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        <article-title>A REPRESENTAÇÃO DO TEMPO FUTURO EM TEXTOS ESCRITOS: UMA ANÁLISE DIACRÔNICA</article-title>
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            <surname>Silva</surname>
            <given-names>Rita do Carmo Polli da</given-names>
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        <institution content-type="orgname">Faculdade Internacional de Curitiba (FACINTER)</institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="31/12/2011" />
      <volume>10</volume>
      <issue>3</issue>
      <fpage>395</fpage>
      <lpage>429</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-931150b66d28323e5da49d079f5e8faf">Neste estudo apresento um estudo da variação do tempo futuro em texto escritos em português, do ponto de vista diacrônico. Foram feitas duas análises: uma em tempo real, abrangendo um período de dois séculos, e a outra em tempo real de curta duração, que abrange um período menor, 50 anos de texto escrito. Foram analisadas quatro variantes da representação do tempo futuro: futuro sintético (apresentarei amanhã); o presente do indicativo (apresento amanhã); a perífrase ir + infinitivo (vou apresentar amanhã) e a perífrase haver + de + infinitivo (hei de apresentar amanhã). Tomando como base teórica a sociolinguística quantitativa laboviana e princípios do paradigma da gramaticalização.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">The object of study of this thesis is the change in the future tense in text written in English, of diachronic perspective. Were made two analyses: a real-time, covering a period of two centuries, and other real-time short-lived, that covers a period less than 50 years of written text. Were analyzed four variants of the representation of the future tense: future synthetic (apresentarei amanhã); the present tense (apresento amanhã); the periphrasis with ‘to go’ in the present (vou apresentar amanhã) and the periphrasis with haver ‘to have’ in the future </italic>
          <italic id="italic-2">(hei de apresentar amanhã). On the basis of the quantitative </italic>
          <italic id="italic-3">Sociolinguistics laboviana </italic>
          <italic id="italic-4">theoretical and principles of Grammaticalization paradigm.<italic id="italic-5"/></italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-e9326d0d4d759280cc92f08d1b64457d">Linguistic variation</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-c93d69b334cd092f665d7426e9dee1ca">Representation of the future tense, Future (synthetic), Future (periphrastics), Representation of the future tense in comics</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-e9b6f7420e0edf0777d609381f1df9b7">Representation of the future tense in Brazilian novels</italic>
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    <sec id="heading-04543c573b17d2b06f964a363840ecd7">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-1">O trabalho aqui apresentado traz alguns resultados de minha tese de doutorado apresentada à Universidade Federal do Paraná, em agosto de 2010 e tem como base os postulados da Sociolinguística Variacionista. Buscarei a descrição de algumas representações de contextos de futuridade bem como sua produtividade em dois <italic id="italic-6e9468cc25141d22bd4591d3444b6647">corpus</italic>, ambos de língua escrita: a revista em quadrinhos Pato Donald, editada no Brasil a partir de 1950, e romances brasileiros escritos a partir do século XVIII.</p>
      <p id="paragraph-2">O escopo central desta pesquisa é descrever diacronicamente o fenômeno de variação que envolve a representação do tempo vindouro, ou seja, descrever como e com que frequência <italic id="italic-06eb315549374a766d39e9b864b173c4">haver + de + infinitivo</italic>, <italic id="italic-bc16ce47e9ab16c1a32b9ced6efbdd85">futuro sintético, presente do indicativo </italic>e <italic id="italic-8012f1830870642c869628310ba83509">ir + infinitivo </italic>representam o tempo futuro em um recorte de língua escrita. A hipótese que norteia este objetivo central é que a representação do tempo futuro, de um modo geral, está sendo feita, em textos mais recentes, pela perífrase verbal <italic id="italic-abb3ce0cd7be1a62410bfcc55fe0f5a6">ir + infinitivo</italic>, independente de a referência temporal estar localizada em um tempo próximo ou distante, ou seja, há uma mudança em curso.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-1d42d17a3882d8149e35628b2662eb92">
      <title>1. Teoria da mudança linguística</title>
      <p id="heading-d62b1a5488374af43ed7eb3a7dca18a6"> Weinrech, Labov e Herzog (2006)<xref id="xref-9f1e7a0345066c02841e2a96f6e2f283" ref-type="fn" rid="footnote-3602a9818ce7dcc4fa2f3c45319b1015">1</xref> apontam alguns princípios de grande importância para a teoria da mudança linguística. Segundo eles uma teoria que se preste a esclarecer os fenômenos das mudanças ocorridas nas línguas deve, a princípio, oferecer respostas para a questão dos fatores condicionantes, da transição, do encaixamento, da avaliação e da implementação.</p>
      <p id="paragraph-c9f528780887b02a1c47a6539744b44e">Os fatores condicionantes, linguísticos e extralinguísticos, informam quais as condições favoráveis, aquelas que propiciam as mudanças. São apontados através de pesquisas, a partir de hipóteses levantadas pelos pesquisadores interessados no estudo de cada fenômeno.</p>
      <p id="paragraph-3">O problema da transição, ou de transferência, pode ser observado entre grupos de faixas etárias diferentes. Segundo Weinrech, Labov e Herzog (2006: 122) <italic id="italic-92812d2979bdb064c673c2bdf63426f3">entre quaisquer dois estágios observados de uma mudança em </italic><italic id="italic-4f3d1d062f616285877304070bcbdf5f">progresso, normalmente se tentaria descobrir o estágio interveniente que define a trilha pela qual a estrutura A evolui para a estrutura B</italic>. Um exemplo deste caso é o fato de as pesquisas variacionistas desenvolvidas até agora indicarem que as crianças não falam o dialeto dos seus pais e sim o dos grupos de indivíduos um pouco mais velhos. O que pôde ser observado neste trabalho, nos dois <italic id="italic-c8496e8079c6abdfc0d19e470894c127">corpus, </italic>quando as tendências de uso de <italic id="italic-1dfe1a8b676654381a10e371bbc6eb44">ir + infinitivo, </italic>na representação do tempo futuro, se dá com maiores pesos relativos nas crianças.</p>
      <p id="paragraph-4">A questão do encaixamento orienta no sentido de que as mudanças devem se entrelaçar com outras que ocorrem, tanto na estrutura linguística, quanto na sociedade. Um dos objetos deste estudo, <italic id="italic-6ffe79db2f3fe94b5a7b3bd3d8025981">ir + infinitivo</italic>, apresenta etapas deste encaixamento, o que será exposto adiante. Existe também a questão do encaixamento na estrutura social, dependente de como os fatores sociais pesarão sobre o sistema de modo geral, o que fará com que a variação seja ou não estigmatizada parcial ou totalmente.</p>
      <p id="paragraph-5">No caso de <italic id="italic-6">ir + infinitivo </italic>há certa resistência social, pois o encaixamento na estrutura linguística pode levar a um problema de avaliação, que depende do conhecimento de língua e, segundo Weinrech, Labov e Herzog, o nível de consciência social é uma prioridade importante da mudança linguística. A avaliação leiga pode estigmatizar uma variante.</p>
      <p id="paragraph-c0a6f34e190d16a4af6d7630872e9165">O que pôde ser observado nas representações do tempo futuro, mais especificamente no uso do <italic id="italic-2d42121a014e58b34bcf497bea7d17e3">ir + infinitivo, </italic>quando o verbo auxiliar é o mesmo que o principal. Muitos professores de português corrigem seus alunos, geralmente as crianças e os da faixa etária da pré-adolescência, quando os ouvem dizer “Eu <italic id="italic-6cc31dadce33951194b5297beff0a095">vou ir </italic>...” A alegação é que seria “errado” utilizar duas vezes o mesmo verbo. Só que estes mesmos professores não percebem que em outras situações eles, e muitas outras pessoas, utilizam duas vezes o mesmo verbo, inclusive o verbo <italic id="italic-6b397cd6d1585c48ea038a91236f9fec">ir</italic>, como, por exemplo, quando constroem estruturas com <italic id="italic-43a52e1d26bf3fd3b61e88e41f3ec454">tenho tido </italic>ou <italic id="italic-ca8337baa64f280f629a2fdb194cd532">vou indo. </italic>A questão da avaliação trata dos efeitos da mudança sobre o uso da língua e alguns resultados desse processo podem encontrar certa resistência por um determinado período de tempo.</p>
      <p id="paragraph-fefdd364b92f11ad0b11be68ef38edc2">A última questão que uma teoria da mudança linguística deve responder é o problema da implementação, responsável por investigar o que, da sociedade, interferiu na mudança. Razões para a mudança ocorrem em certas línguas e em certas épocas e, a partir do momento que a mudança está encaixada na estrutura linguística, ela vai, inevitavelmente, passar pelo processo da avaliação que, muitas vezes, detecta variações negativas, ou seja, estigmatizadas. Estes estigmas acabam por “atrapalhar” o processo de mudança, adiando a implementação e o farão até que esta variante estigmatizada perca toda significação social negativa que possuía. Somente assim a mudança se implementa na língua.</p>
      <p id="paragraph-7839a132425bd45cb693fb3e53ae1829">No caso específico de <italic id="italic-b7fa4c21a1fc007e723b96928337c1c0">ir + infinitivo </italic>o estigma, como já explicitado, se encontra quando o verbo <italic id="italic-7">ir </italic>é o verbo auxiliar e também o principal (<italic id="italic-8">vou ir</italic>). Algumas variações se estendem por longos períodos, por gerações, até que se implementem de fato. Porém, muitas sequer chegam a este ponto, já que toda mudança linguística origina-se de uma variação, mas nem toda variação chega à mudança. A variação existente só passa a mudança quando uma variante suplanta totalmente a outra (ou outras) em todos, absolutamente todos os usos.</p>
      <p id="paragraph-22f1a8b660ac4240b15d68b02f0f2256">A partir das pesquisas Sociolinguísticas já feitas pode-se observar, entre outras, que uma possível mudança linguística:</p>
      <p id="paragraph-b945e83ff27b6d7c46845ad15da72e59">1. começa quando um fenômeno passa a se apresentar com pelo menos uma variante e essa variante apresentar características de diferenciação ordenada, ou seja, apresenta uma determinada ordenação, não é livre;</p>
      <p id="paragraph-5f8cba4efe6ad11ee411c24b3cd8f2d3">2. ocorre na gramática da comunidade de fala;</p>
      <p id="paragraph-fbf8b54939449bc88cd7f979730064b4">3. é transmitida de modo geral na comunidade;</p>
      <p id="paragraph-5befdd74dfd269fc09ed66de2d0968ad">4. tem sua explicação intimamente ligada a fatores linguísticos e sociais, ou extralinguísticos.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-46995f4c66c8be00aea0d4b1afae4ebe">
      <title>2. Gramaticalização</title>
      <p id="paragraph-6d33bbaa2ae641c827a731cba2a02959">Hopper &amp; Traugott (1993) definem o processo de gramaticalização como as alterações ocorridas sobre um item lexical (itens autônomos – uma palavra da língua, por exemplo, um substantivo, um adjetivo, um verbo...) transformando-o em um item gramatical (itens presos – elementos que ligam palavras: conjunções, preposições, artigos, alguns pronomes, afixos) no decorrer do processo, ou seja, quando uma palavra muda de <italic id="italic-4bcfb94888b48bad0c170c8733cadb23">categoria</italic>, na língua, este <italic id="italic-4c5b924bd9f7733fca4481b6d01ca46a">mudar </italic>recebe o nome de <italic id="italic-91f93e031b10ff97a73c9b445918daf8">gramaticalização</italic>, e é ocorrência comum a todas as línguas.</p>
