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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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<publisher-name>Associação Brasileira de Linguística</publisher-name>
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      <article-id pub-id-type="doi">10.25189/RABRALIN.V19I1.1690</article-id>
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          <subject content-type="Tipo de contríbuo">Relatório de pesquisa</subject>
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        <article-title>A coda no Português Santomense (PST) e Principense (PP)</article-title>
        <subtitle>Aspectos gerais e processos de apagamento</subtitle>
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      <volume>19</volume>
      <issue>1</issue>
      <issue-title>Fluxo contínuo 2020</issue-title>
      <elocation-id>10.25189/rabralin.v19i1.1690</elocation-id>
      <history>
        <date date-type="accepted" iso-8601-date="03/11/2020" />
        <date date-type="received" iso-8601-date="29/09/2020" />
      </history>
      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">O objetivo deste artigo é descrever a coda no Português Santomense (PST) e Principense (PP), variedades faladas em São Tomé e Príncipe, detectando os segmentos licenciados nesse constituinte e analisando o processo de apagamento. Baseados em um <italic id="italic-916d7948bc5f7b470986e3431db63dc3">corpus</italic> com 20 entrevistas de fala espontânea, realizamos análises acústicas e quantitativas, nas quais utilizamos o modelo estatístico de regressão logística para verificar quais variáveis linguísticas são relevantes para a ocorrência do apagamento. Verificamos que a coda, no PST e no PP, pode ser preenchida, por múltiplas realizações fonéticas de um rótico, uma sibilante, uma lateral ou uma nasal subespecificada (BALDUINO, 2018) – como no português brasileiro e europeu (CÂMARA JR., 1970; MATEUS; D’ANDRADE, 2000). Tendo por foco /r, S, l/, detectamos a presença de alguns processos fonológicos que têm a coda como domínio, como apagamento, velarização e vocalização, os dois últimos característicos à lateral. Tais fenômenos, além de justificarem uma concepção hierárquica para a sílaba, sugerem que a coda é uma posição frágil, dentro dessa estrutura, no PST e no PP, estando propícia a apagamentos e alterações estruturais (SELKIRK, 1982), fato que culmina numa alteração do<italic id="italic-a2939f6ab599ab737890494a00ba27d0"> template</italic> silábico para a estrutura CV. Todavia, os dados também indicam que, em decorrência (i) das diferentes proporções de apagamento das codas investigadas; (ii) da diferença entre o conjunto de variáveis relevantes para o apagamento de /r, S, l/; e (iii) dos diversos processos que os acometem individualmente, a resolução atribuída à debilidade da coda tende a variar segundo a natureza de cada segmento. </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-1e95fa27304bd76eaa5aa2fc577fbe43">The goal of this paper is to describe the coda in Santomean (PST) and Principean (PP) Portuguese, varieties of Portuguese spoken in São Tomé and Príncipe. Thus, we aim to detect the segments licensed in coda and analyze deletion processes. Based on a corpus with 20 spontaneous speech interviews, we performed acoustic and quantitative analysis, applying a logistic regression test to examine linguistic variables relevant to the coda deletion. We verified that the coda, in PST and PP, can be filled by a rhotic, a sibilant, a lateral and an underspecified nasal (BALDUINO, 2018), with multiple phonetic productions of these phonological segments - as in Brazilian and in European Portuguese (CÂMARA JR., 1970; MATEUS; D’ANDRADE, 2000). Focusing on /r, S, l/, we detected the presence of some phonological processes with the coda as domain: segmental deletion, velarization and vocalization, the last two processes with /l/ as target. Such phenomena, besides justifying a hierarchical syllable structure in PST and PP, suggest that the coda is a fragile position within the syllable, being prone to deletions and structural changes (SELKIRK, 1982) which result into a CV structure. The data also indicate that, due to (i) different proportions of coda deletion among /r, S, l/; (ii) distinct variables selected by the statistical test and (iii) different processes that individually affect each consonant analyzed, the weakness of the coda varies according to each segment<italic id="italic-1">.</italic></p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">Português</kwd>
        <kwd content-type="">São Tomé e Príncipe</kwd>
        <kwd content-type="">Sílaba</kwd>
        <kwd content-type="">Coda</kwd>
        <kwd content-type="">Apagamento</kwd>
      </kwd-group>
    </article-meta>
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    <sec id="heading-ccc8e2eccc1944a584f71fb80176f2c9">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-2">Este estudo tem como propósito discutir o padrão consonantal licenciado em coda, focando nas consoantes /r, S, l/, em duas variedades do português falado em São Tomé e Príncipe (STP): o português falado em São Tomé e o português falado em Santo Antônio do Príncipe, doravante PST e PP.<xref id="xref-57eeabeb902e047bef8a02ebe43e1f2e" ref-type="fn" rid="footnote-d3604440a32bc7de7bdfdcc8d92e666c">1</xref> Para tanto, descrevemos os segmentos licenciados em tal constituinte e examinamos o processo de apagamento, uma vez que tal fenômeno promove reestruturação do <italic id="italic-3e958ebe0a01155739a8bb9afc0775b2">template</italic> silábico e pode ser um argumento para confirmar uma tendência tipológica ao padrão aberto CV no PST e no PP.</p>
      <p id="paragraph-3">O PST e o PP são falados em São Tomé e Príncipe, país da Costa Oeste africana localizado no Golfo da Guiné e cuja população conta com aproximadamente 187 mil pessoas (INE, 2012<xref id="xref-577209cf85138d6d536acbe9354bd961" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-6479af533015677446debce946250480">[1]</xref>). STP é um país multilíngue, onde três línguas autóctones que detêm o estatuto de línguas nacionais, o santome, o lung’Ie e o angolar, bem como uma quarta língua, o kabuverdianu<xref id="xref-347eab5de1a62f82d9c35e53acea2925" ref-type="fn" rid="footnote-f22cd22c26915655bf3876115e910eae">2</xref> convivem com o português. Apesar dessa diversidade linguística o português é, desde 1975, ano em que São Tomé e Príncipe torna-se politicamente autônomo em relação a Portugal, a única língua oficial do arquipélago. Atualmente, pouco mais de 98% da população se autodenomina como falante do português e, por ter caráter oficial, além de ser a língua mais prestigiosa em STP, em especial a variedade europeia, a língua portuguesa é ensinada nas escolas e transmitida, majoritariamente, como primeira língua, sendo, inclusive, a única língua de parte da população (ARAUJO; AGOSTINHO, 2010<xref id="xref-35881b2769a61fe6e63294dced9da869" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-db041ae351cb57ed7957a6e8ba05eb05">[2]</xref>; GONÇALVES, 2010<xref id="xref-dfcf2cf3a00f7240cd03c79a34c97da5" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-68929cbf81b938120dc472b14cab8a4f">[3]</xref>; BOUCHARD, 2017<xref id="xref-ab3e1fb23a0d288b106472c8245a2410" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-92c178a3afea06e7bd45a81e0049c7d2">[4]</xref>; ARAUJO, 2020<xref id="xref-8d33a8aec00835dfa665cb613750d659" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-e9fde374ac18788a073d48cebca5d9bd">[5]</xref>)<xref id="xref-cd4bc5746815261fbbb93e267420f93f" ref-type="fn" rid="footnote-c7b1c4561f31e3be9a6ef9c2746bfd5a">3</xref>.</p>
      <p id="paragraph-4">O PST e o PP, foco deste artigo, embora apresentem semelhanças estruturais com outras variedades, como o PB e o PE, possuem características inerentes, firmando-se como variedades efetivas do português. O PST e o PP não são, assim, versões destoantes do PE, apesar deste configurar o modelo linguístico institucionalizado e disseminado pela mídia e pela escolarização no arquipélago. Os processos em coda sistematizados neste artigo pretendem, justamente, enfatizar e contemplar a necessidade de descrição e documentação linguística do PST e do PP enquanto variedades legítimas da língua portuguesa.</p>
      <p id="paragraph-5">Considerando, portanto, o ambiente multilíngue no qual o PST e o PP estão inseridos e compreendendo a carência de descrição linguística de variedades de português africanas, o intuito deste trabalho é descrever o preenchimento consonantal da coda do PST e do PP, focando, além disso, em processos fonológicos que tenham como domínio esse constituinte, de modo que possam (i) justificar a presença de sílabas do tipo CVC nessas variedades; (ii) abrir margem à discussão sobre um padrão silábico aberto CV menos marcado; e (iii) propiciar comparações futuras com o português brasileiro (PB), o português europeu (PE) e outras variedades de português na África, como o português de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e, inclusive, com as demais variedades congêneres do português falado em São Tomé, como o português falado pelos caboverdianos e pelos angolares.</p>
      <p id="paragraph-6">Este artigo está organizado em quatro seções. Na primeira seção, caracterizamos o <italic id="italic-2">corpus</italic> empregado e definimos a metodologia de análise para, então, a partir da seção 2, iniciarmos a discussão efetiva do padrão consonantal licenciado em coda. Para tanto, dedicamos a seção 2.1 para o rótico, a seção 2.2 para a sibilante e a seção 2.3 para a lateral; a seção 2.4 apresenta uma comparação entre as três codas analisadas quanto ao apagamento. Por fim, as considerações finais são apresentadas na seção 3. </p>
      <p id="paragraph-60aa07c692b4895259807d5e3b1e5de1" />
      <sec id="heading-7cc0befe37b501414117492321f083c9">
        <title>1. <italic id="italic-b353323c1fa979b9ab4479cb8480f88a">Corpus </italic>e metodologia</title>
        <p id="paragraph-1">
          <bold id="bold-1" />
        </p>
        <p id="paragraph-0c6d35bfbdff8d5334b8b9ebe1a5525d">Para o desenvolvimento deste estudo, utilizamos dados de um <italic id="italic-5f1db6c2c1f65910a53a66b621d9e730">corpus</italic> coletado <italic id="italic-3">in loco </italic>na cidade de São Tomé e de Santo Antônio do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, constituído por entrevistas gravadas em 2016 e em 2019. No total, trabalhamos com vinte entrevistas, sendo dez para o PP e dez para o PST. Cada entrevista tem uma duração de aproximadamente 60 minutos, porém descartamos os 15 primeiros minutos, de modo a operar com uma produção menos controlada da fala vernacular dos informantes.<bold id="bold-2"/></p>
