótese explicativa para os diferentes usos de <italic id="italic-ddc93795200856fd3522f0bd565d3c10">posto que</italic> baseia-se na origem latina da sua base. Said Ali (1971) explica que, no latim, particípios como <italic id="italic-40e41a193f6ed47543cdb9e581aa80fb">dado</italic>, <italic id="italic-43">posto</italic> e <italic id="italic-44">admitido</italic> são usados, em construções do <italic id="italic-45">ablativo absoluto<ext-link id="external-link-6" xlink:href="#_ftn5"><sup id="superscript-9"><bold id="bold-bb178eb650048c713ba34b8c61c0bc1b"><sup id="superscript-10">]</sup></bold></sup></ext-link></italic>,<xref id="xref-8c42b729e121113a4cbccaff7096e837" ref-type="fn" rid="footnote-841ec180167a29683f93ea9d89f853a9">19</xref> para indicar relações circunstanciais (causa e concessão, por ex.). Com isso, pode-se supor que os sentidos de <italic id="italic-46">posto que</italic> representem uma persistência dos usos latinos da sua base verbal. Dados coletados do “Corpus do Português” atestam o emprego da forma participial <italic id="italic-47">posto</italic> como um conector concessivo, validando a hipótese de que esse sentido já estaria nela semantizado antes da associação ao item <italic id="italic-48">que</italic>:</p>
      <p id="paragraph-33" />
      <p id="paragraph-34">(11) E os benefiçiados em ordens menores que <italic id="italic-49">posto</italic> nam seiam d'ordens sacras viuem como crerigos e por taaees sam aujdos. (Foraes, XIV)</p>
      <p id="paragraph-35">(12) <italic id="italic-50">Posto</italic> seja esta a primeira vez que nos vemos, há muito que o senhor é meu conhecido. (Távora, XIX) </p>
      <p id="paragraph-36" />
      <p id="paragraph-37">Esses exemplos conduzem, ainda, a uma nova hipótese quanto ao mecanismo estrutural que resultou no surgimento do conector <italic id="italic-51">posto que</italic>, já que a função conectiva de <italic id="italic-52">posto</italic> pode ter sido anterior à sua integração ao <italic id="italic-53">que</italic>. Dessa maneira, já funcionando como conector, <italic id="italic-54">posto</italic> se combinaria com a partícula <italic id="italic-55">que</italic> não por reanálise, mas por analogia. Duas observações sustentam essa hipótese: i) a escassez, como já assinalado, de dados que ilustrem o contexto favorável à reanálise e ii) a produtividade de formas <italic id="italic-56">x-que</italic> presentes, desde o português arcaico, no inventário dos conectores (Cf. BARRETO, 1999, p. 519-521), que podem ter sido tomadas como modelo para a analogia. </p>
      <p id="paragraph-38">Assim, o esquema a seguir ilustra o processo de gramaticalização de <italic id="italic-57">posto que</italic>: </p>
      <fig id="figure-panel-f5b5d1b7cd57faf5e31408e091df8927">
        <label>Figure 4</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-bbc33bcb0b1f0050fdfe8981b45f1377" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-368aabaaa157bcdbb0b1b827526bac56" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Figura 2.png" />
      </fig>
    </sec>
    <sec id="heading-9584fecef2c8687ba7b0e8522aafbfac">
      <title>5 Gramaticalização de <italic id="italic-7582ee7440511de60328ab0425856481">visto que</italic></title>
      <p id="paragraph-9252429bd08fa67845ce79a240906938">Assim como <italic id="italic-0e6c020270cceab137105090b3d4d8de">posto que</italic>, <italic id="italic-1696c0ffe4bc3db7e52d5d5f1cf41162">visto que</italic> constitui um conector causal <italic id="italic-600135f33a2904727ffa5266c21e06ea">x-que</italic> de base participial. Seus primeiros registros, no <italic id="italic-3484037227a5f292757f52d081840274">corpus</italic> deste trabalho, datam do século XIX: </p>
      <p id="paragraph-c337badeadc81e12b70716869a97e054" />
      <p id="paragraph-2903cb9344a135161bdf29bc1def74df">(13) Perguntou-se-lhe o motivo porque tinhão levado esses cartuxos, <italic id="italic-ae22266eed7ee061464f957f6807c039">visto que</italic> sabia terem elles sido avisados para huma revista, e se o seo Commandante do Batalhão não tinha passado a sua primeira revista... (CL, XIX) </p>
      <p id="paragraph-2393d3214ee76c56e518edb3073a60fd">
        <bold id="bold-3083b1ee8707628bc4f2c2c387997922" />
      </p>
      <p id="paragraph-e8c567ad0e85b7a064eb606af56ecd9e">Todavia, no “Corpus do Português”, as primeiras ocorrências desse conector podem ser identificadas a partir do século XVII<xref id="xref-ccf70dddf010d08845d49a7c36d3ae27" ref-type="fn" rid="footnote-ee4eb7d2291973717bdd0f460fd8393e">20</xref>: </p>
      <p id="paragraph-1239aa3a9305e2d780c4b581842dd2db" />
      <p id="paragraph-944d9faaf6d856634a89d123cd2dc504">(14) Se isto assim é, <italic id="italic-7da970d2dc2e22ea11c8891e2980803f">visto que</italic> nós somos o verdadeiro e geral remédio dos monarcas, nós sós devemos ser seus conselheiros. (AD, XVII) </p>
      <p id="paragraph-fc6b797de0fd85cc1d4fb3e3f2c78213" />
      <p id="paragraph-0b441823937ab96f87b2b18b82edd844">Uma primeira hipótese explicativa para a gramaticalização desse conector é apresentada com base no mecanismo de reanálise, haja vista os indícios diacrônicos representados por contextos em que as formas <italic id="italic-a247ebfc74f0595a2684d56943fe5c86">visto</italic> e <italic id="italic-a67e8d084ec65d146a406d57593ea9b4">que</italic> aparecem em contiguidade, mas pertencendo a sentenças distintas, conforme mostram os exemplos abaixo, também coletados do “Corpus do Português”: </p>
      <p id="paragraph-a1bf42f2b768fe4aeef84cfec2ab555e" />