      <p id="paragraph-ede52412f59a57e962e0b18f4afc02b4">Esse processo pode chegar a ponto de transformar uma palavra da língua em afixo, como é o caso, por exemplo, do futuro sintético em português. Sua trajetória, desde o latim, nos mostra a passagem de item lexical para gramatical, depois de item lexical para clítico e de clítico para afixo. No latim a expressão de futuro era representada por uma expressão analítica, ou seja, possuía mais de uma forma, <italic id="italic-3b6eaa45eea2e20009e7d1ac16be4a52">amare habeo, </italic>que passou para <italic id="italic-38c98311bafb3350605228c0e192b5d1">amare hei</italic>, o que nos possibilita ver o estágio de uma gramaticalização que chega a afixo, pois, de <italic id="italic-ea8e58264337904e3a5de141d19701b4">amare hei</italic>, temos, hoje, amar<italic id="italic-f6a4ab9db92b611c16fe03539c944734"><underline id="underline-1">ei</underline></italic>. O processo de gramaticalização fez com que a palavra (<italic id="italic-2fea65b36526d6c92c0d95cbee123f3c">habeo</italic>) perdesse sua identidade a tal ponto que o verbo auxiliar virou afixo (<italic id="italic-9">-ei</italic>), perdendo a classificação de palavra.</p>
      <p id="paragraph-9902183c1e5b2bf5c352de4cecd4af70">Essa mudança, segundo Hopper (1991) e Hopper e Traugott (1993/2003), acontece seguindo cinco estágios que eles dividem em:</p>
      <sec id="heading-aa8dd3329af4ba8764455cc41f6c4a32">
        <title>2.1. Estratificação</title>
        <p id="heading-752d0dff14caed1e758a3adcc59eb938">Nessa fase a forma nova, ou as formas novas, convivem com a forma antiga, com função similar, o que significa dizer que, no domínio funcional, neste caso a representação do tempo futuro, novas camadas surgem continuamente. Na análise aqui proposta as formas distintas de representação do tempo futuro ocorrem desde a primeira obra analisada. No <italic id="italic-31a1c326faff33845fdb08b92b8aa7c2">corpus </italic>1, constituído das revistas em quadrinhos Pato Donald temos o caso específico de <italic id="italic-2e9dbb73f35da9fc7b873831d953a699">haver + de + infinitivo </italic>que apresenta somente quatro ocorrências em um universo de 4.086 dados. Isso que mostra que essa forma de representação do tempo futuro está caindo em desuso em favorecimento de outras na mesma função. Quanto ao <italic id="italic-f0597358c9b38bde31a13a06a7c062da">corpus </italic>2 , os romances brasileiros, destaco que <italic id="italic-5a28722cc525fadcb6629fdb4fbfe2f1">ir + infinitivo </italic>aparece pela primeira vez no romance de 1844: <italic id="italic-b67e024b21aa4d514c860543da857593">A Moreninha</italic>, de Joaquim Manoel de Macedo, ou seja, não incide nos textos de <italic id="italic-272095a43d526873c3aadc216c92d2a6">As Aventuras de Diófones – imitando o </italic><italic id="italic-b04f0962f33245c15aa708b4841b0f24">Sapientíssimo Fenelon na sua Viagem de Telêmaco</italic>, de Dorothea Engrassia e <italic id="italic-37c018e3d7b50d097adbed97fa27fba6">O Filho do Pescador</italic>, de Teixeira e Sousa, de 1752 e 1843, respectivamente.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-117378130316f023f7004dfb1d3ef42f">
        <title>2.2. Divergência</title>
        <p id="paragraph-ef6c7e1fc66aac613097332b53d0ee13">A forma que se gramaticaliza não deixa de existir também na significação original. Isso acontece com a representação do tempo futuro <italic id="italic-0d2bb52f3b7fd2d613ec19104ec893a2">ir + infinitivo</italic>, por exemplo, pois <italic id="italic-3d3b4637850892bc3ef35b65b11e550b">ir </italic>está se gramaticalizando de verbo pleno para auxiliar em contextos de futuridade sem deixar de se apresentar como pleno posição em que ainda prevalece a noção de deslocamento espacial enquanto também se apresenta como auxiliar.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-75494d8f6528b51b94e9ad8107f308f7">
        <title>2.3. Especialização</title>
        <p id="paragraph-d6b1a673c364083453dfc46dd5772f71">No domínio funcional as formas coexistem com diferenças tênues entre si. A partir do processo de gramaticalização as variantes vão se especializando, cada uma de uma forma, e assumem pequenas diferenças, distinguindo-se das demais. Dessa forma, à medida que uma forma vai se especializando passa a tornar-se obrigatória naquela função.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-2126abf75ac00ac665687126f0cc65a3">
        <title>2.4. Persistência</title>
        <p id="paragraph-42039425f157103e0aabbd7a5070bcc4">A forma gramaticalizada mantém vestígios da forma original, de modo que esses acabam por estabelecer, muitas vezes, contextos de resistência no sentido de que o processo de gramaticalização se finalize. A forma em que o verbo <italic id="italic-d4d2756385c0e58820a2f2cd9897be3b">ir </italic>é auxiliar dele mesmo é um exemplo desse contexto de resistência, pois, nos <italic id="italic-2c4fbba94142f4afd58edb31cdeedc44">corpus </italic>da análise, não houve nenhuma ocorrência dessa construção.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-a0b85c25cf2f26b4326b497996d533ff">
        <title>2.5. Descategorização</title>
        <p id="paragraph-643d8cc86225120ba326784ee65022a3">A forma que sofre a gramaticalização acaba por perder as características da classe a que pertencia e adquire as novas, como é o caso do verbo <italic id="italic-dcde59b07926eebee2b970e9b67d648d">ir, </italic>que, na representação do tempo futuro, perde as características de verbo pleno e assume as de auxiliar.</p>
        <p id="paragraph-ebcafcd721bc3a1430e722e9398505b6">Ligado ao processo de gramaticalização está o princípio da unidirecionalidade. Esse princípio pressupõe que o processo se dá, sempre, do item menos gramatical para o mais gramatical, ou seja, esse princípio prevê que a mudança envolve sempre uma passagem de um estado anterior (A) para um posterior (B).</p>
        <p id="paragraph-c8a8717a9ca2f8da22ebf5168f65923c"><italic id="italic-48a932cdaffaa791c3003076dc751b22">Reanálise </italic>e <italic id="italic-74e53bd1cb8dfe40b4cc5a66bb93df06">analogia </italic>são os dois mecanismos do processo de gramaticalização que possibilitam entender a unidirecionalidade. A primeira altera as relações entre os constituintes sem que isso seja percebível, enquanto a segunda proporciona a existência de novas formas através de similaridades com outras já existentes. Para Hopper e Traugott (1993, 2003) e Bybee <italic id="italic-1fcd358b488b14466df47e4f03767d71">et al. </italic>(1994) esses dois mecanismos atuam igualmente no processo de gramaticalização dos verbos de movimento. Partindo desses princípios, pode-se assumir que a perífrase <italic id="italic-15e6b85e7ae205574c5baa63c1896c65">ir + infinitivo, </italic>uma das formas de representação do tempo futuro, está passando pelo processo de reanálise, pois o verbo <italic id="italic-7739a5ba0c8fa524397c57c47cb8162a">ir, </italic>para representar futuridade passa da condição de pleno para a de auxiliar.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-80049dfab22f2aa3938ddd561a9f8b9c">
      <title>3. Aspecto e modalidade</title>
      <p id="paragraph-20e1c7e51af1fdf4ce524079073a1179">Como as categorias de <italic id="italic-a6103529d576b072212c91ddc18844d5">aspecto </italic>e <italic id="italic-badba9cee0aaef28c681158948393c3a">modalidade </italic>são importantes quando se trata de estudo da representação do tempo futuro, destaco Fleischman (1982) e Coroa (1985), que discutem questões de <italic id="italic-ca7041adccc1e8a488899d064bf97532">aspecto, modo e modalidade</italic>. Segundo as autoras, <italic id="italic-ab6cea2a2b51aac66d893fbb0a222750">modo </italic>é uma categoria morfológica do verbo e tem paradigmas verbais: <italic id="italic-be5eb78a1223a96a5dcf746a3fa1324a">indicativo </italic>(que indica certeza)<italic id="italic-8d1ede1566f6be136e22df3c52c15e2b">, subjuntivo </italic>(indicativo de possibilidades, dúvidas) e <italic id="italic-a983bd7eb6759409f7707960ef961b40">imperativo </italic>(para indicar ordens), no entanto, a noção de modalidade linguística vai além, podendo ser abordada de vários pontos de vista (sintático, semântico e pragmático)<italic id="italic-72eae57170a98e549e7fab3c22e46e6a">. </italic>A <italic id="italic-8fd239ebef90b01e964861f58d7c6712">modalidade </italic>aponta para a atitude do falante em relação ao conteúdo de seu enunciado, revelando a sua disposição mental.</p>
      <p id="paragraph-12ee733b9b23f4a972834a4c0ce84305">Coroa (1985) apresenta o futuro como um pensamento que vai do possível para a certeza. O falante avalia o evento, durante a enunciação, pautando-se na necessidade, probabilidade, possibilidade ou impossibilidade da ocorrência da ação. Mesmo que haja uma certeza (subjetiva) da ocorrência do evento, sua realização se dá somente depois de cumprido o tempo de referência. Como este “vir a ser” escapa à certeza, ficando ligado ao possível, a autora associa tempo futuro com a <italic id="italic-10">modalidade.</italic></p>
      <p id="paragraph-36bbc741ae3bb9ba75a3a29b29b4ff24">Outros pesquisadores também veem uma relação estreita entre modalidade e tempo futuro. Na concepção de Câmara Jr. (1985: 55), a representação do tempo futuro está mais associada ao desejo, à dúvida, à imposição da vontade, o que a levaria a funcionar na categoria de modo, não de tempo. Da mesma forma Mateus <italic id="italic-11">et al. </italic>(1989) dedicam uma seção inteira para provar que os enunciados de futuro apresentam valores modais.</p>
      <p id="paragraph-86905614e878777edb3cfbd1b6be2b6e">Por sua vez, Koch (1986) observa que a modalização do discurso pode ser realizada por meio de diversos tipos de lexicalização: auxiliares modais (<italic id="italic-e8380bdb27c3df7009aa184f40c1209e">poder, dever, querer</italic>), advérbios de modalidade (<italic id="italic-317c67117617f0e85a81afd487baea84">provavelmente, talvez, </italic><italic id="italic-eab94d82228cee0d2c5b6c5a9a9f60cf">possivelmente</italic>), predicados cristalizados formados por adjetivos em posição predicativa (<italic id="italic-64dcb12ec5c46bd28823c71ffb1a6f12">é certo, é possível.</italic>..), orações ou proposições modalizadoras (<italic id="italic-2749eb192d21f46d06e04c459034ebe7">eu </italic><italic id="italic-25b9f5989c563945df8cc2896469d623">acredito que, eu sei que, tenho a impressão </italic><italic id="italic-f6d16a8254197853ea22668ff61a4fd4">que</italic>...) e ainda <italic id="italic-3e395bbfd7f70c5f0b67ecc98cadc165">certos modos e tempos </italic><italic id="italic-1b3f57ad54aad26943b27b06b89d40d0">verbais, entre eles o futuro (presente e pretérito).<italic id="italic-aec28ebb7a05633abb2eef05bf00e279"/></italic></p>
      <p id="paragraph-bdda111be5802b0113c433407c65e56c">A partir disso tem-se que modalidade é uma propriedade linguística que indica a intenção ou as atitudes do locutor em relação ao que está dizendo. Desta maneira, a modalidade passa também a ter inclinação para propiciar contextos de futuridade, daí Koch inserir o <italic id="italic-f3c35b0ee9d8f460f5ab58953d5b81b6">futuro sintético </italic>como um modalizador do discurso, já que ele é apenas uma intenção, um vir a ser, uma incerteza e tudo que possa ser colocado ‘no futuro’ não passa disso: uma intenção. Essa intenção pode ter muitas ou pequenas chances de ser concretizada, mas é uma intenção.</p>
      <p id="paragraph-7c63d693f6d6c8c4bc2d3b5dd139b3de">Algumas ocorrências desta pesquisa possibilitam perceber que <italic id="italic-12">contextos de futuridade </italic>mais <italic id="italic-13">agentes modalizadores </italic>funcionam como uma probabilidade dentro da outra, como em:</p>
      <p id="paragraph-6">(1) E <italic id="italic-14">provavelmente </italic>eu <italic id="italic-15">terei </italic>um aumento, <italic id="italic-16">não</italic>? (Pato Donald, n° 592, 1960, pág. 30, Donald para Tio Patinhas.)</p>
