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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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<publisher-name>Associação Brasileira de Linguística</publisher-name>
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        <article-title>SEXO E LINGUAGEM: UMA ANÁLISE A PARTIR DAS SABATINAS DOS MINISTROS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL JOAQUIM BARBOSA E ROSA WEBER</article-title>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="30/06/2014" />
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-69b0065a4bdbc048dd4fc123e74d07ce">O trabalho analisa a variação linguística decorrente da variável sexo em indivíduos ocupantes de cargos de Ministro do Supremo Tribunal Federal, hierarquia máxima na estrutura do Poder Judiciário brasileiro. Tem por objeto o estudo da fala espontânea dos Ministros Joaquim Benedito Barbosa Gomes e Rosa Maria Weber Candiota da Rosa por ocasião de suas sabatinas pelo Senado Federal, como requisito à nomeação para os cargos de Ministro da Suprema Corte. Com base em critérios e princípios da pesquisa sociolinguística quantitativa Laboviana, foram identificadas marcas de fala dos sujeitos investigados que realçam traços distintivos entre a linguagem masculina e a feminina.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">This work analyzes </italic>
          <italic id="italic-2">the linguistic variation stemming from the variable sex in individuals </italic>
          <italic id="italic-3">who occupy the position of ministers at the Justice Supreme Court, the highest position in the Brazilian Judiciary Power. Its object of study is the spontaneous speech by Ministers </italic>
          <italic id="italic-4">Joaquim Benedito Barbosa Gomes and Rosa Maria Weber Candiota da Rosa, during </italic>
          <italic id="italic-5">their official inquiry by the Federal Senate as a requisite for the nomination to the position </italic>
          <italic id="italic-6">of Ministers of the Supreme Court. Based on criteria and principles from the Labovian </italic>
          <italic id="italic-7">quantitative sociolinguistic research, markers were identified in the subjects’ speech which </italic>
          <italic id="italic-8">highlight distinctive features between male and female language.<italic id="italic-9"/></italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-7a7dc323dd42dbcea5eafe24bbecebe6">Linguistic variation</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-167df98cc6683c601fd1707fbf858016">Variable sex</italic>
        </kwd>
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          <italic id="italic-173aa2ba0d2d2e25ac122154ae9fc06c">Ministers of the Justice Supreme Court</italic>
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    <sec id="heading-7997e0dc58c946a2e4098ca9bc6e11a6">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-1">A pesquisa sobre a linguagem, voltada para a influência da variável sexo, tem interessado dialetólogos e sociolinguistas, por ser um dos fatores socioculturais, ao lado da escolaridade e da idade do falante, que pode levar à variação e à mudança linguísticas.</p>
      <p id="paragraph-2">Os estudos sociolinguísticos da variável sexo ganham relevo com as pesquisas realizadas por Labov e, não raras vezes, partem da análise comparativa dos resultados por ele obtidos na investigação de marcas características da fala de mulheres, distinguindo-as entre aquelas que vivem no campo e as que vivem nas cidades.</p>
      <p id="paragraph-3">O presente trabalho tem por foco a análise da linguagem de falantes que ocupam cargos de Ministro de Estado e que compõem a alta cúpula do Poder Judiciário brasileiro, e se fundamenta em resultados obtidos por meio de pesquisa sociolinguística na observação da fala de homens e mulheres que ocupam o mesmo espaço urbano e sociocultural.</p>
      <p id="paragraph-1358130b9a6dc902dfa66cd37324027f">Pretende-se, pois, analisar essas principais distinções a partir das transcrições das sabatinas dos Ministros Joaquim Barbosa e Rosa Weber pelo Senado Federal, como requisito às suas respectivas nomeações ao cargo de Ministros do Supremo Tribunal Federal.</p>
      <p id="paragraph-c360402b3dc5cfb04c9db97ddb88304a">A partir da constatação de uso da norma oral culta, são identificadas as principais marcas de fala que distinguem as linguagens masculina e feminina, identificando os fatores sociais e o ambiente linguístico condicionantes.</p>
      <p id="paragraph-4d258cba1ad98c63280957ecd2fc6226">A metodologia variacionista levou em conta, na análise dos resultados, apenas a variável sexo, demonstrando que as marcas de fala se fazem presentes mesmo para os ocupantes de cargos na alta cúpula do Poder Judiciário, a despeito da equivalência de padrão social, econômico, educacional e cultural dos informantes investigados.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-d901a929dcd7b14a1dbe1fc6a0185893">
      <title>1 Linguagem feminina e masculina: principais traços distintivos</title>
      <p id="heading-a14c57d95576c57f6ad56c43e6302cfc">A partir da observação de que as diferenças linguísticas entre os sexos existem nas mais variadas línguas do mundo, estudiosos da dialetologia há algum tempo ocupam-se da análise das divergências entre as falas feminina e masculina, estudos esses que ganharam muito em sistematização e evolução metodológica na segunda metade do século XX com o surgimento da sociolinguística, definida “<italic id="italic-3857edd94c0ea29ad4688c68bbf06252">como el estudio del </italic><italic id="italic-12c6ee60441cb02a2098abde2fe9aecf">linguaje en su contexto social</italic>” (LOZANO DOMINGO, 2005, p.76).</p>
      <p id="paragraph-4c6619bb183140b0dfcaf1eaf46e8782">O surgimento da sociolinguística é apontado, assim, como fator de relevância para que os dialetólogos passassem a dar maior atenção às mulheres enquanto falantes dialetais. A partir das investigações de William Labov na década de sessenta, a análise da variável sexo torna-se imprescindível nas pesquisas sociolinguísticas, reveladoras de resultados confiáveis sobre os principais traços distintivos entre as falas feminina e masculina (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 52).</p>
      <p id="paragraph-af8205dcfe6a686a292b985f64d7a444">Segundo Malcom Coulthard (1991, p. 8), tal qual se observa quanto à variação dialetal regional, as diferenças linguísticas observadas nas falas do homem e da mulher permitem afirmar a existência de um dialeto próprio do feminino e outro do masculino. E, considerando essa estreita relação entre linguagem e sexo, o fenômeno linguístico pode ser observado por diferentes vieses, desde a variação fonética, lexical, morfológica, sintática e, até mesmo, pelo modo de interação social.</p>
      <p id="paragraph-4f03b966af9f46a636b89f9015c360ba">Na sequência, os principais traços distintivos das linguagens feminina e masculina.</p>
      <sec id="heading-7c32c6f1d77feb8783d4025572cf7242">
        <title>1.1 Linguagem de prestígio: autocorreção, ultracorreção e insegurança linguística</title>
        <p id="heading-5156d97ad5e3376e26f3291fee86495c">Os principais resultados obtidos a partir da observação da fala de mulheres que viviam no espaço urbano apontaram pelo uso de linguagem prestigiosa (LOZANO DOMINGO, 2005, p. 140) pela ocorrência de ultracorreção, autocorreção e insegurança linguística (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 52).</p>
        <p id="paragraph-fb139add56b01ea021748b256df848f6">Segundo Labov (1972, p. 123), a hipercorreção (ultracorreção) é o fenômeno decorrente de uma pressão social verticalizada de cima para baixo (<italic id="italic-2581b49e8a371f356d20691df2ad0aea">social pressures from above</italic>), que se revela como um processo de correção social aplicada a formas individuais de linguagem. Na hipercorreção os falantes de classes sociais menos favorecidas buscam alcançar maior <italic id="italic-f2ebc707c6f8dd664aea420e4f671917">status </italic>social utilizando-se de expressões que acreditam corretas ou formalmente mais apropriadas, porém utilizando a correção de forma exagerada (LABOV, 1972, p. 126).</p>
        <p id="paragraph-de0452d871e41b422cc913bd402e7e0e">O fenômeno é facilmente observável na sociedade brasileira. Como</p>
        <p id="paragraph-4">dito por Possenti (2012):</p>
        <p id="paragraph-6">Os exemplos mais claros, no campo das línguas, são do tipo dizer “telha” por “teia” (de aranha), já que se descobriu que a “teia” que cobre a casa é “telha” e não “teia”. É, portanto, um tipo de generalização, que consiste em aplicar mais ou menos cegamente a mesma regra a todos os contextos iguais ou semelhantes: se uma “pia” é “pilha” e se uma “fia” e “filha”, então todas devem ser. É por isso que se acaba falando, querendo acertar, da “pilha branca” do banheiro. Um dos melhores casos eu ouvi da boca de um pedreiro, que sugeriu colocar “vitror” num certo lugar da casa. O raciocínio dele é óbvio: se “dotô” é “do(u)tor”, então “vitrô” é “vitror”.</p>
        <p id="paragraph-4cf7d52135af57311fe5ebbd59d43fd7">A autocorreção, de sua vez, ocorre quando o falante procede à correção de sua própria fala ao perceber que esta foi <italic id="italic-592e10619fcb03bd99c8b08ff210cf06">mal utilizada</italic>, ou seja, quando constata que sua linguagem falada se distanciou da linguagem padrão normativa e, espontaneamente, procede à sua imediata correção.</p>
        <p id="paragraph-ce15d2a73e136783536ab6eb1b4d2982">A insegurança linguística, fruto do papel social de subordinação de longa data experimentado pela mulher, a faz buscar prestígio e reconhecimento no grupo em que está inserida por meio de uso de linguajar prestigioso em detrimento de estilos estigmatizados, gerando uma variante linguística muito característica. Mulheres pertencentes a classes socioeconômicas menos favorecidas tendem, normalmente, a copiar modelos de fala das classes econômicas mais privilegiadas, orientadas por um sentimento de integração e pertencimento a este grupo social.</p>