      <p id="paragraph-b08ac36b6a0998da43c618b5ceb2efc2">(15) A sseptima diz: "que nom sejamos derribados na temptaçom, mas que nos livres de mal". E aquesto bem he <italic id="italic-9a3b77cc3fe684bc7f03bcb0abd6f102">visto</italic> que aa virtude da fortelleza, que de nosso senhor nos he outorgado, deve perteecer, per a qual nos guardamos e teemos contra todo mal, e nos esforçamos a sseguyr toda virtude. (LC, XV) </p>
      <p id="paragraph-583f428427f01978ec3dee10d3d020fb">(15a) [E aquesto bem he <italic id="italic-e121814823184d5e97ef9c344c2c14e5">visto</italic>] [<italic id="italic-1d6ea339905c2155ec8acfd9cebdef06">que</italic> aa virtude...] </p>
      <p id="paragraph-8601259dfabd86d3bb6c4f5a6bead998">(16) E que, se aos do seu conselho pareçeo que cõ justiça concediã esta carta de marqua, <italic id="italic-0de49f2d12c847c21c418c3d26257d2e">visto</italic> he que sera mao de fazer mudarem-se do que ja lhe tem parecido. (CDJ, XVI) </p>
      <p id="paragraph-27cc008b456cbb629ffe1661082992af">(16a) [<italic id="italic-c3840e56b9d14864aa17130663383696">visto</italic> he] [<italic id="italic-f42aae2fb68e09986c57ed44ec1f2220">que</italic> sera mao de fazer...]<bold id="bold-c9d724336b4686605da3826d749e3ee0"/></p>
      <p id="paragraph-059a28fb1c96b6c5cf2357279063c225">
        <bold id="bold-fb8250ad9b9b72e5757f80df6b77fe40" />
      </p>
      <p id="paragraph-dabf70a180405cee09c7c9cc4bbcfe9f">Desse modo, o conector <italic id="italic-d41d261d82c6ac5772100b81a965c269">visto que</italic> pode ter emergido de construções de encaixamento, nas quais <italic id="italic-1570db40d82ffa252e9737c14c14c327">visto</italic>, base de uma oração nuclear, é seguido do item <italic id="italic-756e6afef2c468c6ef9dba5a65d07601">que</italic> introdutor de uma oração encaixada com função subjetiva. No exemplo (16), além do contexto sintagmático favorável à reanálise, observa-se, considerando-se todo o complexo oracional, o estabelecimento de uma relação de causalidade – “se, ao conselho, pareceu que concederam, com justiça, esta carta de marca, é visto que [portanto] será ruim mudarem o que já lhe tem parecido<xref id="xref-32ef0bcb96aef09ad8b9912d41cf6c98" ref-type="fn" rid="footnote-700b1a27cdb669319ef92489bf0a9447">21</xref>. O fato de a construção <italic id="italic-3b6d84d8922529021421f8f0e33d1da3">é visto</italic> integrar contextos dos quais emergem inferências causais parece sinalizar o gatilho que acionou o sentido causal semantizado por <italic id="italic-1b792ac6ff407cc247f7aa653a539fcd">visto que</italic>. </p>
      <p id="paragraph-de06a12a9c397ceda2b21fc2f4a66372">Ademais, sendo a causalidade um tipo de relação semântica que sempre apresenta certo grau de subjetividade (AMORIM, 2017; NEVES, 1999; PAIVA, 1996), outro aspecto favorecedor do sentido causal assumido por <italic id="italic-b37227f00ad73bdab34dd066e4add255">visto que</italic> é a própria construção<italic id="italic-00e26955b80e9ce66ee68a23c19410eb"> ser+visto</italic>, que pode carrear um alto grau de subjetividade, uma vez que, pragmaticamente, é comparável às construções <italic id="italic-506a9b59085589c15741dbacb9293845">ser + adjetivo avaliativo/modalizador</italic> (<italic id="italic-2d86d84804c078f7ea5dff56c1762017">é notório</italic>, por ex.). Dias (2013) explica que</p>
      <p id="paragraph-2c8775e9ac6b0a4341332ce5f4a5e38d"> -</p>
      <p id="paragraph-0ae3b1b256f774ab2e253a8153cfe692">no complexo oracional subjetivo, as orações encaixadas subjetivas passam a funcionar como a informação mais relevante e <italic id="italic-507a617bed4a9b61b2133b9de2f40045">a oração matriz se gramaticaliza e passa a ser um marcador de atitude do falante</italic>, assemelhando-se aos advérbios modalizadores que ocupam várias fronteiras entre os constituintes oracionais. (DIAS, 2013, p. 92 – destaque acrescido)</p>
      <p id="paragraph-b863d095e286d6c52ac51dff4ff5fb2c"> -</p>
      <p id="paragraph-c57d94578d185d58bcd5463b5a251e40">Assim, a subjetividade presente na oração matriz <italic id="italic-445e0a7e834bd64a7d4a2bfe4955fe4c">ser + visto</italic> demonstra-se favorável a um processo metonímico responsável por instaurar inferências pragmáticas que, num segundo momento, são semantizadas:</p>
      <p id="paragraph-f4a66e6583c8c81aed2cb1b79209761b" />
      <p id="paragraph-957e820eaf8f79c74c4d283640eab995">(17) O ônibus já se preparava para o embarque. Dali em diante enfrentaria mais dezesseis horas de estrada, <italic id="italic-e7c35448a16c04983b9e8a820aa4d119">visto que</italic> a cidade onde iria morar ficava no extremo oeste do Estado. (D&amp;G, XX) </p>
      <p id="paragraph-b6fbdb7b5ab218004889bb12c9d634fe">(17a) <italic id="italic-e55f103372451af936d7aa05d94798a8">É visto/claro/notório que</italic> a cidade onde iria morar ficava no extremo oeste do Estado, portanto, dali em diante enfrentaria mais dezesseis horas de estrada. </p>
      <p id="paragraph-7e6b38b8b2b2d440be2ff5774db41676" />
      <p id="paragraph-01cbcab5365cb25b36d8bd6be6670972">Na gramaticalização de <italic id="italic-779858fee160b7f3f4e51cfa420e31c2">visto que</italic>, teria ocorrido, então, a reanálise e, por conseguinte, a recategorização do verbo da oração matriz e do <italic id="italic-c002cbf3593b64948e30b2532793ea23">que</italic> subsequente em uma unidade que passa a funcionar como conector causal, tendo como motivação pragmática o contexto subjetivo da construção, que, além de poder representar um <italic id="italic-d3acb766095f6a351e28935e57365328">marcador de atitude</italic>, pode, ainda, configurar-se como um <italic id="italic-67f00cdf63dae4b7cbe4747ad6383996">marcador de assentimento</italic>, instaurando, nesse caso, um contexto intersubjetivo: mesmo que se trate da exposição de uma informação nova, o locutor a apresenta como pressuposta, convidando/persuadindo o ouvinte a aceitá-la como facilmente inferível (DIAS, 2013, p. 99). Assim, de acordo com essa hipótese, a gramaticalização de <italic id="italic-c389297e7ae2a70a8b29f27a561162cb">visto que</italic> teria a seguinte representação: </p>