        <p id="paragraph-b8662376690c4e1feb5e5679535cdcfc">No caso do PP, os informantes foram cinco homens e cinco mulheres, com idades variando entre 22 e 50 anos, todos naturais da ilha do Príncipe. Quanto ao PST, foram entrevistados quatro homens e seis mulheres, com idades entre 18 e 52 anos, todos naturais da ilha de São Tomé. Em ambas as variedades do português, os informantes tinham o português como língua materna e níveis de escolaridade que variam entre quatro anos de escolarização e o ensino superior. Assim, os fatores sociais: sexo, idade e nível de escolaridade podem influenciar os resultados deste estudo. Nosso objetivo, todavia, é sugerir uma descrição introdutória da coda consonantal, no PP e no PST, a partir de uma perspectiva exclusivamente estrutural, de modo a avaliarmos o comportamento da sílaba CV(C) em tais variedades, então, analisamos apenas variáveis estruturais. </p>
        <p id="paragraph-34041352260ceea5f0ef8ba5533980dc">O <italic id="italic-4">corpus</italic> é composto por todas as ocorrências das palavras com coda preenchida por róticos, sibilantes e lateral – desde que estas não houvessem sofrido ressilabificação em fronteira de palavra morfológica.<xref id="xref-4f3776b946fd25170724b81eeaf94bac" ref-type="fn" rid="footnote-f70f46a49e52d57a71c6fb2408fff030">4</xref> Esse método tem como propósito registrar as possíveis realizações de um mesmo item lexical, posto que um mesmo falante pode pronunciar uma mesma palavra de formas distintas (CHRISTOFOLETTI, 2013<xref id="xref-93edd7b94c2d42c14d4355a70b736c3a" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-01db3dfa24bce8eae9e63e276cc175f2">[6]</xref>). No total, para o PP, contabilizamos 3.990 ocorrências, sendo 1.784 para rótico, 1.469 para sibilante e 737 para lateral. Já para o PST, o total de ocorrências contabilizado foi de 3.282, sendo 1.324 para o rótico, 1.207 para a sibilante e 751 para a lateral. Essas ocorrências foram submetidas a uma análise acústica, de modo a identificarmos as variantes observadas, bem como a ocorrência de possíveis processos fonológicos sob o domínio da coda. Para isso, nos valemos do programa <italic id="italic-5">Praat </italic>(BOERSMA; WEENINK, 2020<xref id="xref-ca86a1b549d3b211ed264c9d3cf81f53" ref-type="bibr" rid="software-ref-3691aa1b72bce6f199caada59d5585fd">[7]</xref>), por meio do qual, considerando as formas espectrais geradas, delimitamos as possíveis realizações fonéticas na coda dentro do <italic id="italic-6">corpus</italic> analisado.</p>
        <p id="paragraph-4687668e47864c7b844234f1927a567e">Após os exames espectrais que identificaram os casos de apagamento – bem como de outros processos –, realizamos a análise quantitativa. Apesar de não adotarmos os pressupostos teóricos da sociolinguística, aplicamos o modelo estatístico empregado por tal teoria: a regressão logística, e o tratamento quantitativo dos dados foi realizado pelo Rbrul<xref id="xref-bd11c31c069f6229ea1d5314e33f3f7d" ref-type="fn" rid="footnote-034af8effd5ecc9a4bebd204341889cb">5</xref>, um software que roda na plataforma R ou na sua interface RStudio<xref id="xref-8309c46b424fc6b062414ada82e355c3" ref-type="fn" rid="footnote-c5b2c93dcd307ba29289c59408cdb0aa">6</xref>. A regressão logística é um tipo de modelagem dos dados que possibilita a verificação do efeito simultâneo de múltiplas variáveis independentes na aplicação de uma regra variável. Nesse caso essa regra é o apagamento do segmento consonantal em coda, assim, foram realizadas seis análises, sendo uma para cada um dos três segmentos consonantais: o rótico, a sibilante e a lateral nas duas variedades do português em observação.</p>
        <p id="paragraph-d34a152b3baaf3902d08bbd9d66c1a77">As variáveis controladas, em todas as análises, foram: a classe gramatical da palavra (<italic id="italic-7">verbo</italic> e <italic id="italic-8">não-verbo</italic>), a tonicidade da sílaba (<italic id="italic-9">átona </italic>e<italic id="italic-10"> tônica</italic>), a posição do segmento na palavra morfológica (<italic id="italic-11">final </italic>e<italic id="italic-12"> medial</italic>), e o contexto fonológico precedente ([a, ɛ, ɔ, i, e, o, u] e a coda /N/). Nas duas análises de apagamento da sibilante foi acrescentada uma quinta variável: função morfológica (<italic id="italic-13">singular</italic> e <italic id="italic-14">plural</italic>), a fim de verificar se o apagamento da sibilante possui uma interface morfológica, já que a sibilante pode portar a informação gramatical de plural em sintagmas nominais.</p>
        <p id="paragraph-7">O Rbrul calcula o <italic id="italic-15">peso relativo,</italic> para cada fator de uma variável<xref id="xref-50d10dd71c68361e1bd357a9582ce0d4" ref-type="fn" rid="footnote-f19bf464267dbac4880baaae93181de0">7</xref>, que consiste num valor probabilístico – proporção de ocorrências da variante de interesse em relação ao total – numa escala que vai de 0 a 1 em que 0 representa uma chance nula de algo ocorrer (0%), 1 representa certeza de que vai ocorrer (100%) e 0,5 é o ponto neutro, já que equivale a 50% de certeza de que algo aconteça. Além disso, também calcula o <italic id="italic-16">input</italic>, que representa o nível geral de uso de determinado valor da variável dependente, nesse caso, o apagamento de um segmento consonantal em coda. O valor do <italic id="italic-17">input</italic> deve se aproximar da frequência de aplicação da regra, calculada para a amostra total e quando isso não ocorre, é um indicativo de que a distribuição dos dados, através dos fatores analisados, não é equilibrada. Os pesos relativos são calculados em relação a esse nível geral. (GUY; ZILLES, 2007<xref id="xref-53e4954e6a6e62a7207e3066a4d86c14" ref-type="bibr" rid="book-ref-5bc7e702cb4f5d6d8a5bba54e91a9971">[8]</xref>; OUSHIRO, 2017<xref id="xref-d714247fa6c1bdb3955ab086657d4f62" ref-type="bibr" rid="book-ref-cbca852e70501fa338e2a6fd2872b9cf">[9]</xref>; VIEIRA; BALDUINO, no prelo<xref id="xref-575397423bf65fc2470f1725940267ec" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-bc4fa3fe33886fddf360ec4fc45a3dc5">[10]</xref>). </p>
        <p id="paragraph-8">O software também fornece o valor de significância do modelo, também chamado <italic id="italic-18">valor-p,</italic> que é a probabilidade de se observar determinada distribuição em caso de a hipótese nula ser verdadeira - no caso, que não há relação entre a variável dependente (o apagamento da coda) e as variáveis independentes. Se tal probabilidade for muito baixa, a distribuição dos dados observada é estatisticamente significativa. Nesse caso, o efeito que está sendo testado é verdadeiro, já que, a probabilidade de ocorrer por acaso é muito pequena, assim, quanto menor o valor de <italic id="italic-19">p</italic> mais significativo é o modelo. A comunidade científica costuma usar o limite de 0,05 (ou 5%) para considerar algo como muito pouco provável para acontecer ao acaso (GUY; ZILLES, 2007<xref id="xref-03fe7a389409c3db38b8175bf2a7571f" ref-type="bibr" rid="book-ref-5bc7e702cb4f5d6d8a5bba54e91a9971">[8]</xref>; OUSHIRO, 2017<xref id="xref-84027d85f1b7fdab64a777f33b338032" ref-type="bibr" rid="book-ref-cbca852e70501fa338e2a6fd2872b9cf">[9]</xref>; VIEIRA; BALDUINO, no prelo<xref id="xref-312d116eed09bce0b042c6838b414039" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-bc4fa3fe33886fddf360ec4fc45a3dc5">[10]</xref>). </p>
        <p id="paragraph-9">Nas seções a seguir, descrevemos os resultados da análise proposta. Primeiramente, demarcamos, com base no <italic id="italic-20">corpus</italic>, a constituição consonantal da coda no PST e no PP e, posteriormente, sugerimos uma caracterização geral, tanto fonológica, como fonética, das consoantes alvo nessa posição, examinando, paralelamente, alguns processos fonológicos que promovem reestruturação silábica como a ressilabificação e, principalmente, o apagamento segmental. Para tanto, apoiamo-nos no modelo teórico da fonologia autossegmental (GOLDSMITH, 1990<xref id="xref-389b6199465d086a9d51e27081a64a7a" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-d911c887475bbe0f6392bed004b972e7">[11]</xref>), bem como na literatura dedicada à descrição silábica do PB e do PE (BISOL, 1999<xref id="xref-e50d0384ccf6a7ffac37bd08dc7ef1cd" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-13992ea7685f0e8d3fbf0195a4fe6731">[12]</xref>; MATEUS; D’ANDRADE, 2000<xref id="xref-78b2d56e4fbdc2e81732974d4b8e0ea3" ref-type="bibr" rid="book-ref-366ea880c0ef517749ee4522a6e9a6b5">[13]</xref>). </p>
        <p id="paragraph-4cf80f2cb1bf650ab673de0e8fa88556" />
      </sec>
      <sec id="heading-f90268964b76c90e85d46218a0949e20">
        <title>2. A coda no português vernacular santomense  e principense</title>
        <p id="paragraph-715a3ad0d938d44f2838f8c497f8881c" />
        <p id="paragraph-19c4f66be0d49b37f5608b95866b7acc">Nesta seção, delimitamos quais consoantes são licenciadas em coda no PST e no PP, e, em seguida, identificamos alguns processos fonológicos observados dentro desse domínio. Para tanto, a exemplo de Araujo e Balduino (2019<xref id="xref-fc237593929721c76e6c314b4eb9f0be" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-ab3284a201e3474ba71a4c4160a1c536">[14]</xref>), Balduino (2019<xref id="xref-15751ecb980c5037fb05fb86b66a61b8" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-ba119c5012d1f3bbcc05c91f807bd780">[15]</xref>), Balduino e Vieira (2020<xref id="xref-ea9f3f535de35e9422fd283aad479f15" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-60d2bda024dd1f48135f7a60e122f8d3">[16]</xref>) e Vieira e Balduino (2020<xref id="xref-b13c0ce6afeddfbd87141fdf2fc830cc" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-35415fd6c00f69c2fbb5e834b2dd9f64">[17]</xref>), que atestam a relevância de uma estrutura hierárquica para análise da sílaba no PST e no PP, assumimos que a sílaba, nessas variedades, é formada pelos seguintes constituintes: <italic id="italic-f18501c27b285dc3f6ecbc5a0947d1be">onset</italic> (O) e rima (R), a qual se subdivide em núcleo (Nu) e coda (Co) (SELKIRK, 1982<xref id="xref-11369f1cbc0455f18e75ad53d7f9fef2" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-92ad6be587266759f9b9855fa72156b2">[18]</xref>; BLEVINS, 1995<xref id="xref-ffe17c93c58e787d50c4917621a02519" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b12d5472a284ae4929e93d9e94852f23">[19]</xref>). A figura 1 indica a estrutura silábica de forma geral:</p>
        <fig id="figure-panel-9e45214c362a42525dfcd53b3fd6306d">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <title>FIGURA 1 - Estrutura silábica hierárquica (SELKIRK, 1982<xref id="xref-f0e674ad98fde553d12e83ff5bf4b760" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-92ad6be587266759f9b9855fa72156b2">[18]</xref>; BLEVINS, 1995<xref id="xref-93689e3b12f67a7d4c703223248e21ff" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b12d5472a284ae4929e93d9e94852f23">[19]</xref>)</title>
