<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Archiving and Interchange DTD v1.2 20190208//EN" "JATS-archivearticle1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:ali="http://www.niso.org/schemas/ali/1.0">
  <front>
<journal-meta>
<journal-id journal-id-type="nlm-ta">Revista da Abralin</journal-id>
<journal-title-group>
<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
</journal-title-group>
<issn pub-type="epub">2178-7603</issn>
<publisher>
<publisher-name>Associação Brasileira de Linguística</publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
    <article-meta>
      <article-categories>
        <subj-group>
          <subject content-type="Artigo">Tipo de contribuição</subject>
        </subj-group>
      </article-categories>
      <title-group>
        <article-title>ARCHIVOS EM DEBATE: POR UMA HISTORIOGRAFIA DA CRÍTICA TEXTUAL DE AUTORES BRASILEIROS</article-title>
      </title-group>
      <contrib-group content-type="author">
        <contrib id="person-a762dfa7ebcb9e88dd4b9d795fd2b0a4" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>Fachin</surname>
            <given-names>Phablo Roberto Marchis</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-4c2d18dd389f1ba3f854e34b9be64655" />
        </contrib>
        <contrib id="person-35d5590d91e9be541d723ffe2697bd0d" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>Miranda</surname>
            <given-names>Maiara</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-4c2d18dd389f1ba3f854e34b9be64655" />
        </contrib>
        <contrib id="person-a54309137a3550beef7141b03c42117e" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>Silva</surname>
            <given-names>Suellen Carneiro da</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-4c2d18dd389f1ba3f854e34b9be64655" />
        </contrib>
        <contrib id="person-79fac0e7c43d7e9db357f0b4d394e98e" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>Souza</surname>
            <given-names>Mariana Barbosa de</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-4c2d18dd389f1ba3f854e34b9be64655" />
        </contrib>
        <contrib id="person-d5dccfe0ea7a13961c2e49cce7c3e7f7" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Maldonado</surname>
            <given-names>Luccas Eduardo Castilho</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-4c2d18dd389f1ba3f854e34b9be64655" />
        </contrib>
      </contrib-group>
      <contrib-group content-type="editor">
        <contrib id="person-a40b9f4f21613927738f9de4c37ea00c" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Baronas</surname>
            <given-names>Roberto Leiser</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-1fc6d5152abbf74ac61c7f6f7bca7aac" />
        </contrib>
        <contrib id="person-51b40fefe471a4dbc9ddeb6d3a7cfcf5" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Wachowicz</surname>
            <given-names>Tereza Cristina</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-d861e34f9a40214e9ec1d612994f5a8e" />
        </contrib>
        <contrib id="person-f824e9317f84e8c2650c907ee2615f76" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Pagani</surname>
            <given-names>Luiz Arthur</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-d861e34f9a40214e9ec1d612994f5a8e" />
        </contrib>
      </contrib-group>
      <aff id="affiliation-4c2d18dd389f1ba3f854e34b9be64655">
        <institution content-type="orgname">Universidade de São Paulo (USP)</institution>
      </aff>
      <aff id="affiliation-1fc6d5152abbf74ac61c7f6f7bca7aac">
        <institution content-type="orgname">Universidade Federal de São Carlos</institution>
      </aff>
      <aff id="affiliation-d861e34f9a40214e9ec1d612994f5a8e">
        <institution content-type="orgname">Universidade Federal do Paraná</institution>
      </aff>
      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="21/04/2017" />
      <volume>16</volume>
      <issue>1</issue>
      <fpage>171</fpage>
      <lpage>203</lpage>
      <page-range>171-203</page-range>
      <permissions id="permission">
        <license>
          <ali:license_ref>http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/</ali:license_ref>
        </license>
      </permissions>
      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-e746c1e18b4db66a34d1dd7141a4a635">Este artigo visa problematizar o trabalho do filólogo no exercício da Edótica, tendo como escopo a historiografia da Crítica Textual de autores brasileiros. Partindo da análise metodológica empregada pela Coleção Archivos, busca-se compreender os caminhos que pautaram as escolhas dos editores, com base nos testemunhos deixados por cada escritor, a fim de minimizar as corrupções causadas ao longo da transmissão dos textos. Desse modo, apresenta-se uma discussão sobre a relevância de um texto fidedigno para a atuação do pesquisador no campo dos estudos literários.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">This article aims to discuss the work of the philologist in the exercise of</italic>
          <italic id="italic-2" />
          <italic id="italic-3">Edótica, with the scope of the historiography of textual criticism by Brazilian authors. Based on the <italic id="italic-673a25c677ca439f3203015870370903">methodological analysis employed by the Archives Collection, we</italic><italic id="italic-cc13d92072a527364aa87b4a5f90ae79"> </italic><italic id="italic-ec42c4eacc5a70c74c1df596f9a77f4b">want</italic><italic id="italic-a0ab5467ab91cf065a1b4764d2bf4776"> </italic><italic id="italic-5">to understand</italic><italic id="italic-6"> </italic><italic id="italic-7">the ways that guided the choice of editors, based on testimonies left by every writer in order to minimize </italic><italic id="italic-8">the corruptions caused along the transmission of texts. Thus, it presents a discussion of the relevance of a reliable text for the work of the researcher in the field of literary studies.<italic id="italic-4"/><italic id="italic-9"/></italic></italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-0ceb3e9a7db5092bb069435525e27e33">Portuguese Philology</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-d28e2277bba5a5c68c00ceef3aa5e9e3">Archivos Collection</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-0bd034e370e0a8aea97f86595a2fe092">Textual Criticism</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-c2cd7d0c2feb4c4feaa0f8e1cac4c160">Genetic Criticism</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-277e4725c39596e4f6a8fb4e3932d723">Brazilian Literature</italic>
        </kwd>
      </kwd-group>
    </article-meta>
  </front>
  <body id="body">
    <sec id="heading-1">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-2">A preocupação com o apuro do texto é antiga e sempre esteve latente no contexto da Filologia e da Crítica Textual. Na tradição manuscrita medieval, por exemplo, textos com mais de um testemunho, com original ausente, podiam apresentar alterações pela intervenção do copista durante o processo de transmissão. Na moderna, em que teoricamente a tradição pode contar com manuscritos do autor ou textos que passaram por seu aval, alterações apareciam tanto na tradição manuscrita quanto na impressa. Em ambos os casos, o texto que se tinha em mãos se distanciava daquele composto originalmente<xref id="xref-31810de54c335e2ea0ce558fcb22358a" ref-type="fn" rid="footnote-65c4b2659dd02bcd64059238a3aec996">1</xref>. A diversidade entre testemunhos de uma mesma obra deve provocar, portanto, a pesquisa das fontes: originais do autor, edição revisada pelo autor, alguma edição alterada por editores, ou ainda acúmulo de erros sobrepostos ao longo de sua tradição.</p>
      <p id="paragraph-4a5a9ebb55950a96cc44a198c0d1dc87">Historicamente, essa busca pelo estabelecimento dos textos, com o intuito de reconstituí-los à sua genuinidade, em recuperar o patrimônio de uma cultura através da edição e sua reconstrução, literários ou não, tem sido acompanhada por um conjunto, muitas vezes conflitantes, de teorias e métodos, diferentes maneiras de olhar o texto, sua tradição e o seu estabelecimento. Diante de uma complexa história metodológica, é natural que surjam dúvidas sobre qual caminho seguir. O entendimento desse processo, sem perder de vista as particularidades de cada obra, também passa por um emaranhado de complexidades.</p>
      <p id="paragraph-03c3ac633ee5823c71a13b81858fcd49">Quais seriam, então, os procedimentos indispensáveis para a realização de um trabalho de Crítica Textual? Como se familiarizar com todo esse conhecimento, com todo esse método rigoroso de investigação histórico- cultural e genética? Como fazer com que estudantes de graduação, futuros pesquisadores e professores de literatura, se familiarizem com esse tipo de estudo e valorizem os textos genuinamente estabelecidos?</p>
      <p id="paragraph-3">Há manuais que recorrentemente são mencionados em estudos críticos, entre eles, Azevedo Filho (2004), Spina (1977), Spaggiari e Peruggi (2004), Cambraia (2005), Blecua (1983), que proporcionam essa caminhada inicial. De diferentes perspectivas, transmitem o conhecimento inicial sobre a ciência em questão e os procedimentos disponíveis, porém nem sempre a tradição de determinada obra é modelar como nos manuais de Crítica Textual conhecidos. Não se trata de um mero seguimento técnico de procedimentos pré-estabelecidos. Definitivamente, não há uma receita para o trabalho filológico de Crítica Textual. Isso não implica abrir mão de metodologias. Vai por um caminho muito tortuoso quem age assim ou procura sucumbir histórias complexas de transmissão textual e literária aos limites impostos pela cientificidade de métodos elevados a <italic id="italic-c15a96de400daec32ea1c79914344d2b">cânone</italic>.</p>
      <p id="paragraph-4">É preciso enfrentar o texto e a sua história, em busca de sua forma de transmissão, de identificar suas particularidades, os traços da pena do autor, ou modernamente, dos caracteres datiloscritos ou digitais. Nesse momento, importa como a história do texto se apresenta e o caminho a percorrer para alcançar tal objetivo e reconstituir a sua história ao seu estado genuinamente autoral.</p>
      <p id="paragraph-17b4f7d0ffee36e76cb3e924c6a0fec7">Na tentativa de responder a essas perguntas e alcançar o conhecimento básico relacionado a trabalhos de Crítica Textual de autores da literatura do Brasil, criou-se em 2015 o projeto de pesquisa <italic id="italic-06097b7fa0a7e07272a691b0842ec5dc">Historiografia da </italic><italic id="italic-c0b2ceb1a5186bc31b75e9d9205d782e">crítica textual de autores brasileiros, </italic>o qual objetiva o desenvolvimento de competências acadêmicas indispensáveis para o contato com o texto literário, o respeito à sua história de transmissão e à fidedignidade autoral.</p>
