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        <article-title>Línguas locais na educação</article-title>
        <subtitle>A Iniciativa MIT-Haiti</subtitle>
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      <issue-title>Resenhas Abralin ao Vivo</issue-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-3">Em meio ao fortalecimento do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), o Professor Doutor Michel DeGraff relaciona a luta por direitos humanos e justiça social à Linguística. Ao apresentar a Iniciativa MIT-Haiti, o pesquisador nos mostra um projeto político-linguístico criativo e exportável para além do Haiti. Esse projeto se utiliza de ferramentas digitais em crioulo haitiano para promover o acesso dos estudantes haitianos a uma educação de qualidade. No Haiti, onde a maioria da população fala apenas crioulo haitiano, o idioma local se torna uma ferramenta essencial para a educação. Assim, o objetivo da Iniciativa MIT-Haiti é impulsionar o aprendizado ativo em crioulo haitiano por meio da valorização da diversidade linguística local. Nessa iniciativa, língua e educação se transformam em vetores-chave na luta contra a exclusão social. Logo, o conferencista evidencia que a Linguística é capaz de contribuir de forma prática para a igualdade de oportunidades e o desenvolvimento sustentável. </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-01ddd8c7286e4d48ba028144da13e94c">In the midst of the strengthening of the Black Lives Matter movement, Professor Michel DeGraff relates the struggle for human rights and social justice in Linguistics. Presenting the MIT-Haiti Initiative, he shows a creative and exportable political-linguistic project. This project uses digital tools created in Haitian Creole to promote Haitian students' access to quality education. In Haiti, where the majority of the population speaks only Haitian Creole, this local language becomes an essential tool for education. Thus, the objective of the MIT-Haiti Initiative is to promote active learning in Haitian Creole. In this initiative, language and education become key vectors in the fight against social exclusion. Therefore, the lecturer shows that Linguistics is capable of making a practical contribution to equality of opportunities and sustainable development.</p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">Diversidade linguística</kwd>
        <kwd content-type="">Crioulo Haitiano</kwd>
        <kwd content-type="">Iniciativa MIT-Haiti</kwd>
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    <sec id="heading-79e4d4387473d10b38aff632a025a59c">
      <title>Texto</title>
      <p id="paragraph-17a8c64c4c207ab4cf40f5104990200a">A conferência <italic id="italic-27ee0bf004259f2990e03142e222315b">Vidas negras não vão importar até que as vidas dos negros também importem: políticas linguísticas e educação em pós-colônias</italic><xref id="xref-7e28348bcdfc04d633e6a63fa0536621" ref-type="fn" rid="footnote-9500b8dde161523163ea83b02642e424">1</xref>, proferida por Michel DeGraff<xref id="xref-c3b985877ed86306e4fc33d57771a91e" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-7db469295c672a27e76c93740d0c8943">[1]</xref>, professor do Departamento de Linguística e Filosofia, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), acontece em um momento da história em que o movimento <italic id="italic-3">Black Lives Matter </italic>(Vidas Negras Importam, em tradução livre) está ocupando as ruas e promovendo o antirracismo. Um espectador da conferência de DeGraff pode achar que foi muito oportuno tratar desse tema num momento tão importante (e de fato é oportuno!), mas é preciso trazer à atenção o fato de que essa luta já vem sendo travada por ele há um bom tempo.</p>
      <p id="paragraph-2">Da fala de DeGraff há muito que analisar, há muito que aproveitar, e são muitos os lados para os quais podemos dar atenção nesta resenha. O espaço que temos não nos permite contemplar tudo o que gostaríamos de aproveitar desta fala importantíssima promovida pelo evento Abralin ao vivo – <italic id="italic-4">Linguists Online</italic>. O nosso ponto de destaque principal será um: o projeto inspirador MIT-Haiti (MIT-Ayiti, em crioulo haitiano), coordenado por Michel DeGraff. Antes, no entanto, não se pode deixar de falar sobre a contribuição importante de DeGraff para a decolonialização da própria Linguística, em especial em relação à visão sobre as línguas crioulas.</p>
      <p id="paragraph-3">Mais cedo ou mais tarde, é muito provável que o leitor se depare com o texto <italic id="italic-5">Linguists’ most dangerous myth: the fallacy of creole exceptionalism</italic> de DeGraff (2005<xref id="xref-d004d774b9a8becb7039706cb6971035" ref-type="bibr" rid="book-ref-0fea72826b0b1cf3d603436fc69230b0">[2]</xref>). Espera-se que os que se depararem com esse texto também deem a devida atenção a ele. DeGraff (2005<xref id="xref-44b5a2ed707df61db0069f5a5d6baa22" ref-type="bibr" rid="book-ref-0fea72826b0b1cf3d603436fc69230b0">[2]</xref>) mostra que as crenças de que os crioulos são de algum modo uma exceção às demais línguas naturais, e se opõem a não-crioulos, começa muito cedo na história dos estudos dessas línguas. As raízes dessas crenças se acham numa visão eurocêntrica, colonial e anticientífica. Não só isso, DeGraff (2005<xref id="xref-71c14a8f50190c662a47a03b8edcbc84" ref-type="bibr" rid="book-ref-0fea72826b0b1cf3d603436fc69230b0">[2]</xref>) mostra que </p>