            <p id="paragraph-48b69f9edae029d2d6a2257c3df3e31d" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-6011deb3edb5d26080b51cce5b343e06" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Figura 1.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-12">Com base no <italic id="italic-a84cb4d316b171aac1e2b823568d3799">corpus</italic> formado por 7.272 ocorrências (3.990 para o PP e 3.282 para o PST) e considerando o trabalho de Balduino (2018<xref id="xref-9afce5310ca2b1d15a45367b98357fef" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-a9735640640ff9581babc89d2a612bb1">[20]</xref>), estabelecemos, na figura 1, as consoantes possíveis na coda para o PST e o PP. Semelhante ao PB e ao PE, com exceção da sibilante, todas as consoantes identificadas na fronteira silábica são [+soantes], totalizando quatro segmentos fonológicos distintos: (i) uma nasal /N/ (BALDUINO, 2018<xref id="xref-1dde29730e58c30eec9acd2e403bea2e" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-a9735640640ff9581babc89d2a612bb1">[20]</xref>); (ii) uma sibilante /S/; (iii) um rótico /r/ e (iv) uma lateral /l/. </p>
        <fig id="figure-panel-4357fc67ed575dea1b241ecce34f47af">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <title>FIGURA 2 - Coda fonológica no PP e no PST</title>
            <p id="paragraph-a8d094bc2aafab441a61ed9c9e6e2ea3" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-1425dbf091eb870cb1fb261d7435a4ef" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Figura 2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-16">Tendo por foco as consoantes apontadas na figura 1, observamos, no <italic id="italic-c2b29e7bd8996692bc6a009866a05a76">corpus</italic>, que tais segmentos, quando opostos na coda: (i) podem promover distinção de significado, como em <bold id="bold-09e59d4cb0469a2cc4fe70ffdbdd1fa3">mar</bold> /mar/ ['maɾ] <italic id="italic-ed46746ce44e250b038a1603fcaf3e90">x</italic> <bold id="bold-5ead05268fae828dcf1dc385a8ac2f5b">mal </bold>/mal/ ['maɫ] <italic id="italic-578fca3ef44e329d95a90a8949345d16">x</italic> <bold id="bold-3">mas</bold> /maS/ ['maʃ], <bold id="bold-4">lã</bold> /laN/ ['lɐ̃] <italic id="italic-d8bbac9ac85edfda9fecd170b0999757">x<bold id="bold-5"> </bold></italic><bold id="bold-6">lar</bold> /lar/ ['laɾ], entre outros, e (ii) são possíveis tanto em sílabas tônicas quanto em sílabas átonas (quadro 1).<bold id="bold-7"> </bold>Como pode ser observado no quadro 1,<bold id="bold-8"> </bold>há, foneticamente, diferentes realizações na coda, havendo variação em relação ao ponto de articulação e, no caso da sibilante, ao vozeamento.</p>
        <fig id="figure-panel-027fd924aa9d259de104ea0f8140f0cc">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-9">QUADRO 1-</bold> Codas em PP e PST</title>
            <p id="paragraph-4b71de1204d939fb2c6fb97275df5cda" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-14205eb6066da9cb45dca84070a7e0c4" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Quadro 1.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-20">Os segmentos /N/, /S/, /l/, /r/, licenciados na coda do PST e do PP, também podem ocorrer no <italic id="italic-2d58a940260517b7bd44a2f1f11c1344">onset</italic>, com a ressalva de que a nasal e a sibilante quando em coda não possuem o ponto de articulação especificado<xref id="xref-df4d38d07cbb21f1cdd3818b5f5e84a5" ref-type="fn" rid="footnote-ff2fdcdd6692c12c93563352d4dcbbf0">8</xref>. Observa-se então que a coda é um subconjunto do onset, comportamento que, segundo Goldsmith (1990<xref id="xref-8a619470af99afc338958792c6469d91" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-d911c887475bbe0f6392bed004b972e7">[11]</xref>), ocorreria pelo fato de a coda ser um licenciador secundário, permitindo menos contrates que o <italic id="italic-e74e798654d2a0881b2a3acfbebdf97f">onset</italic>, este um licenciador primário por se ligar diretamente ao nó silábico.</p>
        <p id="paragraph-21">Durante a silabificação, a coda só seria desenvolvida após o <italic id="italic-f800d304fc37e9087762097f225f2aae">onset</italic>, em consonância com o <italic id="italic-3da884bc0d0e26d5a79e53e7092fbaa4">Princípio de Maximização do Ataque</italic> (SELKIRK, 1982<xref id="xref-1eba6ea9c3f59452f58f89f60e1e9c9e" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-92ad6be587266759f9b9855fa72156b2">[18]</xref>). Assim, nas línguas, como é o caso do português, primeiro haveria a formação do núcleo, seguida do mapeamento dos segmentos à esquerda (gerando o <italic id="italic-bb6045c0d94ad1c9b4c97973bf03ad48">onset</italic>) e, só ao final, a coda seria estabelecida (BISOL, 1999). Como reflexo dessa formação mais tardia, a coda seria a posição mais fraca da sílaba, estando sujeita a mudanças que preconizam o molde CV (SELKIRK, 1982<xref id="xref-0886f6f136c4187ff68f9c196cbba596" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-92ad6be587266759f9b9855fa72156b2">[18]</xref>).</p>
        <p id="paragraph-22">Após essa caracterização geral da coda consonantal fonológica do PST e do PP e considerando que essa posição silábica sofre diversos processos de enfraquecimento (tal qual ocorre no PB e no PE), nas seções seguintes, serão apresentadas as realizações fonéticas das codas /r/, /S/ e /l/ presentes no <italic id="italic-fa54f6827fbd77ad20da431b15e90123">corpus</italic> sob análise, passando em seguida para a discussão de processos fonológicos que atingem essa posição.</p>
        <p id="paragraph-23" />
      </sec>
      <sec id="heading-d54e2c9fcd9ebb53d6822022ef1aa9da">
        <title>2.1 O rótico</title>
        <p id="paragraph-26" />
        <p id="paragraph-27">No PST e no PP, o rótico, quando na coda, pode ser foneticamente realizado como um tepe [ɾ], uma vibrante [r], uma fricativa glotal surda [h] ou sonora [<ext-link id="external-link-2">ɦ</ext-link>], uma fricativa uvular sonora [ʁ] ou mesmo uma vibrante uvular sonora [ʀ]. Ademais, o rótico pode, ainda, sofrer processos como lambdacismo e vocalização, sendo produzido, de modo menos frequente, como uma lateral velar [ɫ] ou um glide [w]. Em (1), apresentamos as alternâncias fonéticas supracitadas que foram observadas nos dados:</p>
        <p id="paragraph-28" />
        <p id="paragraph-29">(1) </p>
        <p id="paragraph-30">a. ma[ɾ] ~ ma[ʁ] ~ ma[r] ~ ma[h]</p>
        <p id="paragraph-31">b. co[ɾ]da ~ co[ʁ]da ~ co[ʀ]da ~ co[ɦ]da</p>
        <p id="paragraph-32">c. pe[ɾ]to ~ pe[ʁ]to ~ pe[h]to ~ pe[r]to ~ pe[ɫ]to</p>
        <p id="paragraph-33">d. ne[ɾ]vosa ~ ne[ɫ]vosa ~ ne[w]vosa</p>
        <p id="paragraph-34" />
        <p id="paragraph-35">Um mesmo falante pode oscilar entre a realização de um r-fraco ou tepe e de um r-forte, comumente realizado como uma fricativa uvular ou mesmo uma vibrante alveolar, ou até empregar um e tender a não empregar o outro, quer em posição de coda (2.a), quer em posição de <italic id="italic-55b5b0221ce42c916e5a1e1bd4e44f59">onset</italic> como primeiro segmento no início de palavra (2.b), no <italic id="italic-36acdec9885e5471587f522626efdb2b">onset </italic>em meio de palavra e, por isso, intervocálico (2.c), ou antecedido por uma sílaba fechada por coda (2.d), ou no segundo elemento de um <italic id="italic-1939e9ee97a90417df997943b7682357">onset</italic> complexo (2.e).<xref id="xref-0a4912bb5e8310f5d433bc9b6fe75afa" ref-type="fn" rid="footnote-cf5d198728051e0d3dfc35a3b802701a">9</xref></p>
        <p id="paragraph-36" />
        <p id="paragraph-37">(2) </p>
        <p id="paragraph-38">a. ma[ɾ] ~ ma[ʁ]</p>
        <p id="paragraph-39">b. [ɾ]oda ~ [ʁ]oda ~ [r]oda</p>
        <p id="paragraph-40">c. ca[ɾ]o ~ ca[ʁ]o ~ ca[r]o “carro ou caro”</p>
        <p id="paragraph-41">d. hon[ɾ]a ~ hon[ʁ]a</p>
        <p id="paragraph-42">e. p[ɾ]imo ~ p[ʁ]imo</p>
        <p id="paragraph-43" />
        <p id="paragraph-44">Como observado em (2), a alternância entre um r-fraco [ɾ] e um r-forte, aqui representado como [ʁ], culmina, inclusive, na neutralização sonora de alguns pares mínimos, que passam a ser homônimos. Este é o caso de <bold id="bold-10">carro </bold>e <bold id="bold-11">caro</bold>, ambos produzidos como ['kaɾʊ] ou ['kaʁʊ] a despeito de manterem a distinção semântica. Embora a alternância e a instabilidade na produção do rótico nas variedades do português faladas em STP venham sendo recentemente documentadas (AGOSTINHO, 2016<xref id="xref-7e5c899f89a5e5e4e7de26fa9395fa5a" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-9e9bdd35faece619d758d550feb697be">[21]</xref>; BRANDÃO <italic id="italic-8e39de21e3d4bdf5faa0854654857064">et al</italic>., 2017<xref id="xref-c78dfd1d87553428448fa76b216aa114" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-9d6eface3314a5f745b55ae90f6dd888">[22]</xref>; BOUCHARD, 2017<xref id="xref-b8c5ae1806a64b63122b5c779ad82d84" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-92c178a3afea06e7bd45a81e0049c7d2">[4]</xref>; AGOSTINHO; SOARES; MENDES, 2020<xref id="xref-7847805735ecac96067a09ba7136339d" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-724991d411ffd9b63433fc4d75d78d3a">[23]</xref>), essa é uma questão que ainda precisa ser mais discutida, já que pode contribuir com o debate em torno do estatuto do rótico no estabelecimento do quadro consonantal do PST e do PP.</p>
        <p id="paragraph-45">De acordo com Bouchard (2017<xref id="xref-39c9b41da36ce452a46167dee800d4f0" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-92c178a3afea06e7bd45a81e0049c7d2">[4]</xref>), a alternância dos róticos possui a faixa etária como variável relevante, posto que o uso de [ʁ] é favorecido pelas gerações mais jovens de São Tomé, fato que seria um indício de mudança linguística em curso: [ɾ] &gt; [ʁ]. Essa hipótese é examinada por Agostinho, Soares e Mendes (2020<xref id="xref-3beeff0b20e604375f79c4cb0b1566f4" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-724991d411ffd9b63433fc4d75d78d3a">[23]</xref>) que, mediante experimentos, defendem a perda de contraste dos róticos no Português do Príncipe (AGOSTINHO; SOARES; MENDES, 2020<xref id="xref-c44ac6c5d6034a1755969a2cf310f3ad" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-724991d411ffd9b63433fc4d75d78d3a">[23]</xref>). Os trabalhos de Bouchard (2017<xref id="xref-0b77a22145a866ed8e756dd12e106e97" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-92c178a3afea06e7bd45a81e0049c7d2">[4]</xref>) e de Agostinho, Soares e Mendes (2020<xref id="xref-9805f8e5c25c4919d534ba0d2f795779" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-724991d411ffd9b63433fc4d75d78d3a">[23]</xref>) indicam instabilidade no inventário fonológico do PST e do PP no que se refere ao rótico. Neste estudo, a exemplo de Vieira e Balduino (no prelo), analisaremos o rótico em coda, bem como seu apagamento, considerando a existência de [ɾ] e [ʁ] como formas concorrentes, as quais serão referidas como /r/, dado que não temos uma mudança já consolidada e nem são constatados pares mínimos que atestem a existência de dois róticos distintos no quadro consonantal do PST e do PP. Assumindo que a representação /R/ pressupõe a neutralização de um fonema numa determinada posição, esta não será adotada, pois, como indicado em (1), a alternância entre os róticos não é determinada por fatores estruturais.</p>
        <p id="paragraph-46">Além da profusa variabilidade fonética, o rótico em coda, quando realizado, pode desencadear um processo de sândi, ou <italic id="italic-510ede3c4a66138d56fb3c9c6da8d9ad">tapping</italic> (TENANI, 2002<xref id="xref-6195eb6395c75ec9666d45262ebbfbec" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-ce3cf08bf74b2068307dee3528a70421">[24]</xref>), a depender do contexto segmental da palavra seguinte. Caso a palavra seguinte seja iniciada por uma vogal, o rótico é ressilabificado e passa a ocupar a posição de <italic id="italic-aeac68e871215f7ddab8f64e119af42d">onset</italic> na sílaba, sendo produzido, nesses casos, como tepe (3) ou como uma fricativa (4)<xref id="xref-730b121d0bf56afcf86a558abdf2df8f" ref-type="fn" rid="footnote-c8a581696352678c259f7e1228fbd57f">10</xref>.</p>