      <fig id="figure-panel-0f173da6cc9e9fdac4d876a50dc8bed2">
        <label>Figure 5</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-e416eff7a8434478ce0e0b005736bcbf" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-d064c91994eda40c258e5c57b8ded9a7" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="3.PNG" />
      </fig>
      <p id="paragraph-42995889e4ff4fee2d6ad6b2233ea65c">No entanto, tanto na amostra deste trabalho quanto no “Corpus do Português”, encontram-se ocorrências que tornam questionável a trajetória acima delineada, uma vez que atestam o emprego de <italic id="italic-c75e47e83f7612350d7b2bea597da858">visto</italic>, sem associação ao <italic id="italic-aea87b9f4b73c198560645e19204006c">que</italic>, como conector causal: </p>
      <p id="paragraph-15ea01fc89e18a02d387d7baa6f580c5" />
      <p id="paragraph-37daac6f52ad171c5aa4c83d47ae31b4">(18) E eu, vendo o que m’a asim mandava pedir, <italic id="italic-a0ad9a8adc8e9f0b297500b6258258dd">visto</italic> ser justo e proveito da dita terra e dos moradores della e serviço do dito Senhor, visto seu regimento que pera ello tenho, lhe concedi a dita terra na maneira abayxo declarada com as condiçõis da berba do dito regimento, que hé o que se segue. (CPJ, XVI) </p>
      <p id="paragraph-414b991a3831dfb85ee88eaf709460b8">(19) por tanto conheça o Respeitavel Publico que caso a Le-tra saia a giro, á devem consi- derar como falça, <italic id="italic-700eb0b2cd7ca9c1938678c3fdf1bda6">visto</italic> elle mes- mo dizer que está pago; O an- | nunciante hade provar sua execu-ção pelos meios que a Lei lhe tem marcado. (CL, XIX)</p>
      <p id="paragraph-4893fae3c82f94f1acd39bc8193084ed" />
      <p id="paragraph-ebdfd7a43df64e5c87244d0e7ea30e2c">Considerando que existem ocorrências de <italic id="italic-7d5ef8611d47dad24907701edb4be4c8">visto</italic> com função conectiva, em sincronia na qual ainda não se registra a sua variante integrada ao <italic id="italic-4e5132a872e1d2747f92d20160ee03fe">que</italic>, pode-se concluir que esse particípio já se encontrava gramaticalizado em conector causal, o que relativiza o papel de uma possível reanálise na determinação da sua nova função gramatical. Como já atua, desde o século XVI, como conector de orações não finitas, a associação ao <italic id="italic-e60f79039d98db9c642934bfad8b2237">que</italic>, verificada a partir do século XVII, não promoveria uma nova gramaticalização de <italic id="italic-0d0685f85a0556ad253b352b2adf75d8">visto</italic>, mas uma ampliação dos seus contextos de uso, na medida em que passou a ligar-se também a orações finitas<xref id="xref-cab6d29face1581c6c139a2c67e442f7" ref-type="fn" rid="footnote-8a1e08a1b8ef0d9c939b2168389489e2">22</xref>, padrão que se tornou mais produtivo. </p>
      <p id="paragraph-f490fc052d784e80b4ad43567730267f">É válido assinalar que o verbo <italic id="italic-3d659a48f2a784d4947e47cd37eba186">ver</italic> parece apresentar-se como um forte candidato a ser recrutado para processos de gramaticalização, conforme mostram os trabalhos de Carvalho (2011; 2006), por exemplo. O surgimento de <italic id="italic-9f482db0144534df37e22b4a178a56c7">visto que</italic> representaria, assim, uma das instâncias da gramaticalização de construções com <italic id="italic-fd5ed7310c3fb201e6f633c8388e654d">ver</italic>: <italic id="italic-962317139cf1399aafb9fbb05a22f8b1">verbo &gt; conector &gt; marcador discursivo</italic>. </p>
      <p id="paragraph-1ea584b1e02de3b799e7d1a42cf47ece">Segundo Carvalho (2006), existem seis tipos semânticos do verbo <italic id="italic-1be0088a03275265f2c66ad36ff8e4bf">ver</italic>, que vão do mais concreto/lexical (percepção sensorial) ao mais abstrato/gramatical (emprego como marcador discursivo em contexto de pausa de raciocínio, como em “deixa eu ver”). Entre esses tipos, é possível supor que o sentido causal de <italic id="italic-1a33d995d8ceaba7f2ecb0338fa3e4dc">visto</italic> tenha relação com o uso de <italic id="italic-3bffc62e48a851da50c9228f9bd82f44">ver</italic> que flutua entre a percepção sensorial e a percepção intelectual (coocorrência dos sentidos físico e abstrato), o qual favoreceria um processo metafórico: o sentido da forma verbal <italic id="italic-1f09836db71f6231c1e8ecaa0da5b307">visto</italic> – <italic id="italic-21f09aa3cceab090e8cb3af3923ca197">percebido pela visão</italic>, <italic id="italic-79184001714ede2496f8d9f29988c89c">notório</italic> – permite a sua leitura como <italic id="italic-d664843adfd43e03d9b0b33e9753b98e">marca de assentimento</italic>, que, por sua vez, se estende aos contextos de causalidade. Tal análise corrobora a seguinte observação de Neves e Coneglian (2018): </p>
      <p id="paragraph-05392dd6989eacc0176068f281ff7d76">-</p>
      <p id="paragraph-75aedd88018ee39be314a703bf1d3eca">Duas coisas devem ser levadas em consideração ao analisar-se a base de <italic id="italic-180d8c2cf987a312a53dd49e860338ad">visto que</italic>: (i) o valor lexical do verbo <italic id="italic-9e3303789a4f6972ca9e82b4bd119e78">ver</italic>, que está metaforicamente associado à evidencialidade; (ii) o valor participial de <italic id="italic-ba0c3d0f99f06de90af1b664fd3b6e9d">visto</italic>, cuja telicidade, como aponta Neves (2006), favorece a noção de causalidade (NEVES; CONEGLIAN, 2018, p. 18).</p>