      <disp-quote id="block-quote-1cd112e7461a833fc36ee4f9757b433b">
        <p id="paragraph-04cd7df94fc2ced00968a82487f44092">apesar de sua base histórica no colonialismo e na escravidão, e apesar de suas falhas científicas e sociológicas, o Excepcionalismo dos Crioulos ainda prevalece [na] Linguística moderna e sua literatura clássica. (DEGRAFF, 2005, p.1<xref id="xref-e6ffcfa2b02e15797af3b5e4a4990be0" ref-type="bibr" rid="book-ref-0fea72826b0b1cf3d603436fc69230b0">[2]</xref>)</p>
      </disp-quote>
      <p id="paragraph-7">Essa tradição de separar crioulos de não-crioulos tem seus efeitos na Linguística, como mostram Aboh e DeGraff (2017<xref id="xref-e5016627220cb33364604b656fbdf3f6" ref-type="bibr" rid="book-ref-c2a5f3757c186474308f334f1820b324">[3]</xref>), mas também implicações na Educação. Por sua vez, essa prática traz diversas consequências no plano social, como o próprio estigma criado em falantes de crioulos sobre suas línguas que os faz pensar que apenas as línguas de seus colonizadores podem ser usadas na educação. Não é incomum que falantes de crioulos teçam comentários que rebaixam suas próprias línguas, e DeGraff mostrou isso em sua conferência. Tal cenário é resultado de uma tradição que sempre rebaixou essas línguas, e supervalorizou a dos colonizadores.</p>
      <p id="paragraph-8">Dessa forma, é preciso olhar mais de perto para a situação do Haiti em relação ao crioulo falado ali. Adotando o modelo de DeGraff em muitos de seus textos, faremos referência a <italic id="italic-6">kreyòl </italic>para nos referirmos ao crioulo haitiano e <italic id="italic-7">crioulos</italic> para uma referência geral às línguas rotuladas assim. É preciso dizer também que, sendo o <italic id="italic-8">kreyòl</italic> a língua materna de Michel DeGraff, seus esforços se concentram no Haiti. No entanto, o caso desse país é representativo de muitas outras comunidades onde se falam crioulos e a iniciativa coordenada por Michel DeGraff, de promover a educação na língua materna, é um exemplo a ser copiado.</p>
      <p id="paragraph-9">Ao analisar o contexto político-linguístico e social do Haiti, DeGraff aponta que a educação nunca foi acessível a todos devido a barreiras socioeconômicas e linguísticas. Essas barreiras se ligam ao fato de a língua francesa, o principal idioma usado por instituições, órgãos oficiais e imprensa escrita, não ser compreendido pela grande maioria da população.</p>
      <p id="paragraph-10">Assim, enquanto o francês é falado apenas por uma pequena elite do país, o <italic id="italic-9">kreyòl</italic> é muitas vezes excluído das esferas formais da vida em sociedade. Segundo o conferencista, essa dominação social se estende também ao sistema escolar e, ainda, faz com que a sociedade haitiana seja um caso no qual o conceito de 'diglossia' clássico não se aplique.</p>
      <p id="paragraph-11">Os estudos clássicos sobre diglossia tem nas pesquisas de Ferguson (1959<xref id="xref-91c0ad082bcd6f1be8e8d37e0d21435d" ref-type="bibr" rid="book-ref-c1f90505bc24acafbd57a3ce19705cd5">[4]</xref>) um dos seus principais expoentes. Para esse teórico, a diglossia designa a existência de duas variedades linguísticas que coexistem em um determinado território e que, por razões históricas e políticas, possuem <italic id="italic-10">status</italic> e funções sociais distintas, específicas e sem sobreposição.</p>
      <p id="paragraph-12">Para o pesquisador, a inaplicabilidade do conceito de diglossia ao seu país de origem, o Haiti, se justifica pelo número de locutores monolíngues. Segundo DeGraff (2017<xref id="xref-de9797b831e87b785fc72f12060e3dcb" ref-type="bibr" rid="book-ref-a568ad2d200d594ed4e7e869b72b56e5">[5]</xref>), 95% dos haitianos são capazes de compreender e se expressar apenas em <italic id="italic-11">kreyòl</italic>. Esses indivíduos, por não possuírem o que autor chama de escolha diglóssica, se distinguem de uma minoria do país capaz de recorrer tanto à língua francesa quanto ao<italic id="italic-12"> kreyòl</italic>.</p>
      <p id="paragraph-13">Juntamente com o francês, nas palavras do conferencista, essa língua local se oficializou no país com o advento da Constituição de 1987. Essa Carta Magna declarou que o crioulo é a língua pela qual todos os haitianos estão unidos. O <italic id="italic-13">kreyòl </italic>hoje tem uma Academia, ortografia e literatura próprias.</p>