        <p id="paragraph-3116d6efbf8dd7b4b36edd650c715bca">Para García Mouton (2000, p. 53), o uso da linguagem de prestígio confere à mulher um aval social quanto ao seu comportamento e, por vezes, até mesmo a eleva a um melhor <italic id="italic-92595e8e471695d4d91e6e433b2faed6">status </italic>ao copiar um estilo de fala (e também de moda, de roupa, de cabelo, de postura etc.) de um nível social superior ao seu, pelo qual busca ser socialmente identificada.</p>
        <p id="paragraph-d1803746eaf2d6b0400096ef43ceac65">Em contrapartida, os resultados obtidos a partir de pesquisas sociolinguísticas revelam uma maior segurança linguística do homem, fruto da sua posição social privilegiada, que o liberta de pressões sociais impositivas de um “falar bem”. O valor social do uso da linguagem de prestígio não é para o homem o mesmo que para mulher.</p>
        <p id="paragraph-cea3e4d7ed8cd3f980160b62c879294b">Em verdade, para o homem, o uso da linguagem não normativa, em muitas situações, acaba recebendo um reforço social positivo, eis que socialmente interpretada como um traço de sua masculinidade (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 52). Como dito por Lozano Domingo (2005, p. 42), homens não privilegiam o uso de uma linguagem prestigiosa, pois que “La pronunciación no estándar tiene connotaciones de masculinidade que hacen a los varones inclinarse por elas”.</p>
        <p id="paragraph-5650f8adf8f3b843fcb1b20149e6ecbb">Observa-se, assim, o homem, de modo geral, menos preocupado com o uso de uma linguagem prestigiosa e até mesmo mais autorizado socialmente ao uso de um linguajar rude, utilizando, com maior frequência, gírias e palavrões.</p>
        <p id="paragraph-d282ee7f9c2790015b336fb222ec857d">Interessante destacar, quanto a esse tópico, que estudos realizados com crianças de 6 anos de idade revelaram que também o linguajar infantil reproduz essa dicotomia entre feminino/prestígio e masculino/ estigma (LOZANO DOMINGO, 2005, p. 41).</p>
        <p id="paragraph-c5c11d7eeceeb531095fb73fb7a5061f">Assim, não restam dúvidas de que as investigações sociolinguísticas apresentam resultados confiáveis que permitem afirmar não só que mulheres e homens usam diferentes linguagens no seu processo comunicacional, mas também que mulheres falam <italic id="italic-ea09e3473ec341c227ffa1854bc3a349">melhor </italic>que homens, aqui dito <italic id="italic-897e08427018f4928751eb40a93d78f3">melhor </italic>em razão do valor social atribuído à aproximação da fala feminina à linguagem normativa padrão.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-47d343a8c389ee23a7eda2a932dc2e34">
        <title>1.2 Estereótipos, instruções de uso e marcas de fala</title>
        <p id="paragraph-6ea13fbe47611aef5489a9e4fc300cb1">Os estudos sociolinguísticos evidenciam, também, que o comportamento linguístico feminino e masculino guarda estreita relação com crenças e atitudes relacionadas às tradições socioculturais do grupo em que inseridos. Como exemplo, tem-se o acima exposto quanto ao uso de uma linguagem de prestígio, de muito maior valor social à mulher do que ao homem, criando uma verdadeira identidade aos sexos, reforçada social e culturalmente.</p>
        <p id="paragraph-df2fc321141a0c92874045fedca2c983">Como já dito, o uso pelo homem de um linguajar rude, agressivo e não muito comprometido com a linguagem padrão normativa encontra respaldo numa crença social de que tais características revelam traços de masculinidade ao falante, enquanto que se reconhece traço de feminilidade ao uso de uma linguagem mais delicada, próxima daquela utilizada por falantes pertencentes a altas classes sociais.</p>
        <p id="paragraph-2bfa6f3d41aa215a0ad180c026f8fabe">Ao par disso tudo, observam-se muitos estereótipos - positivos e negativos - relacionados ao comportamento linguístico de homens e mulheres, cumprindo, antes de prosseguir no estudo, fazer a necessária distinção entre estereótipos e marcas de fala. Como bem explicado por García Mouton (2000, p. 59), os primeiros nada mais são do que supostos traços de fala, enquanto que os segundos os traços reais, devidamente comprovados, da fala feminina ou masculina. Vejamos uns e outros.</p>
        <sec id="heading-4c67f8d7429c7eb7d214dd68282fa942">
          <title>1.2.1 Estereótipos</title>
          <p id="heading-d7b974e4c49593bb13e80b0da221b73b">Em diversas sociedades observa-se que, com maior frequência, os estereótipos negativos relacionam-se à linguagem feminina, sendo um dos mais comuns aquele, reflexo de uma consciência coletiva, fundado na ideia de que a mulher fala demais, do qual derivam as depreciações atribuídas a esse “mau comportamento” feminino. Em reforço, muitos se apegam até mesmo a ensinamentos bíblicos para enaltecer a sabedoria da mulher que usa de sua fala de maneira comedida<xref id="xref-00a5f461136407258de3061c661abab6" ref-type="fn" rid="footnote-0f8e3fb2dfada6fb71d64f9ce4eac018">1</xref>.</p>
          <p id="paragraph-729d43746df868f3866608c62fdade2a">Para os antropólogos, tais estereótipos servem para proteger uma ordem social patriarcal estabelecida, impedindo que a mulher se utilize de sua fala para sair do lugar de subjugação em que socialmente foi colocada. Por essa razão os contos, os provérbios e as tradições religiosas elogiam a sabedoria da mulher discreta e calada (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 61).</p>
          <p id="paragraph-de7e37251573753650797be5beec27a4">Veja, como exemplo, o texto atual divulgado na internet sob o título <italic id="italic-dcfba11508fbe36c72d1da91664c93ba">A mulher segundo o coração de Deus</italic>, de autoria do Bispo Edir Macedo (2013), que revela como a sociedade é ainda machista e encontra eco para enaltecer a mulher que contém a sua fala:</p>
          <p id="paragraph-546aaf4520ff1a9de9d8e30982443a27"><bold id="bold-1">“A mulher sábia se mantém calada. </bold>Não é você que vai dirigir a igreja. Ela é conduzida pelo próprio Deus. Se a mulher é sábia, temente a Deus, sabe se posicionar no seu lugar. Ela cuida da casa, não o marido. Ela educa seus filhos; lhes ensina o que devem fazer; tem autoridade sobre eles, dentro de casa. Na igreja, todavia, a autoridade pertence ao marido, que está no altar, tendo mais sensibilidade para ouvir a voz de Deus.</p>
          <p id="paragraph-5715851c24ce4cd720a6ce68b8934def"><bold id="bold-2">A esposa de bispo, ou do pastor, se mantém numa posição bem discreta, tal qual mulher sábia e sensata, falando o necessário. </bold>Vejam por exemplo a minha esposa Ester. Ela nunca se envolveu na igreja. Não a vemos pregando ou tomando decisões.</p>
          <p id="paragraph-30869c2ede5b926749ca0b3169adc702"><bold id="bold-3">É preciso tomar muito cuidado com a língua. </bold>A Bíblia diz, no livro de Tiago, que todos tropeçamos em muitas coisas; se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o seu corpo. <bold id="bold-4">Com raras exceções, a mulher fala demais. Muitas não ganham seus maridos para Jesus por causa dessa insensatez. São egoístas, porque não querem ouvir; só falar. Graças a Deus a minha esposa fala pouco</bold>. (destacamos)</p>
          <p id="paragraph-c67d790b61683979195a896ad2619d1d">Esses estereótipos, sem dúvida, influenciam nas crenças e posturas linguísticas, sobressaindo a imagem negativa que a sociedade guarda da mulher que fala, que manifesta suas opiniões, em oposição à valorização do homem que expressa suas ideias e que se impõe socialmente por sua fala.</p>
          <p id="paragraph-00777f338baebba22e65e3fd80e4b513">Ressalta-se, contudo, que também em sentido inverso o estereótipo pode ser observado quando se aponta que homens são frios, pouco comunicativos ou mesmo inexpressivos, em contraposição às mulheres que, com maior facilidade, expressam suas emoções. Tais estereótipos, contudo, não os desqualificam, já que esses traços linguísticos são tomados como marca de sua virilidade, francamente almejada, aprovada e apoiada nos contextos sociais.</p>
          <p id="paragraph-4698b2962a620cb9700acd76ab348059">É bem verdade que mulheres são mais verbais que homens e que meninas desenvolvem sua habilidade comunicacional mais precocemente que meninos (COULTHARD, 19991, p. 46). Muito provavelmente, por essa razão, é que a imagem da mulher “faladeira” é reproduzida socialmente ao longo dos tempos, até mesmo pelas próprias mulheres.</p>
          <p id="paragraph-c5a44ad365493b93cd5ecc193328cee0">Nada obstante, investigações sociolinguísticas realizadas nos Estados Unidos, na Inglaterra, e até mesmo no Brasil, revelam que em várias situações homens falam muito mais que mulheres, e por mais tempo (COULTHARD, 1991, p. 47), o que autoriza concluir que o senso comum de que homens são calados e mulheres faladeiras constitui mero estereótipo, que se fará muito mais presente quão mais machista seja a sociedade de que façam parte os falantes, não podendo ser apontada como marca de fala dos gêneros.</p>
        </sec>
        <sec id="heading-ff3aa290dbcdc4fa0941bdb8e3d23f21">
          <title>1.2.2 Instruções de Uso</title>
          <p id="heading-6ccbda774c3e98aae98bd77159f6df9d">Como visto, a língua é mais que mero instrumento de comunicação e de interação: é instrumento de controle social. Desse modo, quanto mais machista for uma sociedade, mais visíveis serão as distinções observadas no processo educacional de homens e mulheres, no intuito de moldar socialmente o seu comportamento verbal, reforçando a estrutura de poder masculino e subordinação feminina.</p>
          <p id="paragraph-b3dbc7d0163c770acd12c5596d1870fe">Quanto às mulheres, as instruções de uso relacionam-se diretamente com os estereótipos acima tratados, conduzindo a uma subjugação social da mulher por meio da linguagem. As instruções rumam no sentido de que a mulher fale pouco, fale bem, tenha uma fala suave, utilize-se mais de sugestões do que de ordens, não grite, não interrompa, não pergunte diretamente, dentre várias outras (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 63).</p>
          <p id="paragraph-eb0bcc5ecd8fe096c2978213e749b86a">Portanto, como regra geral, o que se observa é uma expectativa da sociedade de que a mulher, em suas relações sociais e pessoais, seja expressiva e dócil ao falar. Se assim não proceder, ainda que não haja sanção social ostensiva, facilmente surgirá um estranhamento do grupo social quanto a essa postura diferenciada (quando mulheres usam expressões grosseiras, palavrões etc.).</p>