      <p id="paragraph-556f6a568e5e860fa0de8d16e0646360">O projeto integra uma ação que visa aproximar alunos da graduação a assuntos filológicos, principalmente no que tange os estudos literários. O estudo da Crítica Textual mostra-se fundamental para a compreensão das transformações sofridas pelo texto ao longo dos anos e dos processos editoriais. Tal consciência desperta o interesse pela busca de um material menos corrompido e deformado de seus sentidos, a fim de evitar a ocorrência de erros grosseiros de análise. Principalmente quando se refere a alunos de Letras, que estão constantemente em contato com textos literários consagrados.</p>
      <p id="paragraph-8d56d2ec23d65872054166faea37f4f1">É muito significativo, portanto, compreender o processo de transmissão dos textos, principalmente literários, entender todas as etapas do trabalho de reconstituição de uma obra, previstas em manuais de Crítica Textual, e também contrastar com o que tem sido feito em termos práticos no contexto literário brasileiro. Verificar, dessa forma, que os textos disponíveis chegam a apresentar diferenças relevantes e comprometedoras da sua fidedignidade, a ponto de instalar-se a dúvida de qual seria o original do autor nesta e naquela passagem: o autor escreveu isso ou aquilo? Há obras que poderiam alimentar a hipótese de duas tradições, uma ao lado da outra mais curta, ou de outra em que tal trecho ou tais cenas não aparecem. O público leitor, apenas ocasionalmente, toma conhecimento de parte do problema, e a tradição impressa avança intrépida multiplicando edições com problemas sobrepostos (FACHIN et al., 2010).</p>
      <p id="paragraph-b077d8e9d0919f72a07160b42f237613">A par dessas considerações, neste texto apresentamos alguns resultados do projeto em questão. O estudo envolve diferentes áreas, integradas entre si: Filologia e Crítica Textual, Literatura e História. Com base em perspectiva essencialmente filológica, relacionada aos estudos literários, busca-se compreender a história dos textos e como foram transmitidos ao longo do tempo, isto é, a sua tradição. O <italic id="italic-5716a33add0172b9d04e3c572d666262">corpus </italic>é composto por edições críticas de autores brasileiros publicados pela Coleção Archivos<italic id="italic-62b69bbe35d248e2559b90a8e12e7fd3">, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter</italic>, de Mário de Andrade, <italic id="italic-e6f75c0f3e53c8ec8cb836401b4e1f84">Crônica da Casa Assassinada, </italic>de Lúcio Cardoso, <italic id="italic-d1b0cda186b96b3bf302774f74afcbe9">A Paixão Segundo </italic><italic id="italic-f8ba50dc309a3048329f8b5b496906e8">GH, </italic>de Clarice Lispector, <italic id="italic-0acf5be9563a6b724f3f507bc3b06129">Triste </italic><italic id="italic-0363b8ec17524660d612bed78adb4d07">Fim de Policarpo Quaresma, </italic>de Lima Barreto, e pela edição de <italic id="italic-14c1f0b4b7175f4b470f7ec44e1d884b">Os Sertões</italic>, de Euclides da Cunha, publicada fora da coleção.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-86933c3869f410422b44172c993ca5f0">
      <title>1. O projeto <italic id="italic-0b281c3249a7ba0f435f8359bc99ccf4">Historiografia da crítica textual de autores brasileiros<italic id="italic-877f491a1385ddacf7eba26c73adedb1"/></italic></title>
      <p id="paragraph-6cdbc219750ef57bbacf9d8821673ea6">De acordo com CANDIDO (2005:13), “o estudioso de literatura visa essencialmente ao conhecimento e análise do texto literário. Este apresenta dois aspectos básicos: a) acessório; b) essencial”. O primeiro seria a sua realidade material (aspecto, papel, caligrafia, tipo, estado do texto), mais a sua história (por quem, como, onde, quando, em que condições). O segundo, a sua realidade íntima e finalidade verdadeira, a sua natureza, significado, alcance artístico, de certo modo, a sua alma. O estudo de textos literários e da sua história, baseado em princípios filológicos, pautados pela Crítica Textual, cumpre esses dois critérios. Por um lado, na medida em que se vai às fontes, realiza-se importante função do trabalho filológico, de acordo com Spina (1994), em que o texto deixa de ser um fim em si mesmo da tarefa filológica para se transformar num instrumento que permite ao filólogo reconstituir a sua gênese e transmissão. Por outro, por se tratar de trabalho que tem como base o confronto do conjunto de testemunhos que compõem a tradição de determinada obra, pratica-se o estudo das transformações pelas quais o texto passou, do estilo do autor e do que se denomina em Filologia o seu <italic id="italic-86d6f0182c44d662349c0dc67a7ded50">usus scribendi, </italic>isto é, a utilização estilística da língua pelo autor e as formas linguísticas de uma determinada época. Dessa maneira, como defende CARVALHO e SILVA (1994:57),</p>
      <p id="paragraph-48c91551538614ece17bbb1e0b63a933">a Crítica Textual, com o seu método rigoroso de investigação histórico-cultural e genética, toma os textos como expressões da cultura pessoal ou social, com as preocupações fundamentais de averiguar a autenticidade dos mesmos e a fidedignidade da sua transmissão através do tempo, e de cuidar de interpretá-los, prepará-los e reproduzi-los em edições que se identifiquem ou se aproximem o mais possível da vontade dos autores ou dos testemunhos primitivos de que temos conhecimento.</p>
      <p id="paragraph-6">Levando-se em conta princípios metodológicos da Filologia, por meio de análise de trabalhos de Crítica Textual, o projeto em questão, como mencionado, procura desenvolver competências acadêmicas indispensáveis para o estudante de graduação em Letras, principalmente em Iniciação Científica, no contato com o texto literário, o respeito à sua história de transmissão e à fidedignidade autoral. A relevância da pesquisa reside no fato de que ainda há muitas edições corrompidas de obras consagradas, com diferenças encontradas em edições da mesma obra de autores nacionais que levantam dúvidas em relação ao texto de que se valeram as editoras.</p>
      <p id="paragraph-7">Em recente publicação, Moreira (2011:48), ao citar o filólogo Antônio Houaiss, questiona a universalização e a aplicação generalizada do método editorial da Crítica Textual a todo tipo de obra, “como se a historicidade dos textos a serem editados não demandasse ao editor e ao método por ele escolhido, no mínimo, adaptações ou acomodações apropriadas às suas peculiaridades históricas”. O processo de simplificação dos procedimentos analítico-interpretativos está presente em diversos trabalhos realizados sob a denominação de moderna Filologia, ocasionando, muitas vezes, equívocos interpretativos e induções a uma crítica distanciada do alcance literário do autor e de sua obra. Hansen (2011:19), resume com autoridade toda essa problemática:</p>
      <p id="paragraph-922a61eeeb0964e62efdbf511438ea59">[...] o exame da manuscritura permite relativizar e tornar inconsistentes as interpretações dos poemas do <italic id="italic-a0ee0cb95dd10432cd9bf317b0c8b3b5">corpus </italic>de Gregório de Matos por meio de categorias filológicas que universalizam pressupostos românicos sobre o tempo, a história, a arte e a subjetividade. Em geral, são usadas para quaisquer textos de qualquer formação histórica, como as categorias <italic id="italic-71adf1c9c965bcf01a3ff04249e5b962">origem, autenticidade, autoridade, unicidade, genuinidade, originalidade, autoria individualizada, primeira </italic><italic id="italic-a119fdcd753cfac4001fee6c1735a2b5">intenção autoral.<italic id="italic-59f8064709377c748dc1d8a21f1bc95d"/></italic></p>
      <p id="paragraph-5">O projeto de pesquisa <italic id="italic-a59b8521c409f23513fb06b712b85073">Historiografia da crítica textual de autores </italic><italic id="italic-782837577d80da0527cc029f177fbcec">brasileiros </italic>tem como objetivo específico a análise de edições críticas de obras da literatura brasileira, com o intuito de verificar os seguintes aspectos relacionados à sua historiografia e a teorias utilizadas para a sua concretização: 1) autores brasileiros já passaram por trabalhos de edição crítica; 2) caracterização do trabalho de Crítica Textual com base em autores brasileiros; 3) identificação das teorias utilizadas para a concretização dessas edições, de acordo com a própria história da Crítica Textual; 4) contraste entre a metodologia empregada nesses trabalhos e as diferentes linhas de estudos de manuais consagrados da Crítica Textual.</p>
      <p id="paragraph-4f193fa3be8a62d095b19ad76a994d5b">Planejada para ser realizada em cinco etapas, a pesquisa contempla: 1. levantamento dos autores brasileiros que já passaram por trabalhos de edição crítica; 2. leitura de bibliografia especializada sobre Filologia e Crítica Textual; 3. estudo e caracterização do trabalho de Crítica Textual com base na edição crítica dos autores levantados; 4. identificação das teorias utilizadas para a concretização dessas edições, de acordo com a própria história da Crítica Textual; 5. contraste entre a metodologia empregada nesses trabalhos e as diferentes linhas de estudos de manuais consagrados da Crítica Textual.</p>
      <p id="paragraph-be873591d79a47c1ed4beed440eb9bee">Como resultado, espera-se que o estudante entenda o processo de transmissão dos textos, principalmente literários, compreenda todas as etapas do trabalho de reconstituição de uma obra, previstas em manuais de Crítica Textual, e possa contrastar com o que tem sido feito no contexto literário brasileiro, no respeito à sua história de transmissão e à fidedignidade autoral. Ao realizar a pesquisa, o resultado também contribuirá tanto para os trabalhos na área da Filologia, uma vez que será sistematizado o conjunto de estudos realizados no âmbito da Crítica Textual de autores brasileiros, quanto para a Literatura Brasileira, pois destacará a relevância do texto fidedigno para interpretações críticas nessa área.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-680a0ed92efca5274e0643c2660973a4">
      <title>2. A Coleção Archivos</title>
