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        <article-title>Contatos linguísticos em cenários multiétnicos</article-title>
        <subtitle>As relações Brasil-África na formação de línguas crioulas</subtitle>
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      <issue-title>Resenhas Abralin ao Vivo</issue-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-3">Acerca da mesa-redonda <italic id="italic-1">África e Brasil: contatos linguísticos</italic>,<italic id="italic-2"> </italic>que integrou o evento <italic id="italic-3">Abralin ao Vivo</italic>, esta resenha tem por objetivo sintetizar o debate promovido por Lamberti, Lucchesi, Yao Cobbinah e Agostinho. Além de realizar um apanhado geral dos estudos crioulísticos no Brasil, a mesa explorou uma série de pesquisas relativas ao fenômeno de variação e mudança linguística possibilitado pelo contato entre línguas lexificadoras, sobretudo o português, e superstratos compostos por línguas africanas. A partir de uma reflexão a respeito dos efeitos da colonização portuguesa na África e no Brasil e com base nos exemplos apresentados, discutimos as influências africanas no processo de construção do português brasileiro e os contatos linguísticos firmados entre línguas africanas e europeias no continente africano. Por fim, evidenciamos a problemática apontada pelos conferencistas no que tange à escassez de estudos sobre os crioulos de base portuguesa e africana.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Resumen</title>
        <p id="paragraph-dd1efacd5da10a89418a60b62e85746a">Acerca de la mesa redonda <italic id="italic-63fc1df901c08f2d77ac0b9c2ba3d8e7">África e Brasil: contatos linguísticos</italic>, que integró el evento<italic id="italic-f65037aae9c28b75485ad65a6f63d739"> Abralin ao Vivo</italic>, esta reseña tiene por objetivo sintetizar el debate promovido por Lamberti, Lucchesi, Yao Cobbinah y Agostinho. Además de darnos una visión general de los estudios criollos en Brasil, la mesa exploró una serie de investigaciones relativas al fenómeno de variación y cambio lingüístico posibilitado por el contacto entre lenguas lexificadoras, sobretodo el portugués, y sustratos compuestos por lenguas africanas. Desde una reflexión respecto a los efectos de la colonización portuguesa en África y en Brasil y basadas en los ejemplos presentados, discutimos las influencias africanas en el proceso de construcción del portugués brasileño y los contactos lingüísticos establecidos entre lenguas africanas y europeas en el continente africano. Por último, destacamos la problemática apuntada por los conferenciantes en lo que se refiere a la escasez de estudios sobre los criollos de base portuguesa y africana.</p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">Contatos linguísticos</kwd>
        <kwd content-type="">Línguas africanas</kwd>
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    <sec id="heading-79e4d4387473d10b38aff632a025a59c">
      <title>Texto</title>
      <p id="paragraph-cac6670f37671c3b4de3f6076635f505">Esta resenha tem o objetivo de apresentar a mesa-redonda <italic id="italic-144fead1455ed6ea4a9535b601cdea08">África e Brasil: contatos linguísticos</italic><xref id="xref-641cf68126cacd5423b959842e59b2b3" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-7db469295c672a27e76c93740d0c8943">[1]</xref>, mediada pela Ma. Luana Lamberti (UFRS/OSU) e transmitida no dia 11 de julho de 2020, no contexto do evento <italic id="italic-0fb9d7fc0a32e06fcccd5fe47cde27d6">Abralin ao Vivo: Linguists Online</italic>. Frente ao distanciamento social imposto pela atual pandemia de COVID-19, trata-se de uma iniciativa da Associação Brasileira de Linguística (Abralin), em cooperação com diversas associações internacionais, para fomentar a difusão e a democratização do conhecimento em Linguística e em suas subáreas. Com duração total de 3h02min, a mesa teve o intuito de apresentar e promover um debate a respeito dos trabalhos desenvolvidos por quatro pesquisadores no campo da Crioulística, bem como de exemplificar o processo de variação e mudança linguística em função das relações Brasil-África, desde os tempos coloniais. </p>