        <p id="paragraph-47" />
        <p id="paragraph-48">(3) Fortalecer a fé<italic id="italic-f8d44ce3324eb2665366f6b7bd80bb45"> = fortalece</italic>[ɾa]<italic id="italic-b33c0f11fb40802c760fe811e56a64a4">fé</italic></p>
        <p id="paragraph-49">(4) Melhor ainda<italic id="italic-21"> = melho</italic>[ʁa]<italic id="italic-22">inda</italic></p>
        <p id="paragraph-50" />
        <p id="paragraph-51">Ainda sobre a ressilabificação, observamos que a fronteira de palavra é relevante, já que somente quando está em final de palavra, o rótico pode ser dissociado da coda e, em seguida, ser associado a um <italic id="italic-23">onset</italic>, formando uma sílaba CV com a vogal em início de palavra do item seguinte. O mesmo processo é realizado em casos de produção de vogal paragógica em final de palavra. No PST e no PP, em alguns casos, constatamos a presença de uma vogal alta, ora [i], ora [u], em outrora fronteira de palavra, seguindo o rótico em coda, como indicado em <bold id="bold-12">mar </bold>['mar<bold id="bold-13">u</bold>], <bold id="bold-14">buscar</bold> [buʃ'kaɾ<bold id="bold-15">i</bold>] e <bold id="bold-16">puder </bold>[pu'dɛɾ<bold id="bold-17">i</bold>]. Nesses exemplos, observamos que o rótico é reinterpretado em decorrência da inserção da vogal paragógica e, por isso, passa a ocupar o <italic id="italic-24">onset</italic> da sílaba.</p>
        <p id="paragraph-52">Dentre os processos observados com o rótico em coda, o fenômeno mais recorrente foi o apagamento, processo que altera a estrutura silábica CVC em CV. Esse processo será discutido na seção 2.1.1 a seguir considerando variáveis estruturais que podem favorecê-lo ou não.</p>
        <p id="paragraph-cb9ca0682dda7283666a315ff13def59" />
      </sec>
      <sec id="heading-30fcf6337150a798b3f41d869ff2adff">
        <title>2.1.1 Apagamento de rótico em coda </title>
        <p id="paragraph-4e47a3cbe644b16177cdd92d197001c8" />
        <p id="paragraph-69c1a22f0d41c71ec86c958356da1dfe">Considerando um total de 3.108 ocorrências (1.324 para o PST e 1.784 para o PP), constatamos que o apagamento do rótico foi um processo recorrente, sendo identificado em 57,4% dos dados investigados no PST e em 57,9% no PP, como discriminado no quadro 2.</p>
        <p id="paragraph-bbb61a915e70ea328fe2d2311ca4c8fd">
          <bold id="bold-d61ead093356de71f1044d33c16205cb" />
        </p>
        <fig id="figure-panel-82313cc1c40f840b405adccf1e087b5b">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-c01bb523c317041b0acff5c23da9a97a">QUADRO 2 -</bold> Apagamento do rótico em coda no PST e no PP</title>
            <p id="paragraph-8fedef83e66905600aeba7df2bb84fee" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-edef0d3b36250f1c6422c9c6d51ea108" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Quadro 2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-d89abf6d4f87027138af41d1447baa6f">Ademais, no quadro 2, notamos, ainda, que as variáveis relevantes para o apagamento do rótico, no PST, foram a posição e a classe gramatical, ao passo que, para o PP, além de tais variáveis, o contexto vocálico precedente também se mostrou importante. </p>
        <p id="paragraph-cbc415b75920fc6ac3e3b25783d5e816">Na tabela 1, é possível observar que, dentre as variáveis testadas, a posição do segmento foi a variável mais relevante para a aplicação da regra de apagamento do rótico no PST (<italic id="italic-c18f6cb2404da4df251bd1f18db5f781">range</italic> de .34<xref id="xref-19bb515462fc19339e3e4c9138aad0d1" ref-type="fn" rid="footnote-e0091ef70ba941e5d1153a99367bf2a4">11</xref>), sendo que o apagamento do rótico é favorecido em fronteira de palavra (76,3%; P.R. .67) e desfavorecido em posição medial (35,7%; P.R. .33). Quanto à classe gramatical, o maior índice de apagamento encontra-se entre os verbos (73,7%; P.R. .58), e o menor está entre não-verbos (40,2%; P.R. .42). </p>
        <fig id="figure-panel-90908741ec8d49f0606db49f5d6820c6">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-71ec06b7f27bbf2f6b9313bd0e1e591a">TABELA 1-</bold> Variáveis atuantes no apagamento do rótico em coda no PST</title>
            <p id="paragraph-0fcb0a7bbc881ca1425067f1c8d74b75" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-3e3a71cf5023ddd4ddccf7b633ad1686" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Tabela 1.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-10">A tabela 2 mostra que o PP apresenta resultados semelhantes ao PST, já que os maiores índices de apagamento ocorrem em final de palavra (79,5%; P.R. .69) e em verbos (78,3%; P.R. .64), sendo o processo ainda mais favorecido no PP do que no PST em verbos. O apagamento é desfavorecido em meio de palavra (26,5%; P.R. .31) e em itens não-verbais (30,4%; P.R. .36). No que diz respeito ao contexto vocálico precedente, as vogais [a] (74,3%; P.R. .62) e [ɛ] (51,6%; P.R. .61) favoreceram o fenômeno e [o] (25,3%; P.R. .36) e [ɔ] (27,3%; P.R. .36) o desfavoreceram, diferente do que ocorreu no PST, uma vez que, o contexto precedente não foi selecionado como uma variável relevante para o apagamento do rótico. </p>
        <fig id="figure-panel-ac027a48e08cbcdc4194f8d287c3ffad">
          <label>Figure 6</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-29194e5cdc2612781eb44bdc5a14fadc">TABELA 2 -</bold> Variáveis atuantes no apagamento do rótico em coda no PP<bold id="bold-08205c40742864059f7e39d656427cf6"/></title>
            <p id="paragraph-fe797893787e0f09e4f881977852e381" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-03cfadbb844a052d4b48434168b264e1" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Tabela 2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-0c88fb392138ad721207fd5561adb548">O apagamento do rótico, como discutido nessa seção, é um processo produtivo tanto no PST (57,4%) quanto no PP (57,9%), atingindo, em ambas as variedades do português, uma proporção superior a 50%<xref id="xref-d964fa091d4cabee6665cd513db9cca0" ref-type="fn" rid="footnote-714eddafd59b5b9db381dddfec88c95e">12</xref>. Essa produtividade do cancelamento do rótico na coda, em consonância com as diferentes realizações do rótico nesse constituinte, as quais alternam de uma vibrante múltipla alveolar a um zero fonético, podem ser interpretadas, <italic id="italic-ffc4424a0afe11d45e8233be688d0921">a priori</italic>, como um processo de enfraquecimento segmental em direção à simplificação silábica para uma estrutura CV (CALLOU; LEITE; MORAES, 2002<xref id="xref-faa1fa86e396633fed9262f9552e7815" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b276300bb04f39bab54aa5f6d3f0b7c2">[25]</xref>). De acordo com essa perspectiva, as possibilidades fonéticas do rótico em coda, inclusive sua vocalização e, principalmente, seu apagamento, poderiam ser explanadas conforme uma simplificação articulatória, em que os sons que envolvem articulações mais complexas variam com sons menos complexos até serem apagados (CALLOU; LEITE; MORAES, 2002<xref id="xref-05a559578f089bc1a96196dd8cead19a" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b276300bb04f39bab54aa5f6d3f0b7c2">[25]</xref>). O cancelamento do rótico, assim como a ressilabificação desse segmento em <italic id="italic-4d2163166c973238a523bc273d99b3a5">onset</italic>, seja sintaticamente ou pela inserção de uma vogal paragógica, apontaria, então, a uma tendência do PST e do PP, à semelhança do PB, em buscar o padrão CV, ao contrário do PE, que, no geral, mantém a estrutura CVC (BRANDÃO; MOTA; CUNHA, 2003<xref id="xref-30188c4ef93d68c39d86ee6e397216af" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-97aa1e14535961b1a191383d1ab5d44f">[26]</xref>; VIEIRA; BALDUINO, 2020<xref id="xref-d6a530e4c0b19a081e1d11906073c17c" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-35415fd6c00f69c2fbb5e834b2dd9f64">[17]</xref>). </p>
        <p id="paragraph-14">De modo a avaliar o comportamento da coda no PST e no PP e avaliar a hipótese de que tais variedades podem apresentar uma tendência a alterar o <italic id="italic-b4314751c18913086f7207917ad695c2">template</italic> silábico CVC em CV, é preciso avaliar se o apagamento também é recorrente em outras consoantes licenciadas em coda. Assim, discutida a realização do rótico em coda, examinaremos, na próxima seção, além das possíveis realizações da sibilante, a possibilidade de apagamento de /S/, verificando, caso sua ocorrência seja atestada, quais são os fatores que favorecem para o apagamento da fricativa.</p>
        <p id="paragraph-4b76a811813417e4b2f03b2fa9370b30" />
      </sec>
      <sec id="heading-9753c0ac8a4f5138e661e391093b05c5">
        <title>2.2 A sibilante</title>
        <p id="paragraph-f0556c0c700f991811ff9a6ba6702188" />
        <p id="paragraph-53bfafe447dec7abb9d6891777dc6a5d">A sibilante em coda, representada, neste trabalho, como /S/ por ter o ponto de articulação subespecificado neste constituinte (MATEUS; D’ANDRADE, 2000<xref id="xref-5d1636c668c6959a4ed785e50e0f82fc" ref-type="bibr" rid="book-ref-366ea880c0ef517749ee4522a6e9a6b5">[13]</xref>), pode ser produzida como uma fricativa pós-alveolar [ʃ], por meio do preenchimento de [coronal, -anterior], ou como uma fricativa alveolar [s], decorrência do preenchimento de [coronal, +anterior], ambas possuindo suas contrapartes sonoras [ʒ] e [z]. </p>
        <p id="paragraph-34bb4f5839c6c4d72889c32997c5b274">No geral, quando /S/ é seguido por qualquer consoante [+vozeada], é realizado como uma fricativa sonora em decorrência do espraiamento do traço de vozeamento do segmento contíguo, como indicado em <bold id="bold-ab12db482f11b950201c0b669832f19a">mesmo</bold> [ˈmezmʊ] ~ [ˈmeʒmʊ], exemplo no qual a fricativa é [+vozeada] em decorrência de [m], uma consoante sonora que se comporta como gatilho do vozeamento (5.a). Esse espraiamento é sempre regressivo e, portanto, não é promovido pelo segmento anterior à coda fricativa. Logo, em itens como <bold id="bold-9ae7cec97ebb94251b495a45ab326ac0">buscar</bold> [buʃˈka], /S/ é produzido como uma fricativa surda, independentemente do segmento anterior ser uma vogal (5.b). O compartilhamento de traços parece ser um fator favorecedor, também, para a produção de uma fricativa alveolar na coda, já que, nos casos em que [s, z] foram identificadas em coda, a consoante seguinte geralmente era uma oclusiva [coronal] e [+anterior], como em <bold id="bold-f4f5877d5d605ded40bb6d8e21277081">cesto </bold>['sestʊ] (5.c), porém este nem sempre era um fator necessário, como indicado em (5.a). Em final de palavra, em contexto que não engatilha sândi consonantal, [ʃ] e [s] são produzidas (5.d).</p>
        <p id="paragraph-b69fd3b79de6625b3ee1f9866f819a84" />
        <p id="paragraph-70f4804b237705b1b1306c01fcfe8087">(5) </p>