      <p id="paragraph-11b3587d68a067ba237e8a946c3e7059">A escolha da Coleção Archivos<italic id="italic-e856ead9ba882efe2f3553637e915ade">, </italic>especificamente <italic id="italic-5cd36d3511e4f88b2de5b0105b6062e3">Coleccíon Archivos de </italic><italic id="italic-64f52310811f12c5145bc361e06a32f9">la literatura latinoamericana y del Caribe del Siglo XX, </italic>como base da pesquisa ocorreu por ser um dos mais bem-sucedidos projetos internacionais dentro do âmbito da Crítica Textual. Suas edições críticas desempenham diversos papéis, entre eles, a divulgação de obras canônicas da América Latina, contribuição para a “preservação do patrimônio literário e cultural dos países que, no século passado, revolucionaram o conceito de literatura” (MIRANDA; SOUZA, 2003:10) e incentivo ao diálogo entre as culturas europeias e da América Latina. Seu acervo de publicações de autores brasileiros é notável.</p>
      <p id="paragraph-f348758ef21b63a655597f274022b0b5">Em 1971, o escritor guatemalteco vencedor do Nobel de literatura, Miguel Ángel Asturias, decidiu entregar seus manuscritos à Biblioteca Nacional da França para que o <italic id="italic-10230c57dcc42b0d614d120a688e9867">Centre National de la Recherche Scientifique </italic>realizasse estudos e edições críticas sobre seus documentos. Porém, apenas a partir de 1984, o projeto começaria a ganhar forma. O CNRS e o <italic id="italic-aac72a2e53b487de7befbfa6dcb4c93f">Consiglio Nazionale delle Ricerche </italic>(CNR), em parceria com a Unesco, organizaram um colóquio em Paris, com especialistas da América Latina, Europa e Estados Unidos para discutirem os objetivos gerais da Coleção, assim como seus critérios metodológicos, seus autores e coordenadores. No ano seguinte, no dia 28 de setembro, em Buenos Aires, sob a direção do filólogo italiano Amos Segala, o projeto <italic id="italic-49739ea7fb7969f4cfb6ae1e8ecd1812">Archivos </italic><italic id="italic-69890a4cb1aae13f676b5bb93221a175">de la literatura latinoamericana y del Caribe del Siglo XX </italic>seria consolidado. Representantes de quatro países europeus (Espanha, França, Portugal e Itália) e quatro latinos (Argentina, Brasil, Colômbia e México) estavam presentes na reunião. A encomenda da edição crítica de <italic id="italic-75a143bf20b080dd665fc23ac62bf54b">Don Segundo </italic><italic id="italic-76a071bacf1d0071db65aa8903548d63">Sombra </italic>aos especialistas argentinos foi um importante marco, para a produção acadêmica do país e para o projeto Archivos, resultado desse evento (LOUIS, 2012).</p>
      <p id="paragraph-fff802d75393e0ddfeea5c0b980faf29">Em 1989, foi lançada a coleção no Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo). Antes do lançamento, um evento temático, organizado pelo IEB-USP e pela CNPq, foi realizado com o fim de debater os projetos da coleção. O evento foi intitulado: Semana Arquivo, com duração entre 12 e 16 de julho.</p>
      <p id="paragraph-88e2606cc109ca744c69b87b36727e1e">A partir de 1996, a coordenação editorial da Coleção passa a ser de responsabilidade da Espanha (a decisão já havia sido tomada em 1994). Tal centralização da produção da Coleção tinha como finalidade a viabilização do acesso aos leitores do mundo inteiro, sem omissões arbitrárias de texto, com características gráficas e preços similares. Com a mudança, as edições lançadas anteriormente à data de unificação foram reimpressas, como os três primeiros livros de autores brasileiros. Em relação aos nacionais, foram seis obras publicadas, como indicado no quadro abaixo:</p>
      <table-wrap id="table-figure-d6f776806506aefdbcaafc0ec55e89fe">
        <label>Table 1</label>
        <caption>
          <title>TABELA 1: obras brasileiras publicadas pela Coleção Archivos</title>
          <p id="paragraph-e951d52b2585978155a8586ef2db1a91" />
        </caption>
        <table id="table-c17c7149e4e79ce2762ce6db08242876">
          <tbody>
            <tr id="table-row-18e8b1dd4b6526e58ab738056ad7ffef">
              <td id="table-cell-8bc6b6900c7edeae47af09ba1261b081">
                <bold id="bold-2d085e6da51ece9e9b33b264074ae01e"> N. </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-5ecd463d7fe6bd35add6824a9cde0703">
                <bold id="bold-9ff9fff9f3d645a88efefa2c133ac92e"> Ano </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-5abc86daba522673e53f9bef5826a27a">
                <bold id="bold-182a9c2606377c2b78714310809d1ac3"> Título </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-23287c6c1b2aeaff8148a74ccf60a1f6">
                <bold id="bold-5ed6b69939c97f988f53894544919e44"> Autor </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-7b7a00575a0d7a3eaf454b4882f25ccf">
                <bold id="bold-08f599ad05aa25b643db67ad69c85da2"> Coordenador </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-6979e80b5dddcf9394162f7676b64a2c">
              <td id="table-cell-0588a9cb7b5544c7a43804ec3038db87"> 6 </td>
              <td id="table-cell-f04cc0068066e1ad92d6e36b2c7dd9db"> 1988/1996 </td>
              <td id="table-cell-4e41f2c4566c5ca8486a18f3cb349bd2"> Macunaíma, o herói sem nenhum caráter </td>
              <td id="table-cell-b708f584e3333369f1b2ab8cf5ce5db4"> Mário de Andrade </td>
              <td id="table-cell-70b74ece493113246d8e5232b9389e8c"> Telê Ancona Lopez </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-eb849e6e97def1f75e6f7b26fdd72ec2">
              <td id="table-cell-be7a5bf9be0cdd7ab2a4de73f8dc06a6"> 13 </td>
              <td id="table-cell-1afa4d20f5d762ae9a8c071812aa84a7"> 1988/1996 </td>
              <td id="table-cell-c523127a9e49bb263ddf346caa249b46"> A paixão segundo G.H. </td>
              <td id="table-cell-7ca753d90700aaa87d6934dd9b7abf57"> Clarice Lispector </td>
              <td id="table-cell-3c6f11c95d3fe0e2d28af12854b60451"> Benedito Nunes </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-ea1273859b7a96a81965c3975dab1776">
              <td id="table-cell-63b135f326fc6eebc7dfffaa4470fb5a"> 18 </td>
              <td id="table-cell-6122828b520843541b0d299931055819"> 1991/1996 </td>
              <td id="table-cell-49886c1c8bc4295706bf897a805fbb95"> Crônica da Casa Assassinada </td>
              <td id="table-cell-c7fc4722871f5354d8cc355c1d0443fe"> Lúcio Cardoso </td>
              <td id="table-cell-e06eb52941c1b3d2fda92a952e08b763"> Mário Carelli </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-10c8b566c1d01d9e1359eee9b0171675">
              <td id="table-cell-a3b85c80aa6922f46336e7d3754b2135"> 30 </td>
              <td id="table-cell-5d621860cf35f8b8be9af996357c0a3b"> 1997 </td>
              <td id="table-cell-83dc5fcb08b98917f0bd09d1cc410cff"> Triste fim de Policarpo Quaresma </td>
              <td id="table-cell-b7c2386c6b3c2f3d4fb621ec0815a4c1"> Lima Barreto </td>
              <td id="table-cell-e561fffa1c2ee93906a78682ea3c850f"> Antonio Houaiss/ Carmem Lúcia Negreiros </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-f24c6b17eea1321a497d4a6c14e6e810">
              <td id="table-cell-51ca101eabcef5fc8426a7b7e96016aa"> 33 </td>
              <td id="table-cell-a9952c5d4a9617beac60b27cedd648cf"> 1998 </td>
              <td id="table-cell-f8c1898e26b1d30e898ad754f48d95a9"> Libertinagem/ Estrela da manhã </td>
              <td id="table-cell-47eecb8e73ddbf0982b8124459fbeefa"> Manuel Bandeira </td>
              <td id="table-cell-94ccf875bf7c361cafb06ac1d4469bde"> Giulia Lanciani </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-9906f324eb4d679326b06c808f97b394">
              <td id="table-cell-2d741d42c01974c3f54f6a4e80665484"> 55 </td>
              <td id="table-cell-df76e5c11287b988a66089f004338c40"> 2002 </td>
              <td id="table-cell-8fff584c5278612c9a3bbe9161b3b818"> Casa grande &amp; Senzala </td>
              <td id="table-cell-b6a13ea3d4bfc47447ee61fe41b9604a"> Gilberto Freyre </td>
              <td id="table-cell-d28c49253383d47fb99fbe762b82eb7d"> Guillermo Giucci/ Enrique Rodriguez Larreta/ Edson Nery da Fonseca </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-9fd67d99ba128638721d90944fe89909">A Archivos possui uma estrutura padronizada para suas obras. O esquema adota as seguintes determinações, com pequenas variações:</p>
      <p id="paragraph-d9f03d8513c381152bf280868d61b99a">1. Introdução</p>
      <p id="paragraph-5fab0c907f6dccb0cb716071b09501e0">→ Liminar</p>
      <p id="paragraph-c1fa3e45ef8d23742c9bdf520a38101e">→ Introdução do coordenador</p>
      <p id="paragraph-71d7a3bce0c2df0c2e80642156a32720">→ Nota filológica e estudo genético</p>
      <p id="paragraph-376d1230af1e3c710f6c2b5dfa34a13b">2. O Texto</p>
      <p id="paragraph-8">→ A obra</p>
      <p id="paragraph-9">→ Variantes e notas críticas → Glossário</p>
      <p id="paragraph-661d9ae905a61605719ad515ac223d64">3. Quadro cronológico</p>
      <p id="paragraph-b7f901835ee1ee25ec582c88be2dc67b">4. História do texto</p>
      <p id="paragraph-9411aa7b3ade63bf4ce277392dfcd6d7">→ Gênese e circunstância (produção da obra) → Destinos</p>
      <p id="paragraph-2f425749ee614dda17cd8e9dbfc99e72">5. Leituras do texto</p>
      <p id="paragraph-be422d3c498c9348f6f7a8b422d1a9c0">→ Temática</p>
      <p id="paragraph-87cc987a209dfd6d1dab6a90b5a3359f">→ Intratextual</p>
      <p id="paragraph-5538fba3490ca5803f8ee8822bb8ad1e">→ Estruturas, formas e linguagens</p>
      <p id="paragraph-11">6. Dossiê da obra</p>
      <p id="paragraph-12">→ Dossiê de recepção</p>
      <p id="paragraph-13">→ Correspondências</p>
      <p id="paragraph-14">→ Manuscritos e documentos fotográficos e iconográficos</p>
      <p id="paragraph-681fd418832cdaade7e8b6072d640b4c">Para o estudo em questão a parte denominada <italic id="italic-21577db91dfdebac22d2ca7976e604ce">Introdução </italic>tem sido determinante, pois é nela que os procedimentos editoriais são descritos pelos respectivos editores – nas seções <italic id="italic-012bc101592f69de95535ed8759b6d69">Introdução do coordenador </italic>e <italic id="italic-1621fc675e735fe87bc9d9daf1c5d52a">Nota filológica</italic>, especificamente. A <italic id="italic-44833961aa5e8055d40c28d305663820">Liminar </italic>traz a participação de um convidado de renome, quase sempre ligado ao autor em questão, com o intuito de agregar valoração à obra, credibilidade ao estudo e contextualizar o seu alcance artístico-literário.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-af13ecea7a6688a02b0bcb9181c22061">
      <title>3. O trabalho de edição crítica da Coleção Archivos</title>
      <p id="paragraph-74e17213be6daca2a05e00bebf431ce3">As particularidades de cada trabalho de edição crítica das obras nacionais contempladas pelo projeto serão apresentadas nesta parte do artigo, com a indicação do percurso da equipe editorial no seu labor filológico e crítico textual, procurando explicitar as principais implicações metodológicas que levaram em consideração para o resultado alcançado. As obras selecionadas para esta parte são: <italic id="italic-48cde28889873e9a8976b7cd306b625f">Macunaíma, o herói sem nenhum </italic><italic id="italic-7e2b1fff81e30e02c6df6e09e6f241a5">caráter, Crônica da Casa Assassinada, A Paixão Segundo G.H., </italic>e <italic id="italic-34fe30079ae63c1a1d59d1a4046808d4">Os Sertões</italic>.</p>