          <p id="paragraph-4a837ba8ce58ca8e10bf5444a153d755">De sua vez, as instruções de uso dadas ao homem são diametralmente opostas àquelas dadas às mulheres, reforçando-se socialmente comportamentos como o de falar de maneira forte, firme e direta, de dar ordens, de ter a primeira e a última palavra, chegando-se mesmo a exigência social de que “fale como homem” (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 64).</p>
          <p id="paragraph-262d60d72c7fa1c048c2e2d6299329c3">Convém ressaltar, ainda, que, por essa razão, é consensual que mulheres são mais polidas que homens ao falar. Esta ideia, contudo, foi confirmada apenas em parte por pesquisa sociolinguística narrada por Coulthard (1991, p. 56-57), realizada na Bélgica e no Brasil, que revelou que tanto homens como mulheres são mais polidos ao falar quando se dirigem a homens, e menos quando se dirigem a mulheres, constando- se, enfim, que apenas em interação mista é que mulheres são, em geral, mais polidas que homens.</p>
        </sec>
        <sec id="heading-4704b185869a0b93a6055688f73932c9">
          <title>1.2.3 Marcas de Fala</title>
          <p id="heading-be46aaf343d582ff536ab089c5589dc9">As principais marcas de fala que identificam o gênero vão desde as diferentes entonações utilizadas pelo homem e pela mulher em seu falar, passando pelos diversos estilos interativos, bem como pela variação de tópicos e especialização lexical.</p>
          <p id="paragraph-96c599d2ed8489acc36ccbe829c800c5">Quanto ao <italic id="italic-6827f1cf13364b0aa7ec76ca2abb8d52">tom da fala, </italic>homens e mulheres são culturalmente influenciados a utilizar uma entonação que os distinga (homens/grave; mulheres/agudo), na busca de maior aceitação do grupo social (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 66).</p>
          <p id="paragraph-74dba77e0b03e1c76cc1bde25cdfea39">A linguagem feminina é igualmente caracterizada por um maior número de variações de entonação. Elas entremeiam suas conversas com sorrisos e utilizam gestual que transmita receptividade a seu interlocutor (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 74). Isso se dá porque, como regra geral, a mulher comunica-se com vistas a estabelecer ou manter suas relações sociais, estreitando os laços com seu interlocutor. Daí dizer-se que a linguagem feminina é <italic id="italic-505ad7d490e221fe96b54fc2368f2f2d">cooperativa </italic>(LOZANO DOMINGO, 2005, p. 177). O homem, de sua vez, em seu processo comunicativo, busca uma troca de informações com seu interlocutor e tende a firmar suas opiniões pessoais sobre determinado tema, no intuito de que estas prevaleçam sobre aquelas de seu interlocutor. Sua linguagem caracteriza-se, assim,</p>
          <p id="paragraph-5cf758e94df341ace40c28ca5f5712a2">como <italic id="italic-bc60e85cf9836ae40a8bfbc568b6e081">competitiva </italic>(LOZANO DOMINGO, 2005, p. 177).</p>
          <p id="paragraph-01a05905546bafcf39eb31c43bfa1a71">Mulheres, ao contrário dos homens, nessa tentativa de criar vínculos com o interlocutor permeiam sua fala de <italic id="italic-a5238079597174b0cc71aba18683fa44">respostas mínimas </italic>(HIRSCHMANN <italic id="italic-2dcd8780d4aa39c4fca893b0f6578ecc">apud </italic>LOZANO DOMINGO, 2005, p. 178) de apoio</p>
          <p id="paragraph-5">(<italic id="italic-e34e71104ef7a7b8067838c468c5d0e6">sim, hãhã, humm</italic>), que demonstram sua concordância com a fala do interlocutor, utilizando-se até de gestuais com essa finalidade, tais como balançar a cabeça afirmativamente, firmar o olhar naquele que fala etc. Tais posturas são bem menos visíveis em falantes do sexo masculino.</p>
          <p id="paragraph-cffdfa71f033f5703aad8c5c45daa2da">Ainda no que concerne aos diferentes estilos de interação verbal, é possível observar que a linguagem feminina comporta verdadeiras estratégias para cativar seu interlocutor, como, por exemplo, ao optar pelo uso de expressões que podem levar a supor uma insegurança na linguagem por preferir o uso de sugestões, em vez de ordens e comandos, com a adoção de uma fala indireta, exatamente ao contrário do que fazem os homens (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 74-75).</p>
          <p id="paragraph-7">Incluem-se nesse contexto as expressões pragmáticas - tais como <italic id="italic-f915b90aa68b48d9def92ddaa3577130">sabe</italic>, <italic id="italic-92c3f6d02d9e50014283a64272b63492">bem</italic>, <italic id="italic-2c1957246a59cc3511499b6af101a915">acredito que</italic>, <italic id="italic-9ed5a9b7c814e206b679eab640fbd3f2">uma espécie de</italic>, <italic id="italic-10">quero dizer </italic>-, utilizadas com frequência por mulheres, adotando uma estratégia de fala menos incisiva em relação à expressão de suas opiniões pessoais, deixando em aberto mais opções de interpretação e interação a seu interlocutor, postura esta também socialmente reconhecida como mais polida (LOZANO DOMINGO, 2005, p. 181).</p>
          <p id="paragraph-bb712ebccdf04da63de4ff87b19da1a1">Essa postura cooperativa, menos impositiva, leva as mulheres, com bem maior frequência que homens, a fazerem citações ou referências a opiniões de outras pessoas, no intuito de mostrar a seu interlocutor que já obtivera o aval de um terceiro quanto ao tópico objeto de sua fala, como verdadeira estratégia para evitar a rejeição de sua ideia pelo interlocutor, ou, em último caso, de não sofrer uma rejeição pessoal se a sua ideia não for aceita pelo interlocutor, haja vista tê-la atribuído a outrem (COULTHARD, 1991, p. 49).</p>
          <p id="paragraph-185c1f02c2cda26d0ad2de0bb2c51d1a">As mulheres também utilizam mais os eufemismos (sobremaneira quando precisam contornar alguns temas “tabus”), um linguajar mais infantilizado, o diminutivo, os superlativos, os de vocativos carinhosos (<italic id="italic-5ae5f710fa9ba1a0746cf888d7a0912e">querido, meu amor</italic>), até mesmo porque a sociedade lhe valora positivamente uma melhor expressão de suas emoções e da afetividade (LOZANO DOMINGO, 2005, p. 70-73).</p>
          <p id="paragraph-8d791daaeae0cab11b94c07269f9e251">Outra observação em relação ao comportamento verbal feminino é que, nesse papel convergente, a mulher formula perguntas no intuito de envolver o seu interlocutor no diálogo (COULTHARD, 1991, p. 49), postura essa que, contudo, não é sempre bem recebida e/ou compreendida por homens, que se sentem invadidos e incomodados com essa suposta intromissão (LOZANO DOMINGO, 2005, p. 180).</p>
          <p id="paragraph-dbbab8ec72260aef84fd43a65d5072c8">Destaque-se, ainda, que, contrariando os estereótipos negativos quanto à linguagem feminina, as pesquisas revelam que homens, em interação mista, respeitam muito menos os turnos de fala do que as mulheres, procedendo a recorrentes interrupções e/ou sobreposições na fala feminina, o que representa uma violação pelo homem do direito de falar da mulher (COULTHARD, 1991, p. 52). Mulheres, como já apontado, quando intervêm na fala de seu interlocutor, fazem-no com o intuito de completar seu discurso, numa postura cooperativa, mas não com o intuito de interrompê-lo ou de desrespeitar o seu direito de fala (GARCÍA MOUTON, 2000, p. 76-77).</p>
          <p id="paragraph-ce9cc06c5d209e3df20f4ca4f2c00ed5">Quanto à <italic id="italic-89c22173cbe2b27b15358264391da32e">variação de tópicos e especialização do léxico</italic>, ambas relacionam- se à divergência de campos de interesses entre homens e mulheres. Como assinalado por Jenny Coates (<italic id="italic-7ea050a3ea55c5a53b90eb503ea55d8d">apud </italic>COULTHARD, 1991, p. 53), “os homens falam de esportes, política, carros e mulheres, enquanto as mulheres falam de roupas, comida, casa, crianças e homens”. Consequentemente, considerando que homens e mulheres, regra geral, não possuem os mesmos campos de interesse, não falam sobre os mesmos temas, produzindo, assim, diferentes marcas em seus léxicos<xref id="xref-a7b24e6d72d6f4254916f0073af08b04" ref-type="fn" rid="footnote-a4bd897660851570516c1842c1137332">2</xref>.</p>
          <p id="paragraph-20d565d17c09f77ce9f071082f6b18aa">E não só isso. Em interação mista, alguns tópicos femininos chegam a ser evitados, e são os homens que acabam definindo os tópicos das conversas e dominando a conversa, utilizando muito mais o tempo de fala (COULTHARD, 1991, p. 53-54). Ou seja, num grupo de homens e mulheres, é bem mais comum e provável que a conversa tenha por objeto assuntos relacionados a esporte, política e carros, e não roupas, comida, casa e crianças. Coulthard (1991, p. 55) chega mesmo a apontar especial característica da sociedade brasileira que, em ocasiões públicas, homens e mulheres frequentemente segregam-se, colocando em questão se essa divisão se dá por diferença de interesse nos tópicos de conversação (e, assim, por consentimento mútuo), ou para permitir que homens conversem apenas sobre os tópicos de seu interesse, excluindo as mulheres de sua roda de conversas.</p>
          <p id="paragraph-8df1ac577538f6cf9c71e6ca28d7161b">O que se revela, conforme apontado por García Mouton (2000, p. 78), é que quem tem o poder faz uso tranquilo da palavra, com a calma e tempo necessários para expor suas ideias, enquanto que os que não o tem não só têm pouco tempo para expressá-las, como tentam usar o pouco tempo que têm para nele tentar transmitir o máximo possível de informações a seu interlocutor.</p>
        </sec>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-e47d76eef4213f0543011131d98f40e1">
      <title>2 Metodologia</title>
      <p id="heading-9ce88df2ec7558055750264d9d8a759f">As hipóteses preliminares desse trabalho foram levantadas a partir da análise das sabatinas realizadas pelo Senado Federal quando da indicação do então Procurador da República, Joaquim Benedito Barbosa Gomes, e da Ministra do Tribunal Superior do Trabalho, Rosa Maria Weber Candiota da Rosa, ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal, órgão máximo na estrutura do Poder Judiciário nacional.</p>