      <p id="paragraph-2">A primeira exposição, de Luana Lamberti, intitulada <italic id="italic-d0c83d970cccbcca0563cb0c40cb772e">Ideologias linguísticas no português afro-brasileiro de Helvécia</italic>, centrou-se na mudança dialetal observada entre três gerações da comunidade remanescente de quilombo de Helvécia, na Bahia. Na sequência, com a apresentação <italic id="italic-4">A questão da crioulização no Brasil e a gênese das línguas crioulas</italic>, o Prof. Dr. Dante Lucchesi (UFF) traçou um paralelo entre o cenário multiétnico do Brasil e do Caribe no período colonial, discutindo os processos históricos que resultaram, ou não, em línguas crioulas. Em seguida, o Prof. Dr. Alexander Yao Cobbinah (USP) dissertou sobre o trabalho <italic id="italic-5">O contato linguístico transatlântico desde uma perspectiva africanística</italic>, o qual tratou do multilinguismo no continente africano e buscou desconstruir concepções eurocêntricas de linguagem. Por último, a Profa. Dra. Ana Lívia Agostinho (UFSC) introduziu o questionamento <italic id="italic-6">As línguas crioulas do Golfo da Guiné são línguas africanas?</italic>, abordando as relações existentes entre as línguas africanas e crioulas em São Tomé e Príncipe e na Guiné Equatorial. </p>
      <p id="paragraph-3">Nesse sentido, a fim de compreender os fenômenos descritos, devemos nos atentar à conjuntura macro de contato linguístico entre povos europeus e africanos, além das condições históricas, sociais e linguísticas que propiciaram o surgimento de variedades linguísticas, dialetos e línguas crioulas no Brasil, na região caribenha e na África ocidental. A expansão marítima europeia, a partir do século XV, esteve intrinsecamente ligada ao regime de subjugação e escravização de africanos. Conforme aponta Yao Cobbinah, o tráfico transatlântico e a diáspora fizeram emergir, entre os africanos, a força da resistência ancestral, uma vez que, ao serem forçados a migrar para outro continente, acionaram estratégias de sobrevivência que, provavelmente, já eram características de sua realidade multilíngue.</p>
      <p id="paragraph-4">Em um primeiro momento, consideramos pertinente referenciar o quadro multiétnico do Brasil colonial, discutido por Lucchesi pelo viés da Crioulística. Posto que não há consenso a respeito da crioulização, ou não, do português no Brasil, o linguista apresentou algumas das principais perspectivas teóricas e apoiou-se na ideia de que o contato linguístico entre as línguas africanas e o português sustentou-se, inicialmente, por meio de um código de comunicação emergencial. Entre outros fatores, o alto índice de mestiçagem na formação da sociedade brasileira contribuiu para a influência cultural e linguística do colonizador sobre o colonizado, impulsionando a disseminação da língua portuguesa entre os grupos africanos e a reestruturação daquele idioma de contato como uma variedade de segunda língua cada vez mais próxima da língua lexificadora. </p>
      <p id="paragraph-5">Lucchesi evidencia que o cenário mais favorável à crioulização na história sociolinguística do Brasil teria sido a sociedade açucareira da região Nordeste, e que o caso de Helvécia, no sul da Bahia, é o registro que mais se aproxima de um crioulo no país. Essa comunidade foi o objeto de estudo de Lamberti, que analisou o fenômeno da mudança linguística geracional em duas etapas metodológicas: levantamento da história socioeconômica da comunidade, a partir de 1960; e análise discursiva das ideologias linguísticas emergidas de entrevistas com os moradores, divididos em três grupos etários, e de observações antropológicas em campo. Ela verificou que, como consequência do desenvolvimento econômico e industrial da região, além da introdução de sistemas escolares ocidentais, ocorre a iconização e, por vezes, a estigmatização do dialeto de Helvécia pelas gerações mais jovens, embora seja comum a todas elas a tendência de valorizar as tradições e as expressões culturais da comunidade. </p>