      <p id="paragraph-8">Nesse dado tem-se o advérbio de modalidade apontado por Koch, <italic id="italic-17">provavelmente</italic>, mais o tempo <italic id="italic-18">futuro do presente</italic>, apontado pela mesma autora como modalizador e ainda o advérbio <italic id="italic-19">não</italic>, que aí não está negando, mas agindo como um confirmador da probabilidade que é a questão de ele ter o aumento.</p>
      <p id="paragraph-9">Mesmo quando o falante introduz certa carga de certeza, dentro de um contexto de futuridade, é sempre possibilidade, um desejo, uma modalidade:</p>
      <p id="paragraph-79bcf07fcc3eab53609168af19554135">(2) <italic id="italic-9c478b1cbb06657772a689bdbbf54b6c">Eu sei que </italic>as <italic id="italic-e5c776e7fca00d8316870a067de87370">encontrarei </italic>em alguma parte! (Pato Donald, n° 2013, 1990, pág. 07, Donald para sobrinhos.)</p>
      <p id="paragraph-409720d909964bbc826c2a5c947e7c83">Apesar de a proposição modalizadora indicar uma atitude de certeza sobre um fato, ela não passa de uma possibilidade, um desejo, pois está inserida em um contexto de futuro.</p>
      <p id="paragraph-3c84a30363dcfa3cf263ff2fc1e296b6">Modo e modalidade são, portanto, diferentes, apesar de muitos confundirem as duas nomenclaturas, utilizando uma pela outra. Enquanto <italic id="italic-801f6edad3bdc0fa2efd96fd71de65f6">modo </italic>faz parte de um paradigma comum e está associado ao sistema flexional do verbo, a <italic id="italic-4cf1cc0ebe7366bceb0a959c80a4ac9b">modalidade</italic>, entre outras funções, liga-se ao próprio modo verbal. Segundo Lyons (1977) <italic id="italic-d3a1bcae33af891293a208ebc278fb07">modo </italic>é uma categoria gramatical, encontrada em algumas línguas e não pode ser incorporada à modalidade. Já para Palmer (1986) <italic id="italic-77fb8ee08d34b71a1cb7ce3c22934ce2">modalidade </italic>é semântico e <italic id="italic-9a7230e1a4e2dce4e8474619ab750205">modo</italic>, gramatical, enquanto para Bybee <italic id="italic-07f7c8c306525133576e518cf0c3d6b1">et al.</italic>(1994) <italic id="italic-785f298f004c15929e0ffca967b29462">modalidade </italic>é um domínio conceptual e <italic id="italic-b84ade1634aad69ed3ca34d485097e83">modo</italic>, uma expressão flexional.</p>
      <p id="paragraph-bbd1e40b86293dd56af47fce62065952">As gramáticas tradicionais apresentam dois modos para o tempo verbal futuro: <italic id="italic-21e6873655cbee809ede716cb46a7fcd">indicativo </italic>(indicador de certeza) e <italic id="italic-a507dabae80ada93a2cfa7637655d2cf">subjuntivo </italic>(indicador de possibilidade). Mas, sendo o futuro por si só uma possibilidade, como ele pode ter <italic id="italic-ba703b7345b2d0e80fc93c03b47c7ae7">modo indicativo</italic>? Partindo desse princípio muitos autores não consideram o futuro um tempo verbal e sim um modo. Entre eles, como citado acima, Mattoso Câmara (1985), Fleischman (1982) que associa a categoria temporal do futuro ao <italic id="italic-389bb32cae42dd7382f4456d697f1ac0">irrealis</italic>, ou seja, a algo relacionado às possibilidades de realização, o mesmo que defende Givón (1984 e 1993), da mesma maneira Mateus <italic id="italic-258e5a50033844e91bd4224df363a5c1">et al.</italic>(1983) e Comrie (1985) relacionam futuro a modo, não a tempo. Bybee <italic id="italic-057ec9f6d97b71dc7f1c90e7dbd57f10">et al.</italic>(1994) e Poplack &amp; Turpin (1999) também fazem parte desse grupo quando evidenciam que o futuro está associado a modo por expressar, não atitudes, mas intenções dos falantes.</p>
      <p id="paragraph-843422ee449af0c488a220d1a5a8fe2f">Essa intenção pode ser observada em dados dos <italic id="italic-f699d31e4601448a6e7a5b38ee460650">corpus </italic>aqui analisados. Parte-se do pressuposto de ser o <italic id="italic-da4796dda0ae78f3011ff19a5fef4310">futuro sintético </italic>a representação do tempo futuro a denotar maior comprometimento com o fato vindouro, inserindo, muitas vezes, nuances de promessa de conclusão, já que o modo <italic id="italic-1fd1b52b27d182b2ddbb7c07e4f988a4">indicativo </italic>é aquele que indica certeza. Os exemplos abaixo, retirados dos dois <italic id="italic-f3628879db7955dac6dedf8f578291fa">corpora</italic>, os únicos com essas condições, apresentam a expressão <italic id="italic-e3dbc69bfa91f39f199e104a5db8952a">tenho certeza </italic>+ <italic id="italic-1bc2e7924fcfc91d997b9fbb22b44ac8">futuro sintético no indicativo</italic>, que é o que expressa certeza, segundo a gramática tradicional.</p>
      <p id="paragraph-d759028d2629883556d69eda14b39ac4">(3) <italic id="italic-69fef62f02cb9d19dc0dabaa521cc9a7">Tenho certeza </italic>de que esse fazendeiro <italic id="italic-510d7e4e6464c6dc9deb37b56dfd7bb4">será </italic>gentil e me <italic id="italic-c1a2ec96253fe99c7730baf94e351947">ajudará </italic>quando souber que estou em dificuldades! (Pato Donald, n° 622, 1960, pág. 15, Donald para Huguinho, Zezinho e Luizinho.)</p>
      <p id="paragraph-e74584c737aa8a272b80b642ca69b853">(4) Se eu pegar no pé dele <italic id="italic-76a536ecb6fc8c1b666e83cf73e3a76d">tenho</italic><italic id="italic-4b0f55beee1c1f925a7d3793a146ebbc"> </italic><italic id="italic-da890c3e2cdfe9d646c2e4acc7130f51">certeza </italic>de que se <italic id="italic-4fdcfc3c41e07cc58dc5eb3e4b256356">tornará </italic>um novo pato! (Pato Donald, n° 2205, 2000, pág. 16, Margarida para Huguinho, Zezinho e Luizinho.)</p>
      <p id="paragraph-7">(5) Que pena, <italic id="italic-ec8ee50ebcec0168871e8ffbafc2a275">tenho certeza </italic>que nada <italic id="italic-6aaf08c22188da5bdc2a52a541a7216c">poderá </italic>ser mais divertido essa noite. (<italic id="italic-14a01a29b12277dce3e54f8203697d7b">Carta par alguém bem perto</italic>, Fernanda Yung, 1990, pág. 97, amigo para amiga.)</p>
      <p id="paragraph-04f3d661ca288291a64e9002c16da5da">(6) E vocês <italic id="italic-71db8beac58b379d0a18feb01bcca029">mudarão </italic>de idéia, <italic id="italic-330a5cac776f0012a07192895c2b8b48">tenho certeza</italic>. (<italic id="italic-7623957a24476e0bf00be327fefb86f6">O sertão vai virar mar</italic>, Moacir Scliar, 1960, pág. 81, uma senhora para pessoas estranhas.)</p>
      <p id="paragraph-11">O fato futuro de cada uma das situações acima foi diferente do grau de certeza do emissor do discurso no momento da fala. No exemplo (03) o fazendeiro nem os deixou falar. Em (04) o personagem não mudou de comportamento, no (05) a personagem não saiu de casa e no (06) eles não mudaram de ideia. Apesar de a gramática tradicional trazer o futuro como tempo e apresentar o <italic id="italic-a6553e5c6c4c04c561e7fd7277cf95ca">futuro sintético </italic>no indicativo como a representação de que o fato será realizado, isso não é verdade, o que reforça a tese de que o futuro é mais modo do que tempo verbal, pois não consegue representar um tempo e sim uma intenção, como se pode observar a partir das ocorrências acima.</p>
      <p id="paragraph-92c40c7a09dc2ec217267a09dfdd7b70">Segundo Coroa (2205) o <italic id="italic-e6089b19e7443555445655b5b2bea62c">aspecto </italic>se confunde com vários outros conceitos e, muitas vezes, é utilizado <italic id="italic-f6f1f8192de7183059af92c44e697ba7">para todo morfema verbal que não se </italic><italic id="italic-2c72bbe420783d1ea01a9c8a8c5c363e">enquadre em uma descrição temporal </italic>(op. cit. p. 61). A autora menciona ainda haver confusão entre noções de <italic id="italic-75042b414e93e9490ca192a6249e36b2">aspecto </italic>e <italic id="italic-840669f2b73f4b0db23633b1e26bfc7b">tempo</italic>, por outro lado Travaglia (1994: 157) parte do princípio de que o tempo futuro não indica aspecto por marcar uma situação virtual, o que enfraquece as noções aspectuais ou as anula e ainda por este tempo ter um valor modal, restringindo a expressão do aspecto. Na pesquisa em questão os números de verbos aspectuais e modais na representação do tempo futuro foram insignificantes. Em outras palavras, exceto a perífrase <italic id="italic-ac1c1712b21053bec2d36a29860182a4">ir + infinitivo</italic>, as demais tiveram pouca representatividade e, por hora, foram retiradas da análise, mesmo tendo como grupo de fatores o uso dos advérbios e locuções adverbiais, o que, segundo o autor, são recursos de expressão que oferecem noção aspectual.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-c8edc16651c4c8a64e63433463022155">
      <title>4. A constituição dos corpus</title>
      <p id="paragraph-bdc766d46a5b86f42fef5471c1563eaf">Os resultados deste trabalho foram obtidos a partir de dois <italic id="italic-bda2f605a02306165ab9d66497d27473">corpus</italic>. O primeiro, constituído por revistas em quadrinhos Pato Donald, em número de 127, editadas de 1950 a 2004, conforme Quadro 1, abaixo:</p>
      <table-wrap id="table-figure-f379bda55c56eae9a6144996a68f4bb8">
        <label>Table 1</label>
        <caption>
          <title>QUADRO 1: Número de revistas Pato Donald, por ano de publicação.</title>
          <p id="paragraph-60f83fd2fd3e1a4e157ec96ed27b667d" />
        </caption>
        <table id="table-c018e58272ca3412c5916b6d69af3030">
          <tbody>
            <tr id="table-row-f33183c1add493c99868a64d69399fb7">
              <td id="table-cell-9ddeb730a4874ec0d75f30d1df4fbca2">
                <bold id="bold-7146912c5845a7f92480354f9328d415">Ano de publicação </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-29782e0db69380c9d1895e90a8a08f2d">
                <bold id="bold-99c5f699b744f7f257d9ab061729d7c6">Periodicidade </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-6956782f6c849281144b3c9503dcfe86">
                <bold id="bold-7ccb6ddb24fad3499002e61663e1f74e">N.º de exemplares </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-2761950ceaedf3546ae7c366a9f0c2b6">
              <td id="table-cell-9d1c6f93cc217890480a973175ed3615"> Década de 50 </td>
              <td id="table-cell-4e34b79ff47560cf7c102db479ee2647"> Mensal </td>
              <td id="table-cell-a7d8b581b3a20ba1f9b47a90374bd018"> 21 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-466cebee5db28bcefadea4c60a5750bf">
              <td id="table-cell-c837060fcebaddbb1bbd0cf49951b997"> 1963 </td>
              <td id="table-cell-72a06f9b0a07f24fa7d537617279362b"> Semanal </td>
              <td id="table-cell-6797ddc65352bffc8a2448178ee19057"> 23 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-6be693e66f79be1dd013270f70f0d946">
              <td id="table-cell-ec9c24c7fc77866648fffe471474f119"> 1973 </td>
              <td id="table-cell-7a4aec8a0b2b26116fc95d6ab845041c"> Quinzenal </td>
              <td id="table-cell-f3966ce8a046987c9a8ce0c3c39eb770"> 21 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-e85568d69165f23577cbd466165b1760">
              <td id="table-cell-56cd3267b3ca0593917184137f3a2333"> 1983 </td>
              <td id="table-cell-cc16f26ad8209dbac22680ded9905d72"> Quinzenal </td>
              <td id="table-cell-0078b32882f82f1cbae892659f15c267"> 20 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-b0fe52efcfd46c48a14d9337e6d9c1f8">
              <td id="table-cell-0f5ed5d94ff206453687bb1f760d74a7"> 1993 </td>
              <td id="table-cell-a22da7c58674e0478d58fa365a791c7e"> Quinzenal </td>
              <td id="table-cell-f2eb2b71051dffd246367e98fd7a981a"> 22 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-20d00a18de7956ec6fdcaf085f8b46f8">
              <td id="table-cell-6839e907aa030161e59a9dc91ba011e8"> 2003/04 </td>
              <td id="table-cell-f4e4f557c8ea034693872823016cdda2"> Quinzenal </td>
              <td id="table-cell-e4af91015c89ab251b9dc06e0ddfaffd"> 20 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-59520e4e64f51ac68f0e6851bbcd4c61">
              <td id="table-cell-3177cb3bb6c4197eb0dc35447abfecaa">
                <bold id="bold-91dca3383fdf9197b09617f7c089ebc2">Total consultado </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-bcec2d8597c2d6a2e943f2d531d68084">