      <p id="paragraph-68439e8a687497665868b7f113592aac">A escolha dos Ministros justifica-se pelo escopo de analisar a variável sexo na fala de Ministros ocupantes da alta cúpula do Poder Judiciário. Destaque-se ainda, que ambos os informantes representam minorias naquela Corte Suprema. Ele foi o primeiro negro indicado ao cargo de Ministro do STF, indicação esta feita pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela, a única mulher até então indicada pela Presidente Dilma Roussef ao cargo<xref id="xref-b24ff917264efa0ca11d9059ac5747f9" ref-type="fn" rid="footnote-a00c639750f83f08f658edab91843d2b">3</xref>. Esse fato é, todavia, ora aqui narrado apenas a título de curiosidade, já que não levado em conta na análise de dados.</p>
      <p id="paragraph-8db9899a9a319809cb705d976bd3b77e">As sabatinas foram realizadas em duas partes: a) a primeira, consistente na exposição pelos informantes de sua apresentação ao Senado Federal, tendo-lhes sido concedida a palavra para uso livre por 20 minutos, prorrogáveis por mais 10; e b) a segunda, em que os Ministros responderam livremente aos questionamentos formulados pelos Senadores Federais.</p>
      <p id="paragraph-4455130f92a285f32c0ed6b0d393ef1c">Considerando que, na primeira etapa da sabatina, os informantes puderam tecer suas considerações a partir de notas escritas previamente elaboradas, uma melhor análise da fala espontânea dos informantes é observada na segunda etapa das sabatinas (apresentação de respostas livres às questões formuladas pelos Senadores Federais), razão pela qual a presente pesquisa teve seu <italic id="italic-8eee3342c8ea45679605ac7627821ba0">corpus </italic>constituído pela análise dessa segunda parte das transcrições das sabatinas dos informantes previamente selecionados.</p>
      <p id="paragraph-6b39af46a8b0d9d1afc537e1f991dfb4">As transcrições das sabatinas encontravam-se disponíveis na internet, tendo sido a dele disponibilizada na página do Senador Paulo Paim<xref id="xref-a4ed4f62d049624063e0191487c77494" ref-type="fn" rid="footnote-3be34cd0d70fdccddec51e59fdb2f397">4</xref> e a dela no site Conjur – Consultor Jurídico<xref id="xref-96e17542a55f5cfb43300fc47ff2da6e" ref-type="fn" rid="footnote-00cedc8ef4c4ad8596bc51853cefd001">5</xref>. O <italic id="italic-d7a3cdb7aa77ea86576e4f91ce955b8f">corpus </italic>referente à entrevista do informante homem partiu de uma análise de 7.196 palavras, contra 14.802 palavras contidas no <italic id="italic-8a38fdfda2b9809ad910f70da46d5376">corpus </italic>da entrevista da informante mulher.</p>
      <p id="paragraph-75fc9efbc73ba22779ed4d0afccdf474">Convém ressaltar, no entanto, que a sabatina do Ministro Joaquim Barbosa foi realizada em 25 de maio de 2003, com 03h32min de duração, com início próximo das 10h30min e encerrada às 14h02min. A da Ministra Rosa Weber, de sua vez, teve duração de 6h21min, iniciando-se às 09h39min e finalizando às 16h10min do dia 06 de dezembro de 2011.</p>
      <p id="paragraph-a6fa6cd0d438718bd9708fde9f4069e8">Ambos os informantes, à época de suas sabatinas, já eram ocupantes de cargos públicos da carreira jurídica (ele, Procurador da República; ela, Ministra do Superior Tribunal de Justiça) e, ainda, detentores de notável saber jurídico nos termos da exigência constitucional para alçamento ao cargo de Ministros do Supremo Tribunal Federal<xref id="xref-f38dde01d50364d746a0946767a00aab" ref-type="fn" rid="footnote-6b03a7d2fc3d43768db2bf4a305afac3">6</xref>, sendo possível afirmar uma equivalência entre os informantes quanto a seu grau de instrução, não se atribuindo, assim, a esse fator as variantes linguísticas observadas.</p>
      <p id="paragraph-b4ec6c00755f27f091374d33f8e3f4cc">Quando da coleta de dados, ele contava 49 anos e ela 63. Logo, a partir de dados do IBGE, o informante homem estava na faixa entre 45- 49 anos (adulto, portanto), e a informante mulher na faixa entre 60-64 anos (início da terceira idade). A despeito desse fato, a variável idade não foi analisada no presente trabalho, que teve por foco apenas a variável sexo.</p>
      <p id="paragraph-76c54be58b91b5db87edc759674cc47c">Acresça-se, ainda, que as sabatinas foram realizadas por Senadores da República de ambos os sexos e, ainda que os questionamentos tenham sido majoritariamente apresentados por investigadores homens, considerou-se na análise de dados coletados que em ambas as entrevistas houve interação mista.</p>
      <p id="paragraph-3082c305564318fc4fbcd0b1ddbc627b">A análise quantitativa foi feita com a utilização do programa Lexico 3, da Université de la Sorbonne Nouvelle - Paris 3, em versão disponibilizada gratuitamente para download na internet<xref id="xref-219504e1305f9eb83148a25ca8c7b2c2" ref-type="fn" rid="footnote-9e2db73d1ac1550c0bc49a6b359f92d8">7</xref>, com seleção dos fatores relacionados às principais distinções de marcas de fala que caracterizam a variação linguística em razão do sexo do falante, procedendo-se, em sequência, à análise comparativa entre os fatores observados.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-a492c75fe7426cee29237ea0e842d82b">
      <title>3 Análise de dados</title>
      <p id="paragraph-bd2ba67877bcdce864395b3b99fe4c7e">Antes de adentrar em qualquer discussão quanto aos dados levantados, convém destacar que tamanha diferença numérica quanto aos termos analisados nos <italic id="italic-26bbb1a6a81b4dadadc52ece39ce1353">corpora </italic>investigados não é elemento suficiente para qualquer tentativa de atribuir validade ao estereótipo de que mulheres falam demais, ou que falam mais que homens. Afinal, como demonstrado no item relativo à metodologia, a sabatina da Ministra Rosa Weber durou praticamente o dobro do tempo daquela do Ministro Joaquim Barbosa, justificando, assim, a diferença quanto ao número de palavras nas falas de um e outro.</p>
      <p id="paragraph-de982208adbd82156e0f75900e42136c">Ressalve-se, também, que, em razão da análise ter partido das transcrições das sabatinas disponibilizadas em texto na internet, não foi possível qualquer observação quanto a eventuais diferenças de entonação e/ou gestuais pelos informantes ao longo das entrevistas.</p>
      <p id="paragraph-8da38b4d3e7b97a29df97e81f401a390">Iniciando a discussão dos resultados a partir da observação do uso de linguagem prestigiosa pelos informantes, a pesquisa revelou que ambos os informantes utilizaram em suas sabatinas a linguagem culta, muito provavelmente por sua posição social<xref id="xref-c326e227c072f15d762d713023d8e09d" ref-type="fn" rid="footnote-2125662dd2f1e547786d33bdbbaf65e2">8</xref>, nível educacional/cultural elevados e pela formalidade de que se revestia o evento, requisito a suas nomeações aos cargos de Ministros do STF.</p>
      <p id="paragraph-07a1b10045fcc17273e0ed3dae3dc6b0">Nesse sentido, convém destacar o uso por ambos os informantes do pronome de tratamento <italic id="italic-568937773a180f241f43355d7e074469">Excelência </italic>(ora no singular, ora no plural) para se dirigirem aos Senadores da República. A despeito do uso frequente pelos informantes, observou-se que a informante mulher socorreu-se mais vezes ao uso do pronome em questão, conforme se vê do quadro abaixo, o que revela que, também, a adoção por ela de uma postura mais formal do que a dele ele em interação mista:</p>
      <table-wrap id="table-figure-99174eaeb70e809287f22a44132fef40">
        <label>Table 1</label>
        <caption>
          <title>TABELA 1: Uso do pronome de tratamento <italic id="italic-2a36e488c14496a4e0ea4a44b63c6534">Excelência </italic>pelo falante.</title>
          <p id="paragraph-a2ef4c0c7bdb029949d7625d939b6cce" />
        </caption>
        <table id="table-080077057f90eb9b808465b52f606acc">
          <tbody>
            <tr id="table-row-31c31ecece7e6287d1791980331b1788">
              <td id="table-cell-a3a308ee5417607e6b85f6f656f36f99" />
              <td id="table-cell-1dbc11bfd1f043002413c5483f9bf950">
                <bold id="bold-2ea053e5e9dacb34e436071c1133fb98">Joaquim Barbosa </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-93447ce499a92aa2b6f0907213e0987e">
                <bold id="bold-d28dc614eb955d7d40919662a32d7f1a">Rosa Weber </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-e5355fb4e86851d2fe56436ab3380626">
              <td id="table-cell-f66302226c52423bb8191eee34102dcd">
                <bold id="bold-59a66a8608c0c96862d002cae91c5880">Excelência </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-926b51aeb60ae63659c8797d1d2326b1"> 22 </td>
              <td id="table-cell-28b265649245f2362794efc490a108ce"> 58 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-3b801e7dc2b9f7a4b1bf0b7d872cf75b">
              <td id="table-cell-0608a20ee44eb59b8d40c52d8799794f">
                <bold id="bold-0d074617e29cbec30d0ca2311077dd68">Excelências </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-ca366b444f7ee95530d4a40ad4b8d37d"> 4 </td>
              <td id="table-cell-23e749247e5f5586f1746f426dec8f32"> 26 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-f826a5c79e6c4006806efcf3cb241b5a">
              <td id="table-cell-14580801eb65f692655c983fa490486e">
                <bold id="bold-a968f769a226be249c7e64e0e14dfc18">Total </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-4a73845bf63f85e01be30d4f1f856ee2"> 26 </td>
              <td id="table-cell-d7b31dd3c0eb1a1c120f02df62717bf6"> 84 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-ead98e6f70fc7b70cbc513084bdbf6fb">Essa conclusão é, ainda, corroborada, pelo fato de que a informante mulher também utilizou com mais frequência que o informante homem algumas expressões de polidez em suas manifestações.</p>
      <p id="paragraph-e84d17bb98d43445d7e310521f04f1ae">O quadro a seguir representa o uso pelos informantes dos termos <italic id="italic-2ace21d6931fb0822330882190564dd1">agradeço</italic>, <italic id="italic-9aa259a740c855c3f76a060e1799f7ed">por favor, obrigado </italic>e <italic id="italic-7886dd895b8baf36ce1b67ae23a30f7e">obrigada</italic>, <italic id="italic-a66fb07c9a0a8d9f005049895e143426">perdoe </italic>e <italic id="italic-9072d77df86bf34d13d91b3e4bd202b6">perdão</italic>, ao longo das sabatinas:</p>
      <table-wrap id="table-figure-1d58378832d4d1aac99dfb9315aa020d">