      <p id="paragraph-14">DeGraff defende que, no Haiti, a melhoria do sistema educacional requer o uso do <italic id="italic-14">kreyòl</italic> do nível primário ao nível universitário, o que ampliará o acesso à educação de qualidade. Assim, através de uma breve análise do contexto sociolinguístico do país, o pesquisador aponta para uma iniciativa que visa melhorar a educação no Haiti. Por meio de uma pedagogia interativa, bem como de tecnologias que consideram o crioulo haitiano, ele nos apresenta a Iniciativa MIT-Haiti.</p>
      <p id="paragraph-15">O objetivo da Iniciativa MIT-Haiti é expandir o acesso a uma educação de qualidade e modificar a realidade do país no que diz respeito à exclusão social e à educação deficiente. Assim, a fim de desenvolver, avaliar e disseminar recursos e atividades de aprendizagem em <italic id="italic-15">kreyòl</italic> para diferentes disciplinas, tecnologias avançadas são utilizadas para a melhoria radical do sistema educacional. </p>
      <p id="paragraph-16">O caráter inovador dessa iniciativa se evidencia por ser a primeira vez em que especialistas da área tecnológica, juntamente com linguistas, concentram todos os seus esforços na criação desse tipo de material educativo. Nesse sentido, DeGraff (2017<xref id="xref-9897a4a4b3734ffc6e81f34c44c8ae73" ref-type="bibr" rid="book-ref-a568ad2d200d594ed4e7e869b72b56e5">[5]</xref>) é incisivo ao dizer que, se os produtores de materiais didáticos desconsiderarem o todo da diversidade linguística mundial, o que inclui as línguas 'locais', como o <italic id="italic-16">kreyòl</italic>, a educação de qualidade permanecerá inacessível à grande massa da população.</p>
      <p id="paragraph-17">Percebemos que a proposta prevista pela Iniciativa MIT-Haiti se compõe de três pilares, explicitados em DeGraff (2017<xref id="xref-f92cea115c2a006e921b18325139e575" ref-type="bibr" rid="book-ref-a568ad2d200d594ed4e7e869b72b56e5">[5]</xref>). O primeiro se liga ao uso do idioma local, neste caso, o <italic id="italic-17">kreyòl</italic>; o segundo em um aprendizado ativo, otimizado pelo uso da língua materna, capaz de promover a reflexão, a colaboração e a comunicação; e o terceiro a uma tecnologia que melhora o aprendizado, facilitando a compreensão de conceitos complexos e abstratos.</p>
      <p id="paragraph-18">A Iniciativa MIT-Haiti, sem dúvida, é um modelo a ser disseminado e implementado não apenas no Haiti. Pois, quando a diversidade linguística e os idiomas locais recebem a atenção que merecem, é possível imaginar um mundo em que o acesso à educação de qualidade seja genuinamente democrático.</p>
      <p id="paragraph-19">A fala de Michel DeGraff nos faz refletir sobre a realidade político-linguística e social do Brasil, bem como sobre a diversidade linguística encontrada aqui, quando o autor cita a importância de considerarmos as línguas locais no sistema educativo.</p>
      <p id="paragraph-20"> Segundo dados do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL), atualmente há mais de trezentas línguas faladas no Brasil (MORELLO, 2015<xref id="xref-b4364058b8291445439b59ac933d8820" ref-type="bibr" rid="book-ref-285108084b30c7c2d63c2dd63ba3c47a">[6]</xref>). Dentre elas, línguas indígenas, de imigração, de comunidades afro-brasileiras, de sinais e crioulas. </p>
      <p id="paragraph-21">No entanto, apesar do grande número de línguas brasileiras, Souza (2018<xref id="xref-03967d39afad63a79d571b1756f70d88" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-e1afcb6dac7b45a0226664a282941e99">[7]</xref>) aponta que, até o ano de 2018, de cinco mil quinhentos e setenta municípios, dezesseis, pertencentes a sete estados brasileiros, possuíam línguas locais cooficializadas, sendo elas apenas de imigração e indígenas. Além desse fato, a análise realizada pela pesquisadora aponta que muitas dessas leis de cooficialização não explicitam a inclusão de línguas locais no currículo escolar.</p>
      <p id="paragraph-22">Dessa forma, essa conferência enfatiza a importância de dar atenção às línguas minoritárias e colocar em prática projetos que promovam sua implementação no sistema educacional dos territórios onde são faladas.  </p>
    </sec>
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        <label>1</label>
        <p id="paragraph-5317aa105958883354c7f736d5119286">Tradução de Black lives will not matter until our languages also matter: the politics of linguistics and education in post-colonies. Uma tradução alternativa, mais próxima do original é Vidas negras não vão importar até que nossas línguas também importem: as políticas da Linguística e Educação em pós-colônias.  </p>
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          <article-title>BLACK Lives Will Not Matter Until our Languages also Matter: The Politics of Linguistics and Education in Post-Colonies. Conferência apresentada por Michel DeGraff [s.l., s.n], 2020. 1 vídeo (2h 26min 05s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística</article-title>
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