                <bold id="bold-a90cc394b2a347e6c60e157e78a2a3a6">-------------- </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-db970a42297aad834a4b371b3af62a9a">
                <bold id="bold-2db0c04ce0101042cc5b35fb6d38eadb">127 </bold>
              </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-64cc902011d31666f082207c2f4235a1">O segundo, <italic id="italic-aac8a3ff9ae00c51963bf7758ad5a846">corpus </italic>2, construído a partir de 46 romances brasileiros, de 1752 a 2000, apresentados no Quadro 2:</p>
      <table-wrap id="table-figure-963c46fe6eae1b7db6615abaaf0e6453">
        <label>Table 2</label>
        <caption>
          <title>QUADRO 2: Relação das 46 obras da literatura nacional que constituem o <italic id="italic-f0dee38dd642526aa0d3c02986c3dcb1">corpus </italic>2.</title>
          <p id="paragraph-d1baa8b9a7c123cf56cd13a9c2e18650" />
        </caption>
        <table id="table-7a34cdd32630e83b3941268490875763">
          <tbody>
            <tr id="table-row-16d05568b7759119b57e9f2622d7443e">
              <td id="table-cell-e74dfc414d8b70304996d8cf67755b47">
                <bold id="bold-7a98c15ab65987ba5f17bf93c996b6a6">Autor </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-3b5f8c67be73cccfb2c97b4beb9b38f4">
                <bold id="bold-dbc851305fede405d3fee260d1e3d03f">Nascimento /Década representada </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-2d7f84189008be44f635260f8b971fd5">
                <bold id="bold-cb159e94e2c7249eb2a73a7edb6b103d">Título das Obras </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-f5fafcf76be30e2e7f9e2527b7d6dc37">
                <bold id="bold-ada29a8a2cd7bb0e6f9ee4e426e215c2">Ano da 1ª publicação </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7609b2a48bab3ba742705fb730ee1be4">
              <td id="table-cell-27dd8e07e2710926547c34888ec12f15"> 1. Dorothea Engrassia Tavareda Dalmira </td>
              <td id="table-cell-b4ff89cb4e3bd95233b9d066848bb7b3"> 1711 / 1730 </td>
              <td id="table-cell-874b7ec99c862e2af63e39af8cdf0737"> As   aventuras de Diófones – imitando a Sapientíssimo Fenelon na sua Viagem de Telêmaco </td>
              <td id="table-cell-05a9cc09897cd7080ad3ef987b408a91"> 1752 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-e43dfd50e094491b41803a29997329d9">
              <td id="table-cell-6188fa0b03eaab689c26320dafccb37a"> 2. Teixeira e Sousa </td>
              <td id="table-cell-e837e1868f749fc8902d422b5f1b7dc6"> 1812 / 1830 </td>
              <td id="table-cell-8f3f336333eec7b343bd3d6e93b0b458"> O Filho do Pescador </td>
              <td id="table-cell-aaba276a4debfc4abcb26c2e035f80ea"> 1843 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-bf0c7de6a44c86686b33680d6169290a">
              <td id="table-cell-17680073f26a4a572a694d94a4f22f54"> 3. Joaquim Manuel de Macedo </td>
              <td id="table-cell-12a05018b47ef3fae7625f32013585ea"> 1820 / 1840 </td>
              <td id="table-cell-903bdf5c7840f653f287eb19ee9f6850"> A Moreninha A Baronesa do Amor </td>
              <td id="table-cell-48525480f542aa8acbffd5f91c838da4"> 1844 1879 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-51527f5dface83f89e4deea605494530">
              <td id="table-cell-d4cc954b4b7d82540490ff85ab91ec9b"> 4. José de Alencar </td>
              <td id="table-cell-0ede02b13397775f21fa276d13d18b1f"> 1829 / 1850 </td>
              <td id="table-cell-5eca310f1c7c5ce376ac985b619e5745"> O Guarani 6. Senhora </td>
              <td id="table-cell-8967201d263f904260a07a6e36e6b179"> 1857 1875 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-f8a8414e15a6cf78071724484b2cfa15">
              <td id="table-cell-7c7cd6682b72b2be5116a59134b82dfa"> 5. Machado de   Assis </td>
              <td id="table-cell-c9ac93eb61138c35416b3c33229793cb"> 1839 / 1860 </td>
              <td id="table-cell-79a8dd09f83d4b8ce475c795aa59450f"> Ressurreição Memorial de Aires </td>
              <td id="table-cell-544ed9849e0c3db4376235060cea6ca4"> 1872 1908 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-183e2a5448e82de60bc5f1475c6befb5">
              <td id="table-cell-c57b7ddbc2730e4347f70e2c0f1205cc"> 6. Inglês de Sousa </td>
              <td id="table-cell-7478a897a9caa8dd45c94915a3aac364"> 1851 / 1870 </td>
              <td id="table-cell-82c058235918fb3db446629aaccfae2c"> O Cacaulista O Missionário </td>
              <td id="table-cell-934fb9539bdc2524ae5408e5f5c17088"> 1876 1891 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-4b2121956c38388783e8573271a71495">
              <td id="table-cell-1160f165bbf0c1287b64885dd022e118"> 7. Aluísio de   Azevedo </td>
              <td id="table-cell-4832887d59df2db76ce298b1adb04595"> 1857 / 1880 </td>
              <td id="table-cell-3fda8e2ffe80396c046a9eca12189785"> Uma Lágrima de Mulher O Livro de uma Sogra </td>
              <td id="table-cell-98100fb87ca8f0d2f147899944a2a498"> 1880 1895 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-8d573a57193ed784f5235c6d9091254d">
              <td id="table-cell-4655f219847b954033b5a763a553b400"> 8. Adolfo Ferreira Caminha </td>
              <td id="table-cell-40d45e87b54fa99eadcc3d2baeccb0fe"> 1867 / 1890 </td>
              <td id="table-cell-4f93f743204ed1f213a1414186ba3b89"> A Normalista Tentação </td>
              <td id="table-cell-a5ad67bf411de98ed5f8cab3afb10881"> 1893 1896 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-79ef697593f254c95813d31d9970b1ac">
              <td id="table-cell-ea1ed2a926ce192baf2e1e86cfa48a8d"> 9. Lima Barreto </td>
              <td id="table-cell-b9b2761885885b1db803dc5f695d691a"> 1881 / 1900 </td>
              <td id="table-cell-e5cdfda96442592275e2353f6a7ffa54"> Recordações do Escrivão Isaias Caminha Clara dos Anjos </td>
              <td id="table-cell-4d94c96b7e8d18e5713f8809d5ee1db8"> 1909 1948 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-b5252dbb46699db27cc843e7075a110e">
              <td id="table-cell-3167cc55a012bed5200337b85ccc2ba1"> 10. Oswald de Andrade </td>
              <td id="table-cell-a7453f515c610e238929337b6b05ec4a"> 1890 / 1910 </td>
              <td id="table-cell-555e9fd1f7e7967800962f9e3eb868d3"> Memórias Sentimentais de João Miramar A Revolução Melancólica </td>
              <td id="table-cell-5652777419b3c3471f1faa010252c104"> 1924 1943 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-d2a3e8f6c76e583b5344433b9e2f5058">
              <td id="table-cell-faea4ce795a01382cbf050604861e2ca"> 11. Orígenes Lessa </td>
              <td id="table-cell-0be030095c07f1aad80d03590d7a7bd4"> 1897 / 1920 </td>
              <td id="table-cell-b7b3059b73d77db169f30f63cb5a088c"> O Feijão e o Sonho O Edifício Fantasma </td>
              <td id="table-cell-4ce3917ef497c53419240dfe74f87563"> 1938 1984 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-ad4ea1bc9123246b813d22d8143fee9e">
              <td id="table-cell-1ae487ae8ca5185151da80a9c757315d"> 12. Érico Veríssimo </td>
              <td id="table-cell-03b645dffbe251f20b698f4f6e3e8e7a"> 1905 / 1930 </td>
              <td id="table-cell-82d2f7ac67d17c55621de44eb1eaee24"> Clarissa Incidente em Antares </td>
              <td id="table-cell-4e181e2a0290084822bfe1d962054904"> 1933 1971 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-ca10e193c1a05cd948e1932bf6b20b9c">
              <td id="table-cell-4a9432c704a0af5a8db177c0668ab94b"> 13. Raquel de Queiroz </td>
              <td id="table-cell-0e3209e3b4669db0e959466a0493647a"> 1910 / 1930 </td>
              <td id="table-cell-98b650ae228f926031b7f1f04934770d"> O Quinze Memorial de Maria Moura </td>
              <td id="table-cell-4742a806b9ea2d94b2a276eea5e17bc7"> 1930 1992 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-da959e9de7e5ec9f822a3c952972ef30">
              <td id="table-cell-4ab299ff328e1ba4c3f71cc4eae34a58"> 14. Fernando Sabino </td>
              <td id="table-cell-21ef3aeb926f6eddb4ccdc97a3f07024"> 1923 / 1940 </td>
              <td id="table-cell-cc66e77bd0765656322579c93a7d6fe4"> O Encontro Marcado Os Movimentos Simulados </td>
              <td id="table-cell-9212062678d7a60d176f81afeb95a1e7"> 1956 2004 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-f370c66fbf7c067e57d9f67a4ef5d141">
              <td id="table-cell-91e9ab0b28f456a7dccd4a3df3684dcb"> 15. Ligia Fagundes Telles </td>
              <td id="table-cell-007484e6d3bfd1952a63a6394393d594"> 1923 / 1940 </td>
              <td id="table-cell-4186a3050811af02a3b5ad88e22159f8"> Ciranda de Pedra As Horas Nuas </td>
              <td id="table-cell-2292f8371a8d3e8c5bcc7b2b163ae8fb"> 1955 1989 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-0e97a0b2a9c3883498e7234410d62757">
              <td id="table-cell-75702592d83c5a825e9246497aba1a80"> 16. Carlos Heitor Cony </td>
              <td id="table-cell-f9ff656e23f3c29ff90524ae9b6f2eea"> 1926 / 1950 </td>
              <td id="table-cell-0f26d5d45a2e5c7ff54b33d3ac98fda6"> O Ventre A Tarde da sua Ausência </td>
              <td id="table-cell-7e85a5325c1d696e85cf0ce419c6dfee"> 1953 2003 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-4311ddb6c152ce00aa32b3f6c4b98788">
              <td id="table-cell-e71897289de97f598f8f9134a4e265bb"> 17. Hilda Hilst </td>
              <td id="table-cell-37ead2b1384dead2daba90b93eb0c0d9"> 1930 / 1950 </td>
              <td id="table-cell-5514339c513368b8edc1b9c9387dc17f"> Fluxo-floema Estar sendo Ter sido </td>
              <td id="table-cell-a32483d6005a45170890316f23086346"> 1970 1997 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-1179876e04455fb7e37755832530f7e7">
              <td id="table-cell-f8d58f5110c2fbc8b8d26c09a97f35d9"> 18. Moacir Scliar </td>
              <td id="table-cell-b6e24b559a6dce80d532b71cc6128849"> 1937 / 1960 </td>
              <td id="table-cell-8fad9c87a459bee5b0a81160c6deb34c"> O Exército de um homem só O sertão vai virar mar </td>
              <td id="table-cell-34bcd300297ca1e2181e3e17a0aba7dd"> 1973 2002 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-298f48183ea6b98ee88197fa78912ce9">
              <td id="table-cell-4207ddc43fe6128b1909f499fd5104b6"> 19. Ana Maria Machado </td>
              <td id="table-cell-570add0051a07bf20b088f4fc2e867e1"> 1941 / 1960 </td>
              <td id="table-cell-d3a21a408653fdbc5b47c29fe863a008"> Alice e Ulisses Palavra   de honra </td>
              <td id="table-cell-90b3798085b756f5435270d56ce86c4d"> 1983 2005 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-a1f487245838e251a291ab4ec236c7e7">
              <td id="table-cell-38639adb7fbe6c947ff5b79a68406c49"> 20. Domingos Pellegrini </td>
              <td id="table-cell-891f9a0e3ed75a72461d9c721202c544"> 1949 / 1970 </td>
              <td id="table-cell-16b32b10bb94fe0a21d16b506b3d5fe7"> Terra   Vermelha Meninos no Poder </td>
              <td id="table-cell-f8dcbef6f958526dafa0a2c9b373a5e1"> 1998 2005 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-0e89392b32567c500e260bd3000ba1f6">
              <td id="table-cell-c4ce6e4d05c81a6f944eae19c7b5be9c"> 21. Ana Miranda </td>
              <td id="table-cell-a612728a6b0e09fdeba08ca002ba14c5"> 1952 / 1970 </td>
              <td id="table-cell-c4d9643765ea4075b720d591047664e0"> Boca do Inferno Dias e Dias </td>
              <td id="table-cell-2e0c7fdb76561edd952610a4a67a7d93"> 1989 2002 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-055f8e7ff1b569db3c3b14e6ac33e032">
              <td id="table-cell-c2fdc16798120d001beddb429989d786"> 22. Marcos Bagno </td>
              <td id="table-cell-f18dabfcb1cef4f4be761ece37ea0422"> 1961 / 1980 </td>
              <td id="table-cell-b8e8543cef6d8d6a5a9911c25529be07"> A vingança do cobra O espelho dos nomes </td>
              <td id="table-cell-7032b807b3808dfe73860eaede871b4b"> 1997 2002 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7ec680a3e747033694d12f89ff966826">