        <p id="paragraph-5804bfa5df2e10813bd7bb1859c90f01">a. me[ʒ]mo ~ me[z]mo</p>
        <p id="paragraph-9daddd42c99c646036b20741fabc84a4">b. bu[ʃ]car ~ bu[s]car</p>
        <p id="paragraph-47785ffaf6a352188f544a8f3789e066">c. ce[ʃ]to ~ ce[s]to </p>
        <p id="paragraph-cffb0c99ff5f595554779007376b2455">d. ma[ʃ] ~ ma[s] </p>
        <p id="paragraph-fafc5e1643c0afa9d9846fa3d1c6c8e0" />
        <p id="paragraph-6fca0b430df19d93afba075859f5168f">As sibilantes na coda foram identificadas, ademais, em fronteira de palavra. Assim como delimitado para os róticos, quando a palavra seguinte era iniciada por vogal, esse ambiente correspondia a um <italic id="italic-f48cb40b137d288fdba376fddf298186">locus</italic> de sândi consonantal<italic id="italic-698b6c71730e65c73e5e7f019a8c9ca5">,</italic> e, por isso, a consoante era ressilabificada para a posição de <italic id="italic-e0fcbeba6c59791620857dd7bfc90f5d">onset</italic> como em (6) e (7).</p>
        <p id="paragraph-15a7ec527e85eb8640ea8e6972ac4edb" />
        <p id="paragraph-86bb8ebedaad705731890f2de2fff4c5">(6) bons alunos = <italic id="italic-ff989c2afdf39ca5f29734e88d9af988">bon</italic>[za]l<italic id="italic-cac931ab730db1a37954155a853dcf86">unos</italic></p>
        <p id="paragraph-2a635c54cf780fb7c5cd89c12a2e0aea">(7) mais é vizinho = <italic id="italic-5d8660c071a442d6164f710831516b15">ma</italic>[ʒɛ]<italic id="italic-2b73d907511874c604cf68ee79c5a1d2">vizinho<italic id="italic-cd2a78bd98b2adba3ab8f5ee079a3562"/></italic></p>
        <p id="paragraph-50215b0054f38bcde4629e4109428233" />
        <p id="paragraph-9ff3860e5722378f52668facf9786212">Por meio dos exemplos em (6) e (7), notamos que, com a ressilabificação, /S/, ao passar de coda para <italic id="italic-de61a5031fdc47769fca929ac9cd084d">onset,</italic> tem seu ponto de articulação preenchido como [coronal, +anterior] ou [coronal, -anterior], adquirindo, por assimilação, o vozeamento da vogal que o sucede. A possibilidade de realização de [ʒ], como <italic id="italic-4a1557b425dea3526b2f469ce4d59d65">onset</italic> ressilabificado, por um lado, constitui uma inovação do PST e do PP em relação ao PB, variedade na qual, em contextos como esse, a consoante ressilabificada é produzida em sua forma <italic id="italic-1bce372614d687ae9e19726a71884480">default</italic> [coronal, +anterior]. Por outro lado, essa é uma propriedade que aproxima as variedades de STP do PE, já que estudos recentes vêm apontando a possibilidade da produção da fricativa pós-alveolar em contexto de ressilabificação também em variedades faladas em Portugal, contudo, na variedade europeia do português, esse processo ocorre de maneira pouco frequente, sendo mais comum na fala de pessoas mais jovens (RODRIGUES, 2012<xref id="xref-e8908be8fc73ab28dccc564a282f2918" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5dcc34109ad5197f4838a61341fb386d">[27]</xref>).</p>
        <p id="paragraph-e76d6d0044d5ead2e9b20eeb24ecf666">A esse respeito, Rodrigues (2012<xref id="xref-9a7623e90095d00e8cca3efed44b1ba5" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5dcc34109ad5197f4838a61341fb386d">[27]</xref>) pontua que a realização da sibilante palatal em PE está condicionada, ainda, ao contexto seguinte à vogal inicial do item lexical contíguo à sibilante em fronteira de palavra. Para a autora, a produção de [ʃ] em ambiente propício à ressilabificação ocorre, sobretudo, no encontro de /S/, momento em que há a fusão das duas sibilantes e a realização adotada é a da consoante do ataque subsequente, resultando na produção de apenas uma fricativa como em <bold id="bold-3c42cec96349e097d2cb49cfb5a03192">vamo</bold>[ʃ]<bold id="bold-10d8a5028f5c66956c7e7782210f2b29">perar</bold> (RODRIGUES, 2012<xref id="xref-ac79cc532484a38607ac4a30b9233482" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5dcc34109ad5197f4838a61341fb386d">[27]</xref>). Esse processo também é observado no PST e no PP. Frequentemente, notamos a realização de [ʃ] como resultado de uma possível fusão entre as fricativas em sequências de codas distintas. Esse processo pode ser exemplificado a partir de sintagmas como <bold id="bold-eb9aa3c166e7db8ca2da0d90856e5aff">mas espera</bold>, o qual é realizado, no <italic id="italic-4c7e8a8440b051c12f066d0229b75910">corpus</italic>, como <bold id="bold-006d20c1f8441d8efc9c1bf69c63b7eb">ma</bold>[ʃ]<bold id="bold-d9e35e19f2aaede0f89246131b22609b">pera</bold><bold id="bold-5653ab1653caa3c8e7db70a6c2996951"> </bold>(nesse caso, é possível também a realização com [i] <bold id="bold-8e99f9b5d0b94361010772d4a7948ecd">ma</bold>[iʃ]<bold id="bold-457368248e6f7e3fa67f53ac327aacfb">pera</bold>, contudo essa não é a forma mais comum).</p>
        <p id="paragraph-18">Nas ocasiões em que a fusão é verificada, a realização da fricativa recebe o vozeamento da sibilante da segunda palavra, o que nos leva a indagar se, de fato, estamos diante de uma fusão, ou se o processo é resultado do apagamento da coda da primeira palavra, mais o apagamento da vogal inicial da segunda palavra. No PST e no PP, a aférese da vogal pretônica inicial [i], quando seguida por uma coda sibilante, é recorrente, demarcando pronúncias como <bold id="bold-1e3c05b7a7a1af9bd12c40ecaebfc480">escala </bold>[ˈʃkalɐ] e <bold id="bold-5381a10691de064d9f113584136a094f">explicar </bold>[ʃpliˈka], mesmo quando a palavra precedente não termina com coda /S/ como em <bold id="bold-606ad35e69022e8d7b4af4ed28ab59fc">todo esforço</bold> [ˈʃfoɾsʊ]. Fatos como esses nos levam, então, a assumir a hipótese que privilegia o apagamento em detrimento da fusão. </p>
        <p id="paragraph-b0fc13b5bf6261f17ad0b3c56ad1d936">Reforçando essa interpretação, no <italic id="italic-49682960583f1ca92653a1d8fc49f216">corpus</italic> analisado, constatamos que o apagamento de /S/, em coda, é possível no PST e no PP. Assim, de modo semelhante ao rótico, a sibilante, em fronteira de palavra, além de ser ressilabificada, pode ser elidida. Esse processo é discutido na seção 2.2.1.</p>
        <p id="paragraph-0eca87fe5d5d476b8d51972436392edb" />
      </sec>
      <sec id="heading-efbb807f13be3cc1291117b5c3eea221">
        <title>2.2.1 Apagamento da sibilante em coda</title>
        <p id="paragraph-451e1881ba2176748dc6732b49011411" />
        <p id="paragraph-f6550db1e5f5d5ec92c407bbf30bafce">A partir de um total de 2.676 ocorrências (1.207 para o PST; 1.469 para o PP), o apagamento da sibilante foi observado em 10,4% dos dados no PST e 17,4% no PP (quadro 3). Distintamente do rótico, que possui uma proporção de apagamento superior a 50%, a sibilante é apagada com menor frequência no PST e no PP, demonstrando que a fragilidade da coda, assim como comprovado para o PB e para o PE (CALLOU; LEITE; MORAES, 2002<xref id="xref-0ddc291915fad3c9f694b31a2620275b" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b276300bb04f39bab54aa5f6d3f0b7c2">[25]</xref>; HORA; PEDROSA; CARDOSO, 2010<xref id="xref-dc6d7c822657f73297266445aa85af05" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-05d1bc30abc8e95172e7efe921e7b59b">[28]</xref>; RODRIGUES, 2012<xref id="xref-7abf972acb461601c147576d1d5e52ee" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5dcc34109ad5197f4838a61341fb386d">[27]</xref>), não é idêntica para todas as consoantes nessas variedades (BALDUINO; VIEIRA, 2020<xref id="xref-84d7323d4300d9caf7a39c49a6753cb2" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-60d2bda024dd1f48135f7a60e122f8d3">[16]</xref>; VIEIRA; BALDUINO, 2020<xref id="xref-2cd16ad865419648ed9ab04f2452b15e" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-35415fd6c00f69c2fbb5e834b2dd9f64">[17]</xref>). </p>
        <fig id="figure-panel-4a9f8e15f3adcba2464b7fb911aefdb6">
          <label>Figure 7</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-9890a1f8b03fc64f9c2b4ad7c693ca90">QUADRO 3 -</bold> Apagamento da sibilante em coda no PST e no PP</title>
            <p id="paragraph-c100717a7842f76e40dd10b6d6ad888b" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-970cb1bffd5b66592eb003d446ce1f21" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Quadro 3.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-3d4123842a5387e2f42c8d243ec781f2">O quadro 3 apresenta as variáveis selecionadas como relevantes para o apagamento da sibilante: posição, função morfológica, classe gramatical e tonicidade. Assim como para os róticos, a posição da coda na palavra é uma variável importante para o apagamento de /S/, entretanto, as demais variáveis selecionadas são distintas, reforçando a hipótese de que o fenômeno não é implementado de modo idêntico a todas as codas. </p>
        <p id="paragraph-c126638a1cdba31c73b74c29fc625f83">Ainda em relação ao quadro 3, é possível verificar que o apagamento da sibilante, no PST e no PP, possui interface morfológica, relacionando-se à marcação de plural, já que a variável função morfológica foi selecionada como relevante para implementação do processo, inclusive, na tabela 3, verifica-se que o apagamento da sibilante é favorecido quando esta, além de estar na coda, contém a informação morfológica de plural (22,6%; P.R. .65), ao passo que, quando essa relação morfológica não é estabelecida, o apagamento é desfavorecido (2,9%; P.R. .35). O apagamento de /S/ em coda, no PST e no PP, é, assim como no PB, um processo de interface morfológica (BRESCANCINI, 2002<xref id="xref-df9d75a4d7d5080459f37fb85f3137b7" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-9a62b9f463c8ecd010641f433b3c67b1">[29]</xref>), no entanto, do mesmo modo que nesta variedade, ocorre, também, em itens cuja fricativa não marca o plural de sintagmas nominais como em (8). </p>
        <p id="paragraph-8b6ef317468fe4016e33e84f557466e4" />
        <p id="paragraph-afdf36a15c016fd80607aaea96dff8c4">(8) </p>
        <p id="paragraph-f3ef199b17ed12c44c9e164b25fc5d7d">a. <bold id="bold-5b7c37b349370c0c2f879e87163b8292">mesmo</bold> [ˈmezmʊ] ~ [ˈmeʒmʊ] ~ [ˈmemʊ]</p>
        <p id="paragraph-f008115428ebf7319e34660868410e5b">b. <bold id="bold-c1cab9daad0606cacfec282d2fc3a33a">antes</bold> [ˈɐ̃tɪʃ] ~ [ˈɐ̃tɪ]</p>
        <p id="paragraph-441dc8a874cbd94b81f227074720c3ed">c. <bold id="bold-2daa7bbd259df37f1b7824da6cb0e1aa">Jesus</bold> [ʒeˈzuʃ] ~ [ʒeˈzu]</p>
        <p id="paragraph-1927f252e8a9e1ea6a0bbd7f00961e1b">d. <bold id="bold-7790b0d115ceb2b54a15c1a9424e4132">mais</bold> [ˈmaɪ̯s] ~ [ˈmaɪ̯ʃ] ~[ˈmaɪ̯]</p>
        <p id="paragraph-2ad64374180d10b57658de0028c24c50" />
        <p id="paragraph-2c68d28c8872a24d34032497ebd9c434">Dados nos quais o apagamento da sibilante é identificado de forma independente da função gramatical de plural indicam que, embora a informação morfológica seja uma variável relevante para análise do fenômeno no PST e no PP, este se sustenta, outrossim, como um processo fonológico independente. Isso é reforçado em dados em que o plural é mantido apesar de a sibilante ser elidida, como exposto em (9).</p>
        <p id="paragraph-b74e39110afce1a9ef972c246687608b" />
        <p id="paragraph-83dfc37b6e69505e16721032608d6e72">(9) </p>
        <p id="paragraph-13bc89b6cb9e661842d76dcce0b816f5">a. <bold id="bold-fa222d6041610107123f449913265d34">vezes</bold> [ˈvezɪ] </p>