      <p id="paragraph-6aebd225bb6364aa609f04f0cbc62a36">-</p>
      <p id="paragraph-7ab8f55db0e15d5c6d0cf238e4b87a2d">Nesse sentido, o verbo <italic id="italic-01d698d81bc4c9d022eb2451ab71f5d6">ver</italic> constitui uma instância possível de manifestação lexical da evidencialidade, entendida como “a categoria responsável pela indicação da fonte da informação veiculada em um enunciado” (HATTNHER, 2018). Esse traço, em sentido lato, associa-se à causalidade, uma vez que, ao apresentar a causa de um evento, o falante apresenta ao interlocutor um estado de coisas assumido como evidente. Em outras palavras, </p>
      <p id="paragraph-b44809326c1804f1c8c5d8c8b45a9704">- </p>
      <p id="paragraph-0ff615a835e110e1461387ba0cc34ba5">a construção causal com <italic id="italic-c1a83faad655fd69fce88efdfffd8e00">visto que</italic> configura-se pelo estabelecimento de um elo causal entre conteúdos mediado pelo ‘conhecimento’, ao qual o falante chega por meio de mecanismos de ‘indução’, com base em algum tipo de evidência, o que significa que o próprio falante, independentemente de quem seja, apresenta-se como “validador” desse conhecimento indutivo. (NEVES; CONEGLIAN, 2018, p. 20).</p>
      <p id="paragraph-bdba8749e4c1892fa2d25ae93db44b12"> -</p>
      <p id="paragraph-a4e60d6d91774bae952969f7b9457151">A telicidade, por sua vez, representa um traço aspectual que diz respeito a um evento com finitude definida; daí estar presente em formas participiais, cujo sentido, geralmente, liga-se à percepção de ações concluídas. A noção de causalidade, cognitivamente, tem origem na observação de eventos do mundo real em que um precede e determina outro. Ou seja, um evento – concluído – é causa de outro evento. Dessa maneira, ao participarem de construções tradicionalmente tratadas como orações subordinadas reduzidas, essas formas podem expressar, entre outras circunstâncias, a causalidade: </p>
      <p id="paragraph-1e0cf78280d4294329cbf416d2a545c8" />
      <p id="paragraph-de944b9f5c1b8914bf60f743735397fa">(20) <italic id="italic-4a79f20c964559c1f548ab2055090f82">Interditada</italic><bold id="bold-16890d57a101352b271e8eed425f40eb"> </bold>a ponte, tivemos que optar por um percurso mais longo. </p>
      <p id="paragraph-c20940a7393a394cc8edaaa6a07dbb45">(20a) <italic id="italic-27cf6e4ac0edb90457fd0c8d1a7a2a58">Visto que</italic> a ponte foi interditada, tivemos que optar por um percurso mais longo.</p>
      <p id="paragraph-9ed9150f0b04726a9c0ea5b75c40e5db" />
      <p id="paragraph-65870106df041263fd5d3d5f7519192b">Além disso, como mencionado no estudo de <italic id="italic-24964c1b18ce4394e9dec9488a091260">posto que</italic>, o emprego causal de <italic id="italic-6fdc4cd37f3b9836326305f00d36818f">visto que</italic> pode representar uma atualização de uma estratégia discursiva identificada no latim, pela qual particípios constitutivos de construções de ablativo absoluto indicam circunstância (SAID ALI, 1971, p. 222). Dessa forma, a gramaticalização de <italic id="italic-2f4bc44c5b08e748519ed0140311e1d1">visto</italic> em conector causal pode ter emergido de construções como a que se destaca no exemplo a seguir: </p>
      <p id="paragraph-48a4b569e491807c9ac2c2d53c9e7d41" />
      <p id="paragraph-738c0c8a79b7a4d103155b9a4e9d2b66">(21) <italic id="italic-15020b1146b59d070bfd4a018f708b3e">(Tendo)Visto o aumento das chuvas</italic>, as lojas foram fechadas. </p>
      <p id="paragraph-48debed2842922b5f1528c92fedceea3" />
      <p id="paragraph-92d394d8aa1347f1ab096206a8a8de64">Coexistem, no exemplo acima, pelo menos três traços favoráveis ao deslizamento de <italic id="italic-97509d62deaaf5c60f97db5844828b9b">visto</italic> para a categoria dos conectores causais, a saber: i) a sobreposição das percepções sensorial e intelectual, à qual subjaz a evidencialidade; ii) a telicidade, indicando um evento concluído e iii) a noção circunstancial (causal) estabelecida pela construção na qual o particípio <italic id="italic-7fa5c6a26a41c9da32cdbb82ba3d106b">visto</italic> representa o elemento nuclear, traço que remonta aos usos participiais do latim. A conjugação desses traços também pode ser vista no trecho a seguir, corroborando uma leitura causal de <italic id="italic-c7c2e689064ba220042ce1a3dad71425">visto</italic>: </p>
      <p id="paragraph-f73a92c4c28ba89f763b53db8c586ef6" />
      <p id="paragraph-5207e7f69ca0667f81960627e5312918">(22) Que bem considerada a monstruosa variedade que houve entre os filósofos na opinião das coisas que se alcançam com o lume natural e que apenas se achará um entre todos eles que consigo mesmo se não encontre muitas vezes na própria doutrina, <italic id="italic-65f38467be4e3204f0b491fbcdad0f37">visto</italic><bold id="bold-1537408dd5d8dca0509570aaf73dd98b"> </bold>juntamente quão várias são as leis em todas as províncias e reinos e como se mudam cada dia em cada um deles... (SFX, XV)</p>
      <p id="paragraph-f1a0c9c67861ed0e17d9c0bc905f154e" />
      <p id="paragraph-f3a624d7227bda5a5cabeee3d294d43c">Assim, tendo semantizado o sentido causal, <italic id="italic-ce2b04f76f61ac53311e13dba9c5d6c3">visto</italic> recategoriza-se em conector e, em estágio posterior de gramaticalização, integra-se ao item <italic id="italic-e1cf3e0a6f22547eeaffce68d9403fec">que</italic> por meio de analogia a outros conectores de base verbal, como <italic id="italic-592f196749f67f8b6f4e8bc810b5ce18">dado que</italic> e <italic id="italic-848596d7d8b1dfc47bad1924d90e49b3">posto que</italic>. Como essa última hipótese conta com um maior número de indícios diacrônicos e pragmáticos, a gramaticalização de <italic id="italic-09ee6d6a7f9e3b59da303e675048699e">visto que</italic> poderia ser assim representada: </p>