              <td id="table-cell-24875339db3d9e2349df099b12ae7f5a"> 23. Márcia Kupstas </td>
              <td id="table-cell-1c1e74b318f2c0663e9ea7435d15f2bc"> 1957 / 1980 </td>
              <td id="table-cell-bd86c67245249ad85a3649291f2e9476"> Crescer   é perigoso Gurka, retrato de um jovem assassino </td>
              <td id="table-cell-a14d12e4efed5fbe77cfbc03b900a86a"> 1986 2002 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-2635c16450953eb19df4a41f26db98a2">
              <td id="table-cell-df97f111e26c3dcc9afe16c9a71de0ca"> 24. Michel Laub </td>
              <td id="table-cell-6ed7f438f4a33076ea9cbb88753c126e"> 1973 / 1990 </td>
              <td id="table-cell-b48c1cb74bfc204bcb89be81da028e4b"> Música anterior </td>
              <td id="table-cell-8412b5d635a8875f67ceff115ba1b6c7"> 2001 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-8c0e48807705d37843e3976ea5a6cdb1">
              <td id="table-cell-0ab87d569275f47538514b00813c24c6"> 25. Fernanda Young </td>
              <td id="table-cell-c1d838e8b202b20a4dd9cfe04a225c05"> 1970 / 1990 </td>
              <td id="table-cell-3a59e9c23cdf564ba69e89eadf292faf"> Carta para alguém bem perto </td>
              <td id="table-cell-b997453ff760f66fd4df447c29bbe54c"> 1998 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-39d6c31e2019b5281cdf4687cefc052c">Iniciou-se a lista com <italic id="italic-919031854e671fcaa8f3d1b213b19975">As Aventuras de Diófones – imitando a Sapientíssimo Fenelon na sua Viagem a Telêmaco</italic>, publicado em 1752 e <italic id="italic-7105a9c3d55694fe859f621216e6e7fa">O Filho do Pescador</italic>, de Teixeira e Sousa, publicado em 1843. A partir daí pegou-se um autor e duas de suas obras, por década. Esses foram relacionados partindo do pressuposto de Labov (1964), que afirma o indivíduo forma seu idioleto até os 25 anos, ou seja, é com esta idade que ele já se assenhorou completamente de sua língua materna. Desta forma, um indivíduo nascido em 1900, por exemplo, será linguisticamente adulto em torno de 1925, portanto, na década de 1920. A partir daí buscaram-se escritores não pelo reconhecimento que obtiveram no cenário nacional e / ou mundial, mas pelo ano de nascimento, o que dificultou sobremaneira a busca, pois ora não dava certo o gênero, ora a data de nascimento. Alguns escritores consagrados de nossa literatura não se encontram na relação por conta disto. Cecília Meireles ou Carlos Drummond de Andrade são exemplos. Muitos autores e obras foram pesquisados e deixados de lado por não apresentarem nenhum dado de futuro. Consequentemente, os que compõem esta lista não correspondem ao gosto pessoal da pesquisadora; eles representam um grupo heterogêneo a partir do qual se fará uma pesquisa variacionista diacrônica.</p>
      <p id="paragraph-1cc5746561ae3d526042566475117af7">Exceto a primeira obra da lista, que foi escrita por uma mulher, a literatura brasileira vai levar quase um século, a partir de <italic id="italic-25a6e851606303ce3c5b4bf549af15d8">A Moreninha</italic>, para ter seu primeiro romance escrito por uma pessoa do sexo feminino. Foi Raquel de Queiroz, em 1930, com a publicação de <italic id="italic-1cb13b9ead91619343f115541aede778">O Quinze, </italic>que inaugurou a profissão de <italic id="italic-928f93b778bb4748a146fac294f17d65">escritora </italic>no Brasil. Sendo assim, o <italic id="italic-85c23726a48e908045329fdd2f3ccac8">corpus </italic>2 apresenta romancistas (sexo masculino) representantes de cada década, até 1930; a partir daí, o <italic id="italic-04b451fb61182657eed9e17d61e49aa5">corpus </italic>passa a apresentar dois autores por período, um de cada sexo, objetivando fazer um estudo à parte para ver se há diferenças em suas produções a partir da variável extralinguística <italic id="italic-97d560ca54c19d2a56082b6fbc7d9314">sexo</italic>.</p>
      <p id="paragraph-1c9d79414b413cf9bacf80eb0c54bd66">Excetuando os dois primeiros, que não escreveram outros romances além dos que aqui se apresentam e os dois últimos listados no <italic id="italic-023ccb8f3baa0b859e1560a26545effa">corpus </italic>2, cuja totalidade de obras é bastante recente, os demais serão analisados em um estudo de variação no indivíduo, ou seja, será feito também um estudo destes autores para verificar se houve mudança individual no que se refere à representação do tempo futuro, analisando uma de suas primeiras obras, quando não a primeira, e uma das últimas, ou a derradeira, o que totaliza as 46 do quadro 2, acima.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-8fb102a70822baf4cef1debb3ae6cf83">
      <title>5. O objeto da análise</title>
      <p id="heading-1f10f2705558fac401cf54e11da6ef1e">A variável dependente desta tese divide-se em:</p>
      <p id="paragraph-08fcfd683569ecc6282519adf8b6f86d">
        <bold id="bold-5f066b8e6a6020bf4c49209ca33caea6">01. futuro sintético;</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-0d9407dc78f5690f31d189ef3df0e27b">(7) <italic id="italic-ece459deee341be803595b88b3b44296">Morrerá </italic>um dia, entupido nela. (<italic id="italic-f0d581cc2d8e54d433753aa80cf24e97">O Ventre</italic>, Carlos Heitor Cony, 1953, pág. 92, feminino adulto para masculino adulto.)</p>
      <p id="paragraph-b6115f3263a0364cd754c6a1e1f3eee9">
        <bold id="bold-020346851cb2685e73e1c8036364e1bc">02. presente do indicativo;</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-7dcb3c98c180d1704b15a9422a07bf54">(8) <italic id="italic-a893919b67bd90cc596a8c79c785decb">Trago </italic>por estes dias, tenho me esquecido. (<italic id="italic-7bbdd2e9e693c26a68a366bf7eb2e279">Clara dos Anjos</italic>, Lima Barreto,1948, pág. 29, masculino adulto para feminino adulto.)</p>
      <p id="paragraph-9f11123114e3f00497ff946c38d64ff4">
        <bold id="bold-b36a0314a537d83e8b4b16fc7935955c">03. ir + in3nitivo:</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-a0b10fd05de9763c787d148fa2357fb5">(9) Já sei o que <italic id="italic-fe76dfc26e1ae4c53cae121a432c4450">vamos fazer</italic>! (<italic id="italic-9c92d87049537e4e3c3e287492d98d9f">O Edifício Fantasma</italic>, 1984, Orígenes Lessa, pág. 67, marido para esposa.)</p>
      <p id="paragraph-cec0b7dcba4aec4837e2e22ef89aa0a7">
        <bold id="bold-4789a27445073501e7f72355142696f0">04. haver (presente) + de + in3nitivo</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-12">(10) Decerto; como <italic id="italic-8a8f9f58df565a94416832cb43e01075">hei de combatê-lo</italic>? (<italic id="italic-153afb83e04ddcdcc3b45856ea4a4a14">O Guarani</italic>, José de Alencar, 1857, pág. 58, adultos masculinos entre si.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-cc0c3c40c30518208c3647afa9e22d1a">
      <title>6. Os resultados das análises das histórias em quadrinhos</title>
      <p id="heading-63b5af59f7d24edde67d4bd0e60ec27c">Nesta análise em tempo real de curta duração foram considerados 3.754 e o que se percebeu é que <italic id="italic-1f2bdc1588bb57503ae435520a46103a">haver + de + infinitivo </italic>não é mais produtiva como variante de representação do tempo futuro, pois apresentou apenas quatro ocorrências em todo o <italic id="italic-668a78b372d00d91dbbc87c1133536cc">corpus</italic>. Possivelmente no mesmo caminho esteja o <italic id="italic-49effecb506bf1c76580904e6a97ae30">presente do indicativo, </italic>forma que apresentou baixo número de ocorrências, 92, motivo que o levou a ser retirado da análise. As rodadas que o incluíram possibilitaram vê-lo como uma variante da representação do tempo futuro que depende totalmente do contexto para expressar futuridade, tanto em futuro próximo como em distante, já que a marca de projeção é dada pelo contexto, responsável por essa informação, liberando o verbo de expressá-la.</p>
      <p id="paragraph-1dc66fb9df93e1f7589b18051fad6172">Nesse sentido os dados confirmam Oliveira (2006) quando afirma que o <italic id="italic-119ab89290f19b33c930e3e648d51a09">presente do indicativo </italic>é um tempo verbal com marca morfológica zero: sozinho ele não tem a propriedade de expressar o tempo verbal futuro, mas o faz levado pelo contexto, ou seja, ele é o responsável pela representação da ação verbal, o tempo dela, propriamente dito, fica entendido, ou subentendido pelo contexto.</p>
      <p id="paragraph-570074a11c8d426bb4bca7784a20e44c">No cômputo geral foi possível observar que esse tempo verbal tende a representar um futuro próximo, podendo, como já dito, representar qualquer projeção, como se pode verificar nos exemplos hipotéticos abaixo:</p>
      <p id="paragraph-84e3c237d12a643e5da80b81fbb322f9">(11) <italic id="italic-27cb3dee09850955e669481c2dede0f9">Amanhã leio </italic>esse livro, depois que terminar esse trabalho que faço agora.</p>
      <p id="paragraph-2d361a13e17191dd8a4097c2c4765e0c">(12) <italic id="italic-5dec7e716f17e9ef989cd5fdbd4ccd32">No ano que vem leio </italic>esse livro, depois que me formar na faculdade.</p>
      <p id="paragraph-dab60c9648eb4fb125c220ecdb71327f">(13) <italic id="italic-7c1fe8976bef48800d89db49ea76135e">Depois que me aposentar leio </italic>esse livro, só assim posso aproveitar a leitura.</p>
      <p id="paragraph-ab310db9de18bc4e467d4004dea42ba3">Dentro dos contextos que possibilitam ao <italic id="italic-abb4bd7274c6f35dc8cd5cdbee7bb85e">presente do indicativo </italic>representar o futuro, os advérbios de tempo apresentam elevada tendência de ocorrência: .840. Esse tempo também apresenta alto peso relativo com sujeitos pronominais de primeira pessoa, quer do singular ou do plural: .609 e .451, respectivamente. No <italic id="italic-305580eeebe4e4895c0fa4cef0467878">corpus </italic>1 ele ocorreu majoritariamente com verbo monossilábico que, no caso, foi o verbo <italic id="italic-01ca8e36ce535fdcfe91d0616dcfa979">ir</italic>, com as mulheres e com as crianças.</p>
      <p id="paragraph-b6019ce00c76a07509a1044f4eceafd2">As frases interrogativas favorecem largamente o <italic id="italic-28fe9cf79fafa76618cab19a36058ccd">presente do indicativo, </italic>o que corrobora Malvar (2003) que encontrou a mesma situação relacionada e esse tempo verbal. Devido ao número reduzido de dados esse tempo verbal foi retirado da análise probabilística.</p>
      <p id="paragraph-05fd2cea2b2f758e2151726d9687e63b">Traçando uma espécie de <italic id="italic-f51656a22f2794473a9c11821ad219c4">lócus de ocorrência do presente do indicativo </italic>o que foi possível observar possibilita apresentá-lo da seguinte maneira:</p>
      <p id="paragraph-94c551cb3be1a494a7597366156e94a9">
        <italic id="italic-2093f56b180cba7d17bd70fdb37b4ebb">Futuro próximo; advérbio de tempo; sujeito pronominal de primeira pessoa; verbos monossílabos; frases interrogativas; mulheres; crianças.<italic id="italic-d203111a27d919b263023569ec2e2377"/></italic>
      </p>
      <p id="paragraph-09bb450d616c24d114ef8e9da4213d0b">Também foi necessário não considerar, por hora, o total de <italic id="italic-83b43175e9e913a95d26de177d716cdd">perífrases </italic>da análise, pois a disparidade de números de ocorrências entre elas foi muito grande, o que acaba por mascarar os resultados. Houve 2.338 dados de perífrases, destas, 2.112 de <italic id="italic-e0b77d043e681e35a76e42f803ea16ef">ir + infinitivo</italic>. Sendo assim, decidiu- se por continuar com a análise apenas com duas das quatro variantes iniciais: o <italic id="italic-3f1b9eb7f5a1ed9e2077e3aca5df35e0">futuro sintético </italic>e <italic id="italic-f7e7e068342fffb4593e59a1414bb03b">ir + infinitivo</italic>.</p>
      <sec id="heading-ef68c7dd1e42c3c1c45d1c9f36d3825b">
        <title>6.1. O futuro sintético nas revistas Pato Donald</title>