        <p id="paragraph-0ead43397f79971c9cf9feb17dacb18d">b. <bold id="bold-279c8badf2e1a49bb2ee604a9c4ef87e">meses</bold> [ˈmezɪ]</p>
        <p id="paragraph-4cd06b3a4773bb2109f233f080cbc02a" />
        <p id="paragraph-f236e706ac5562ef8df90824b16a71a3">Em itens como (9), o plural é marcado pelo sufixo –es [ɪʃ]. Considerando que o apagamento da sibilante fosse um fenômeno exclusivamente morfológico de não demarcação do plural, além de não serem esperados os dados em (8), o apagamento do sufixo –es seria previsto em (9). No entanto, como exemplificado em (9), é possível haver apagamento da sibilante sem que isso acarrete perda de informação gramatical. Isto é: o <italic id="italic-6a5570cfbcd33a88e53194dd67d79caf">template</italic> silábico CVC é desfeito e reestruturado em uma sílaba CV, mas a concordância plural é mantida. </p>
        <p id="paragraph-af4e4e3babd7c79c2a5cd3e0a2c001a2">Justificada a interface morfológica e ainda com base na tabela 3, sobre o PST, notamos que a posição da fricativa, na palavra morfológica, também é uma variável que influencia o apagamento da sibilante: a fronteira de palavra favorece o fenômeno (16,9%; P.R. .65) e a posição medial o desfavorece (2,5%; P.R. .35). Quanto à Tonicidade, sílabas átonas favoreceram o apagamento (13,9%; PR. .63), ao passo que as tônicas o desfavoreceram (3,6%; P.R. .37). Sílabas tônicas, no geral, por portarem a proeminência da palavra são, acusticamente, mais fortes, sendo mais longas e intensas em relação às sílabas átonas (MASSINI-CAGLIARI, 1992<xref id="xref-15b32fc19e85da3f4faa01d176c2529e" ref-type="bibr" rid="book-ref-25cdf48aab342ef3334b815450547fcf">[30]</xref>). Essas características fonéticas e fonológicas as tornam mais estáveis: isto é, por serem proeminentemente mais fortes, tendem a preservar sua estrutura. Dessa forma, fenômenos como neutralizações e apagamentos não são tão recorrentes em sílabas tônicas quanto em sílabas átonas.</p>
        <p id="paragraph-aee3d389ba65235f4163ad36b300d190">
          <bold id="bold-06801f54bd188912abc1494709e53cf5" />
          <bold id="bold-b47f204fdbce6b6ebef95ccb3d71937a" />
        </p>
        <fig id="figure-panel-38b1bb61b4b6325724701acbaa111006">
          <label>Figure 8</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-21defead5e337a34b8d24090fbebe46d">TABELA 3 -</bold> Variáveis atuantes no apagamento da sibilante em coda no PST</title>
            <p id="paragraph-0897ba8687617397ca37190993b3d066" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a4a9d76c27d134b08d0c755977b814b3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Tabela 3.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-25">O PP, embora apresente variáveis selecionadas semelhantes ao PST, possui um <italic id="italic-3b36905167f9e3a989e11e766105b0b3">range</italic> diferente para cada uma destas (tabela 4). Distintamente do PST, a variável mais relevante foi a posição do segmento na palavra final: P.R. .65 e medial: P.R. .35, seguida pela tonicidade átona: P.R. .60 e tônica: P.R. .40. Em relação à Função morfológica, assim como no PST, o índice de apagamento das sibilantes que marca plural foi maior (32,9%; P.R. .60) em detrimento às sibilantes que não portavam essa função (7,2%; P.R. .40). Por fim, para a variável classe gramatical, não-verbos (19,8%; P.R. .59) favoreceram o processo.</p>
        <fig id="figure-panel-4094db4bf8cd9d853f8653faffc5ae78">
          <label>Figure 9</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-228c2e7c1cf4e17c72e5586c562b6edb">TABELA 4 -</bold> Variáveis atuantes no apagamento da sibilante em coda no PP</title>
            <p id="paragraph-538d2e182cf1ddd6286192c17b1105d2" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-3bd9e1ab1e87eaf68a04e5641712f747" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Tabela 4.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-4bcad4a92a32918e47b1def8071e34c9">Comparado ao apagamento do rótico, detectado em mais de 50% dos dados, podemos pontuar que o apagamento da sibilante, em coda silábica, é menos frequente no PST e no PP, sugerindo que: (i) o apagamento da coda é um fenômeno amplo nas variedades de STP e não possui somente o rótico como alvo; e (ii) embora o cancelamento das codas seja um processo comum nessa variedade, não ocorre de forma uniforme entre os diferentes segmentos licenciados em tal posição. Ademais, distintamente do rótico, a variação das formas fonéticas da sibilante é mais sutil, restringindo-se à produção de [s] e [ʃ] e de suas contrapartes sonoras [z] e [ʒ], as quais são produzidas em decorrência do contexto de vozeamento do onset seguinte. Isso posto, na seção 2.3 a seguir, discutiremos a distribuição da lateral e a possibilidade de apagamento de tal segmento.</p>
        <p id="paragraph-305b23ff8bde960d4c0000e4e0b06745" />
      </sec>
      <sec id="heading-7ce021e2c88f16dbb60191b96b9a9537">
        <title>2.3 A lateral </title>
        <p id="paragraph-c79cea8d73e6fe06becb9b573cea0278" />
        <p id="paragraph-ffd1e2f10586e49c563575f8a81edc33">A consoante lateral /l/, além de licenciada no onset de sílabas CV e como o segundo segmento consonantal de uma sílaba CCV, é observada na coda do PST e do PP. Assim como o rótico e a fricativa, diferentes realizações são observadas, como a forma velarizada [ɫ] e vocalizada [w] (BALDUINO; VIEIRA, 2020<xref id="xref-85957c09e7e7ec3cb4285e41dcafc98a" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-60d2bda024dd1f48135f7a60e122f8d3">[16]</xref>), como indicado em (10).</p>
        <p id="paragraph-9e90c26d1088549b59d7c75a6a05486f" />
        <p id="paragraph-aaa35016edfb7fa791e9814615a7703a">(10)</p>
        <p id="paragraph-bacc3196f7997461ea05adf789380846">a. ma[ɫ] ~ ma[w] </p>
        <p id="paragraph-980a38d42c9accd9357c167eab656359">b. fi[ɫ]me ~ fi[w]me</p>
        <p id="paragraph-560ab46ad9d93f502f0eae14e8b1510c">c. bo[ɫ]so ~ bo[w]so</p>
        <p id="paragraph-a27617a2907e0e4a18b8fb0da3d4e120">d. potáve[ɫ] ~ potável[w]</p>
        <p id="paragraph-42b802b0519a281695a35f3840beaf90" />
        <p id="paragraph-aef976b4044ace37fcd1cfbe67a95254">Conforme Balduino e Vieira (2020<xref id="xref-a896dc3e25b648daafa46b0253a9d147" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-60d2bda024dd1f48135f7a60e122f8d3">[16]</xref>), a velarização e a vocalização no PST, a exemplo do PB (QUEDNAU, 1993<xref id="xref-79cbd84d5187268f61804bd125c3946b" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-1f7249eecdefda617cc92c87b694f15e">[31]</xref>; MATEUS; D’ANDRADE, 2000<xref id="xref-f16609c9debda8ba8707c29c343f1649" ref-type="bibr" rid="book-ref-366ea880c0ef517749ee4522a6e9a6b5">[13]</xref>), são explicadas a partir de uma concepção autossegmental de organização dos segmentos, o mesmo é observado para o PP. Observando as produções de [ɫ] e [w] no PST e no PP em coda, assumimos que a lateral, em posição de onset e coda, a exemplo do PB e do PE, além de [+lateral], [+consoante] e [+soante], tem o ponto de articulação consonantal preenchido como [coronal, +anterior], informação atribuída por regras <italic id="italic-3b3df31644af920e18868e75d972716b">default</italic>s do português (MATEUS; D’ANDRADE, 2000<xref id="xref-3c6fb6537bfa7519891230034f750125" ref-type="bibr" rid="book-ref-366ea880c0ef517749ee4522a6e9a6b5">[13]</xref>). Essas regras <italic id="italic-1d7cd0fd94b74f2c1a6cfc181fb8981a">default</italic>s são justificadas, por exemplo, ao observamos regras de sândi consonantal, como em (11) e (12).</p>
        <p id="paragraph-68b1438c1bfe13c43058e8e4e46b83f1" />
        <p id="paragraph-6bfb9beeca2eb3241f9780955a356596">(11) seiscentos e tal alunos= <italic id="italic-dbe23e11397ab8f8f5dcefe5f09966fe">seiscentos e ta</italic>[la]<italic id="italic-8e2b27826371d1f7adba22041aec49c0">lunos</italic></p>
        <p id="paragraph-051f6617f0a952db6e24d12323e67c63">(12) a principal é de fiscalização = <italic id="italic-1e8cde014d5e81f3cc6fd7b67d3f9aa1">a principa</italic>[lɛ]<italic id="italic-3aae6e01c55191230fc0a384759274b0"> de fiscalização<italic id="italic-a41777d2aa2f47cad19502df76168333"/></italic></p>
        <p id="paragraph-e86d50ad427e27a684152b81773ba2ba">
          <italic id="italic-5672c8f0bbcbd4878f95e362f721b84e" />
        </p>
        <p id="paragraph-5bdef8852df095036b9be710a0fc2f3c">Em ambos os casos em (11) e (12), a lateral em coda, por ser ressilabificada em onset, é realizada como um segmento [coronal, +anterior], sem ter o ponto de articulação vocálico licenciado, resultando em uma sílaba CV. A ressilabificação ou não de /l/, uma regra pós-lexical implementada no nível sintático, sugerem que tanto a velarização quanto a vocalização correspondem a regras definidas em níveis lexicais anteriores no PST e no PP (VIEIRA; BALDUINO, 2020<xref id="xref-53738dd03461992f14fa7e96efbe1853" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-35415fd6c00f69c2fbb5e834b2dd9f64">[17]</xref>). Nesse caso, a ressilabificação apenas é possível se o segmento gerado for a velar [ɫ]. Caso contrário, se a vocalização [w] é implementada, o contexto de ressilabificação é desfeito, impossibilitando o sândi consonantal: * manua[w]escolar.</p>
        <p id="paragraph-8bc9b845c730a990d3dad9a765096b40"> Nos casos em que a lateral é licenciada no <italic id="italic-2984be7592e17dca6b4aaea200cc2179">onset</italic>, a lateral mantém os traços [coronal, +anterior]. De outro modo, ao ser licenciada na coda em sua forma velar, esta adquire uma articulação secundária, preenchendo o traço [dorsal, + posterior] ao nó vocálico (QUEDNAU, 1993<xref id="xref-0c2b4189ae20592f079d0817e3cbe515" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-1f7249eecdefda617cc92c87b694f15e">[31]</xref>). Para Quednau (1993<xref id="xref-5fc7c5e9f06c94550b5efa5a5cd7d573" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-1f7249eecdefda617cc92c87b694f15e">[31]</xref>) e Mateus e D’Andrade (2000<xref id="xref-0978e1cd5d8c746853b8dd128fe8298a" ref-type="bibr" rid="book-ref-366ea880c0ef517749ee4522a6e9a6b5">[13]</xref>), a velarização de /l/ é um fenômeno de articulação secundária, sendo necessário o licenciamento de traços de consoante e de traços de vocálicos (GOLDSMITH, 1990<xref id="xref-442cf9ebeddc3f2d3361e180119d22ff" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-d911c887475bbe0f6392bed004b972e7">[11]</xref>). A lateral velar, portanto, seria formada a partir do preenchimento dos traços [coronal], enquanto ponto de articulação consonantal, e [dorsal] como ponto de articulação vocálico. A vocalização, de outro modo, decorre do desligamento de traço [coronal] e, consequentemente, do traço [+lateral] que confere ao segmento a característica de consoante, caracterizando, assim, um processo de enfraquecimento.</p>