      <sec id="heading-9587223114bcfe34a59eafb48247d5a0">
        <title>3.1 <italic id="italic-36e4b24f2d1bfcb04ec606036982ad37">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, </italic>de Mário de Andrade</title>
        <p id="paragraph-bd3d58331f9227da1db4a2cdb5d1540d">A primeira edição crítica de <italic id="italic-e88dbdbbf720a3c3a3229d14652031e3">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, </italic>com estabelecimento de texto feito por Telê Ancona Lopez, data de 1978, obra inaugural de uma série liderada por José Aderaldo Castello, editada em parceria pela LTC (Livros Técnicos e Científicos) e pela Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Dez anos depois, chegaria ao mercado a primeira edição da rapsódia pela Coleção Archivos. O trabalho de Lopez inaugura a participação de brasileiros estudados pela iniciativa. Em 1996, a história do rapaz nascido no fundo do mato-virgem ganhou sua segunda e paradigmática edição pela Archivos.</p>
        <p id="paragraph-ef00ddeec815e1f279994ac001741cf9">Chama a atenção e provoca estranhamento a existência de três edições críticas de uma mesma obra, ainda mais tendo sido estabelecidas pela mesma pesquisadora. Contudo, basta que se analise cuidadosamente cada uma delas para perceber a evolução teórica de Lopez. Em 1978, encontrava-se descontente com as lições publicadas, mas ainda amarrada por uma metodologia tradicional; em 1988, abriu caminho à utilização de um manuscrito como texto-base; em 1996, ocorreu sua adesão total à Crítica Genética, recriando os caminhos da criação literária e adotando documentos fragmentados, manuscritos e de ordem não-pública para complementar a edição.</p>
        <p id="paragraph-d7a9028e36b431e9f035c0da1cfa58e0">A apresentação da edição da obra na Coleção Archivos começa com um texto de Darcy Ribeiro, no que compete à Liminar. Antropólogo brasileiro, também conhecido por sua atuação na área política, notabilizou-se pela relação com as questões indianistas e pela pesquisa a respeito do povo brasileiro. Esse é, portanto, o assunto que une Darcy a Mário, uma vez que os dois não se conheceram pessoalmente. Soma-se a isso a admiração confessa do acadêmico para com o escritor. Nessa abertura, apresentam-se também brevemente os componentes da edição e a contextualização da presença da rapsódia na Coleção, em termos de relevância literária e cultural. Classifica-a como amor (representado pela entrega de Telê, a editora) e erudição (através da equipe, que conta com nomes de peso, tais quais Gilda de Mello e Souza, Alfredo Bosi e Silviano Santiago). Em relação à obra modernista, encontra seu valor como representação do povo brasileiro, mestiço, sacana, alegre, sem deixar de mostrar a sua influência europeia. Macunaíma seria, então, um milagre da literatura. Algo que apenas o trabalho não seria capaz de criar. Sobre as faces de Mário, se não forem trezentas e cinquenta, pelo menos pode indicar algumas: erudito leitor, exótico paulista e exilado paulistano, ou ainda “enciclopédia viva das brasilindionegritudes” (1996, XVIII).</p>
        <p id="paragraph-3525c8bdf1e8605dee22e60f7bf702d0">A Liminar não possui pretensões críticas e muito menos filológicas, sendo apenas um espaço introdutório e enaltecedor da obra que se segue. Em relação ao estabelecimento crítico de texto, as duas edições publicadas pela Archivos não apresentam alterações. Contudo, no que toca os textos iniciais da editora, encontramos diferenças significativas do ponto de vista metodológico.</p>
        <p id="paragraph-d71c60e702a164912b34518943a3d057">Em sua introdução, Lopez aponta as características que irmanam “Macunaíma às grandes obras latino-americanas” (1996, XXIII) e levanta as qualidades que o tornam relevante nesse cenário. Se esse espaço é primordialmente destinado a saudações e agradecimentos, há aqui lugar para delimitações procedurais. Na primeira edição, em 1988, a editora parece estar ainda tímida ao abraçar os estudos genéticos, ao passo que na segunda já indica todos os sinais de sua aproximação, como pode ser constatado nesta relevante afirmação que sustenta a leitura da transformação teórica seguida (LOPEZ, 1996: XXIII)</p>
        <p id="paragraph-68d7951fe2533c03e227b9bc7bb256c3">Edição crítica, incorporando procedimentos da crítica genética, descobre Macunaíma em suas raízes, em seu percurso, na sua pluralidade. Nas variantes e no estudo delas, ao buscar a organicidade estrutural e estilística, sabe-se que o texto é, dialeticamente, um e vários. Espelha as etapas, as fases, o trabalho. Traduz a insatisfação, a dificuldade do criador em se separar do objeto criado, ou melhor, a força de um vínculo que desafia o tempo, postulando a incompletude. Abre caminho para a escolha editorial, vinda da análise e da interpretação, em termos de crítica literária.</p>
        <p id="paragraph-857da789427cbf903df04879890ec774">Se antes apenas valorizava o trabalho filológico por meio da reconstrução genética da criação literária, no segundo confronto com a sua tradição incorpora todos os procedimentos a eles relacionados. O trecho em destaque testemunha a adesão definitiva da coordenadora à Crítica Genética, que mais tarde, em seus procedimentos editoriais, afirmaria de maneira ainda mais contundente a categorização dessa versão como uma “edição genética e crítica” (1996, XXXVI).</p>
        <p id="paragraph-e7a1a3eaa76687e66ce0da48786ad8de"> Nesse sentido, encontra-se a grande diferença entre as edições publicadas pela Archivos. Assim, um texto que priorizava o esclarecimento sobre vontade e variantes, passa a se preocupar com a narrativa dos caminhos que Mário de Andrade percorreu desde a leitura de Koch- Grünberg até a publicação da última edição de Macunaíma em vida do autor. Para tal, Lopez (1996) se utiliza de manuscritos, correspondências, anotações, periódicos, depoimentos e, claro, das próprias obras. Ao se utilizar profundamente de documentos públicos e privados, nos termos de Lebrave (2002), para pautar sua análise, a pesquisadora irmana dois estudos complementares, mas ainda pouco trabalhados em conjunto: a Filologia e a Crítica Genética. Tal escolha pioneira não encontra paralelos na historiografia das edições críticas no Brasil, pelo menos abertamente. Mesmo dentro da coleção, observa-se a preferência pelas escolas tradicionais, como a Comissão Machado de Assis<xref id="xref-a844e8f62c6ebfb53105f12e01dd47fe" ref-type="fn" rid="footnote-fc6c660aad57b8f32786074dff48a428">2</xref>.</p>
        <p id="paragraph-6d30fd9972473375bcc14b9d6ead3b13">A grande alteração no trabalho de Lopez entre 1978 e 1996 está, principalmente, na definição do texto-base. Ainda pela LTC, negou a última versão em vida pela quantidade de “incompreensões editoriais constatadas” (LOPEZ, 1978:XXIV), contrariando a clássica premissa de contar com a derradeira publicação em vida. Sendo assim, opta por utilizar a 2a edição, pela José Olympio, com auxílio desta mesma edição com acréscimos do autor (apontamentos insuficientes para uma mudança relevante). Contudo, já no compartilhamento de suas escolhas editoriais, Lopez não parece satisfeita e reconhece as falhas do texto em seus “deslizes tipográficos e algumas omissões” (1978: XXIX).</p>
        <p id="paragraph-abb2d4c3c5d41aea518b25ea08f30b8e">Desse modo, passa para definição do texto-base como sendo, além da lançada pela José Olympio, o exemplar de trabalho que deu origem à segunda edição. Exemplar de trabalho era o nome dado por Mário ao texto retrabalhado de maneira autografa sobre a 1a edição, ou seja, um manuscrito. Essa escolha é trabalhada pela editora em dois setores da introdução, chamados <italic id="italic-5926e938fd77e72ced0f01fbe0fa79bc">Uma lição secundária</italic>, em que afirma que “a edição crítica de 1978 não consegue dar o devido peso ao manuscrito B” (1996:LXI), e <italic id="italic-13534d0a1844b454e99eb2261b823393">O repensar do texto crítico</italic>, ainda mais categórico (1996:LXI):</p>
        <p id="paragraph-4b6a8e6357b920ca4b95171c1d8cbe90">[...] no ‘exemplar-de-trabalho’, as correções ficam patentes. Que poder tem, porém, um escritor corajoso e renovador que junta economias, paga prestações na gráfica, anuncia, distribui e até vende seu livro, quando o texto passa por outras mãos?</p>
        <p id="paragraph-57a4d170af4f00475eb3a34cbab0739c">[...] Como fica a obediência à vontade do autor no último texto publicado em vida, ou em outro que não depende exclusivamente do manuscrito? Dificilmente um escritor, uma editora, uma gráfica guardam, no Brasil, provas corrigidas. Os testemunhos em entrevistas, em cartas, por essa circunstância, são importantes para avaliar ou detalhar questões de revisão. Deste modo, no processo de colação, em uma edição crítica, deve-se considerar a vontade como um reflexo das relações autor/escritor.</p>
        <p id="paragraph-e24a84dda16da75c8d0f9c61fb8e4230">Tendo como base a historiografia da Crítica Textual no Brasil e a bibliografia especializada, mostra-se propício afirmar o caráter inovador (ao menos em termos brasileiros) da segunda edição de <italic id="italic-5ac673ef3456a8c0fea4268f81a21716">Macunaíma </italic>publicada pela Archivos, em 1996. Lopez harmoniza as especificidades de cada área, Crítica Genética e Filologia, para construir uma leitura mais completa e respeitosa às transformações do texto.</p>
        <p id="paragraph-80b82ddf8d47a87246f1164b1c496f79">Ao questionar “como fica a obediência à vontade do autor no último texto publicado em vida, ou em outro que não depende exclusivamente do manuscrito” (1996: LXI), na verdade, afirma sua posição de que apenas por meio de seu próprio punho (manuscritos, cartas, anotações), será manifestada a escolha do autor. Essa consciência genética transforma Lopez em caso único dentre os autores estudados em toda a pesquisa, no contexto da Coleção Archivos.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-411ef22911eb62838c08bb9bab0a3c39">
        <title>3.2 <italic id="italic-5abfa44efd1feecb2bb81435083d5e34">A Paixão Segundo G. H. </italic>de Clarice Lispector</title>
        <p id="paragraph-b8e6103e4a9a9e86826d74bef74523b5">No conjunto das obras selecionadas, há condições, em certos livros, que colocam dúvidas se a opção era a construção de um projeto genético, uma edição crítica ou, ainda, simplesmente uma tentativa de edição. Dentre elas, o caso mais significativo é o da <italic id="italic-cf0ccb6a312ac8ade8607971fffb34b7">A Paixão Segundo G.H.</italic>, de Clarice Lispector (1988). O próprio editor, Benedito Nunes, inicia a sua <italic id="italic-25e5742fa511b71ddc6c650dca8d49db">nota filológica </italic>destacando tal fato:</p>