        <label>Table 2</label>
        <caption>
          <title>TABELA 2: Expressões denotadoras de polidez na fala.</title>
          <p id="paragraph-a87f71786b16722a130936a791e8c658" />
        </caption>
        <table id="table-b08e6babf38488a88ba4f4e934722c28">
          <tbody>
            <tr id="table-row-b88831ece02621c111cc778af514c05b">
              <td id="table-cell-ad00502b131bc09e9c90df4b8706b390" />
              <td id="table-cell-eeff7e1520527c84d401854bf3899d2a">
                <bold id="bold-34d942a5562f6e26f51bacb4f7343142">Joaquim Barbosa </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-7f99f34572da2d740f1d8c27a03162e7">
                <bold id="bold-dd27546f83f65af700dc70f5cc21c984">Rosa Weber </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-c89272c5f1e533a6802b3f4d4e62a713">
              <td id="table-cell-383b62a205f78a41d9c2f416601bb392">
                <bold id="bold-8bfc8e19c9dff8f01e3e397aee3433d3">Agradeço </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-d717b18a9b73a2cbfbc79881c574222d"> 1 </td>
              <td id="table-cell-fca807afa1e75e1231569f1bbc65ea13"> 16 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-38b0b488c338183c3307ac9da8890884">
              <td id="table-cell-606b7f14e11e0789842c6b2615d65ad0">
                <bold id="bold-098ea59511738f5d3586fb8b80bc57a2">Por favor </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-f153aea31f71286be5c63e3fc0778753"> 0 </td>
              <td id="table-cell-31f29bd695b060e467f6eb77bd3d2dd8"> 3 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7784dd6629f739842f944905ac6a7985">
              <td id="table-cell-630a74764d129eb3daa0026f731e179b">
                <bold id="bold-142380ff1ee047ba529250ac25ac1f16">Obrigada </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-a5ac6a0c2d8981732d67df06b6809959"> 0 </td>
              <td id="table-cell-45ae9c10d25895a656ce27bebf3b828e"> 6 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-ab7d04d8658a2456ccc7d87545000da5">
              <td id="table-cell-ae049a740aec0883b9c1eb85c1a17906">
                <bold id="bold-56ecbf955a912ee1eecadca3ee2aad97">Obrigado </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-49d82fd5324128a4d758d37fe2b6b551"> 2 </td>
              <td id="table-cell-cbcde1d53c1cf399e8a283ace2ae4ef9"> 1 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7f4847c9bf06389b40707ca346290bf3">
              <td id="table-cell-0f82dfc15f14ace4146d187af81eee5a">
                <bold id="bold-a4d2828c4807acb23b9fb37cfe80b2a5">Perdoe(m) </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-1f4eeb20bbb936397349f2384f80e380"> 0 </td>
              <td id="table-cell-6d456333aba44d7251278b127f124f8a"> 4 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-95add5be50d813b56e038d92d5e10852">
              <td id="table-cell-a55dca12e0731fbb1f99b6be3006bde3">
                <bold id="bold-d38c8f18e6a189d52c5248a445daa2e0">Perdão </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-71e11302608038b4d74f631b857f36e6"> 0 </td>
              <td id="table-cell-0ce941c4ea8abc6e03b148d541474ce4"> 4 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-92c5858eb1ba5dd6f598583823fe9e3d">
              <td id="table-cell-b6bbd2b393844321b3ebfbcae291934a">
                <bold id="bold-a5c377558d6d778d0279ab4542c738e8">Escusas </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-5c606752b5d001000e6338490dfe65d9"> 1 </td>
              <td id="table-cell-94dbabb70ea87ce82d9c61598756a159"> 1 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-33d9db6355291dd34c29d2171dbbafcc">
              <td id="table-cell-7bbd84e7fb408379e0bd2b14a412bbb7">
                <bold id="bold-4d59cd4d262e4123af2c67005d86acc3">Total </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-6c275b21c82be8b216ca7143814a863b"> 4 </td>
              <td id="table-cell-1e95cdc95ee463ce4a5323c1f8565d81"> 35 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-689e54eaa4b38106bbe66602282add48">O uso das expressões na forma acima não só espelham as instruções de uso socialmente recebidas por mulheres para que sejam mais polidas e delicadas em seu falar, como trazem à tona a insegurança linguística reveladora de submissão social observada na sua reiterada postura de agradecimento pela oportunidade de fala, ou até mesmo de desculpas ao expressar seus sentimentos ou ao não se sentir capaz de atender à expectativa de seu interlocutor quanto à expressão de suas opiniões<xref id="xref-a97294fc700cbbba1d26580f80a2f32c" ref-type="fn" rid="footnote-3029f2b7ee8c93b5c7e363a109c585f4">9</xref>.</p>
      <p id="paragraph-e06cad188bf7f29805d58cf837783709">O informante homem, em contraposição, revelou-se de forma mais assertiva em seus questionamentos públicos, e muito menos preocupado em se desculpar perante seus interlocutores ou mesmo em agradecer pela oportunidade de ser sabatinado pelos Senadores da República.</p>
      <p id="paragraph-5390430d8f534c46b65fe71590360df4">Observou-se, também, no que toca a seus diferentes estilos interativos, que a informante mulher utilizou-se de uma linguagem mais cooperativa, convergente, em oposição à linguagem competitiva do informante homem.</p>
      <p id="paragraph-6854d1024c467c574132bf82cc9c4e36"> Veja-se, por exemplo, que a informante mulher socorreu-se, por várias vezes, ao uso de citações ou referências em sua fala. O fator considerado de destaque na pesquisa, nesse aspecto, foi a constatação de que a informante mulher com muito maior frequência fundamentou suas falas em textos de lei ou da própria Constituição Federal, invocando os artigos da norma jurídica com vistas a fundamentar as opiniões expressadas perante os Senadores da República.</p>
      <table-wrap id="table-figure-38095fefda091cc26ed938fbbeb5cb78">
        <label>Table 3</label>
        <caption>
          <title>TABELA 3: Uso de referências a normas jurídicas.</title>
          <p id="paragraph-633d41be65fe9cceb0811ed9dc82dbf1" />
        </caption>
        <table id="table-413cac649eea8a0a745edb10b5fc6ee1">
          <tbody>
            <tr id="table-row-6dcd9f747778c8b84aeedcfac16f4d2d">
              <td id="table-cell-b07f8dc9c122f94affed61bfc09eb28f" />
              <td id="table-cell-8730cb18e3bf346cebc03497461eab99">
                <bold id="bold-85f35b648eefaa58f014cffa56d7c28c">Joaquim Barbosa </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-31648ab758ee2e61a520ecca51e9304d">
                <bold id="bold-6ab098c4a2cab3421a0862d68a220af8">Rosa Weber </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-e1230d901b912e20515cfd737f00309b">
              <td id="table-cell-0b244d29ab4e16b0d8252f1463b224ab">
                <bold id="bold-f1be05dbd5e4da67d97bf388f41888c4">Artigo </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-644d3ccf9528b4b66e14647435d09d85"> 2 </td>
              <td id="table-cell-414cc03f4c7012b80f0ce4c929815eb8"> 37 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-bb7aed8df8de4225525f8cd25bf8da65">
              <td id="table-cell-97ed583dbf5be6d307bef55d3285858c">
                <bold id="bold-a287cd712acbd9f9de8623c4ead59f6b">Artigos </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-58d9c6cc92ed227e9648ac77c4f9a8c1"> 1 </td>
              <td id="table-cell-c6efdba9592ebb061d12bce78b29419e"> 2 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-cb6a59f1a81715d7c7463938a5b23c2e">
              <td id="table-cell-4abd4bb7d00c1f4e5fed9cc456bcc65d">
                <bold id="bold-8c1bfb0dc9415a904f19830b5bdb7c6d">Constituição </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-086aa8e17ec16560595f5699c3bfd592"> 8 </td>
              <td id="table-cell-3c26fe4cb70dd215bcc600f672a74f9c"> 63 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-d2d47956e5ba20aefed783b0920a0e6f">
              <td id="table-cell-7c17d147d1df3e1ef323e141fe40cbd4">
                <bold id="bold-4b6b53aa508545e5cfaf18dc3406ef83">Lei </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-3323019b825112c44a0d19f733776e53"> 11 </td>
              <td id="table-cell-e45b7fbe7888badd038624d588b04be3"> 43 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7724b6c839f86dc2383ab145afc725f4">
              <td id="table-cell-30b05d1a84c66ef5986806a1ffbe1e84">
                <bold id="bold-400e381d89041fd3a93cd96d49b88fb1">Total </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-0c7ed0f7e0ec38266a9fb7fcd787fdd4"> 22 </td>
              <td id="table-cell-5b3191dbffcd04493d198a44121be21b"> 143 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-65544dd81b1a83e33672420879a317d5">Essa postura da informante mulher justifica-se, muito provavelmente, no intuito de demonstrar a seus interlocutores que as ideias e opiniões por ela expressadas não eram infundadas, haja vista que se baseavam em normas jurídicas, sobremaneira na Constituição Federal, norma de hierarquia máxima na estrutura legislativa brasileira, pelo que mereciam ser referendadas por aqueles que a sabatinavam.</p>
      <p id="paragraph-6e19fbe2e83f8c76e6e6d2dc9df9c0ca">Observou-se, ainda, que os dois informantes investigados utilizaram em suas respostas a estratégia de fala consistente na formulação de perguntas, no intuito de envolver o seu interlocutor no diálogo, conforme demonstrado a seguir:</p>
      <table-wrap id="table-figure-611854013fe44512250ec42815b81283">
        <label>Table 4</label>
        <caption>
          <title>TABELA 4: Uso de perguntas como estratégia de interação.</title>
          <p id="paragraph-3ef1853a8be6f5f84f4441085d4d5a6a" />
        </caption>
        <table id="table-778f28aa3c40de40fd18a61f23b80262">
          <tbody>
            <tr id="table-row-103052f7edb5e8beeae34b6e6e1989cf">
              <td id="table-cell-599216e5b64b0e87e2d9ad6081b6a052" />
              <td id="table-cell-06a3551125c1040c9393b772a90b1d8a">
                <bold id="bold-07ddc73d7a571780dbe61dd244b9a7ba">Joaquim Barbosa </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-eeb8387598abc2136f966e895a0b9194">
                <bold id="bold-599862e319425e8316478fa238adcbde">Rosa Weber </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7238ed30c6fc4b9041743a1cb52503ab">