        <p id="heading-437d450b8095febe5d4598097fd9d8a7">Nos textos mais antigos a representação do tempo futuro é feita preferencialmente pelo <italic id="italic-46b0f6ac6f35ddbd6ef9a9f621e379b1">futuro sintético. </italic>À medida que o tempo vai passando esta forma dá espaço a <italic id="italic-8151bd46bf4c12a4da36cc0dccc265f8">ir + infinitivo, </italic>como constatou também Oliveira (2006). Nas revistas Pato Donald o <italic id="italic-ad5d78794cfc5f5fa70b4fffb8b2e80c">futuro sintético </italic>apresentou peso relativo .78 em 1950 e fechou o período com .18, uma queda de .60 pouco mais de meio século, o que demonstra que o grupo de fatores que analisou o ano de publicação é bastante relevante, como pode ser observado no gráfico 01, abaixo:</p>
        <fig id="figure-panel-d254918e8c258cbdbb358b166635e4da">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-30d64362d5c3632617e40743bcf713bd" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-639510b69d07a8a67b5d704ad7159f65" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-95d15d50768ca0749e8ec2df81f25539">Segundo Câmara Júnior (1985) os verbos monossílabos tendem a representar o futuro na forma sintética, sendo assim, nesta pesquisa, hipotetizou-se que os verbos de extensões fonológicas menos pesadas tenderiam a ocorrer com o <italic id="italic-bc9473fd46a21b71096fa51ffbfbd275">futuro sintético</italic>, o que foi confirmado pelos dados. Em outras palavras podemos dizer que i tende a ocorrer com os verbos mais pesados fonologicamente. O exemplo abaixo evidencia bem essa situação. Nele temos um verbo monossílabo representando o tempo futuro pelo <italic id="italic-41c26bc52874ecfca562be31a1ac7271">futuro sintético </italic>e um verbo trissílabo na mesma função a partir de <italic id="italic-ff2a8f9cd87cb92fb624a60f41b1adc4">ir + infinitivo</italic>:</p>
        <p id="paragraph-874d3f8f5295ef0a173c1ff624f4e6d2">(14) E <italic id="italic-9af57402c42f973f7bf269216a233cf4">vou controlar </italic>esse poder sozinho! <italic id="italic-3b926406b37a682721a38aae93eb9cce">Terei </italic>o monopólio!</p>
        <fig id="figure-panel-963fb238b64295e1fd2fc8c646ba0a8f">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-10d5971e22e062e89a9a4f4f242ce14f" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-2c00a370fc619cd9362ff6dc2f42faf6" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="2_2.jpg" />
        </fig>
        <p id="paragraph-6b0891e0540dff9abb58555fd8b00182">O tipo de frase com maior tendência a fazer a representação do tempo futuro com o <italic id="italic-5fef598d447ea33e0fb71ef1f53ce190">futuro sintético </italic>são as negativas, o que poderia parecer estranho ao tom de promessa que ele parece inserir aos contextos, como em:</p>
        <p id="paragraph-ab63dd2621a6476d3fb518830575f2e7">(15) E essa <italic id="italic-07a9ff0fcf800c9efd8d13bbebb733bd">não </italic>me <italic id="italic-3fd3f9e174525622d2d09eb33de2cfa2">escapará</italic>, ou <italic id="italic-c8b43358dd511a2579955672b03cb373">não </italic>me <italic id="italic-e3c3893c57c37ecb4ea245fa31b0cdc8">chamarei </italic>nunca mais o lobo feroz! (Pato Donald, n° 1, 1950, pág. 26, Adulto para filho, criança.)</p>
        <p id="paragraph-6842dc63ea6a1cef167151f4d1c128d6">Essa situação corrobora Malvar (2003) e Sankoff &amp; Wagner (2005 – apud Oliveira, 2006: 71).</p>
        <p id="paragraph-8f57959e75dcfb69c38af23e7de19d06">Quanto aos sujeitos pronominais que acompanham os contextos de futuridade imaginou-se que essa forma verbal tenderia a ocorrer com sujeitos pronominais de primeiras pessoas, especialmente com pronome <italic id="italic-812b69c4a7c21dd12f7904e03e504821">nós elíptico, </italic>o que foi confirmado pelos dados. Das 373 ocorrências dessa combinação, 350 estão com o pronome não preenchido. Esse fato corrobora a tese do paralelismo das formas: formas canônicas tendem a ocorrer com formas canônicas; inovadoras, com inovadoras.</p>
        <p id="paragraph-07775bb2e749fa82331323543a39ae12">O <italic id="italic-c5d6236b324141f31100fe98c96f4e0a">futuro sintético </italic>tende a ocorrer no ambiente de trabalho de superior para subordinado e no ambiente familiar, do mais velho (pessoa adulta de maior idade) para o mais novo e nas interações dialógicas envolvendo estranhos, o que legitima Alkmim (2001).</p>
        <p id="paragraph-15f10d43f5238f047898edc75f8130c0">Um contexto que se revelou de resistência a essa forma verbal foi o das frases interrogativas. O que não é compatível com seu tom profético, pois não se faz promessa em questionamentos.</p>
        <p id="paragraph-cd92e03f1a27f8f5c2630c11404d16c1">Segundo o <italic id="italic-8ab772c9a134d21473d6dd511fa88681">corpus </italic>1 o ambiente mais propício para que o <italic id="italic-3772b5f84fb0196f4647eac920ea0ec1">futuro sintético </italic>represente o contexto de futuridade pode ser representado a partir da seguinte linha:</p>
        <p id="paragraph-5352c37bdb2e7e2a54eb17cb117656aa">
          <italic id="italic-1d34738d3a809e920c429edfcdf5543c">Textos mais antigos; tom de promessa; futuro distante; advérbios de dúvida e </italic>
          <italic id="italic-07f5d8cfa9202ec306510ca54c488b74">negação; verbos monossílabos; frases negativas; sujeito pronominal de primeira </italic>
          <italic id="italic-c6da8c20e09f8be1b8192c24130808d5">pessoa do plural canônica, elíptico; de mais velho para mais novo; de superior </italic>
          <italic id="italic-09615c1f203f1d9b691801dff7102711">para subalterno.<italic id="italic-bbea2618748b6f5524898d02a319c1dd"/></italic>
        </p>
      </sec>
      <sec id="heading-c466219bd48ad8c853e77c0d92c40809">
        <title>6.2. Ir + infinitivo nas revistas Pato Donald</title>
        <p id="heading-a2a8ab9eaa9a77537d26b894009a8a31">A variante <italic id="italic-ed83d5f639ff2df60695aaee1898d412">ir + infinitivo </italic>mostrou- se em ascendência no <italic id="italic-f85f0f37002cd8046cca0ac4187ab0cb">corpus</italic>, conforme foi possível observar no gráfico acima, e com tendências altas de ocorrer com os pronomes pessoais inovadores <italic id="italic-a4916ddd499ecd648f82580b154e62ec">você e vocês</italic>, com frases interrogativas, que é, justamente, o contexto inibidor da forma <italic id="italic-e20199f84d0cfed7b3f1b423b2a363a0">futuro sintético</italic>. Essa tendência de <italic id="italic-40d73d31589830427c094938eccdef19">ir + infinitivo </italic>ocorrer mais com as segundas pessoas verbais consideradas inovadoras revela um paralelismo de formas inovadoras, como se elas se atraíssem mutuamente.</p>
        <p id="paragraph-625b9034441bebf4f398bcebf4bac3f4">Segundo a gramática tradicional a perífrase <italic id="italic-fe137f9cd5777663acbabd85afb7490a">ir + infinitivo, </italic>quando indicadora de tempo futuro, é empregada apenas para referir-se a um futuro próximo, o que foi confirmado no <italic id="italic-db7a3994727b18ca3df419d2feaf7b28">corpus </italic>1, mas a tendência existente ainda é bastante pequena. Essa forma verbal, nessa análise, se apresenta como a variante que está assumindo a função de representação do tempo futuro. Traçando uma linha de ambiente propício ao uso de <italic id="italic-2433ce42e6bcdc943d49bc68a06bf47e">ir <italic id="italic-be58adfcd57cdef5b49a4657e050177e"/></italic><italic id="italic-5c266b7ad1f3f47914b21133b9be8bea">+ infinitivo </italic>teríamos:</p>
        <p id="paragraph-1f3da2a05e0e9407c7f5710b3cc0cd5a">
          <italic id="italic-bf536d027f323089d608fc67c777e2f2">futuro próximo; verbos</italic>
          <italic id="italic-c0d6170eeb7eed35a8ebb221b40ea2a1" />
          <italic id="italic-210cc853826a7a12c1d51213a387dadb">tri</italic>
          <italic id="italic-40be566689e8a6bf8be2c941842e23b1" />
          <italic id="italic-6355dc404ba826b51b16e851b1d1227e">e</italic>
          <italic id="italic-d0856080fc50382430007fe46d442f77" />
          <italic id="italic-69efb7183159be2f6c6917d6b6ff6e9f">polissílabos;</italic>
          <italic id="italic-e768e139ed474f8c8302dfeb44469001" />
          <italic id="italic-f87492d4cdd7c622034f2f0dcd9e1da4">frases</italic>
          <italic id="italic-997801487e5e10189c0c69b869308eff" />
          <italic id="italic-bc56049d0624a8b7066547120403245e">interrogativas;</italic>
          <italic id="italic-0a5f6fb9d752da4a8f2372e8b874c68b" />
          <italic id="italic-e8fa2594ddd98a8be00224c3f9897f4b">advérbios de intensidade e negação; sujeito pronominal de segunda pessoa do plural inovadora, preenchido; entre iguais, ambiente doméstico ou profissional.<italic id="italic-97a75aaab0579ab62eabee8b74009f2e"/></italic>
        </p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-56990a879edd4e3d9fadbb93e0238164">
      <title>7. Resultados da análise dos romances brasileiros</title>
      <p id="heading-e5880cc7a197a01f52d6c98bdf1367d2">A partir dos romances brasileiros, se observa que os advérbios de <italic id="italic-00d81a4320beb358f841e0fd5bc4b0de">modo, lugar, dúvida </italic>e <italic id="italic-d2402aeaeec79246009a93abb598bc59">afirmação </italic>não se mostraram relevantes, bem como os pronome <italic id="italic-b1c2d50df023c3a032f0c2ddcc5e1973">vós, a gente </italic>e <italic id="italic-de6eab123bd587b99c642eb147b15140">vocês</italic>, que não ocorreram em todas as obras, com apenas 24, 22 e 28 ocorrências, respectivamente, em todo o <italic id="italic-06d01558fc4b2440ce1adf8fb7a533a8">corpus</italic>.</p>
      <p id="paragraph-ff798a17e863c5793f32ecae01811660">No cômputo geral, em porcentagem, o <italic id="italic-091ed10b5ef54e20c7e3f53e50ad3294">futuro sintético </italic>e as <italic id="italic-f9b2662d3a3874068a6d6981f50f9a2f">perífrases </italic>estão em igualdade de produtividade neste <italic id="italic-8c46ab52c8682e25ca846657192d02b2">corpus</italic>, enquanto o <italic id="italic-36e10e2b9d4eaa0cbd701c90218013ca">presente do </italic><italic id="italic-718c9834f3fd04dc412e0379f87542d9">indicativo </italic>e <italic id="italic-da300300f9460c612a946466d82c4268">haver + de + infinitivo </italic>perfazem apenas 10 e 6%, respectivamente, do total dos dados, conforme tabela abaixo:</p>
      <table-wrap id="table-figure-42e96085b1ba3bc03adf7eed7fa32dfe">
        <label>Table 3</label>
        <caption>
          <title>TABELA 1: Formas de futuro do <italic id="italic-f01d854ef31f072962c8376fc9f88cd6">corpus </italic>2 – romances brasileiros</title>
          <p id="paragraph-ec659689aa6bd861dde983d057310d30" />
        </caption>
        <table id="table-eb06077ebb9922edb4458bef2a144d48">
          <tbody>
            <tr id="table-row-ea5e6b578246afda03c5644510d6acdc">
              <td id="table-cell-0d7d0906a145748d3246fb663e1ee030">
                <bold id="bold-4e79db12277284f9c8b7c166887d0852">Formas de futuro </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-7b4dfba0194e48f48fb1c016d7a90aed">
                <bold id="bold-0142f66f4357b911ee9fb5c16b0b0390">Ocorrências </bold>
              </td>
              <td id="table-cell-41d97dbb320b97321455f8119b8a3320">
                <bold id="bold-23442b05c1f930f752aa230b4d7fa1d5">% </bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-bb767b5898db75ca0de134d67fbac12c">
              <td id="table-cell-ddc846e0040622dbbeea446647a3ebe8"> Futuro sintético </td>
              <td id="table-cell-13144465e563998ffb0ff4b1f416c5a9"> 1045 </td>
              <td id="table-cell-b6f2987d4c4a72d4bd226b71ed3d669a"> 42 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-ca9fc14be71e5ea50443592c7aab45c5">
              <td id="table-cell-0c42313387b099df1df56f0b09308364"> Presente do indicativo </td>
              <td id="table-cell-9de169131ea1422fce9bd8b869d50d22"> 255 </td>
              <td id="table-cell-eb01647015956b231126c4a30f242bac"> 10 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-ffb196aa9c17b964f3e6151145e90ce9">
              <td id="table-cell-f027cc66701c98c05613c90a267c713f"> Perífrases </td>
              <td id="table-cell-f10fe180f128f0118ef293d5d1fcccdc"> 1068 </td>