        <p id="paragraph-14ecf35fe8d7aca26e19bdcba460c4fe">A falta de originais de A Paixão Segundo G.H. (1964), de que não têm notícia nem os herdeiros de Clarice Lispector, nem os editores desse romance, priva a presente edição da medula do seu aparato crítico. Mas a falta desses originais é apenas caso particular de uma carência generalizada, extensiva à obra da romancista (NUNES, 1988:XXIX)</p>
        <p id="paragraph-7ebaa04f3ad7a3d3d33979eed7640a7a">Esse contexto já reflete o desafio enfrentado pela equipe responsável pela edição dessa obra. Trata-se de uma situação que se distancia muito das descritas em manuais de Crítica Textual. O caminho a ser percorrido foi trabalhar com o único manuscrito conservado da autora, porém de obra diferente e não integral. Mas, ao mesmo tempo, preservar no interior da brochura o texto de <italic id="italic-418dcb5a4b5d6c884b841dc34b9f0fee">A Paixão Segundo G.H. </italic>sem nenhum trabalho crítico. Na falta de acompanhar as transformações que o texto sofreu ao longo do tempo, utilizou-se do processo criativo e das suas implicações literárias para se alcançar, mesmo que minimamente, um trabalho de edição. Nunes (1988:XXXII) a justifica da seguinte maneira:</p>
        <p id="paragraph-bff1de46ac926ff30e0b1523ef343a1c">Daí a relevância do fragmento como vestígio do instantâneo, como traço indelével, que podemos surpreender no exame do manuscrito incompleto de A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais, reproduzido após o texto de A Paixão Segundo G.H. O cotejo da transcrição desse manuscrito com a reprodução do texto respectivo em sua forma definitiva impressa, oferecerá ao leitor um exemplo da proximidade entre o momento da elaboração e o momento da composição na escrita narrativa de Clarice Lispector.</p>
        <p id="paragraph-a193efd9bd7eb892a7c96602c4666f32">Ao considerar o manuscrito de A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais como documento da escrita fragmentária de Clarice Lispector e possível material de comparação com o processo criativo de A paixão segundo G.H., Nunes considerou que essa relação entre a elaboração e o momento da composição, defendendo que</p>
        <p id="paragraph-cc81573093b0a3c35e10b1e21b7cca8f">os dois momentos da escrita clariceana, o do processo e o da composição, que chamamos o da estrutura, guardam estreita proximidade entre si. «É de presumir-se, então, que o texto definitivo, produto do segundo momento, se distancia o menos possível do texto fragmentário do primeiro» (vide «Nota filológica»). O que, entretanto, não significa que o texto definitivo já nasça pronto no primeiro momento, a inspiração igualada a mensagem mediúnica, tal como admite o articulista (NUNES, 1996:XXXIV).</p>
        <p id="paragraph-efb581c55ac8f5b0ae5f35b05d6a8492">Estruturalmente, a edição crítica em questão apresenta-se de acordo com o padrão da Coleção, com destaque apenas para as duas liminares presentes. A primeira escrita por Antonio Candido, que destacou a valoração literária do trabalho de Clarice Lispector - sua presença é simbólica por ser ele o crítico que tornou conhecida a obra de Lispector; a segunda, por Olga Borelli, em razão da proximidade com a autora, explicitou algumas particularidades de seu processo criativo.</p>
        <p id="paragraph-5f4d47cdd9fcc7c4995f3e8f85695801">Na parte da nota filológica, especificamente na relacionada à segunda edição, Nunes revela a necessidade de dialogar com Luiz Antonio M. Magalhães, pesquisador que publicara um artigo na revista Manuscrítica, em 1992, sobre a obra constante do manuscrito conservado de Clarice Lispector, <italic id="italic-49ef1022dc815c1fe3404a8034c2f99b">A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais</italic>. Magalhães, de certa forma, contesta a interpretação realizada ao utilizar o material como comparativo para o trabalho de edição. Sem esgotar o assunto, Nunes acaba concluindo que jamais poderíamos tomar o manuscrito do conto por um atestado de que ‘a autora interferia pouco ou nada no texto primeiro’, e nem, portanto, utilizá-lo, ao contrário do que insinua Luiz Antonio M. Magalhães, para justificar a «validade da edição crítica de A Paixão Segundo G.H., sem que se tenham consultado os originais desaparecidos» (Manuscrítica, p. 12) (NUNES, 1998:XXXV).</p>
        <p id="paragraph-3eddc60c13f972b310ed5f8d2e714670">Como resultado, é preciso que o leitor aceite o ponto de vista de Nunes e interprete suas escolhas editoriais como uma maneira de se alcançar a lógica na construção da obra de Clarice Lispector, como a autora produzia os seus textos e os refazia, mesmo que raramente, ou que tipo de modificação supostamente costumava realizar. Se os testemunhos de uma obra devem conduzir o trabalho do editor, em relação a teorias e a métodos, a edição de <italic id="italic-0f1971739333eb7243c8efc6c4577d0c">A paixão segundo G.H. </italic>é um exemplo audacioso de trabalho crítico embasado em textos de outra tradição, com grande possibilidade de não haver conexão entre eles, embora é o que se observa como objetivo. Sobre a validade ou credibilidade da edição da <italic id="italic-886b132b0fce8dc6c862e0132173cb7b">Archivos, </italic>Nunes defende o seguinte:</p>
        <p id="paragraph-583938a9c5b978f3844c418d23a34b10">Ao comparar, com base nesta edição, o original incompleto do conto A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais com o texto definitivo, num estudo genético que não me competia fazer, Luiz Antonio M. Magalhães apontou alterações na estrutura de significação de frases e no encadeamento da lógica narrativa. Embora reduzida a três casos (Manuscrítica, pp. 17, 20, 21-22) em dois fragmentos (fólios 2 e 10), a contribuição é bem-vinda. Mas não revoga nem a essencialidade do fragmento na escrita de Clarice nem invalida o pressuposto da inspiração.</p>
        <p id="paragraph-f963f2fc6173d489d652743b23ed069a">Metodologicamente a <italic id="italic-755e915bda6e083795b5d756913ed908">Coleção Archivos </italic>nunca explicitou precisa e claramente as suas orientações, apesar de haver textos indicativos de uma preferência pela Crítica Genética (SEGALA, 1985; FERRER, LEBRAVE, 1991; GORDON, 1993), que, após a leitura, não muito revelam. A escolha pela obra de Lispector, a despeito de suas complexidades documentais, traz a tona possíveis distintos e pouco explorados critérios metodológicos e teóricos - além de possíveis outros - de escolha. Um campo de pesquisa que, certamente, ainda precisa ser explorado no interior do projeto.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-477c5e7c30eeaeef57f6cacf1c9bc843">
        <title>3.3 <italic id="italic-3cc5d503d0e5adb7924a9928ed5475e2">Crônica da casa assassinada </italic>de Lúcio Cardoso</title>
        <p id="paragraph-d0d2a28dd9b9c0f7303b2c9a0b160bff">Em 1991, após cinco anos de trabalho, era lançado o 18° volume da Coleção Archivos: a edição crítica do romance <italic id="italic-1c8deb5d56360d97ad42b4487a70c526">Crônica da Casa </italic><italic id="italic-56c06dbababdc2c432b40584062be01e">Assassinada</italic>, de Lúcio Cardoso. O trabalho foi coordenado por Mario Carelli - de cujas mãos saíram também a biografia do autor e a tradução de <italic id="italic-547ad5d30549707b88861e722a6ebc38">Crônica </italic>para o francês - e editado por Júlio Castañon Guimarães, especialista em modernismo brasileiro e edições críticas e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa. Mais oito intelectuais colaboraram na edição, incluindo Alfredo Bosi e os membros da Academia Brasileira de Letras, Octávio de Faria e Eduardo Portella.</p>
        <p id="paragraph-0b129746e3ce412533f62ae8046caecf"><italic id="italic-45b1e9a3f897e2f01247cf3d74d49623">Crônica da Casa Assassinada </italic>recebeu uma releitura minuciosa de Guimarães. Sua grande habilidade em lidar com arquivos literários foi colocada à prova ao ter de classificar e organizar os numerosos manuscritos da obra, fora os paratextos. O resultado de seu trabalho foi essencial para a crítica de Lúcio Cardoso, tido vulgarmente como um autor impulsivo, mas que a análise do aparato crítico mostra o contrário: o autor teve um imenso trabalho de reescritura na maioria dos capítulos. Guimarães (1996b) inicia a <italic id="italic-e73ab1921268c802283dc763d7a059ff">Nota filológica: procedimentos de edição </italic>de Crônica com o item “As edições e a escolha do texto-base”, explicando seus critérios para tal escolha. Foram analisadas cinco edições publicadas do romance (as existentes até a ocasião do trabalho) e conforme apareciam obstáculos para uma possível participação autoral de Lúcio nas edições, o editor excluía tais livros da colação.</p>
        <p id="paragraph-2634885bdd15806e32c32d010a5de20f">Das cinco edições, apenas as duas primeiras estão datadas (1a: 1959, Livraria José Olympio Editora; 2a: 1963, Editora Letras e Artes). As restantes, no entanto, apresentam indícios da data de publicação. A suposta terceira edição (além de não haver data, não há número de edição), uma edição de bolso da Editorial Bruguera, apresenta Lúcio Cardoso como detentor do prêmio Machado de Assis, concedido a ele em 1966. Tal edição, portanto, é posterior a esta data. As duas próximas edições são do Círculo do Livro e da Nova Fronteira e apesar de não indicarem data, indicam no verso da folha de rosto o Copyright de Maria Helena Cardoso (irmã do autor) de 1979. As edições do Círculo do Livro e da Nova Fronteira foram excluídas por terem sido publicadas após a morte de Lúcio Cardoso (setembro de 1968). As edições da Bruguera e da Letras e Artes, por serem posteriores a dezembro de 1962, quando o romancista perdeu suas habilidades de escrita devido a um derrame cerebral e, por isso, sua participação nas edições não pode ser comprovada.</p>
        <p id="paragraph-17d8577320ea3c8e94d234370928aa76">O critério para a escolha do texto-base foi puramente a manifestação comprovada do ânimo autoral, sem qualquer influência de outros preceitos. Guimarães (1996b), na sua justificativa, faz questão de explicitar que não seguiu o princípio de última edição em vida do autor: “A eleição da primeira edição como texto-base, levando em conta a história interna e externa do texto, não se ateve ao preceito de escolha como texto-base da última edição em vida do autor, mas ao de manifestação comprovada do ânimo autoral” (GUIMARÃES, 1996b:25). O critério de última edição em vida do autor foi usado, por exemplo, pelo próprio Júlio Castañon na edição crítica da poesia de Carlos Drummond de Andrade, que a princípio seria lançada pela Archivos, mas que saiu em 2012 pela editora Cosac Naify. O critério de escolha do texto-base de Crônica é claramente norteado pelos princípios expostos por Antônio Houaiss, concluindo, portanto, que a escolha do texto-base seguiu princípios conservadores da crítica textual.</p>