              <td id="table-cell-fa0f0b91cc7fcd579df52cf3d9a13cb0">
                <bold id="bold-28552d93e93008b184e32ddebe6e1214">Perguntas entremeadas às respostas </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-66dbac6a83170569e661c59c8b06553c"> 17 </td>
              <td id="table-cell-47e71cb82c28911c6b88d4d0cc6e61f0"> 37 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-004fbb82e167faaf8374041119eeffca">Nesse aspecto, muito embora os resultados sejam superiores para a informante mulher, a diferença numérica não parece significativa o suficiente para que se possa atribuir esse traço como distintivo de marca de fala em razão do gênero, tendo em vista que a sabatina da informante mulher durou o dobro do tempo que aquela do informante homem, tendo os fatores sido identificados nos <italic id="italic-61c65c508b667f2ddffe9279e1beeeaa">corpora </italic>guardando, aproximadamente, essa mesma proporção.</p>
      <p id="paragraph-f168ea51b03215280e431f1f7d7d7b05">No entanto, no que se refere ao uso de respostas mínimas de apoio, com o escopo de estreitar vínculos comunicacionais com o interlocutor, essas, ainda que em pequeno número, foram utilizadas pela informante mulher (<italic id="italic-696e0bbfe949a16ec3ab6527e61baa8c">isso...</italic>; <italic id="italic-9181c16f8521b687bd695a4ffb6b739b">exatamente</italic>), e em momento algum utilizadas pelo informante homem, conforme retratado na tabela abaixo:</p>
      <table-wrap id="table-figure-5bdc6ccbe8117f2f2dd097ce440ead78">
        <label>Table 5</label>
        <caption>
          <title>TABELA 5: Uso de respostas mínimas de apoio.</title>
          <p id="paragraph-5b568315bb48c3ac42c8fff12f8d0b72" />
        </caption>
        <table id="table-60520148b95b79e065071a871b81bb27">
          <tbody>
            <tr id="table-row-92ff104389356d84d8838be706548c30">
              <td id="table-cell-0b75490bcf49f55ae5a8c50f1b6dcc73" />
              <td id="table-cell-4c12ea24296004d0260c5db39b9e2742">
                <bold id="bold-35a6bfb4372350e397abd93b04310709">Joaquim Barbosa </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-40755575ab10e69302dc6214b9a9c054">
                <bold id="bold-3a8a00382f6cb7f6f17ade8bf3b9dc56">Rosa Weber </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7f0d3c67d42ab2b98c122111262f32c3">
              <td id="table-cell-ac70ff00097f3a485976a2dc7d595b49">
                <bold id="bold-ac8edfad3dfa8a653ec4fdb3439db999">Isso </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-cb51ab86002a40930a0c6f50625caa92"> 0 </td>
              <td id="table-cell-d1601d0f58d3aa23f502f3070d2a2fec"> 2 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-4d18db6b51bfaa19f4e04eb8716cef95">
              <td id="table-cell-a5ec301bf94cf3572c0630184df2319a">
                <bold id="bold-585f854417699ae6212d4bf0b4272369">Exatamente </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-5eb56e1c6043b6639ba6c953f0cc1ca7"> 0 </td>
              <td id="table-cell-833c9282ec14033c6df0a1cc701dd1af"> 1 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-172bcaa871586387fc3d001ec46368dd">
              <td id="table-cell-e186293c56b43d3e47416d1a3af663c5">
                <bold id="bold-70292123e2a9d4e821006ebe69cf66dd">Total </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-3c8d631aba5e40cea3ae8b00623f780a"> 0 </td>
              <td id="table-cell-d3ff59db34146b0f1db5afc77cec8cfb"> 3 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-6a78856b5637ed74736cb3a43596e8c6">Os turnos de fala não puderam ser objeto de análise no presente estudo, posto que o procedimento adotado nas sabatinas impediu que essas figuras se fizessem presentes, já que os entrevistadores faziam seus questionamentos em bloco, dando-se a palavra aos investigados após, para que apresentassem suas respostas.</p>
      <p id="paragraph-64e7b48b447cb87b42638828da1fcfd8">Muito embora a postura dos entrevistadores não tenha sido objeto do presente trabalho, uma especial circunstância merece ser destacada quanto à interação entre os entrevistadores e os sabatinados, que, inclusive, justifica o fato de a sabatina da informante mulher durasse o dobro do tempo daquela do investigado homem.</p>
      <p id="paragraph-b3862edf532fc3f002a3492542000b7f">O informante homem foi sabatinado por 15 Senadores da República<xref id="xref-b3680461f66cf371136e574d7866d547" ref-type="fn" rid="footnote-310f3276b0ac67ba3b97773c036e7f0a">10</xref> (uma mulher e 14 homens). Desse total, apenas nove Senadores efetivamente dirigiram perguntas ao sabatinado (aí incluída a entrevistadora mulher), e os demais se limitaram a tecer elogios e parabenizações ao sabatinado pela indicação ao cargo. Ao final da sabatina, a votação redundou na aprovação do nome do informante homem ao cargo, em votação unânime (21 Senadores votaram).</p>
      <p id="paragraph-66354300efc13fefebed0387ed518b13">Já a informante mulher foi sabatinada por 18 Senadores<xref id="xref-51e47bde62ca84b9d672626ede2a0ac5" ref-type="fn" rid="footnote-8c47640b4c5c87b9ead5f367ea98d76c">11</xref> (duas mulheres e 16 homens), e à exceção de dois entrevistadores homens, todos os demais 16 Senadores efetivamente formularam perguntas à sabatinada, o que exigiu do Presidente da Sessão fixar limite de tempo para as perguntas. Em algumas oportunidades a informante mal teve tempo e condições de tomar nota das perguntas formuladas, necessitando da ajuda dos entrevistadores para retomá-las quando da apresentação de suas respostas.</p>
      <p id="paragraph-93a8dd80fa2e6b7478ffee7fbad60ca7">Além do que, o Senador Demóstenes Torres, que muito pouco perguntou ao sabatinar Joaquim Barbosa, após exaustivamente questionar Rosa Weber, insistiu em retomar a palavra para novas perguntas ao final dos trabalhos, extenuando a informante mulher de tal forma que, ao final, se reservou o direito de escolher apenas algumas das questões para responder.</p>
      <p id="paragraph-6fac5b7cb432f5bf3793a9959be231c5">Essa situação toda levou dois Senadores da República a colocar em relevo que aquela fora, sem dúvida, a mais longa sabatina por eles presenciada.</p>
      <p id="paragraph-d2d5efc54cd0608bd8e7577368486b42">Ao final, a aprovação do nome da informante para o cargo se deu por maioria, obtendo 19 favoráveis e três contra a sua nomeação.</p>
      <p id="paragraph-b48c1950637a6d4df29f4beea4bc6e26">Tais circunstâncias revelam que os entrevistadores homens se sentiram à vontade para formular muito mais questões à informante mulher, colocando em xeque suas ideias e opiniões, diferentemente do observado quando em interação com o informante homem, que foi pouco perguntado (sua sabatina durou pouco mais de três horas), muito elogiado e, ao final, teve seu nome aprovado por unanimidade. Ela, por sua vez, teve que responder a esses questionamentos por mais de seis exaustivas horas e, ao final, não obteve o voto de todos os presentes, tendo sua indicação sido aprovada por maioria.</p>
      <p id="paragraph-17c74d311f6bfcbd0f0fc55eee1cb38e">Essa observação foi aqui tecida apenas em relação aos entrevistadores homens, tendo em vista ter-se observado que as entrevistadoras mulheres, em ambas as ocasiões, fizeram questionamentos concisos, sem se observar qualquer distinção significativa em suas posturas fosse o sabatinado homem ou mulher.</p>
      <p id="paragraph-8c041cf7d10df873c18034db4dbe2718">Tais observações confirmam que homens tendem a uma postura de não contestar com tanta veemência outros homens, não os colocando em xeque como o fazem quando em interação comunicacional com mulheres, e que têm maior facilidade em ratificar as opiniões de outro homem, em atitude gregária.</p>
      <p id="paragraph-eb2af04590b7f3c9d1e848583ba1088d">Feitas essas considerações, afasta-se definitivamente o estereótipo de que mulheres falam mais que homens.</p>
      <p id="paragraph-01027b497ba4cbc6e2709eb439ce3e3b">Voltando à análise dos estilos interativos, os resultados apontam à informante mulher o uso mais frequente de expressões pragmáticas que supõem uma insegurança linguística, como por exemplo, <italic id="italic-22f2e2477cd5e999e78e28008fa11f9d">digo</italic>, <italic id="italic-f2ef380d958dc1500675731dca18f2cf">parece</italic>, <italic id="italic-c61a6e14883ed817276781fdbbbeeb28">acho</italic>, <italic id="italic-fcedc7546de2826656463aeb255b3709">entendo</italic>, dentre outras. Observe:</p>
      <table-wrap id="table-figure-ab01414d16e1b0e219db9000cdedc325">
        <label>Table 6</label>
        <caption>
          <title>TABELA 6: Uso de expressões reveladoras de insegurança linguística.</title>
          <p id="paragraph-238876109a4f044bdb1b992a04faef7f" />
        </caption>
        <table id="table-96dea11fab4765da8e30a87e183f7047">
          <tbody>
            <tr id="table-row-3d328a2cf58eaa67bf65e3bd1924bd96">
              <td id="table-cell-9660611e93399ff90f30cbeaff45b14e" />
              <td id="table-cell-9eea1725c3bf93f06882176507ed9b6d">
                <bold id="bold-36633c511d03f58b0d001c6d0bf15750">Joaquim Barbosa </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-0f0315d9e3f1029999fdcc542e0853d3">
                <bold id="bold-c16cf882d5b6af89bfa81a221fe8ea17">Rosa Weber </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-424d5847fa523cbe0d0269b67ef6cf69">
              <td id="table-cell-2fd61461a7b37c79be346df92e200090">
                <bold id="bold-1d7edc15db09150f97e76d9013132753">Digo </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-c1eee4264788d22b3e238267f6aef241"> 0 </td>
              <td id="table-cell-d6209620aa0a4e4e4079e6d31e33eef4"> 12 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-2370ca6d7f69f9b49ca45bc2957a4302">
              <td id="table-cell-dacbc0ddd8de492a3c7e389c4d0a8d82">
                <bold id="bold-edbab7ab846638cb276761bac8a111b5">Parece </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-07e47edd8a8a659d72564d6d0b19f047"> 2 </td>
              <td id="table-cell-61c8b969ca3b4372ebde288fc8a17b3c"> 8 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-26240e63b24bb7f7083ae665e6c8786c">