      <fig id="figure-panel-61d6de0882f682dd6c953e1b4f7273fe">
        <label>Figure 6</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-a3319b01e6a5865c957034b37d84b4fd" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-5031f74834f096b8bbce82778bc57afd" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Figura 3.png" />
      </fig>
    </sec>
    <sec id="heading-8bb87d66c615121a2eda950e8351f441">
      <title>Considerações finais </title>
      <p id="paragraph-352d3fac7ab561cbe83f7a313e47e455">Neste trabalho, a partir de uma análise diacrônica e cognitivo-funcional, foram investigados processos de gramaticalização de conectores causais que se formaram pela associação ao item <italic id="italic-1a107ad49182754d6154b44f4cf49582">que</italic>, referidos como <italic id="italic-da8d4739a045909c82a4fb000a61d318">conectores x-que</italic>: <italic id="italic-a36939b40a131e6b7d4f95143c151bf9">já que</italic>, <italic id="italic-0cb3973b9277b166cdc719d1a70ae8b5">posto que</italic> e <italic id="italic-cc0319e53f05bd188eeda08d33457ffd">visto que</italic>. Tendo em vista o paradigma dos conectores causais, na história do português, observa-se que os itens investigados, cuja emergência, no domínio da causalidade, é verificada a partir do português moderno, são de gramaticalização mais recente e, em geral, de frequência irrisória, se comparados a conectores simples, como, por exemplo, <italic id="italic-c7f52d7519fdcb71bce8d48e19304e07">porque </italic>e <italic id="italic-957a221698bb8b2db05b3d72b6134be2">pois</italic>, que já aparecem gramaticalizados, respectivamente, nos séculos XIII e XIV (Cf. AMORIM, 2017; OLIVEIRA, 2020). </p>
      <p id="paragraph-6560093454dd9a62e4c6bb90645f6348">Em relação aos mecanismos que operam a gramaticalização desses conectores, identificaram-se a reanálise, a analogia, a metonímia e a metáfora: as análises empreendidas apontam para uma relação de complementariedade entre esses mecanismos, uma vez que podem acionar/intensificar, relativamente à forma e/ou ao significado, diferentes mudanças/estágios na trajetória de gramaticalização dos conectores estudados. </p>
      <p id="paragraph-3f5b8baf8c3b6ed771687834a58b8a50">A atuação desses mecanismos, nos casos investigados, é sinopticamente ilustrada no quadro abaixo:</p>
      <fig id="figure-panel-01b01339d6e7cacb3d22b1a26e231d55">
        <label>Figure 7</label>
        <caption>
          <title>QUADRO 1 - Mecanismos da gramaticalização de conectores causais <italic id="italic-c806082601ceebc75fe39d0e54e0374f">x-que</italic></title>
          <p id="paragraph-b36874e231cc10d36c733fd54ca610d6">Fonte: elaborado pelo autor.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-33665f67d1fdbe19aa2c5afbbcc6c87e" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Quadro 1.PNG" />
      </fig>
      <p id="paragraph-21">Vale ressaltar que esses mecanismos, atuantes na mudança linguística em geral (Cf. HOPPER, TRAUGOTT, 2003), não são automáticos, isto é, não podem ser ativados apenas por forças inerentes à estrutura da língua, já que a sua operacionalização tem o falante e o contexto de uso como gatilhos. Dessa maneira, o usuário da língua, por motivações cognitivas e interacionais, constrói e altera contextos ou pode ter as suas intenções comunicativas afetadas por contextos já postos (e alterados!) por outros usuários. Nesse sentido, cognição e pragmática configuram forças que, em negociação no processamento linguístico, exercem influência decisiva nos fenômenos de mudança linguística. </p>
      <p id="paragraph-f3e9b202456aed23ca143e839f6245ae">As mudanças verificadas na gramaticalização dos conectores estudados são mobilizadas por mecanismos que partem de dimensões externas à estrutura linguística, atrelando-se ao contexto de uso das formas linguísticas e às experiências, percepções e necessidades sociointeracionais dos usuários da língua. Portanto, a gramaticalização dos conectores causais <italic id="italic-171a8ace08bc3410e0796979f2ef31a9">x-que</italic>, conforme se cotejou neste trabalho, ilustra<bold id="bold-df5ceab7d5138b2fea2ee1bac880c89a"> </bold>como<bold id="bold-aa5838bdc7dd55b7604b5e0aa115276c"> </bold>sentidos e formas das construções linguísticas podem ser reinterpretados, reanalisados e/ou integrados, a fim de renovar paradigmas gramaticais e manter otimizada a comunicação. </p>
      <p id="paragraph-5fa8f643b4df0d1c45e3b61763426d84" />
    </sec>
    <sec id="heading-0f8cd3c80271964967483549d416b3f3">
      <title>REFERÊNCIAS </title>
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      <p id="paragraph-63">NEVES, M. H. M. <italic id="italic-051d11fb2974c9408ced21f085a9f519">Gramática de usos do português. </italic>São Paulo: Unesp, 2000. p. 801-829.</p>
      <p id="paragraph-64" />
      <p id="paragraph-65">NEVES, M. H. M. <italic id="italic-74eebda48660e15c516600c8f52a3580">A gramática funcional</italic>: interação, discurso e texto. São Paulo: Contexto, 2018. </p>
      <p id="paragraph-66" />