              <td id="table-cell-be254486bbb15c199ac6335e24bdf823"> 42 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-d2f87b6cbf2bc3cad19c35034b0f14cf">
              <td id="table-cell-b3472ae36d23d2e60a1ccec185d3867e"> Haver + de </td>
              <td id="table-cell-d116e645180596586e30eaa0424edd2d"> 162 </td>
              <td id="table-cell-b6cbf5c4ba245d54ab08ea849ce66dc4"> 6 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-3497460496fe99be7e1ca75256ec90e8">
              <td id="table-cell-1cf7c384eae6c1813778f1ebc757b9f8"> Totais </td>
              <td id="table-cell-9d68411a38161d8c0c087a78ea926670"> 2.530 </td>
              <td id="table-cell-51096b304ce21f929eb27daeaa10acb0"> 100 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-7df69381b545fcacf37e3279f60d6a68">A variante <italic id="italic-1d178f918208833c1b1bad499c2480ee">haver + de + infinitivo </italic>apresentou 66% de suas ocorrências no século XIX e 34% no século XX, representando uma grande queda no uso dessa forma de representação do tempo futuro, que ficou restrita a contextos onde se pretende inserir, ao conteúdo da fala, um tom próximo ao de uma profecia, mais comprometedor do que simplesmente uma promessa. O <italic id="italic-182c0e47a849d489887d428e0e287fc0">presente do indicativo</italic>, por sua vez, apresenta 23% de suas 255 ocorrências no século XIX e 77% no XX, o que demonstra o oposto. Mas, mesmo assim, neste <italic id="italic-e010825993f184b41dfecb66edd6c3ef">corpus</italic>, ainda em número reduzido,</p>
      <p id="paragraph-0f95e50f370d46ebd0a869ebce1cb3e0">o que impossibilitou sua análise com as demais formas. Devido a esse reduzido número de ocorrências essas duas variantes acabaram por gerar desvios nos resultados, além de serem as responsáveis diretas por muitos dos nocautes apresentados nas rodadas iniciais, o que fez com que ambas também fossem retiradas da análise probabilística.</p>
      <p id="paragraph-2db601934a263d0e96383adcb0daafcd">Além da retirada dessas duas formas acima a variante <italic id="italic-c75ec189c4257a21eb5aad8a4fe050b8">perífrases</italic>, a exemplo do <italic id="italic-74469956ac8e5dd1a79cc666c91733ec">corpus </italic>anterior, sofreu um refinamento resultando na variante <italic id="italic-8ed2ea44017b8d0b50c2350e2455da27">ir + infinitivo</italic>, que apresentou 950 ocorrências em um universo de 1045 dados. O <italic id="italic-38fcbd98b9facc22b83ece2e616e22e5">corpus </italic>2, constituído dos romances brasileiros, portanto, também se faz representar por uma combinação binária: <italic id="italic-42c264bf7c5baa68047ebca99e7739a5">futuro sintético </italic>e <italic id="italic-203a20b72675c9d8ff50120103c454d4">ir + infinitivo</italic>. Ambas, inclusive, apresentaram o mesmo percentual de ocorrências no <italic id="italic-f8670595d7fc05e3262d99914b9e13fb">corpus</italic>, mas pesos relativos distintos.</p>
      <sec id="heading-1367e3968ea2784ca7b28190755ec30e">
        <title>7.1. O futuro sintético nos romances analisados</title>
        <p id="heading-79cc27878875e7dadc4d31c2e21b2272">O <italic id="italic-6a64a9854f01bc62da5c1f0eb5fba966">futuro sintético </italic>também aqui mantém a conotação de maior compromisso com relação ao contexto de futuridade. Quando se quer encerrar qualquer possibilidade de dúvida, dentro das possibilidades do fato futuro, a tendência é de representá-lo a partir do <italic id="italic-c020c081b3e5546e84d3d753f7c272b2">futuro sintético</italic>. Seu peso relativo na obra representativa da década de 1840, <italic id="italic-7ce1c78d1ed74565525cd1c2222e063e">A Moreninha, </italic>de Joaquim Manuel de Macedo, é de .74 e .16 na de 1990, <italic id="italic-9ebd24b94b1b2b2522beb20a18548bec">Carta para Alguém </italic><italic id="italic-f4fc466798afd562c344654f16fcc34b">bem perto, </italic>de Fernanda Yung, o que representa uma queda bastante significativa de uso.</p>
        <p id="paragraph-6e0388eb76b1e03884d3a61776295bc1">O comportamento do <italic id="italic-af1d6c9a39e44a181b0c752508ee0a0a">futuro sintético </italic>nos grupos de fatores da análise permite verificar que ele tende a incidir quando o tempo futuro se localiza em projeção distante e acontece mais onde a intenção é a de atribuir um tom de promessa ao fato futuro, como é possível observar abaixo:</p>
        <p id="paragraph-600e1bfaaa1095cef7a7d11bb0f9b09a">(16) Há tempo para tudo, disse Félix, e o senhor ainda está moço. <italic id="italic-b2a6db1c382fead26a59b64881e69f9f">Iremos </italic>juntos <italic id="italic-ddb6ff0c6959b34ab802ddbd064dfec1">daqui a um ano</italic>. (<italic id="italic-4772e294d38eea1de95308458982a3df">Ressurreição</italic>, Machado de Assis, 1860, pág. 25, mais velho para mais novo.)</p>
        <p id="paragraph-74631f93c9a177b2da328ab539894209">(17) Se ainda não fez, <italic id="italic-a27abb1054a2bd1aafc1c04d06a98a1a">um dia fará </italic>ou vai fazer ou fazerá. (<italic id="italic-1830ee9831bb5b94632fe67add4bd978">O Espelho </italic><italic id="italic-3c7ddb23541e5646e9050e71f6fc9b05">dos Nomes, </italic>Marcos Bagno, 1980)</p>
        <p id="paragraph-d688a21c228b43d8e9c16911a3ef22a6">Esse tempo verbal ocorre ainda, preferencialmente, com o pronome de segunda pessoa do singular: <italic id="italic-e78992529a2006298ce697764639e423">tu</italic>. Ou seja, a forma canônica de representar o futuro ocorre mais com o pronome canônico, pois a segunda pessoa <italic id="italic-eaa49f975478d54ba928cbc583db3cee">tu </italic>é a forma que a gramática tradicional apresenta na segunda pessoa do singular:</p>
        <p id="paragraph-99da58434a41d61a34e068a78d08ea0b">(18) E <italic id="italic-59ce21ca01dd6a19759d2724c950aeb4">tu</italic>, Augusto, <italic id="italic-1ce8c030b928dfda5209bddbe933ddbe">quererás </italic>porventura requestar minha irmã?... (<italic id="italic-cc35058c7fbd21cc7fe046590d989e1e">A </italic><italic id="italic-8861ea40ee00a70aaa244811f59c9711">Moreninha, </italic>1840, Joaquim Manuel de Macedo, pág. 4, conversa entre amigos.)</p>
        <p id="paragraph-c11345ae5e552d46cc9804b5c126b801">(19) Querendo servir-me, <italic id="italic-6896309da780bd84e513361bc51b9d42">acabarás </italic>desservindo-me, porque se acontecer que eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem depois da missa de sétimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio cuidados de amor. (<italic id="italic-f2ca989a99b5d3849064fcae365434c1">Memorial de Aires, </italic>1860, Machado de Assis, pág. 19, adulto masculino para igual.)</p>
        <p id="paragraph-d07dd57e7bb27248995749705ddd924c">Os dados apontam ainda que homens adultos fazem mais uso dessa forma verbal do que as crianças:</p>
        <p id="paragraph-ff7de9be665333b0bd9c3283eb5beaa6">(20) É sexta-feira, na segunda você <italic id="italic-5461cd15988217a48124f9b64f8d67db">chegará </italic>à escola e <italic id="italic-91a2dad4e871035ed3a3af5917953275">será </italic>a mesma coisa de novo: Jaime é que <italic id="italic-16220448c661a0bf12a709ae2d4514f5">terá </italic>novidades para contar. Ele é que <italic id="italic-46df1414cb0140f3abbc7f1b2f9e2ab6">fará </italic>o relato da festa. (<italic id="italic-20">Música Anterior, </italic>1990, Michel Laub, pág. 51, adulto para mais novo.)</p>
        <p id="paragraph-a0fd79b87e6182d947263b8b9d97d2ad">Outro terreno fértil para a representação do tempo futuro pela forma <italic id="italic-623d7ef6b28cc39a5e10fced2d52bc12">sintética </italic>é o advérbio o de <italic id="italic-936aef1914d8823d0c629c9ff726e1b6">afirmação</italic>, seguido pelo de <italic id="italic-e516ceaebee5c22dc583e1c9bf87db37">tempo</italic>, bem como a presença de verbos monossilábicos, que são verbos menos pesados fonologicamente e, por isso, não se sobrecarregam com a flexão do <italic id="italic-b100eeec20e395e3f5bc3a676ce12a14">futuro sintético</italic>:</p>
        <p id="paragraph-628961ae14484c05012b7097dcc6c448">(21) Eu o <italic id="italic-a2ffccc37acf3af1e9b54472086437e5">darei </italic>com o maior prazer. (<italic id="italic-009484653b3c3191e3619caa6f6aa4e5">Senhora</italic>, José de Alencar, 1850)</p>
        <p id="paragraph-ae1cf6322b99a5e0f561b755e3f35d4a">A utilização do <italic id="italic-bf648e703e03a65ba44f0c8f4894b139">futuro sintético</italic>, que acontece prioritariamente com verbos menos pesados fonologicamente, ocorre com verbos polissilábicos para acrescentar ao contexto um tom profético, de promessa velada, como na sequência abaixo, onde a personagem repete a estrutura mudando a forma de representação do tempo futuro. Na primeira vez faz uso da <italic id="italic-5cfa23a1ab5fc69a6e522e4d53bd7bc4">perífrase </italic>e, para atribuir à fala um tom mais promissor, lança mão do <italic id="italic-62a670676fdd657978649a8b852242cd">futuro sintético</italic>:</p>
        <p id="paragraph-b337d876acbe3db229e97571e8f64cf3">(22) Alguma coisa estranha <italic id="italic-799c8040413b7c88a66b13dd24cbb6cb">vai acontecer</italic>. (<italic id="italic-9ead82900f83868e77ffdfd807c59fd6">Fluxo – Floema, </italic>Hilda Hilst, 1950, pág.99, conversa entre adultos.)</p>
        <p id="paragraph-8428588cd331fbe172c6f8370e94ba35">(23) Alguma coisa <italic id="italic-6faa5ef86e2ba3ea15cbbfe8596f26f1">acontecerá </italic>aos humanos. (<italic id="italic-7dc8c23408df203943228feb4744ea3d">Fluxo – Floema, </italic>Hilda Hilst, pág. 107, 1950, conversa entre adultos.)</p>
        <p id="paragraph-ada9d412cba7640d3d29a661c4682570">A intenção do personagem nessa segunda ocorrência é de proferir uma frase mais forte do que a proferida anteriormente. Para que a intenção fosse externada e entendida a mesma frase foi proferida fazendo uso do <italic id="italic-5ab1ddc5db4a18c51f933d818702e299">futuro sintético </italic>onde antes havia sido usada <italic id="italic-e86da8585f81c91864df73a4f32814da">ir + infinitivo</italic>.</p>
        <p id="paragraph-13">Nas interações consideradas menos informais, mesmo em ambiente doméstico, como em interações dialógicas envolvendo pessoas mais velhas ou estranhas, o <italic id="italic-623e9d5656a456440e6f96f294892e6e">futuro sintético </italic>tende a ser mais utilizado. O <italic id="italic-0d6048bd379f5d30f6a498601dda3bd4">corpus </italic>2 também demonstrou que essa é a variante mais utilizada, nesse ambiente, em situações de monólogos.</p>
        <p id="paragraph-ab62b29842dc393acba707759bd32f67">Muito utilizado nos romances da fase inicial da análise, ele apresenta queda vertiginosa até o final, deixando espaço livre para <italic id="italic-7963319a99af1da1e9abe5a4da0084c3">ir + infinitivo. </italic>Separadamente os pesos relativos do <italic id="italic-1fdcd6d2b954f4292d7a307911f8cbfa">futuro sintético </italic>e de <italic id="italic-caf0afd20c0636cd28e42c706d84ac4c">ir + infinitivo </italic>nas primeiras e nas últimas obras de cada autor que compõe a análise nos proporcionam gráficos como os dois abaixo:</p>
        <fig id="figure-panel-cfb111ba5997bfee9d4a022fe01be4b3">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-70454553f4a33aaed11b4a2130c3a01a" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-80bfc78861a0638499b4eec7070a7c8e" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="3_2.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-c98bd7df5ca4178f478cc06991066de0">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-e7ef01804596732ed4d5463e79610f26" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-d0766b992efdec91bc705b5019dd066d" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="4_2.jpg" />
        </fig>
        <p id="paragraph-b3b2224de4f3917151ead5b594a59985">Traçando uma linha de utilização, a partir das ocorrências desses <italic id="italic-d3c5c156bc7c17234d4c34d853de08c7">corpus </italic>obtém-se, para o <italic id="italic-7ee93e22be69463706e1cb23a01eb66f">futuro sintético</italic>:</p>