              <td id="table-cell-f059b43c8d3cddc0a3554b77335e1eb2">
                <bold id="bold-c93033843a601b077a48a1f1d9aba3c7">Acho </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-2d5b922ac1dfa4e7fd5b2663d08ea926"> 5 </td>
              <td id="table-cell-7a7ef72a2453947e300de85608a1a93d"> 14 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-29fd2486e061ca7be57ed3691ede0d69">
              <td id="table-cell-ff5842108f8c31e987e43f8be849a4ba">
                <bold id="bold-724f73d63180fd5d919857ed6d31a296">Entendo </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-f99bc09e9105065bdd905d7b2acabf84"> 2 </td>
              <td id="table-cell-42fc7e21ac9865bc99dc351a4b684bf8"> 22 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-54407f7a215d3333dace603f8c2e2732">
              <td id="table-cell-b5c5202a98f148805e1e48d3d835a213">
                <bold id="bold-52224f22fd407cd12ecade5ca48fbaa3">Acredito </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-4955f1eb79edb784d03fda5fdc327690"> 2 </td>
              <td id="table-cell-6f4c783eeae3086f24960a44fce80d68"> 0 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-3c23f61beea04322518af82a8d66c524">
              <td id="table-cell-d3e411734056d59143bfe405c76d007f">
                <bold id="bold-483c018f2120edf9e225ca9e9bd38307">Creio </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-b06f94cffc8f033f4fa8c8155cb0c75d"> 2 </td>
              <td id="table-cell-5b3753f0b54f0385196135949f0f045a"> 0 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-9759ca05a5a1a8adbdae4ba46b8214df">
              <td id="table-cell-f8690134e75fe0f9653d5d3c687e620d">
                <bold id="bold-872d1537e23e87cd96408b6b7e7cf475">Total </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-bc478b31b82ce88612302f1a0002d91e"> 11 </td>
              <td id="table-cell-0b946bf841589d48239c382272e7e795"> 56 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-88b13da9ffc1c3602fc1ad338701ecfc">Observa-se que tais expressões são também utilizadas pelo informante homem, mas em menor frequência, à exceção das expressões <italic id="italic-9209b34a0584485ab48740fdfb45ee3d">acredito </italic>e <italic id="italic-2c451ab3c523bfc96a93b93fb3872b15">creio</italic>, pouco utilizadas por ele e sem qualquer uso por ela.</p>
      <p id="paragraph-ffd5b0b0d723369cebd9ce659490522f">Por fim, cumpre destacar que o estudo revelou maior expressividade da informante mulher em relação a sentimentos e emoções, utilizando os termos <italic id="italic-4af331aca216ad9be0dab11b23b27428">orgulho</italic>, <italic id="italic-5223465aa25408c4a729133282dc3510">angústia</italic>, <italic id="italic-c4a048c7d8783fe13815b0d4ea2b0f28">preocupação </italic>e <italic id="italic-43b036d896584dba2fa71f4af4f03b16">coração </italic>como a seguir demonstrado:</p>
      <table-wrap id="table-figure-10c555f92de4a640543217466971e534">
        <label>Table 7</label>
        <caption>
          <title>TABELA 7: Expressões de sentimento e/ou afetividade.</title>
          <p id="paragraph-7cf4d690b54d1e44e5564c66dedbce28" />
        </caption>
        <table id="table-6995c1b18f9a3c88945145a66d71affa">
          <tbody>
            <tr id="table-row-43316f726c9e9d5c445e744703307d32">
              <td id="table-cell-691e11ac37bc4bce244be3d272376661" />
              <td id="table-cell-815335ad9913a914e12fdc569582da72">
                <bold id="bold-51adea2e763c1c9b389b292e7700f8aa">Joaquim Barbosa </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-4b6da8597ec999eb70c0be1412c72936">
                <bold id="bold-cddb2a97918e1ee5458c543be567b7bc">Rosa Weber </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-804e0cd001ba8f3ad2d7e686bd7ab26c">
              <td id="table-cell-461c29542b2bc704910ca79c1b3e13ea">
                <bold id="bold-da3f446a977842c4d5ee7363034efb63">Orgulho </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-1bc3d60be713cabfc810eaf9f60a5f70"> 0 </td>
              <td id="table-cell-097c239ce68264d45988861c9839998b"> 8 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-09caae2ec4d0011840b8d5d3511b0bd4">
              <td id="table-cell-f543e075f030bf254205c3b9acb9288f">
                <bold id="bold-2e72cc6fe640d4abc2ecae2247997485">Angústia </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-a3727b412e764d9019eefa08fd3a7e81"> 0 </td>
              <td id="table-cell-911182517672f708c253760a87d659c5"> 6 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-5c42420dd44bcb8ef58ce826b96b8c63">
              <td id="table-cell-4df800b2c3aaabc94854f1e71f2586c0">
                <bold id="bold-63780b0ebbcbbc81f515b8aef92bb927">Preocupação </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-c1f5fd213033f9ff93f6a27d9a80452c"> 2 </td>
              <td id="table-cell-ae6b2f07959be188b1aac4387e327306"> 5 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-8cee6d097dc198c85d57f99f01e48cc2">
              <td id="table-cell-2b4121f4a3d1184980a897989374f238">
                <bold id="bold-a1f139db4d285c249a5e03ad881108e2">Coração </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-de59ff9f71a4112839b4a345d1a5aaa0"> 0 </td>
              <td id="table-cell-464a2fdb578740639cedd358a3148434"> 2 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-3301403f193a5e86556bc0084be9c197">
              <td id="table-cell-4791a75194eaad14a7d849297a96303f">
                <bold id="bold-82aac376a7fcf6084a80060c75c9217c">Total </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-290186a83d85184c8458d493f22a8869"> 2 </td>
              <td id="table-cell-bb1da3532b3f4f681167d2b13ff42859"> 21 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-57706b21bc5e753c680182eccb49082c">Como última observação, convém destacar o uso da palavra <italic id="italic-46a8d993d16abd60a52c454ef8adead8">candente </italic>pela informante mulher (o item foi repetido por sete vezes em sua fala, sendo três no singular e quatro no plural), indicando não só o uso de adjetivos intensos, mas de linguagem prestigiosa e pouco usual.</p>
      <p id="paragraph-7ff632e6afa8f61775277a975aeb4e3a">Esclareça-se, em conclusão, que a análise de dados coletados não focou na variação de tópico entre os informantes e a conseguinte especialização do léxico<xref id="xref-9e5e81f3a36af6445920b8680f3bcaac" ref-type="fn" rid="footnote-c32c3bdb129ce210b5f94e11681ca12f">12</xref>, em razão da escolha dos temas debatidos ter sido feita pelos próprios entrevistadores, condutores das sabatinas, direcionando, assim, a fala dos informantes investigados.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-5643f56cc73f12edc640aeeb1a04f20c">
      <title>Conclusão</title>
      <p id="heading-440455b4f09685fc8d1a5d7593eae96d">Confirmando-se, em sua maioria, as hipóteses levantadas ao início do trabalho de que homens e mulheres efetivamente falam variedades distintas, e que existem marcas de fala específicas que caracterizam uma linguagem e outra, conclui-se que os fatores linguísticos que condicionam a variação em razão do sexo do falante incidem mesmo entre os falantes de alto grau de instrução, que exercem a mesma atividade profissional e que ocupam cargos na alta cúpula do Poder Judiciário brasileiro, que lhe conferem, assim, <italic id="italic-c96782caa0e9d425dc1315ab9f8b252f">status </italic>social e poder.</p>
      <p id="paragraph-0c2ba9d965215300325ac2885cf11b75">Muito provavelmente em razão dessas particularidades que envolvem os falantes investigados - grau de instrução, posição profissional e social -, ambos utilizam a linguagem culta, muito próxima da norma padrão. Todavia, a despeito da aparente isonomia existente entre os Ministros Joaquim Barbosa e Rosa Weber, constatou-se que pressões socioculturais moldaram o comportamento verbal de ambos, produzindo variação linguística característica, tão estudada por dialetólogos e sociolinguistas.</p>
      <p id="paragraph-e39febd0c2025c11a0dca21ab026af06">A conclusão se funda, em síntese, nas seguintes tendências e posturas observadas na fala espontânea dos Ministros investigados:</p>
      <p id="paragraph-8">a) ambos trataram seus interlocutores utilizando o pronome de tratamento <italic id="italic-3c94c8844d76bbed3c941bf8ad5aaea2">Excelência</italic>, observando-se, contudo, em relação à fala da Ministra Rosa Weber o uso mais frequente do pronome em análise, bem como de outras expressões de polidez, caracterizando, assim, uma linguagem mais prestigiosa em comparação àquela do Ministro Joaquim Barbosa;</p>
      <p id="paragraph-9">b) a Ministra Rosa Weber revelou maior insegurança linguística em suas respostas, evidenciada pelas várias citações e referências a texto de lei ou da Constituição Federal no intuito de fundamentar suas opiniões, bem como em seu estilo interativo, com o uso de expressões tendentes a cativar o apoio de seu interlocutor, dando-lhe liberdade para interpretar e adotar suas próprias posições quanto às ideias por ela expressadas;</p>
      <p id="paragraph-10">c) também se observou em relação à Ministra Rosa Weber o uso de respostas mínimas de apoio, revelando uma fala mais cooperativa, em contraposição à fala mais assertiva e direta do Ministro Joaquim Barbosa;</p>
      <p id="paragraph-275abaa037ce20589ab638c606ced7a7">d) a Ministra Rosa Weber também utilizou com mais frequência e facilidade expressões relativas a seus sentimentos e emoções, nada se observando, nesse aspecto, quanto ao Ministro Joaquim Barbosa.</p>
      <p id="paragraph-9de03b3f9235f5929ff22f7f7717b561">A pesquisa revelou, ainda, que os dois Ministros investigados utilizaram em suas respostas a estratégia de fala consistente na formulação de perguntas, no intuito de envolver o seu interlocutor no diálogo. Não foi possível, assim, afirmar uma distinção da marca de fala feminina e masculina nesse aspecto.</p>
      <p id="paragraph-73e485850e840d38c89e16edc83d4e21">A partir dos resultados obtidos, é possível afirmar que, com a evolução social e a maior participação da mulher na vida política e social, a linguagem feminina começa a se apresentar um pouco mais próxima da do homem. Mas apenas isso: “um pouco mais próxima”, haja vista as tantas divergências apontadas, todas, certamente, condicionadas à variável sexo.</p>