      <p id="paragraph-67">NEVES, M. H. M; CONEGLIAN, A. V. L. . O estatuto categorial dos subordinadores adverbiais complexos numa visão cognitivo-funcional da linguagem. <italic id="italic-3cfcfe0f7090735127461e93ec51fc95">Revista Entrepalavras</italic>, v. 8, p. 09-27, 2018. Disponível em: <ext-link id="external-link-15" xlink:href="http://www.entrepalavras.ufc.br/revista/index.php/Revista/article/view/1337">http://www.entrepalavras.ufc.br/revista/index.php/Revista/article/view/1337</ext-link></p>
      <p id="paragraph-68" />
      <p id="paragraph-69">OLIVEIRA, B. A. <italic id="italic-d90472e920684d6e868b1981f21e8133">A evolução da rede de construções causais no português</italic>. 2020. 236 f. Tese (Doutorado em Linguística). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.</p>
      <p id="paragraph-70" />
      <p id="paragraph-71">PAIVA, M. C. <italic id="italic-d79a1831391e52779ea826281d93946a">Ordenação de cláusulas causais: </italic>forma e função. 1991. 232 f. Tese (Doutorado em Linguística). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1991.</p>
      <p id="paragraph-72" />
      <p id="paragraph-73">PAIVA, M. C. Aspectos semânticos e discursivos da relação de causalidade. In: MACEDO, A. T.; RONCARATI, C.; MOLLICA, M. C. (orgs.). <italic id="italic-194abe9cf7654229aea7f1c66899c25d">Variação e discurso</italic>. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996, p. 63-74.</p>
      <p id="paragraph-74" />
      <p id="paragraph-75">PAIVA, M. C. Gramaticalização de conectores no português do Brasil. <italic id="italic-4934ae28a642e4449e5774d7e674f45a">Scripta</italic>, v. 5, n. 9, p. 35-46, 2001. Disponível em: <ext-link id="external-link-16" xlink:href="http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/11719">http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/11719</ext-link> </p>
      <p id="paragraph-76" />
      <p id="paragraph-77">PAIVA, M. C; BRAGA, M. L. Conjunções lexicais e gramaticais: o caso de “por causa de”. <italic id="italic-cd4b2d9db53e69fd7d60bd391ede967a">Gragoatá</italic>, v. 11, n. 21, p. 73-86, 2006. Disponível em: <ext-link id="external-link-17" xlink:href="https://periodicos.uff.br/gragoata/article/view/33215">https://periodicos.uff.br/gragoata/article/view/33215</ext-link> </p>
      <p id="paragraph-78" />
      <p id="paragraph-79">PAIVA, M. C.; BRAGA, M. L. As Construções Hipotáticas/Adverbiais. In: NEVES, M. H. M.. (Org.). <italic id="italic-8b4f9a87ec84f0a9989ab3d97ac3518b">Gramática do português culto falado no Brasil</italic>. A construção das orações complexas. São Paulo: Contexto, 2016. </p>
      <p id="paragraph-80" />
      <p id="paragraph-81">RODRIGUES, V. V. Uso(s) de conectores: uma abordagem funcional-discursiva. <italic id="italic-a9228ee4b90d081f7b1832c281e83522">Diadorim,</italic> v. 20, p. 535-560, 2018. Disponível em <ext-link id="external-link-18" xlink:href="https://revistas.ufrj.br/index.php/diadorim/article/view/23289">https://revistas.ufrj.br/index.php/diadorim/article/view/23289</ext-link></p>
      <p id="paragraph-82">SAID ALI, M. <italic id="italic-4376ce18ea77f4a88030450848cc333f">Gramática histórica da língua portuguesa. </italic>7ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1971.</p>
      <p id="paragraph-83" />
      <p id="paragraph-84">WANG, C-C.; HUANG, L. M. Grammaticalization of connectives in Mandarin Chinese: a corpus-based study. <italic id="italic-84f112f2f890a1dea273daa99c6a97ff">Language and Linguistics</italic>, 7, p. 991-1016, 2006. </p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-4e691851742c977e1f3d38488af3e3e3">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-923b63db606a4b9fd2cc264116e4629c">Este artigo resulta do projeto de pesquisa “A conexão causal: forma e função”, credenciado pela Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do Instituto Federal da Bahia – PRPGI/IFBA.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d6ab71db0ef84f13cb4b60fc5375cdcb">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-ba80ed3b5276f8074e5db848e16699cd"><ext-link id="external-link-03d95675d1eee3b8a735baa794b6e351" xlink:href="#_ftnref1"/> Coseriu (1979) defende que não se deve identificar o estado de língua real (objeto histórico) com o estado de língua projetado para estudo: nesse sentido, sincronia e diacronia não são a língua, mas métodos para analisá-la.    </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-3a609c223c588146d5671db533d1ef87">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-2bae339f5f97c355d084afc1e7cb7b1a">Embora o presente trabalho não se vincule à Gramática de Construções (GOLDBERG, 1995), vertente que tem se destacado no âmbito das pesquisas funcionalistas, é recorrente, ao longo deste texto, o uso de expressões que remetem a essa perspectiva, como o próprio termo <italic id="italic-26">construção</italic>, aqui concebido como um pareamento de forma e função que constitui desde itens linguísticos simples ou locucionais a complexos oracionais.    </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-2ba9024eee38acb2d2129b0a35356d3d">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-501e6dd60d47cdd6596b20c9ff12416d">“Grammaticalization is a complex multifactorial type of language change which does not consist of a single process but of a set of interacting processes” (DIEWALD, 2011, p.366).  </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-94fc63bb0f34f226eba5ccb6cbd1968d">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-fb20b2aa8ff3e4eb99b221f42fd8ffb2">Não é consensual a classificação desses elementos como “mecanismos de gramaticalização”. A opção aqui adotada funda-se na proposta de Costa (2003), segundo a qual reanálise, analogia, metáfora e metonímia devem ser considerados mecanismos por descreverem “a implementação do processo, portanto <italic id="italic-61bccdb88f2775bae28c33ff1011ff95">o como<bold id="bold-7"> </bold></italic>esse se desenrola e não são mutuamente exclusivos. Podem desenvolver-se no nível pré-lingüístico, cognitivo ou já nos níveis lingüísticos propriamente ditos” (COSTA, 2003, p. 63 – destaque da autora).  </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0d909f7976e93400b9bc4b2e41c3fab5">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-f1ee644d979c67b1b618f6ce4c97f3e1">Em termos conceptuais, a metáfora é processada por operação analógica, e a metonímia, por reanálise: em muitos casos, são, portanto, mecanismos <italic id="italic-6f54ef2acb2f62d010f8bbb6f4149624">interdeterminantes</italic>. No entanto, em consonância com Hopper e Traugott (2003), neste estudo tais mecanismos são tratados distintamente, o que se justifica pelo caráter de seus efeitos na mudança por gramaticalização: mais semântico-pragmáticos, no caso da metáfora e da metonímia, e mais formais, como se observa na analogia e na reanálise. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e803bfc25575900f32b6268ec1c20991">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-191a7688bc64837b592d44617921f53f">É importante frisar que a relevância do papel de cada mecanismo, em processos de gramaticalização, há muito, tem sido questionada/ratificada (Cf. HEINE et al, 1991; HOPPER; TRAUGOTT, 2003; MARTELOTTA, 2011). Portanto, abordá-los de maneira acurada exigiria espaço e objetivos não pertinentes a este texto.   </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-7f43473c6997e744c37eb64f67168410">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-f8f2fa206cf839bc8cd61a5a99528126">Compõem o <italic id="italic-e2f33dd7150327c52f6322453582d056">corpus</italic> os seguintes textos: século XIII - <italic id="italic-e68651b138b8ea675e81db642c21c463">Foro Real de Afonso X</italic> (FR); <italic id="italic-45923dae39dd3dbf5d3ac5fd1b389676">Demanda do Santo Graal</italic> (DSG); século XIV - <italic id="italic-d271a69a564d3f197ea0fa6ee0ae7cd3">Flos Sanctorum</italic> (FLOS); <italic id="italic-5cea4b90988c34e23d0b999597d31a21">Primeyra Partida</italic> (PP); século V - <italic id="italic-0cec3227a7fce0c33d984a87c8ccec2b">Crónica de D. Fernando</italic> (CDF); <italic id="italic-dcf2fe2a2f0a4def0451fb8bd835fc05">Leal Conselheiro</italic> (LC); século XVI - <italic id="italic-432cf1fd50a9ff0de8e3c50b3446845c">Crônica del-Rei D. António</italic> (CDA); <italic id="italic-d9ea0d7c826568879bf766ce2eead3b7">Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil</italic> (CPJ); <italic id="italic-e545b6f5ee78f37c6bdf61bbb292edec">Historia da prouincia de Sãcta Cruz a que vulgarme[n]te chamamos Brasil...</italic> (HSC); século XVII - <italic id="italic-6df2dd3f59248342796575c949b7a6f9">Historiografia de Alcobaça</italic> (HA); <italic id="italic-ecd23e1ff9ec5ac1947ec1f30f2cc5a7">Jornada dos Vassalos da Coroa de Portugual</italic> (JVC); <italic id="italic-59c38c93aacc9d45a5e93004548ae936">Corte na Aldeia e Noites de Inverno</italic> (CA); século XVIII: <italic id="italic-361b6e4ac12cd8c844da5652203b1fc4">Directorio </italic>(D); <italic id="italic-fb7a8c35289cde753659e2574851ab2d">Cartas Aldeamentos</italic> (CA); século XIX: <italic id="italic-ca16e18d76454ed2fcca252b7e6ae999">Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra</italic> (RNG); <italic id="italic-cb0fd4f8a65176a18ade267edaaa0677">Cartas de Leitor Bahia</italic> (CL); século XX: <italic id="italic-a3bd271da2bd819ad08d6203165ad542">Cartas da Família Oliveira</italic> (CFO); <italic id="italic-5f4905de0dcaa161ad22783d7103e612">Corpus Discurso e Gramática</italic> (D&amp;G); século XXI: <italic id="italic-cfcc09456f2374e69a59f5e22ed0534a">Iboruna - Narrativa de experiência</italic> (NE); <italic id="italic-2daf6e5c3a341e7515697f94a2bd0770">Iboruna - Relato de opinião</italic> (RO).   </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-33ba491b7044aa9296b15663104d2fdf">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-0732e578710fbd381910fb01ceb6bd5e">Portanto, menções ao <italic id="italic-c74b923dca9265de68eaddfbf4c1cfaf">corpus</italic>/amostra, ao longo deste texto, dizem respeito, primariamente, à amostra de Amorim (2017).    </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9a98dbc04d062f1d72b9f3d55c80cf0c">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-7c6f5741ca504a97d6ee635df0737cc9">Para uma análise sobre a gramaticalização de <italic id="italic-8e1735df3dae3b2f6ca05f3a821205ba">pois que</italic>, conferir Braga e Paiva (2016) e Amorim (2017); para <italic id="italic-7e6cb8e7c36ecba8faec67f35eb091a2">por causa que</italic>, ver Amorim (2012; 2017), Paiva (2001) e Paiva e Braga (2006).   </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9b28d03be2dde1d4c36624679cc5079f">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-b75b8b52609bc194b39b7108c0b90e7d">Em Oliveira (2020), as primeiras ocorrências de <italic id="italic-e51d362408f3722c347cd4c4600f0d7c">já que</italic> também são identificadas no século XVI.     </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-4e80af250101f05af92b709e86f0dcf5">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-1d5089299df2b0f8652998029cbba134">O estudo de processos de gramaticalização, em perspectiva sincrônica, alinha-se a um dos métodos da Linguística Histórica: partir de dados do presente para explicar o passado (Cf. LABOV, 1972).    </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-1a43cd2a7ceb100bcf9e468e1063e8fd">