        <p id="paragraph-05e6b6e487ee3c481bb56e827d6e0ea8">A adoção do texto de base para o estabelecimento crítico será a mera eleição de um dos membros supérstites, qualquer, que apresente razões de prioridade: a) já por fatos de cronologia externa incontroversos, aliados a circunstâncias de história interna que provem ter sido o membro aquele que melhor corresponde ao ânimo autoral; b) já pelo cotejo interno das lições textuais, caso a cronologia não possa ser seguramente estabelecida, de par com a caracterização do melhor ânimo autoral (HOUAISS, 1960:59-60).</p>
        <p id="paragraph-a5f500e6abed5eeb5ccb62ec405804a7">Foram encontrados na Fundação Casa de Rui Barbosa 634 fólios originais de Crônica da Casa Assassinada, incluindo manuscritos e datiloscritos. Esses fólios, porém, não constituem nenhuma versão final do romance, apenas versões parciais e primitivas (prototextos). Há também paratextos (notas sobre a elaboração do texto), seja em fólios separados ou nas margens e entrelinhas do prototexto. Após esse árduo trabalho classificando os originais, eles puderam ser organizados em seis lições (ms1, ms2, ms2, ds1, ds2 e ds3).</p>
        <p id="paragraph-54e9dbb7d1c9bf394fdfe6458ca1b706">Esse estado fragmentado dos originais se relaciona diretamente com a estrutura do romance. Composto por 56 capítulos, cada um deles dá a voz narrativa a um personagem, seja em forma de diário, confissão, carta ou narração. Os depoimentos das personagens nunca acontecem em capítulos consecutivos, dando ao romance uma estrutura de “múltiplas narrativas intercaladas” (GUIMARÃES, 1996a:652). Por isso, o autor muitas vezes redigiu o romance em ordem outra que o do texto publicado. Por exemplo, no ms2 “ao texto do capítulo 45 segue-se no mesmo fólio, não o texto do capítulo 46, mas o do capítulo 47, pois este faz parte da sequência narrativa do capítulo 45” (GUIMARÃES, 1996b:32).</p>
        <p id="paragraph-997e1fdeba2f6f0e08e081bd1a4da8aa">Por esse motivo não foi possível organizar os originais em uma única ordem cronológica, nem elaborar um estema. A cronologia se deu somente por capítulo, ou seja, cada capítulo possui sua cronologia diferente, que está estabelecida dentro do aparato crítico. No lugar do estema foram feitos dois quadros, um contendo a distribuição das lições originais pelos capítulos do texto-base e outro contendo a distribuição dos capítulos do texto-base para cada uma das lições presentes na colação.</p>
        <p id="paragraph-9a624f6d086465037adb78f11535f011">Três lições (ms1, ms3 e ds1) são datadas de 1953, as restantes não constam data alguma. No entanto, nenhum desses originais pode ser considerado como a primeira versão do romance porque, além do fato de em seu diário Lúcio Cardoso dizer ter iniciado o romance em 1952, a análise dos manuscritos mostra que houve uma versão mais primitiva do romance, segundo o editor.</p>
        <p id="paragraph-eaeea8f5f84eb38634be6288c9c5508d">A análise minuciosa dos originais foi crucial para o trabalho da edição crítica, já que a colação foi feita apenas com os originais e o texto-base. Tal análise permite não só o editor saber como trabalhar como ajudar o leitor a interpretar as informações dadas no aparato crítico. O cotejo dos originais com o texto estabelecido resultou em um aparato crítico de aproximadamente quatro mil variantes, expostas sem descrições explicativas do editor para que a edição não assumisse “proporções inviáveis” (GUIMARÃES, 1996a:648), mas o aparato crítico passa longe de ser somente um conjunto de variantes para sanar curiosidades do como eram versões anteriores do texto. Nas palavras de Júlio Castañon:</p>
        <p id="paragraph-386a705d1ffe133609dd932f12df8442">O elenco de variantes, resultado já de um levantamento e de uma análise de dados (os originais, as edições, as anotações), é um repositório de informações nos mais diferentes níveis - desde uma perspectiva histórica no plano do estudo da língua até as definições estruturais de uma obra literária (GUIMARÃES, 1996a:645).</p>
        <p id="paragraph-e31c2eab2d41417e912ab1f04f59a0dc">Além dessas discrepâncias, rasuras, substituições, supressões, emendas e correções também foram transcritas como variantes, pois tais elementos “revelam o processo de elaboração do texto, já que participam de sua gênese” (GUIMARÃES, 1996b:35). Tal afirmação revela já certa preocupação com os objetivos da crítica genética.</p>
        <p id="paragraph-0fb63c6abb57bb66e217fb2880fd756d">A análise da edição crítica de Crônica da Casa Assassinada, levando em conta todos as informações expostas, demonstra que o trabalho de Guimarães alia teorias tanto da crítica textual tradicional quanto da crítica genética, área relativamente nova no Brasil na época. O resultado é um rico conjunto de variantes que permitiu análises estilístico-gramaticais e conhecer em detalhes o processo criativo de Lúcio Cardoso.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-c5a63a2a2311b9f7a40e5e1d085903c3">
        <title>3.4 <italic id="italic-92ad155c59dfb1312bf8bdc517dd0ba2">Os Sertões, </italic>de Euclides da Cunha</title>
        <p id="paragraph-e953d9193822a8ca628d1719623cbf2c">No Brasil, a Coleção Archivos objetivava a publicação de doze títulos: <italic id="italic-b3d4e82779367b035582c8f79cd16945">Poesia completa </italic>(Carlos Drummond de Andrade); <italic id="italic-294b5dd871b20301e1e34a7f57938caa">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter </italic>(Mário de Andrade); <italic id="italic-e3fa6eddcc6530dcdcc1c2f7c63fb5b4">Poesia</italic>, que passaria a ser chamada <italic id="italic-6abacaad3f9a36715f760f0b09ac90a8">Obra Incompleta </italic>(Oswald de Andrade); <italic id="italic-8b0e414254e5d724052ffeed38dc3f15">Contos </italic>(Machado de Assis); <italic id="italic-2465ea0903773ce931626c7e52a381fe">Libertinagem-Estrela da Manhã </italic>(Manuel Bandeira<italic id="italic-2ab8bad081c894972d11b851d7aeb4ee">); Triste fim de Policarpo Quaresma </italic>(Lima Barreto); <italic id="italic-230f75e8337b6a6910aa4f59f060e61c">Crônica da casa assassinada </italic>(Lúcio Cardoso); <italic id="italic-10">Os </italic><italic id="italic-11">Sertões </italic>(Euclides da Cunha); <italic id="italic-12">A paixão segundo G.H. </italic>(Clarice Lispector); <italic id="italic-13">Memórias do Cárcere </italic>(Graciliano Ramos); <italic id="italic-14">Fogo Morto </italic>(José Lins do Rego); <italic id="italic-15">Grande Sertão: Veredas </italic>(Guimarães Rosa); <italic id="italic-16">Casa grande &amp; senzala </italic>e <italic id="italic-17">Sobrados e </italic><italic id="italic-18">Mocambos </italic>(Gilberto Freyre); <italic id="italic-19">Raízes do Brasil </italic>(Sérgio Buarque de Holanda); e <italic id="italic-20">A formação do Brasil contemporâneo </italic>(Caio Prado Júnior). Por problemas desconhecidos, nem todos esses projetos foram concretizados. Assim como os dez primeiros livros de Drummond, organizados por Júlio Castañon Guimarães e publicados pela Cosac Naify, em 2012, a edição crítica de <italic id="italic-21">Os Sertões </italic>acabou lançada fora da Coleção, em 1985, pela editora Brasiliense, com organização de Walnice Nogueira Galvão.</p>
        <p id="paragraph-b3aeb1afd832781f33cc2ff606796125">A escolha dessa obra deu-se justamente por ser uma das que deveriam ter sido publicadas pela Coleção Archivos. Definir semelhanças e diferenças, comparar <italic id="italic-4ca4f77f384e73c4b3455cb6d207825f">Os Sertões </italic>com outras obras brasileiras publicadas, que passaram por trabalho de edição crítica, são processos fundamentais para entender as diferentes teorias aplicadas por organizadores no exercício da Crítica Textual, em que contextos foram aplicados e o nível de respeito à obra dos autores editados. A verificação de estratégias utilizadas para a sua edição fora da Coleção Archivos e a relação com os trabalhos de edição estudados no projeto de historiografia demonstraram-se muito produtivos para os resultados da pesquisa.</p>
        <p id="paragraph-952d97576bbdd41ff91e9114a34889df"><italic id="italic-e4c18fc6f87f6ae31342f5eed4d38de2">Os Sertões </italic>foi publicado pela editora Laemmert &amp; CIA em 1902 e, posteriormente, passou por outras duas edições: 1903 – 2ª edição e 1905 – 3ª edição. É sabido que existe um exemplar, atualmente desaparecido, com anotações feitas pelo próprio Euclides, considerado por Galvão a última vontade do autor.</p>
        <p id="paragraph-5a776d76d784e29eea02015c5d31cec2">É com a quinta edição (1914) que se dá uma reviravolta. Além de repetir a expressão já consagrada de “5ª edição corrigida”, a folha de rosto acrescenta: “Edição definitiva de acordo com as emendas deixadas pelo Autor”, o que corresponde à verdade. Ocorre que, após a morte de Euclides em 1909, e após a tiragem em 1911, fora encontrado um exemplar da 3ª edição minuciosamente emendado pelo autor (GALVÃO, 2009:23, 24).</p>
        <p id="paragraph-1d9a0b471ff1015ef2dba0a3d0f71aac">Embora nascida do mesmo projeto, a edição crítica da obra não segue o mesmo modelo, mas procura ater-se às normas da Comissão Machado de Assis. Todavia, a autora não deixa claro quais são as regras, mas observa que são escassas as edições críticas de autores brasileiros “a presente tarefa pôde ser cumprida graças à preexistência das normas da Comissão Machado de Assis, a que procuramos ater-nos. Tivemos sempre à vista, do mesmo modo, as infelizmente escassas edições críticas de textos brasileiros” (GALVÃO, 2009:14). São três no total as edições críticas em questão, todas organizadas por Galvão: 1985 - Editora Brasiliense, 1998 - Editora Ática, 2009 - Editora Ática. Como indicam os manuais de Crítica Textual, Galvão se encontra em presença de várias versões autorizadas, e é preciso senso crítico ao escolher qual edição irá restaurar, e qual critério irá utilizar. Existe a preocupação em deixar a obra o mais próxima possível da vontade autoral, por isso a editora detalha o procedimento seguido ao longo das três edições: “O partido tomado foi o de efetuar a colação completa, sinal gráfico por sinal gráfico” (GALVÃO, 2009:11)</p>