        <p id="paragraph-37f5d807c566e05adb485d0fc16046d1">Do mesmo modo que apontado por Balduino e Vieira (2020<xref id="xref-d1999effbf4cf2d165308ce1d1ae8319" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-60d2bda024dd1f48135f7a60e122f8d3">[16]</xref>) para o PST, observamos que, nos dados investigados do PST e do PP, há alternância de produção entre a forma velar e vocalizada na fala de um mesmo indivíduo. Esse fato, distingue as variedades de STP do PE, posto que vocalização raramente é reportada na literatura desta variedade (MATEUS; D’ANDRADE, 2000<xref id="xref-2fb34385de62cc5b79c668f9f4da8dd3" ref-type="bibr" rid="book-ref-366ea880c0ef517749ee4522a6e9a6b5">[13]</xref>), e do PB, variedade em que a variação entre [ɫ] ~ [w] é diatópica (HORA; PEDROSO; CARDOSO, 2010<xref id="xref-bf46f3a3856a22fea752cddca0f14a6f" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-05d1bc30abc8e95172e7efe921e7b59b">[28]</xref>). Esse fato, a princípio, sugere que variáveis sociais podem ser relevantes no favorecimento de uma forma ou outra, podendo, inclusive, em trabalhos futuros, ser testada a hipótese de haver uma mudança linguística em curso.</p>
        <p id="paragraph-edc5aea48371e4d7e31cece01ca1662d">Alguns autores pontuam ser a oscilação entre [ɫ] e [w] uma regra de telescopia, a qual reflete uma mudança em curso, indicando a perda de um estágio intermediário: l &gt; ɫ &gt; w (TASCA, 1999<xref id="xref-aabfceb748ef2a13f735afa6ee3653c9" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-c04b9b608e8bfada90cd3415cb8609ad">[32]</xref>; QUEDNAU, 1993<xref id="xref-00fdb3d2c331b44687a5cd69f8e1a843" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-1f7249eecdefda617cc92c87b694f15e">[31]</xref>). A vocalização seria o último estágio dessa mudança, refletindo a concretização do processo de enfraquecimento da coda lateral em português, a qual está em curso no PE e bem consolidada em diferentes dialetos do PB (CALLOU; LEITE; MORAES, 2002<xref id="xref-c448b7a3ea136ad4794fcb76ef409590" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b276300bb04f39bab54aa5f6d3f0b7c2">[25]</xref>). Todavia, neste estudo, não temos dados suficientes para sustentar essa hipótese, já que, como ambas as formas são empregadas pelos mesmos informantes, podemos ter a influência de fatores segmentais e suprassegmentais, como a tonicidade da sílaba, sobre o fenômeno, demarcando-o como um processo sincrônico. Dessa forma, o exame dos contextos segmentais circundantes a /l/ pode caracterizar, de modo mais claro, os processos de velarização e vocalização no PST e no PP, entretanto, como o foco deste trabalho é descrever, de modo mais geral, o comportamento da coda nessa variedade, e não focar, exclusivamente, em um único processo, essa etapa não será realizada no momento.</p>
        <p id="paragraph-e0c5331e3363617649240e2b39ca5f30">Além da vocalização, processo que configura uma alteração no template silábico de CVC para CVV, mediante enfraquecimento, o apagamento também é um fenômeno que atinge a lateral em coda, resultando em uma sílaba CV. Dedicamos a seção 2.3.1, à discussão desse processo tendo /l/ como alvo.</p>
        <p id="paragraph-56139fbb2202f210852f40c0b5c3ecc4" />
      </sec>
      <sec id="heading-62d4b2b12536716a96255cb2c0e2433f">
        <title>2.3.1 Apagamento da lateral em coda</title>
        <p id="paragraph-5e2bb53848fdffc077f0a99058d3d036" />
        <p id="paragraph-ca1b6e5dd478be0e37a2e233e906d0f7">Com base<bold id="bold-149adbfae02487c35c5285436e4cbf04"> </bold>em 1.488 ocorrências (751 para o PST e 737 para o PP), constatamos que a<bold id="bold-fd82790776bce4b0ce7b8a9923022e90"> </bold>lateral /l/ foi apagada em 28,2% dos dados no PST e em 23,2% dos dados no PP. As variáveis selecionadas como relevantes para o apagamento foram: contexto anterior e tonicidade para o PP, ao passo que para o PST, além dessas, a posição do segmento e classe gramatical também se mostraram significativas, como indicado no quadro 4.</p>
        <fig id="figure-panel-44033e9ff89abced98644e232ad89bb6">
          <label>Figure 10</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-0c89d4c636c87c49945ef9ca6ccd6d28">QUADRO 4 </bold>- Apagamento da lateral em coda no PST e no PP</title>
            <p id="paragraph-58127a9b326f5b153c92e1c43d51b6b3" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-646d1a833da558efb7b4255406472bbb" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Quadro 4.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-e31b7274e3eb577df53f108d05524fc3">No PST, o contexto vocálico precedente foi a variável mais relevante para o apagamento (<italic id="italic-a7ba4330e6628e427e8c1845444f278a">range</italic> .97), sendo o fenômeno favorecido por todas as vogais com exceção da média-baixa anterior [ɛ] (P.R. .00), em que a realização de [l] é categórica. É interessante notar o descompasso entre o <italic id="italic-2fcbbeafbbb100cf3c1263c5e5df30d9">input</italic> (.06) e a taxa geral de aplicação do apagamento (28,2%) que pode ser explicado em decorrência da distribuição, não equilibrada, dos dados através dos fatores dessa variável, visto que o único contexto que desfavorece o apagamento aparece apenas em 26 de um total de 751 dados examinados. Em relação à Posição, as laterais mediais foram mais apagadas (38,9%; P.R. .62) em relação às laterais finais (18,4%; P.R. .38); assim como as laterais que estavam em sílabas átonas (42,5%; P.R. .58). Por fim, o fenômeno foi favorecido em verbos (50,5%; P.R. .57) e desfavorecido em itens não-verbais (tabela 5).</p>
        <fig id="figure-panel-7840f598f8c5729d26d2c2f0d9571150">
          <label>Figure 11</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-a49d0f2179e8450fbd7d48d28c030408">TABELA 5 -</bold> Variáveis atuantes no apagamento da lateral em coda no PST<bold id="bold-e260ea9ec3b3ce8fcffdd2ecab311850"/></title>
            <p id="paragraph-8d35f4ad77f0cb1963e47bf6f9e8ad2f" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a2ca7c156be5bc7d1931235209a3822c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Tabela 5.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-5179d3344c5bea92e34986218424dc52">Conforme a tabela 6, distintamente do PST, no PP, embora o contexto vocálico precedente tenha sido selecionado como uma variável relevante, as vogais que mais favoreceram o apagamento foram: [i] (48,8%; P.R. .75) e [ɔ] (25,9%; P.R. .67), ao passo que [e] (25%; P.R. .37), [a] (13,4%; P.R. .36) e [o] (18,9%; P.R. .33) desfavoreceram o processo. Por fim, considerando a Tonicidade, notamos que o maior índice de apagamento da lateral ocorre nas sílabas átonas (34,6%; P.R. .65), enquanto o menor ocorre nas tônicas (13,8%; P.R. .35).</p>
        <fig id="figure-panel-b9f8aff4e4ff01749e1d10afe80b1f3f">
          <label>Figure 12</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-9e69fa9d75e7467da96dcd82de776dde">TABELA 6 -</bold> Variáveis atuantes no apagamento da lateral em coda no PP<bold id="bold-879becca78710a5328ef315965464df3"/></title>
            <p id="paragraph-29fb2a9f4a03bcb506b3271abb4a0f36" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-616c74782f96d73c0807fd299b64a6d7" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Tabela 6.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-cb699f29fe3bb9bec18ecd795641a6e2">Até o momento, analisamos, individualmente, o apagamento dos segmentos /r, S, l/ licenciados na coda no PST e no PP. Como demonstrado, o apagamento é um processo comum a todos os segmentos investigados, promovendo a alteração de um template silábico CVC em CV. Esse fato em consonância com outros processos de enfraquecimento consonantal como a vocalização, ou de reestruturação silábica como o sândi consonantal externo e mesmo a paragoge, corroboram nossa hipótese inicial de que, assim como no PB, sílabas CV são preferidas entre os falantes de PST e PP. Ainda assim, o fenômeno não é uniforme e não atinge as consoantes do mesmo modo. Na subseção 2.4 a seguir, comparamos as taxas percentuais de aplicação do apagamento nas duas variedades do português identificadas no corpus.</p>
        <p id="paragraph-4e76f9e4f8180a19992522a03579ff35" />
      </sec>
      <sec id="heading-9f61b76e43f6a2f7fec526a8108fca94">
        <title>2.4 Apagamento das codas /r, S, l/ e ressilabificação em sílabas CV</title>
        <p id="paragraph-f779b28894b28eec5764db4f02a49bc5" />
        <p id="paragraph-ea800079d9092ac68cb47ae702ede4fe">Contrastando o percentual de apagamento das codas analisadas, reconhecemos que o rótico é o segmento mais elidido, seguido pela lateral e pela sibilante, como indicado na figura 3. </p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-7a2b47e86fff81e655e38434d6c4088e">
      <title>
        <bold id="bold-6ed69433f3ccdd6aa6555a8bdc3e76a0" />
      </title>
      <fig id="figure-panel-172c315b0cd7bc3a9f0d221b09793569">
        <label>Figure 13</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-58637ba18f14f4064770aafc2965dd3b">FIGURA 3 -</bold> Proporção de apagamento de /r/, /S/ e /l/ no PST e no PP<bold id="bold-83b0d882440cd5b18d4a11a167063298"/></title>
          <p id="paragraph-a086980e5233bddc56f92a1402f1f0be" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-fc288fad01cfbdb4a0fb744be081edcc" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Figura 3.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-f95b791891114680388d7cb602e652e8">A proporção de apagamentos observada na figura 3 indica que o apagamento, na coda silábica, é um processo recorrente no PST e no PP, sendo aplicado às consoantes examinadas neste estudo. No entanto, se, por um lado, a frequência deste fenômeno, em consonância com os processos de vocalização das líquidas /r/ e /l/ corroboram a hipótese de que a fronteira silábica é o constituinte mais frágil da sílaba (SELKIRK, 1982<xref id="xref-5c1f2d8e3175284362cd094af40bd48e" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-92ad6be587266759f9b9855fa72156b2">[18]</xref>), por outro, indicam que tal debilidade não é homogênea para todos os segmentos no PST e no PP (RODRIGUES, 2012<xref id="xref-035652d2a407970461e88e8007adb642" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5dcc34109ad5197f4838a61341fb386d">[27]</xref>; VIEIRA; BALDUINO, 2020<xref id="xref-e50139e377d7e41f1b2117478bb5d1f5" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-35415fd6c00f69c2fbb5e834b2dd9f64">[17]</xref>). Ademais, nem sempre há uma coincidência entre as variáveis que favoreceram o apagamento entre as consoantes examinadas, podendo estas alternarem, inclusive, entre as variedades analisadas. A variável posição, por exemplo, embora tenha sido relevante para a maior parte dos apagamentos, favorecendo o apagamento do rótico e da sibilante em final de palavra morfológica, não foi uma variável selecionada para a lateral no PP. Já no PST, embora selecionada, o meio da palavra morfológica foi o fator mais significativo para o fenômeno, e não o final. Dentre as demais variáveis testadas, não houve, portanto, uma que fosse consistentemente selecionada para todas as consoantes.</p>