      <p id="paragraph-cf5df3c5ed4c1e2b60de282eaffc5faf">Afinal, o estudo revelou que as pressões sociais e culturais continuam a moldar o comportamento verbal feminino e masculino de forma tal, mesmo entre falantes de <italic id="italic-843f63bd9c9fd955816ce409cf453d0d">status </italic>social equivalente (como se viu entre os Ministros sabatinados), não parecendo correto dizer que, nos dias atuais, homens e mulheres ocupam espaços públicos em igualdade de condições e de oportunidades de fala para expressar suas ideias.</p>
      <p id="paragraph-a83075cdd2fb689155969add065200a1">E não há dúvidas de que quanto maiores forem as variações e variedades linguísticas observadas em razão do sexo do falante, mais indicativos teremos de que a sociedade ainda caminha a passos largos na evolução em direção a uma sociedade justa, fraterna e solidária, em que não haja espaços para os estigmas. Enfim, que homens e mulheres tenham igualdade de condições para exprimir suas ideias, rechaçando-se, em definitivo, a subjugação da fala feminina.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-8941141752b4689d24401c465223b838">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-4963718ebead5b66e495d30e244fc69b">BRASIL. <bold id="bold-469bb14ccddbc1839129fceada64bc04">Constituição </bold>(1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988.</p>
      <p id="paragraph-69a2c6323b5dec47fc7c1cd30475f5b7">COULTHARD, Malcom. <bold id="bold-6c99f3aee67e459f227f6d2420c913bc">Linguagem e sexo</bold>. Trad. Carmen Rosa Caldas-Coulthard. São Paulo: Ática, 1991.</p>
      <p id="paragraph-b3a3c824ffe07535ee360f116a98dadd">GARCÍA MOUTON, Pilar. <bold id="bold-2105406402ed45e63a2713375652d4d2">Cómo</bold><bold id="bold-bac5fc5bf6506456d9c66832582546a1"> </bold><bold id="bold-5">hablan</bold><bold id="bold-6"> </bold><bold id="bold-7">las</bold><bold id="bold-8"> </bold><bold id="bold-9">mujeres.</bold><bold id="bold-10"> </bold>Madrid: Arco Libros, 2000.</p>
      <p id="paragraph-28bbabdf0a613f47170e944b9740372a">LABOV, William. <bold id="bold-11">Sociolinguistic patterns. </bold>11ª ed. University of Pennsylvania Press Inc., 1972. Disponível em <ext-link id="external-link-2d4a86068cec8e2db38f5106a473b112" xlink:href="http://books.google.com.br/">http://books.google.com.br/</ext-link> <underline id="underline-ebdfcd35d3f035f162e447ed9f5aa3df">books</underline>, acesso em 29 de junho de 2013.</p>
      <p id="paragraph-b72aae729ca936fe840b098e5c841c71">LOZANO DOMINGO, Irene. <bold id="bold-12">Lenguaje feminino, linguaje masculino</bold>. ¿Condiciona nuestro sexo la forma de hablar? Madrid: Minerva Ediciones, 2005.</p>
      <p id="paragraph-11">MACEDO, Edir. <bold id="bold-13">A mulher segundo o coração de Deus</bold>. Disponível em <ext-link id="external-link-2" xlink:href="http://www.arcauniversal.com/mundocristao/noticias/a-mulher-segundo-o-">http://www.arcauniversal.com/mundocristao/noticias/a-mulher-segundo-o-</ext-link> <underline id="underline-2">coracao-de-deus-11281.html</underline>, acesso em 01 de julho de 2013.</p>
      <p id="paragraph-13">POSSENTI, Sírio. <bold id="bold-14">Hipercorreção</bold>. Disponível em <ext-link id="external-link-3" xlink:href="http://terramagazine/">http://terramagazine.</ext-link> <underline id="underline-3">terra.com.br/blogdosirio/blog/2012/06/07/hipercorrecao/</underline>, acesso em 29 de junho de 2013.</p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-0f8e3fb2dfada6fb71d64f9ce4eac018">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-0102b901d697cfdfa639d9076af93b4a">Em Provérbios 31:26, a mulher virtuosa é descrita como aquela que <italic id="italic-539b80c5579b8b320b6751e91bd29746">“Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua”</italic>. Disponível em <ext-link id="external-link-1" xlink:href="http://www.bibliaonline.com.br/acf/">http://www.bibliaonline.com.br/acf/</ext-link> <underline id="underline-1">pv/31</underline>, acesso em 01/07/2013.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-a4bd897660851570516c1842c1137332">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-3bc8c6a5a6d8976e2c16b3f047e81418">Como exemplo é possível citar que mulheres incluem em sua fala termos referentes aos diferentes tons da mesma cor (rosa, rosa bebê, rosa choque, rosa chiclete, rosa antigo, nude etc.), e a facilidade do homem de falar com precisão sobre os diferentes dribles de futebol (drible tradicional, drible de auto passe, roleta, bicicleta, chicote, croquete etc.).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-a00c639750f83f08f658edab91843d2b">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-9ac553d148a70de18bc6d53f9c6c1ffe">O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao longo de seus dois mandatos (2003-2010) indicou e nomeou oito ministros ao Supremo Tribunal Federal. A Presidente Dilma Roussef, com mandato iniciado em 2011, nomeou, até o mês de junho de 2013, quatro ministros ao mesmo Tribunal. Esses dados estão disponíveis em <ext-link id="external-link-2967fc2f5dd5c362d560ef1da5bc7246" xlink:href="http://www.stf.jus.br/portal/ministro/">http://www.stf.jus.br/portal/ministro/</ext-link> <underline id="underline-8b8c73ebb21170b20b368d45150e3918">ministro.asp?periodo=stf&amp;tipo=quadro. A</underline>cesso em 10 de junho de 2013.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-3be34cd0d70fdccddec51e59fdb2f397">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-e11ce39cf19c9b6ff4181da35016ab27">Disponível em <ext-link id="external-link-366736dfcb53a832e2a3c186d8caefdb" xlink:href="http://www.senadorpaim.com.br/uploads/downloads/arquivos/9a3b">http://www.senadorpaim.com.br/uploads/downloads/arquivos/9a3b</ext-link> <underline id="underline-11fe6e2f928b9c3d66db63e96524daf5">748ac4a8748f47c6f645dc5d710d.pdf</underline>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-00cedc8ef4c4ad8596bc51853cefd001">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-594c078185a826fa7a98f99169e6ac25">Disponível em <ext-link id="external-link-4bbd2b006fce50ed5832d596c059ef3b" xlink:href="http://www.conjur.com.br/2011-dez-08/leia-transcricao-completa-">http://www.conjur.com.br/2011-dez-08/leia-transcricao-completa-</ext-link><underline id="underline-4f0cb6df9f35839c60f7707f855d62c0">sabatina-ministra-rosa-maria-weber</underline>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-6b03a7d2fc3d43768db2bf4a305afac3">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-7d17eb2335c6cae6035b7831e749e9d7">CF/88. Art. 101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade, <bold id="bold-23a331b50da4af6741ed3702a3d83cd9"><italic id="italic-97217a34b5b45b219ce83dbe212cb8b0">de notável saber </italic></bold><bold id="bold-c559b2629016ba2c80015820d60b3444"><italic id="italic-2b8dbb21380ce3b734503894cd99c7be">jurídico </italic></bold>e reputação ilibada (destaques não constantes do texto original).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9e2db73d1ac1550c0bc49a6b359f92d8">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-d7ce6aafc287c95b837524537b613154">Disponível em <ext-link id="external-link-fc102a374decacebcc69be8998e58dca" xlink:href="http://www.tal.univ-paris3.fr/lexico/">http://www.tal.univ-paris3.fr/lexico/.</ext-link></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-2125662dd2f1e547786d33bdbbaf65e2">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-5ed044496e19a22b469a922e1be353ae">Os cargos ocupados pelos informantes compõem a alta cúpula do Poder Judiciário. Ele, inclusive, foi nomeado, em 2012, ao cargo de Presidente do Supremo Tribunal Federal, autoridade máxima na estrutura do Judiciário, em equivalência de hierarquia com o Presidente da República, autoridade máxima do Executivo, considerando a divisão tripartite do poder no Estado brasileiro.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-3029f2b7ee8c93b5c7e363a109c585f4">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-911b3562774c5ae99bfa264e7dcdfe43">O contexto do uso de expressões de desculpas foram os seguintes: <italic id="italic-3040b368b5d9f92d267c40c96a9f072a">“perdoem-me, gosto de poesia”</italic>; <italic id="italic-9c508a9ae01142d90be916a0dea56dc1">“perdoem-me, mas realmente não teria agora condições de emitir cum muita tranquilidade uma opinião mais assertiva”</italic>; <italic id="italic-5d864d25382e7d59f3e595832e4f8101">“perdoe-me Senador se eu não consegui atender todos os questionamentos”</italic>; <italic id="italic-2d2d918afd9a90693e996145a54a83de">“perdoe Senador, ah, eu </italic><italic id="italic-f1c45e9856edce9d64b74608fccf743a">não estou encontrando aqui”</italic>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-310f3276b0ac67ba3b97773c036e7f0a">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-7bc5551e5c7d2cc5e18fe543373a8d0f">Senador Demóstenes Torres, Senador Pedro Simon, Senador Antônio Carlos Magalhães, Senador Eduardo Suplicy, Senador Tião Viana, Senadora Serys Slhessarenko, Senador Rodolpho Tourinho, Senador Juvêncio da Fonseca, Senador Sérgio Cabral, Senador Hélio Costa, Senador Antônio Carlos Valadares, Senador João Capiberibe, Senador Paulo Paim, Senador Romero Jucá e Senador Renan Calheiros.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-8c47640b4c5c87b9ead5f367ea98d76c">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-d38a3eb87bd192f027ed6eab6e3bc767">Senadora Marta Suplicy, Senador Luiz Henrique, Senador Ricardo Ferraço, Senador Marcelo Crivella, Senador Álvaro Dias, Senador Valdir Raupp, Senador Pedro Taques, Senador Demóstenes Torres, Senador Aloysio Nunes Ferreira, Senador Renan Calheiros, Senador Pedro Simon, Senadora Marinor Brito, Senador Eduardo Suplicy, Senador Antônio Carlos Valadares, Senador Aécio Neves, Senador Sérgio Petecão, Senador Inácio Arruda, Senador Vicentinho Alves.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c32c3bdb129ce210b5f94e11681ca12f">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-3a56d6259d1117730a4077f052784fb6">Observou-se na leitura das transcrições, por exemplo, que a informante mulher abordou temas relativos à família e ao casamento, o que não fez o informante homem.</p>
      </fn>
    </fn-group>
  </back>
</article>