        <p id="paragraph-6ed5f2889b9f923bca0f6c4e85437c24">Por meio da comparação com a estrutura das edições da <italic id="italic-4a7755ec53e23f8b820490c870ccc0b8">Archivos</italic>, é possível perceber as diferenças com a de Galvão, como pode ser observado pela indicação seguinte:</p>
        <p id="paragraph-3968b0135cb6b9fde011e615a1829ae0">Introdução</p>
        <p id="paragraph-781e056a51317c3f3e3201265c55bb6e">
          <italic id="italic-966a397d5b611f0f46dfd62ed9c426ae">Apresentação</italic>
        </p>
        <p id="paragraph-dbd9a78687dbbeb181b765b7d2ac2c58">Histórico das edições</p>
        <p id="paragraph-c21f1f23e92cfc52b5445e2d9dd754b9">Descrição dos exemplares</p>
        <p id="paragraph-cc0dd18718149433c594342b9417bbc1">Uniformização gráfica</p>
        <p id="paragraph-cc6f6972388791669a49353d551470ce">Uniformização ortográfica</p>
        <p id="paragraph-9ed0502a4ca0a467cb714f7d0e6b7719">A <italic id="italic-0feb576e1dc05a014a2429b4ce0cec89">emendatio </italic>euclidiana</p>
        <p id="paragraph-f3313c919165652fdc730d7f262e61f2">
          <italic id="italic-0a98612a73e5b5741d590858af699d88">Os Sertões<italic id="italic-954415f8b5076d9f123c36278cf7a674"/></italic>
        </p>
        <p id="paragraph-2702b52e27948bdb3905858a0226d4b2"><italic id="italic-7671e2250d5a7dbc4540f035a6669efd">Variantes</italic><italic id="italic-2840e7b7d77af288c941a513deb31902"> </italic><italic id="italic-eb5f21b77428af733114657e9903f611">e</italic><italic id="italic-e42fe18cd0c096fcbad016f4f1b55c93"> </italic><italic id="italic-93b0673cb94f222cfb557219947098eb">comentários</italic><italic id="italic-58314572c44a4b77fd1187de5bb11cce"> </italic>(1ª edição 1985 – as demais edições críticas</p>
        <p id="paragraph-9238a9bf7d6f46ca754fbcc86fc4844b">apenas alteram a ordem).</p>
        <p id="paragraph-10">Por meio do trabalho crítico, é possível acompanhar todas as alterações feitas por Euclides da Cunha ao longo do processo de transmissão e difusão do texto, a ponto de ser possível o levantamento de termos que caracterizam o processo criativo do autor, uma espécie de emenda autoral, que inclui pausas do discurso, trocas pronominais, eliminação parcial de vocábulos, eliminação de sufixos, determinadas uniformizações, etc.</p>
        <p id="paragraph-726552f7c40bb05c2aa5e451b33e74ee">Galvão se mostra coerente ao longo de suas edições, pois mostra todas as alterações que foram feitas ao longo da transmissão do texto, e mostra para o leitor que o material pode ser alterado pelo autor, e/ ou pela transmissão da própria obra ao longo dos anos, em que muitas vezes o estilo do autor não é respeitado, e o leitor sofre por perder informações valiosas.</p>
        <p id="paragraph-62fbf6ec4b2b1030c3fe2c67de512a60">Quanto às variantes encontradas entre uma edição e outra, estão devidamente registradas no aparato crítico (<italic id="italic-de7acf7ba9dea1b33c889a88fba17ee8">aparatus criticus</italic>), servindo justamente para acompanhar as transformações que o texto sofreu ao longo de sua história. Como esclarece a editora, elas são bem numerosas:</p>
        <p id="paragraph-e173892a140b7c2333df72121a1e3fb3">“A colação de quatro textos de <italic id="italic-1b34d107ff80b1374d0bf76f3ce58973">Os Sertões </italic>– 1ª, 2ª, 3ª edições e AP – teve como resultado 180 páginas datilografadas de variantes. Havendo em média 33 variantes por páginas datilografadas, o cálculo fornece o total de quase 6000 variantes entre os quatro textos, não entrando no cômputo das correções gráficas e ortográficas, o que faria aquele total ultrapassar os 10000.” (GALVÃO, 2009:11).</p>
        <p id="paragraph-6a3500ef64be4e4c44caf3e209791512">Nesse contexto, a edição crítica da obra de Euclides da Cunha é de suma importância, começando pelas singularidades que a sua tradição carrega. Por não haver edição crítica anterior a que Galvão produz e pela já mencionada escassez de edições críticas de autores brasileiros, a edição crítica de <italic id="italic-965ce76ecd399cfaee58cb29975e5e4f">Os Sertõe</italic>s acaba sendo importante para a história da obra, pois após a morte do autor, erros editoriais, a partir de 1911 (Livraria Francisco Alves Editora), são recorrentes.</p>
        <p id="paragraph-1525c23228729085639c61f0eb5ca28c">Trata-se de um trabalho objetivo, em que se transmite ao leitor exatamente a escolha do material e o caminho que irá seguir: “esta edição restaura e reproduz o exemplar da 3ª edição com as emendas apógrafas de Fernando Nery transladas das emendas autógrafas de Euclides, num exemplar ora desaparecido” (GALVÃO, 1985:11/1998:513/2009:11). Ao considerar a última vontade do autor, Galvão mostra respeito à obra, e mostra ao leitor o caminho do texto, tanto em problemas quanto em material, que passa a ter um texto fiel, o conhecimento do caminho percorrido e as dificuldades enfrentadas nesse processo.</p>
        <p id="paragraph-b6bba6127c1bb14f88ed753c9a3bccc1">Semelhante ao caso da edição de <italic id="italic-39fe7511fa90ae90b08ac6463528c788">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter</italic>, poderia ser questionado o porquê de três edições críticas de uma mesma obra. Como nenhuma edição é definitiva, questões metodológicas e descobertas de novas fontes sempre colocam à prova o alcance das anteriores e mobilizam estudiosos em atenção para novos resultados. Esse fato pode ser constatado pelas modificações e/ou acréscimos entres as três etapas do trabalho de Galvão. Processo laborioso que, muitas vezes sutil, mostra ao leitor que a organizadora tem estado em constante atividade nos “bastidores” da crítica textual e literária.</p>
        <p id="paragraph-fd17f7988bcb8029a5c1c939ffaadda0">O objetivo de estabelecer um texto para a crítica textual é bastante claro: buscar a última manifestação do ânimo autoral. Por meio de investigações internas e externas ao texto, o editor elege um testemunho, seja ele manuscrito ou edição impressa. Independente de quantas investigações forem feitas, nunca poderá chamar sua escolha de absoluta, mas apenas de aproximativa, desde que proporcione um estabelecimento textual fundamentado criticamente, com seus critérios conhecidos e explicitados, é justamente o que faz Galvão.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-ceeb654d773400cfeef874657ec28f58">
      <title>Conclusão</title>
      <p id="paragraph-55e2d2843b4bbb0cae6d9951b87e5f32">Com a criação do projeto de pesquisa <italic id="italic-2d1d1d303de2b3bf4ab99ba1cbf16838">Historiografia da crítica textual de autores brasileiros</italic>, objetivou-se principalmente o desenvolvimento de competências acadêmicas indispensáveis para o estudante de graduação em contato com o texto literário, para o respeito à sua história de transmissão e à fidedignidade autoral. A problematização do trabalho do filólogo no exercício da Edótica, partindo da análise metodológica empregada pela Coleção Archivos, propiciou a compreensão dos caminhos que pautaram as escolhas dos editores, com base nos testemunhos que compunham cada tradição. Com isso alcançou-se o entendimento do processo de emenda das corrupções sofridas ao longo da transmissão dos textos e a apresentação de discussão fundamental para a relevância de um texto fidedigno na atuação do pesquisador no campo dos estudos literários.</p>
      <p id="paragraph-0ac28b5daf24cb151d9c79185a40ca18">A análise de edições de obras consagradas demonstrou também que a compreensão da história do textos e de sua transmissão perpassa pela compreensão de todas as etapas do trabalho de sua reconstituição. De acordo com as diferentes histórias textuais e particularidades de cada uma delas, nem toda tradição é modelar como apresentada em manuais de Crítica Textual. Casos como <italic id="italic-cee6bfa1114136971c74e6503d8ecfd6">Macunaíma, o herói sem nenhum </italic><italic id="italic-bd3f85e439e3603b96f180059b1611fb">caráter, Crônica da Casa Assassinada, A Paixão Segundo G.H. </italic>e <italic id="italic-56bbf7fb94541620cc7793e3518b90fb">Os Sertões </italic>demonstram a problemática de cada tradição e as exigências ao editor para o seu estabelecimento.</p>
      <p id="paragraph-7697d4d7a742e6c626f5498eb36d8eab">As diferenças encontradas em edições da mesma obra de diversos autores deve continuar provocando a busca pelas fontes e seu estudo, permitindo, assim, perceber que os textos disponíveis chegam a apresentar diferenças relevantes e comprometedoras da sua fidedignidade. Nesse sentido, além do contributo para o repertório acadêmico-científico dos graduandos, trabalhos como o do projeto em questão contribuem tanto para os estudos na área da Filologia e Crítica Textual, uma vez que se sistematiza o conjunto de estudos realizados, e suas teorias e métodos, no âmbito dessas ciências; quanto para a Literatura Brasileira, pois se destaca a relevância do texto fidedigno para interpretações críticas nessa área.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-88892ebb70b6786bb7c5e29725a1fb54">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-1">ANDRADE, Mário de. <bold id="bold-1">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter</bold>. Edição crítica org. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1978.</p>
      <p id="paragraph-c372d43d148aae40e7225fca25aa4938">_____<underline id="underline-1"> </underline>. <bold id="bold-9b9f30a9312eb512e8d01f815ede0132">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter</bold>. Edição crítica organizada por Telê Ancona Lopez. Paris: ALLCA XX, Brasília: CNPq, 1988. Coleção Archivos, vol. 6, 1ª Edição.</p>
      <p id="paragraph-893594a0ff87becbb688ae87fd070273">_____<underline id="underline-2"> </underline>. <bold id="bold-2">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter</bold>. Edição crítica org. Telê Ancona Lopez. Madrid; Paris; México; Buenos Aires; São Paulo; Rio de Janeiro; Lima: ALLCA XX, 1996. Coleção Archivos, vol. 6, 2ª Edição.</p>
      <p id="paragraph-3828b93de9aa65e44caacc153944cff7">AZEVEDO FILHO, Leodegário A. <bold id="bold-3">Base</bold><bold id="bold-4"> </bold><bold id="bold-5">Teórica</bold><bold id="bold-6"> </bold><bold id="bold-7">de</bold><bold id="bold-8"> </bold><bold id="bold-9">Crítica</bold><bold id="bold-10"> </bold><bold id="bold-11">Textual. <bold id="bold-12"/></bold>Rio de Janeiro: H. P. Comunicação, 2004.</p>
      <p id="paragraph-dc095a1f89e4e5fd82096ad0f2bd5abe">BLECUA, Alberto. <bold id="bold-13">Manual de crítica textual</bold>. Madrid: Castalia, 1983.</p>
      <p id="paragraph-840800cfd971d1faf40556b48c316a25">CAMBRAIA, César Nardelli. <bold id="bold-14">Introdução à Crítica Textual. </bold>1º Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.</p>