      <p id="paragraph-356758ed1c1782187455d1642a4deb69">Além de serem apagados da coda, o rótico, a sibilante e a lateral também são alvos de outros fenômenos que privilegiam a sílaba CV em detrimento à estrutura CVC. Esse é o caso do sândi consonantal externo, da paragoge em palavras findas por rótico, ou mesmo pelo enfraquecimento consonantal de /r/ e /l/, os quais são realizados como [w]. Somando-se a isso e, embora não tenha sido tratada neste artigo, a coda nasal /N/, pode ser apagada no PST e no PP (BALDUINO, 2018<xref id="xref-24687f6c2676945d762e119428938256" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-a9735640640ff9581babc89d2a612bb1">[20]</xref>). Conforme Balduino (2018<xref id="xref-262379d54c9dda41e0d509ae477b1422" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-a9735640640ff9581babc89d2a612bb1">[20]</xref>), em ambas as variedades de STP, caso a coda /N/ seja apagada depois do espraiamento regressivo da nasalidade, a vogal tautossilábica nasalizada torna-se mais longa em relação às suas contrapartes orais, mantendo a temporalidade de uma sílaba CVC, mas compondo uma sílaba CV. De modo distinto, se a nasal for elidida da coda, antes da nasalização, a vogal tautossilábica permanece oral e sem qualquer alongamento. Notamos assim, que de forma semelhante às demais codas, /N/ também pode ser apagada gerando uma alteração de <italic id="italic-9afda6e674c1ea3bfaa56e915dcf9ebb">template</italic> silábico CVC &gt; CV.</p>
      <p id="paragraph-350f0ccd7937343e410f0b743957adfd">É preciso ressaltar, ainda, que o apagamento, no PST e no PP, não é um fenômeno cujo domínio seja exclusivamente a coda. Estruturas complexas do tipo CCV também são, frequentemente, alteradas para uma forma CV: <bold id="bold-618b179f949dd004f5d8fcd6803dc611">primo</bold> [ˈpɾimʊ] ~ [ˈpʁimʊ] ~ [ˈpimʊ] (CCV &gt; CV). Esses fatos, quando analisados em conjunto, sugerem que estruturas silábicas complexas, por fugirem ao padrão CV, estrutura considerada tipologicamente menos marcada nas línguas naturais (ZEC, 2007<xref id="xref-ff6a91ee1ff77ba83c09e0637657c8cb" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-534cedd3c47c9cb19c812d67cf39f0e5">[33]</xref>), são marcadas e, por isso, podem ser submetidas a processos cujo resultado é, justamente, a forma menos marcada: CV. Faz-se necessário, portanto, discutir a sílaba no PST e no PP tendo em vista outros fenômenos da língua e outras estruturas silábicas, tema para pesquisas futuras.</p>
      <p id="paragraph-22a2cd51b947234c2232254cbc3823c3" />
      <sec id="heading-51c878c4fa2047bd0a90a642f28beab3">
        <title>3. Considerações finais</title>
        <p id="paragraph-7717669bec2eaf5d58308a32c1caf9dc" />
        <p id="paragraph-470e8b4b121f21e221c4162fe8de2f83">A coda, no PP, pode ser preenchida por /N, r, S, l/, fonemas que apresentam diferentes realizações fonéticas e são apagados em proporções distintas. Isso, em conjunto com os processos de ressilabificação e de enfraquecimento consonantal detectados, nos levam a concluir, a exemplo de estudos anteriores dedicados ao PB e ao PE (CALLOU; LEITE; MORAES, 2002<xref id="xref-70e4c975cff2f04a81979f7a03130e4f" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b276300bb04f39bab54aa5f6d3f0b7c2">[25]</xref>; RODRIGUES, 2012<xref id="xref-225e485e65a2b2263f4893ac7395bfff" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5dcc34109ad5197f4838a61341fb386d">[27]</xref>), que, no PST e no PP, a coda é um domínio suscetível a apagamentos e variações, sendo o constituinte mais débil da sílaba (SELKIRK, 1982<xref id="xref-975125301c836e70161642d811ca073c" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-92ad6be587266759f9b9855fa72156b2">[18]</xref>) – ainda que tal fragilidade não atinja todas as codas com a mesma intensidade ou do mesmo modo. A partir da discussão proposta neste estudo, que foca nos segmentos /r, S, l/ em coda, pretendemos contribuir, então, com alguns aspectos da descrição fonológica do PST e do PP, variedades do português faladas em São Tomé e Príncipe, ainda pouco estudadas. Como este trabalho configura uma análise pioneira da coda em tais variedades, algumas questões permaneceram sem respostas e, por isso, ressaltamos a necessidade de maior aprofundamento na análise dos processos elencados, ampliando, especialmente, a discussão em torno da preferência pelo padrão silábico CV – estrutura que, tipologicamente, é referida na literatura como menos marcada nas línguas naturais. </p>
        <p id="paragraph-80a741c2c80039f100e9ce9faaca9a2c" />
      </sec>
      <sec id="heading-c9d7eae1c6ef1e72846099382d78512e">
        <title>Agradecimentos</title>
        <p id="paragraph-45710f6244277b37c5c27ecc47fc5b14" />
        <p id="paragraph-f82c8c1afdf57ebc4d9ea22e7db8a49e">Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento que permitiu a condução dessa pesquisa e elaboração deste artigo: processos 2015/25332-1 e 2017/26595-1.</p>
      </sec>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-d3604440a32bc7de7bdfdcc8d92e666c">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-a46e19711d960cbe911c548958e2c039">Para discussão da coda /N/ no PP e, também, no português falado na cidade de São Tomé, conferir Balduino (2018<xref id="xref-88f19297b9e6876ac1a0c0110a481321" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-a9735640640ff9581babc89d2a612bb1">[20]</xref>). </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f22cd22c26915655bf3876115e910eae">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-53c82a46b373f918db7cc967c08ba4c5">Língua transplantada de Cabo Verde às ilhas de São Tomé e Príncipe no século XX (INE, 2012<xref id="xref-0088399d079fc6882c1e8df2cce2c397" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-6479af533015677446debce946250480">[1]</xref>; BANDEIRA, 2017<xref id="xref-f73d3e162ce639b2fd0ea3990621929d" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-fabfcf0c72bb384697117d19b73de40b">[34]</xref>). </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c7b1c4561f31e3be9a6ef9c2746bfd5a">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-9085302b194e143f6548dbb896340d6a">A norma padrão, transmitida pelo sistema educacional de São Tomé e Príncipe, é ainda o Português Europeu (PE). </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f70f46a49e52d57a71c6fb2408fff030">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-cbb8413cadeba88f41a36df9bfcb6dcc">Neste estudo, discutimos a possibilidade de sândi consonantal externo no PST e no PP. No entanto, para análise quantitativa, esses dados não foram contabilizados, posto que poderiam comprometer a análise da variável Fronteira de palavra.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-034af8effd5ecc9a4bebd204341889cb">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-d423f81fffcd7ead1bc4a341c98ba39b">O Rbrul é um software gratuito, idealizado por Daniel Ezra Johnson, que realiza, não apenas todas as funções que as versões Goldvarb e Varbrul realizam (regressão múltipla, tabulação cruzada, step up/step down), mas também outras funções como: rodar variáveis contínuas como variáveis independentes; variáveis contínuas como variável dependente e dar conta de modelos mistos. Além disso, o Rbrul estabelece uma interface com as capacidades gráficas do R. O programa e o manual de uso estão disponíveis na página <ext-link id="external-link-7" xlink:href="http://www.danielezrajohnson.com/rbrul.html">http://www.danielezrajohnson.com/rbrul.html</ext-link> (GOMES, 2012<xref id="xref-92ed088ae09faf1bbebb4345dc0af2eb" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-5581d6f9d6925601203e859ea51bdbbd">[35]</xref>). </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c5b2c93dcd307ba29289c59408cdb0aa">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-dde014444199b02db4f0c24bfd80a2ef">O RStudio é uma interface funcional e mais amigável para o R que, por sua vez, consiste não apenas num software, mas também numa linguagem de programação voltada para a análise de dados, que pode ser utilizada para realizar computações estatísticas e gráficas. O RStudio é o principal ambiente de desenvolvimento integrado para R que disponibiliza ferramentas adicionais diretamente na interface gráfica, como a visualização dos scripts abertos recentemente, o histórico de linhas de comando executadas, a lista de pacotes instalados, entre outras (OUSHIRO, 2014<xref id="xref-ede1b9fb64bc8e6d10c91ad2867aa9de" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-ed2e9c2b4d1922478e7f7e3c4b558942">[36]</xref>). </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f19bf464267dbac4880baaae93181de0">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-2b79957c823a84891fce1f3887169a95">Cada variável é composta por fatores que consistem em valores categóricos que essa variável pode assumir. A variável classe gramatical, por exemplo, possui, aqui, dois fatores: verbos e não-verbos. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ff2fdcdd6692c12c93563352d4dcbbf0">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-17a30550323c34962fc76926f95eba60">Foneticamente, a correspondência entre os segmentos do <italic id="italic-25">onset</italic> e da coda nem sempre é observada, uma vez que, no PST e no PP, [ɫ] não é observado no <italic id="italic-26">onset</italic> dentro do corpus investigado e [w] ocorre apenas articulado a uma oclusiva velar: guarda [ˈgwaɾdɐ]. Os glides dos ditongos, no PST e no PP, não estão sendo considerados como segmentos consonantais na coda. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-cf5d198728051e0d3dfc35a3b802701a">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-6691224ecefbfc9b8f4f57b3de12c0ed">Na posição de segundo elemento de um onset complexo, temos ainda a possibilidade de realização de uma vibrante uvular [ʀ]. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c8a581696352678c259f7e1228fbd57f">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-b5bf33ef894107ce571eb441c0d3568b">A realização fricativa é mais comum entre os falantes mais jovens, enquanto que o tepe é privilegiado entre os informantes mais velhos (BOUCHARD, 2017<xref id="xref-b7cda47c620808d7ae467678fa95210b" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-92c178a3afea06e7bd45a81e0049c7d2">[4]</xref>). Contudo, as duas variantes aparecem em ambas as faixas etárias. Além disso, [ʁ] e [ɾ] variam livremente no que tange à tonicidade, sílaba e segmento. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e0091ef70ba941e5d1153a99367bf2a4">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-a55e589108be88cd06af96258587f5eb">Range é a diferença entre o menor e o maior peso relativo dos fatores de uma variável. Quanto maior o range mais significativa é a variável, uma vez que, os fatores favorecedores da aplicação da regra em análise estão mais próximos de 1 e aqueles que a desfavorecem estão mais próximos de 0. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-714eddafd59b5b9db381dddfec88c95e">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-8037c563e3a24098839d2ccdd9a7f3d7">Verbos infinitivos podem corresponder a uma variável que favorece o apagamento, no entanto, esse fator morfológico não foi testado neste estudo. Considerando que os infinitivos coincidem, invariavelmente, com o final de palavra morfológica, é difícil separar a atuação de ambas as variáveis: modo infinitivo e posição na palavra. </p>
      </fn>
    </fn-group>
    <ref-list>
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