        <label>13</label>
        <p id="paragraph-eb8ed023a93052647c80fa99ad0b2fc2">A análise dos mecanismos de gramaticalização suscita questionamentos relevantes sobre as suas interrelações. Assim, quanto à gramaticalização dos conectores em análise, é difícil precisar a ordem de atuação de tais mecanismos, no sentido de identificar que mudança funcionaria como gatilho para outra(s): por exemplo, a reanálise dispararia a metonímia e a metáfora ou estaria a mudança semântica na gênese de uma reinterpretação sintagmática?          <ext-link id="external-link-b27fde849c3a47cf8f00ec48598209ce" xlink:href="#_ftnref3"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f622541a6f0723d953021a1826b80d48">
        <label>14</label>
        <p id="paragraph-73e2407a20823cb105af2d3a2f343034">A tendência de gramaticalização de conectores temporais em conectores causais é atestada em diversas línguas, resultando da própria relação semântica derivativa <italic id="italic-42">tempo&gt;causa</italic> (KORTMANN, 1997).    </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-5386fe0a4e73826887994801c4883e59">
        <label>15</label>
        <p id="paragraph-d0e3dc76b7fad9d2c62be7f6bf43b325">Na amostra de Oliveira (2020), a primeira ocorrência do emprego causal de <italic id="italic-58">posto que</italic> também é atestada em texto do século XVII. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-477a5ab67af432e335b8e6932141e074">
        <label>16</label>
        <p id="paragraph-2bcdac269c939c3a39ee7977ff709fb2"><ext-link id="external-link-7694dda087912ba2554fb1daa9e4a40c" xlink:href="#_ftnref2"/> Nesse exemplo, mostra-se também possível uma leitura concessiva: “mas, apesar de não ter levado aqui o castigo que mereceria, isso não lhe faltou na Capitania do Espírito Santo...”. Todavia, o uso do indicativo – “leuou” – instaura um contexto mais favorável à leitura causal: “mas, visto que não levou aqui o castigo que merecia...”. O papel dos modos verbais, na mudança semântica observada em <italic id="italic-59">posto que</italic>, é abordado mais adiante. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d1322855514f3f57dc022980295ba203">
        <label>17</label>
        <p id="paragraph-285a17c6602112820945db7d62b9c7ab">A ideia de que o conector <italic id="italic-60">posto que</italic> deriva de um complexo oracional é também apresentada por Bechara (2009, p. 390): “Primitivamente o <italic id="italic-61">que </italic>introduzia oração que funcionava como sujeito do particípio, o que explica estar este no masculino singular, pois uma oração definida materialmente é considerada do gênero masculino e do número singular.”   </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-38af4c46add514f622e4ff7b52539b40">
        <label>18</label>
        <p id="paragraph-54e676d3ebd88ee8e880b8638a5578eb">Ainda que se trate de relações causais mais abstratas (causa da enunciação), a presença do modo indicativo prevalece, afinal, mesmo uma relação causal baseada em crenças ou inferências (“Eles estão em casa porque o carro <italic id="italic-62">está </italic>na garagem”), precisa apresentar-se com certo grau de certeza, assim como uma justificativa de um ato de fala (“Leve o agasalho porque <italic id="italic-63">vai</italic> fazer frio”), o que é instaurado pelo uso do indicativo. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-841ec180167a29683f93ea9d89f853a9">
        <label>19</label>
        <p id="paragraph-742ee3173d5ebd3b56127b0623630b4b">O ablativo absoluto representa construções comparáveis ao que tradicionalmente se considera uma oração adverbial reduzida de particípio: “<italic id="italic-64">Terminada a festa</italic>, todos tiveram que fazer a limpeza do salão.”   </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ee4eb7d2291973717bdd0f460fd8393e">
        <label>20</label>
        <p id="paragraph-ae8de432f0d0d5243bc31bd714d3f502">Em Oliveira (2020), ocorrências de <italic id="italic-2812faa9ef079db6f495276a28edc45c">visto que</italic> também são atestadas a partir do século XVII.    </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-700b1a27cdb669319ef92489bf0a9447">
        <label>21</label>
        <p id="paragraph-041f9f72c1185fb717353390d64c7e8b">Em sentido lato, a relação de causalidade abrange construções do tipo <italic id="italic-ecd084e3bd1ffb2f203e715baef885ff">x porque y</italic> e <italic id="italic-1d411a0693e4b9552239cb77cecea2d3">y portanto x</italic> (PAIVA, 1991). Embora <italic id="italic-f722cd8d696059425ee5e55a7cb09195">visto que</italic> participe apenas de construções do primeiro tipo, o contexto identificado em (16) – que se estrutura como <italic id="italic-673f51f0ce7f9871cac9401c064488eb">y portanto x</italic> – parece revelar indícios para compreender a semantização do sentido causal nesse conector.    </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-8a1e08a1b8ef0d9c939b2168389489e2">
        <label>22</label>
        <p id="paragraph-e2b51f622eb7fa833b13e16ea65110e3">Vale assinalar que Oliveira (2020, p. 74) atesta ocorrências do conector causal <italic id="italic-497c1c89bf8503c097ba12c06f51557e">visto como</italic> nos séculos XIII, XIV e XIX. Assim, parece que a formação da variante <italic id="italic-10722b8e6abaa14aa763a3bf272830ff">visto que</italic> apenas atualiza função já desempenhada por <italic id="italic-45cc690130ecc690173000c5a1905ea9">visto como</italic>.    </p>
      </fn>
    </fn-group>
  </back>
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