      <p id="paragraph-2246524a08d759537798a5555e710e7c">CANDIDO, Antonio. <bold id="bold-15">Noções de análise histórico-literária. </bold>São Paulo: Humanitas, 2005.</p>
      <p id="paragraph-15">CARDOSO, Lúcio. <bold id="bold-16">Crônica da Casa Assassinada</bold><italic id="italic-9997cc9c0f57c8c9605ab8b6161163cc">. Edição Crítica. <italic id="italic-fa990492013bf3dd71cdfc2c7f1c3377"/></italic>Coord. Mario Carelli. ALLCA XX, 1996.</p>
      <p id="paragraph-18">CARVALHO E SILVA, Maximiano de. <bold id="bold-17">Crítica</bold><bold id="bold-18"> </bold><bold id="bold-19">Textual:</bold><bold id="bold-20"> </bold><bold id="bold-21">Conceito</bold><bold id="bold-22"> </bold><bold id="bold-23">–</bold><bold id="bold-24"> </bold><bold id="bold-25">Objeto – Finalidades</bold>. Confluência: Revista do Instituto de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Liceu Literário Português, no. 7, 1994.</p>
      <p id="paragraph-20">CUNHA, Euclides da; GALVÃO, Walnice Nogueira. <bold id="bold-26">Edição crítica de </bold><bold id="bold-27">Os Sertões</bold>. São Paulo: Brasiliense, 1985.</p>
      <p id="paragraph-21">_____<underline id="underline-3"> </underline>. <bold id="bold-28">Os Sertões: Campanha de Canudos</bold>. São Paulo: Ática, 1998.</p>
      <p id="paragraph-22"><underline id="underline-4"> _____</underline>. <bold id="bold-29">Os Sertões</bold>. São Paulo: Ática, 2009.</p>
      <p id="paragraph-24">FACHIN, Phablo Roberto Marchis; FORSTER, Larissa; LIMA, Ligia; Moreira, Camila Paula; NARDI, Ludimila de. <bold id="bold-30">O texto que se lê de autores nacionais</bold>. Filologia e Lingüística Portuguesa, v. 12, p. 105-123, 2010.</p>
      <p id="paragraph-4565c745d0f22debe3c37cad3ff9abe7">FERRER, Daniel; LEBRAVE, Jean-Louis. Introduction: de la variante textuelle au geste d´ecriture variant. In: <bold id="bold-6d46311622c469eb3ae7f30e19f3358d">L´écriture et ses doubles : genèse et variation textuelle</bold>. Paris: Éditions du Centre National de la Recherche Scientifique, 1991, p. 9-25.</p>
      <p id="paragraph-120413d12c1b7561f07804e352d8d676">GALVÃO, Walnice Nogueira. <bold id="bold-20779bb7b4c3a1e781f2892e78c96df9">Os Sertões: Edição Crítica</bold>. São Paulo: Brasiliense, 1985.</p>
      <p id="paragraph-cb058519682c66d536642bb8bfd4085f"><underline id="underline-16546391e0412476442342892c56b3e8"> _____</underline>. <bold id="bold-fa9d0cfe1a3205c5ea4838a54243eb43">Os Sertões: Campanha de Canudos</bold>. São Paulo: Ática, 1998.</p>
      <p id="paragraph-b42e593b20741fff3447b24ecb513c85"><underline id="underline-793577ab93a0220c832a796372cc2493"> _____</underline>. <bold id="bold-bc059d1a35f19724dfc795dfb2422541">Os Sertões: Campanha de Canudos</bold>. São Paulo: Ática, 2009.</p>
      <p id="paragraph-c013ea72a2c39d36f6ccf3a604337e46">GUIMARÃES, Júlio Castañon. “Alguns procedimentos na edição de texto”. In: CARDOSO, Lúcio. <bold id="bold-c576c84602a3382f7dbd19d2b825e1c8">Crônica da Casa Assassinada. Edição </bold><bold id="bold-e0abbd767b0f0c10177d14f9a116508d">Crítica</bold><italic id="italic-b4b7f231af1b4b912526149b54d56a0d">. </italic>Coord. Mario Carelli. ALLCA XX, 1996a.</p>
      <p id="paragraph-f452ff351b44aca06caaade5751669f1"><underline id="underline-a85dcb8a71c441309510d573268f4fc2"> _____</underline>. “Nota filológica”. In: CARDOSO, Lúcio. <bold id="bold-2adea5693bbdbcf33ddf57b3fc400280">Crônica da Casa Assassinada. Edição Crítica</bold><italic id="italic-c35c2136371f9449239c630d544ef42b">. </italic>Coord. Mario Carelli. ALLCA XX, 1996b.</p>
      <p id="paragraph-124fd2a74731d9f31bfdfda390a57a7e">GORDON, Samuel. <bold id="bold-22af5adbadd9010519a16a129a60c4e0">La colección Archivos y los cambios de paradigma en la cr</bold>ítica <bold id="bold-676ebc224b8dc028c369161c73bfcc08">literaria latinoamericana. </bold>La Colección Archivos: hacia un nuevo canon, v. 158, n.159, 1993, p.12-22.</p>
      <p id="paragraph-68b54ffec958be1b308b94f978cdc49e">HANSEN, João Adolfo. Prefácio. In: MOREIRA, Marcello. <bold id="bold-5de26fe67fb295ea76528e4547e1bcaf">Critica Textualis in Caelum Revocata? Uma proposta de edição e estudo da tradição de Gregório de Matos e Guerra</bold>. São Paulo: Edusp, 2011.</p>
      <p id="paragraph-bf02b826993c0a6904f3957666cf0bc1">HOUAISS, Antônio. <bold id="bold-902d266bc2f49d261519ef3afd3e6355">Introdução</bold><bold id="bold-618135d9d1b38e0c8dddb494c7e401a0"> </bold><bold id="bold-d3216aec0c26e70ab49e104fb4a80c20">crítico-filológica</bold>. In: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: INL, 1960.</p>
      <p id="paragraph-810bf69f768a15730a981c057d154fe6">LEBRAVE, Jean-Louis. Crítica genética: uma nova disciplina ou um avatar moderno da filologia? In: ZULAR, Roberto. <bold id="bold-e13464a740daf1d88736c29f0fa24fc3">Criação em processo: ensaios de crítica genética. </bold>São Paulo: Iluminuras, 2002, pp.97-146<bold id="bold-e521b6eef7667c9928f243a40266440f">.<bold id="bold-8c8ce0da24f8bc554daaa5a09d5bd983"/></bold></p>
      <p id="paragraph-cef02b1c7de4d23716e22baeb58fc29d">LISPECTOR, Clarice. <bold id="bold-556233224f8621d06783db8c470033d5">A Paixão Segundo G.H</bold>. 1º Ed. Paris: Association Archives de la littérature latino-américaine, des Caraïbes et africaine du XXe. Sièclee; Brasília – DF: CNPQ, 1988.</p>
      <p id="paragraph-3cce6a3dc555518ef68a3ab762a92171">LOUIS, Élida. <bold id="bold-94592bb72bb6ef3ded1601c4f0ebe85d">La crítica genética y la salvaguarda de la inscripción </bold><bold id="bold-4323713b79618376bc175fdaf8772166">de la memoria escritural latinoamericana</bold>. In: BLIXEN, Carina. Lo que los archivos cuentan. Montevidéu: Biblioteca Nacional, 2012, p. 13- 29.</p>
      <p id="paragraph-6d6bf8ea1859bdf2afdd9009a01d6718">LOPEZ, Telê Ancona. Prefácio. In: ANDRADE, Mário. <bold id="bold-2cd64bbf2ecc3d8dda2457e65d5e43c4">Macunaíma, o herói sem nenhum caráter</bold>. Edição crítica organizada por Telê Ancona Lopez. Madrid; Paris; México; Buenos Aires; São Paulo; Rio de Janeiro; Lima: ALLCA XX, 1996.</p>
      <p id="paragraph-7bdead850c58421ed41c485dc509a851">MIRANDA, Wander Melo; SOUZA, Eneida Maria de (org.). <bold id="bold-51625dc7ba532bd0b097238f03808a05">Arquivos </bold><bold id="bold-cac1550a7210a4b71957497150eee6d2">Literários</bold>. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.</p>
      <p id="paragraph-ce000f26a423bc36e88b70c69b6bdd6f">MOREIRA, Marcello. <bold id="bold-11dd9be761be485be25b626224c0847b">Critica</bold><bold id="bold-f11749f02ff7d98cdb25bdd50928c7e9"> </bold><bold id="bold-4f88a8fdb7098d9cbb35577460e71fbd">Textualis</bold><bold id="bold-81f1df598492f200117b378c1a2cf25b"> </bold><bold id="bold-887a0c1dc5cbc9197a87284fc3841f1c">in</bold><bold id="bold-958466defc422a83b256a617cc02939b"> </bold><bold id="bold-5e6ce10c469227dc236cab8d1e8bf29b">Caelum Revocata? Uma proposta de edição e estudo da tradição de Gregório de Matos e Guerra</bold>. São Paulo: Edusp, 2011.</p>
      <p id="paragraph-509c995510f44969fed12cdf693e8e06">NUNES, Benedito. <bold id="bold-15ba2dc9d613dfc795df64632f2f8e2b">“Introdução do Coordenador</bold>”. In: LISPECTOR, Clarice. A Paixão Segundo G.H<italic id="italic-19939a5adff9c0ef0a1277470260b980">.</italic><italic id="italic-d07f7dd54a876125c214a19e194eab58"> </italic>1º Ed. Paris: Association Archives de la littérature latino-américaine, des Caraïbes et africaine du XXe. Sièclee; Brasília – DF: CNPQ, 1988, p. 24-33.</p>
      <p id="paragraph-ff2de6803306856be9f727e08df0c335">PERUGI, Maurizio; SPAGGIARI, Barbara. <bold id="bold-0eb4aede5fcbfdd32e4ac3897ca39972">Fundamentos da Crítica </bold><bold id="bold-dac8ee8d727f7e6b85b036cfb9098777">Textual</bold>. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.</p>
      <p id="paragraph-32dd7afd242ae9287f69dca56f617ae0"><bold id="bold-2e97619f7bde767fa2538dd2dad24738">SPINA</bold>, Segismundo. <bold id="bold-4859f1aca4f2f4d5ff680eeb34dca365">Introdução à Edóctica</bold>. Crítica Textual. 2a. ed. São Paulo: Ars Poética: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.</p>
      <p id="paragraph-3982a16f0a60f34ce0cf8515097b6094">SEGALA, Amos. <bold id="bold-4dfea27858cd0feae28507ec9a70a1ac">Méthodologie et pratique de l’édition critique des textes littéraires contemporains : collection archives</bold>. Université de Paris X: Nanterre, Centre de Recherches Latino-Americaines, Association Archives de la littérature latino-américaine, des Caraïbes et africaine du XXe siècle, Amis de Miguel Angel Asturias,1985.</p>
      <p id="paragraph-e41bf72bc027578a9bebeffaca57b01b">TOVAR, Joaquın Rubio. <bold id="bold-5ec984f8ead186eab36b8a8d2f0d3243">La vieja diosa. De la Filología a la posmodernidad</bold>, Alcalá de Henares: Centro de Estudios Cervantinos, 2004.</p>
      <p id="paragraph-2c1e3762fcd53b6374f1f40453dd666e" />
      <p id="paragraph-87d87f19652fff71e6ef14c6d2735ad7">Recebido em 30/09/2016 e aceito em 06/12/2016</p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-65c4b2659dd02bcd64059238a3aec996">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-8c9d3e9a0ba1ee02634c28f3f2819052">“A circulação, a transmissão de uma obra, - manuscrita ou impressa – traz consigo erros que podem enturvar, quando não modificar radicalmente, seu conteúdo” (TOVAR, 2004: 41).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-fc6c660aad57b8f32786074dff48a428">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-8ecf7531bdc6c6f5143ceb5b3b26eb91">Em portaria do dia 19 de Setembro de 1958, o então presidente Juscelino Kubitschek estabeleceu a criação de uma comissão que visasse o estabelecimento crítico dos textos publicados por Machado de Assis, cuja obra acabara de entrar em domínio público. A iniciativa foi encabeçada por nomes significativos da ecdótica nacional, como Antônio José Chediak, Celso Cunha, Antonio Candido, Aurélio Buarque de Holanda e Antonio Houaiss. O primeiro volume publicado pela Comissão Machado de Assis foi <italic id="italic-3fea72fc309915dd5396df4c0c4ff135">Memórias Póstumas de </italic><italic id="italic-964659564bb77f295675351ffd0fe800">Brás Cubas</italic>, em 1960, tornando-se parâmetro metodológico para as edições posteriores da própria iniciativa, bem como de grande parte da historiografia da Crítica Textual no Brasil. Para maior entendimento sobre o tema, consultar: ASSIS, Joaquim Maria Machado de. <italic id="italic-2e5f954b8604f56646df6f01efb0f624">Memórias póstumas de Brás Cubas</italic>. Comissão Machado de Assis, obras de Machado de Assis, VI. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1960 e HOUAISS, Antonio. <italic id="italic-3656da37a9f89f4857789b5a21fefa8d">Elementos de Bibliologia: </italic>Volume I. Rio de Janeiro: INL, 1967.</p>
      </fn>
    </fn-group>
  </back>
</article>