      <p id="paragraph-6">Retomando a explanação de Lucchesi, em contraste ao contexto brasileiro de não crioulização, nas colônias do Caribe a ocorrência do multilinguismo entre os grupos dominantes e o rápido estabelecimento da sociedade de plantação limitava o acesso dos escravizados à língua de superstrato, o que propiciou a gênese de dezenas de línguas crioulas, que são faladas até hoje. Destacamos, aqui, a crítica de Lucchesi à hipótese de Chaudenson e Mufwene para as condições de surgimento de línguas crioulas, por pautar-se em mudanças graduais que já estariam em curso, limitando-se a dialetos da língua lexificadora. Nas ilhas caribenhas verificou-se, justamente, a ruptura na transmissão linguística do superstrato e a estruturação dos crioulos como meio de comunicação interétnico, posteriormente adotado como língua materna pelos afrodescendentes.</p>
      <p id="paragraph-7">Concomitantemente aos processos descritos acima, os contatos linguísticos do português europeu, enquanto língua lexificadora, também ocorreram em terras da África. A título de exemplo, Agostinho retrata a colonização das ilhas de Ano Bom, pertencente à Guiné Equatorial, e de São Tomé e Príncipe, no Golfo da Guiné, operacionalizada pelo tráfico e escravização de africanos falantes de diferentes idiomas, forçados a conviver em uma mesma região. Segundo a linguista, o sistema de latifúndios criou condições para a formação de quilombos e, em contexto de crioulização, essas línguas geraram o chamado proto-crioulo do Golfo da Guiné, que se particularizou diatopicamente em quatro novas línguas ininteligíveis entre si, todavia relacionadas pela base portuguesa.</p>
      <p id="paragraph-8">Dessa forma, confirma-se que os crioulos também se manifestam no cenário multicultural da África, onde uma língua, não necessariamente de origem europeia, constantemente sobrepõe-se a outra. Yao Cobbinah explica que esse complexo fenômeno histórico já era documentado em tempos pré-coloniais, visto que a postura flexível e aberta à negociação linguística em um meio multilíngue seria mais relevante do que a preservação de supostas fronteiras entre as línguas e suas variedades. O linguista cita o levantamento realizado por Watson a respeito do conjunto de línguas joolas, faladas no sul do Senegal e no norte da Guiné-Bissau. A situação de fragmentação linguística exige dos falantes a utilização de múltiplas estratégias de adaptação e aproximação linguística, tal como acontece com o portunhol nas regiões de fronteira entre o Brasil e os países hispanofalantes da América do Sul. </p>
      <p id="paragraph-9">Diante do exposto, percebemos que os estudos crioulísticos debatidos nessa mesa-redonda buscam identificar, categorizar, analisar e compreender as práticas linguísticas decorrentes do contato entre as línguas africanas e as línguas europeias, com ênfase ao português, desde o período colonial até a atualidade. Os especialistas que compuseram a mesa denunciam a lacuna deixada pela Linguística, quer pela falta de interesse dos pesquisadores da área, quer pela manutenção de orientações sociopolíticas e culturais que preconizam, ainda, uma perspectiva eurocêntrica e colonial de abordagem das influências mútuas exercidas em situações de contato linguístico. Em nosso ponto de vista, essa invisibilização acadêmica reflete a própria percepção estruturalmente discriminatória em relação às línguas originárias, línguas crioulas e variedades minoritárias, assim como aos aspectos socioculturais aos quais estão relacionadas.</p>
      <p id="paragraph-10">Em linhas gerais, a mobilização da Abralin para assegurar a difusão dessa temática, especialmente no momento de crise social e sanitária que estamos vivenciando, sugere um movimento inverso ao que se estabeleceu como preceito na produção científica em Linguística. Ademais de propiciar atualização para os estudiosos já inseridos nesse campo, a mesa-redonda <italic id="italic-7">África e Brasil: contatos linguísticos</italic> cumpriu um papel introdutório à Linguística Histórica e à Crioulística, mostrando-se acessível mesmo àqueles que não possuem aprofundamento teórico.</p>
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          <article-title>ÁFRICA e Brasil: contatos linguísticos. Mesa-redonda debatida por Luana Lamberti, Dante Lucchesi, Alexander Yao Cobbinah e Ana Lívia Agostinho. [<italic id="italic-727e297946c80030079939f5c1eecb1c">S. l.</italic>: <italic id="italic-dfcb491d49a77ada6dd57b9b3261d9b2">s. n.</italic>], 2020. 1 vídeo (3h02min)</article-title>
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