        <p id="paragraph-25a1b451c1087be7cd5b0acd6375a0ef">
          <italic id="italic-2ba9f5ff2b300a9b74ddaf68aa27a5be">textos mais antigos; relacionado a promessas; projeção distante; pronomes pessoais canônicos: tu e nós; advérbio de afirmação; verbos monossilábicos; adultos; em interações envolvendo pessoas mais velhas, com estranhos e em </italic>
          <italic id="italic-4c0408a3a1ed09eadf89740a9f4aa7ba">monólogos.<italic id="italic-8a17b1aea21b3e94b32995270af42abd"/></italic>
        </p>
      </sec>
      <sec id="heading-610b2527f3c0650b5f5f73541b1577f8">
        <title>7.2. Ir + infinitivo nos romances analisados</title>
        <p id="heading-af3ee359e6553c5cf2aa1e22a5fe3b26">A forma verbal de maior produtividade em pesos relativos no <italic id="italic-30564d209a47bf2479633b1ac129e458">corpus </italic>2, <italic id="italic-b5eb523f71139013ecc3b2e36dfaa1ed">ir + infinitivo</italic>, é atraída pelos advérbios <italic id="italic-f27103aa08245f36c8c8ec349995a121">interrogativos</italic>. Bem como apresenta tendências de uso com quase todas as extensões fonológicas do verbo principal, excetuando apenas os monossilábicos. Salientando que o monossílabo de maior produtividade da amostra é justamente o verbo <italic id="italic-139fa61d9bf745bc211aeb12c68cfcae">ir</italic>. Esse, portanto, se apresenta como o contexto que mais inibe <italic id="italic-1d0355c54abb10cd40468eb67f76cf1f">ir<italic id="italic-632d0da3d05450ef1092b53936d4da08"/></italic></p>
        <p id="paragraph-80b21190495b25cf92c39c61ffc3d566"><italic id="italic-fb4b6f6987eea17e687598390fb93539">+ infinitivo</italic>, pois a construção onde o mesmo verbo ocupa a posição de auxiliar e de principal, resultando em <italic id="italic-0fadafab4fe2e75a88632e922ed0a369">vou ir</italic>, ainda é muito estigmatizada socialmente. Banida por muitos profissionais da área da língua portuguesa com a explicação de que não é correto fazer o uso do mesmo verbo duas vezes, um ao lado da outro, como se não utilizassem, entre outras, as perífrases <italic id="italic-8391db59a1eab3fa3dea659f20c44654">tenho tido </italic>ou ainda a mesma construção perifrástica com o verbo <italic id="italic-37ff02fd6c14d04d5ffbcaa696f094f6">ir </italic>sendo auxiliar dele mesmo como em <italic id="italic-9578c9c937d1a5341fd9fd1549a13593">vou indo</italic>, mais antigo na língua e, consequentemente, possivelmente menos agressivo auditivamente.</p>
        <p id="paragraph-e3261220b4c2c7e8d0bfd796e8fd741c">Essa forma verbal é utilizada pelos indivíduos mais jovens para interagir com mais velhos, no ambiente doméstico. No cômputo geral, nesse <italic id="italic-2dc625ca4a36874ee06263368f91bcda">corpus</italic>, essa forma verbal está presente desde o primeiro período de análise, apresentando crescimento em todo o <italic id="italic-e30053ca9f56db3d23ac70cd07d99b7c">corpus</italic>, em especial no século XX. Apesar de apresentar leve queda na produtividade no final da amostra, não perde a alta tendência de passar a marcar esse tempo verbal com prioridade, principalmente a partir da seguinte linha:</p>
        <p id="paragraph-e664115904762e50f670d6a52a2a7d35">
          <italic id="italic-998f854c4cf1556a44b46d7b9449e886">textos mais recentes; projeção próxima; advérbios interrogativos; pronomes </italic>
          <italic id="italic-83a3fda2360fdcd975e44d1c026c9ae1">pessoais eu, você e vocês; interações entre iguais no ambiente doméstico; crianças.<italic id="italic-d559afcb94d5b611ae9305381413b5cf"/></italic>
        </p>
      </sec>
      <sec id="heading-9ea08d73bc6d30faa8ae2e7201370321">
        <title>7.3. Conclusões das análises nas variações dos indivíduos, a partir de 1930</title>
        <p id="heading-02724e144b7c1694974b5e6d5244fa66">O <italic id="italic-e2b397c96b42ba136c808fa6c74203b3">corpus </italic>2 possibilitou fazer uma comparação entre autores e autoras de romances brasileiros, do Modernismo para cá. Para este estudo foram utilizadas as quatro variantes iniciais e a tabulação dos pesos relativos dos autores foi feita a partir do grupo de fatores <italic id="italic-beea8cbcdc0e3ef71f3de98c99850d01">sexo</italic>. Colocados os resultados em gráfico o que se vê são dois traçados muito semelhantes, um quase sobreposto ao outro, diferenciando-se no uso do <italic id="italic-8855308a831a0621cfe148d0a93f02a7">futuro sintético, </italic>nos autores. Este traçado praticamente paralelo mostra que a variante <italic id="italic-36d3d662cf61bbba02a4436ba5344dca">sexo do autor do texto</italic>, tal como a variante <italic id="italic-7860be8fc9cb39a440abddf34647c93c">sexo do informante</italic>, não apresenta grande relevância, haja vista que as evoluções de uso das variáveis se dão praticamente da mesma forma nos dois grupos. Fato que revela não serem, esses grupos de fatores, determinantes para a mudança:O estudo de variação a partir do <italic id="italic-3e010cd3de869209d3b9a67565ce6bba">sexo </italic>revelou que as mulheres tendem levemente a fazer mais uso de contextos de futuridade do que os homens. Para três das quatro formas verbais (<italic id="italic-c9930d9f681814141d204071c679fddb">haver + de + infinitivo</italic>, <italic id="italic-3588fc1ec2fc728300e559b22e60d618">presente do indicativo </italic>e <italic id="italic-bd5b0e0141038eba7c99c3ad09c57efe">ir + infinitivo</italic>) os pesos relativos foram mais altos com elas do que com eles. Ao traçar uma linha de tendência sobre os pesos relativos observam-se duas linhas levemente afastadas, que se aproximam a partir do uso do <italic id="italic-aa7f66c86ca4244ea86febb0a39640de">futuro sintético </italic>em direção ao <italic id="italic-f4ff1f1706f9e93b5e5031047c02ed1d">presente do indicativo </italic>e voltam a se distanciar na direção de <italic id="italic-c9d0d0f30bdd16126cf8f6f3a0629085">ir + infinitivo. </italic>Forma que se revela inovadora, a que mais tendência apresenta de continuar marcando a representação de tempo futuro nesse <italic id="italic-35d84a3b1df993d41a53c4980c1c5a7d">corpus</italic>. As linhas de tendência, inclusive, possibilitam visualizar que o <italic id="italic-79a27cdb7ba6038f8f7650a33b205d82">futuro sintético</italic>, em ambos os casos, tem suas tendências diminuídas enquanto o <italic id="italic-1e1205dcc21a00d6d6c4f79acff43cbb">presente do indicativo </italic>as apresenta em ascensão, em direção a variante com maiores tendências de representação do tempo futuro: <italic id="italic-bf885e1da183fa39ebf02280ee3e26b6">ir + infinitivo</italic>. As linhas permitem ver que a mudança de aplicação da regra de representação do tempo futuro que era majoritariamente representada pelo <italic id="italic-027c12830426534316e216fa3f0ce253">futuro sintético </italic>passa pelo <italic id="italic-6a2e336d8e6dcbf4ec21c884d36d7703">presente do indicativo </italic>e hoje se apresenta majoritariamente por <italic id="italic-1254e37d10bf27e2a79aac18ff9abf76">ir + infinitivo</italic>.</p>
        <fig id="figure-panel-301d92a0a7904eb357f68c45872fb8b3">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-eb2f31d8e5411a15607c25d08125e1b1" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-c9a99b2ef02b593fdb6beca2c18aae3f" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="5_2.jpg" />
        </fig>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-4e0071602b038387933ffb1e29b80fa0">
      <title>Considerações finais</title>
      <p id="heading-d321cfc3360daa2dc2e31237c8a818ff">Era objetivo desta análise verificar a frequência do emprego dos verbos modalizadores e aspectuais nas construções perifrásticas com contextos de futuridade; porém, o que o estudo mostrou, a partir dos <italic id="italic-b7607975cddd1dafaa114c22edeb436c">corpus </italic>aqui definidos e explorados, foi uma baixa frequência de dados. Na Revista Pato Donald, só 202 ocorrências, em um universo de 4.082 e, nos romances brasileiros, apenas 95 em 2.530 ocorrências, o que perfaz, em ambos os <italic id="italic-bd6527b368f759beb4e325b4e6fa8bcd">corpus </italic>5% do total, número pouco representativo e pouco oportunizador de análises sobre o comportamento dessas perífrases, neste estudo.</p>
      <p id="paragraph-6e5d479a16b217b9383d6c38c9bccd6e">Nesta análise, foi possível visualizar uma grande concorrência entre as formas de representar o futuro, mas o que se tem, realmente, é um quadro quase definido de produtividade na marcação desse tempo verbal pela perífrase <italic id="italic-27f5e25fb78b630f860f4bd68489962f">ir + infinitivo</italic>.</p>
      <p id="paragraph-35a8218e90ce6aa23a455005c8436656">A partir dos objetivos traçados para esta análise concluiu-se que as quatro formas verbais aqui analisadas apresentam comportamentos bastante distintos entre si: cada uma agindo em uma determinada situação, em um determinado contexto. Mas, na comparação entre os 6.616 dados encontrados, pode-se perceber uma similaridade nos resultados, apesar da heterogeneidade da origem das ocorrências, já que os dois <italic id="italic-0917b8f322902c7dbc9e144b10574f8d">corpus </italic>têm origens, criações e públicos bastante distintos, bem como aceitabilidades diferenciadas da parte do leitor.</p>
      <p id="paragraph-8f2e7d05566b02958f6684eefce553c1">Os dois <italic id="italic-33c0280dbba999b0a1e86e276045c208">corpus </italic>apresentaram poucos dados da variante <italic id="italic-454ec3363269c7509a7f7c4da9534c7b">haver + de + </italic><italic id="italic-f80452dc50e25dd425470f9e458ce569">infinitivo </italic>e também do <italic id="italic-8c81121dea11dad152d54f8f7d03e9e6">presente do indicativo</italic>; o que, em ambas as situações, obrigou que se continuasse a análise com apenas duas das quatro variantes da variável dependente com que se iniciou esse estudo. O que se percebe, então, é que, não obstante o <italic id="italic-fb8802a64e182602192b1aa51bca0da4">corpus</italic>, há marcas de um processo de mudança em curso, em <italic id="italic-ee2d2c05ace64044d94e0a67c15f51d0">corpus </italic>constituídos de língua escrita, ou seja, a variação que, nesse caso, caminha para uma mudança, não depende do <italic id="italic-abf53d0df83c27ffb7816406ed5bc5fb">corpus</italic>, ela é <bold id="bold-1">da </bold>língua.</p>
      <p id="paragraph-6d391d5704d73493b8d793f41ebb257d">Pontes (1973), quando finaliza a análise da estrutura do verbo do português coloquial, decide nominar de <italic id="italic-da514b5c5a35a759d2e9b8a84b5ba37b">forma marginal </italic>ao <italic id="italic-abc7f99ced1075eea0f8005b51975aad">futuro do presente </italic>(aqui tratado sempre como <italic id="italic-93e758f42874736b14fdbe9e16414b6b">futuro sintético</italic>), o que ela justifica porque, em seu <italic id="italic-07d950fadfd4f2441e7c7d0a1cbb51ac">corpus </italic>de análise, essa forma teve aparição rara. A partir daí a autora afirma que o <italic id="italic-f5fc3e57e9d4fee3fdd4991ecf07ef5c">futuro sintético </italic>é <bold id="bold-2">uma </bold>das <italic id="italic-2050bb715e6d4ddbf8d57781fc885cd0">formas da língua literária que ocorrem </italic><italic id="italic-cd23a16ab62096f0845e1e6c1a037d1d">esporadicamente na língua coloquial</italic>. O que esta tese mostra é que o <italic id="italic-17aa80d342c1e67c93f9cf86a7883c17">futuro </italic><italic id="italic-0b94415e6c1a554b10849a20be0554a5">sintético </italic>é, realmente, apenas isso: uma das formas de representação do tempo futuro na língua literária, mas não aquela com maior tendência de uso.</p>
      <p id="paragraph-e4e1bd9e56e8cc0d90fb733ac0208e04">Percebe-se, então, que o <italic id="italic-9c27400981dfe1bf98fb0bdca606ee6c">futuro sintético </italic>vem sendo destronado da posição de representar o tempo ainda não acontecido — de representar o inexistente, o desejado, o possível — posição essa que está sendo tomada pelas formas <italic id="italic-3a0f9441e1d95231dabd4824ce77c9c4">presente do indicativo </italic>e <italic id="italic-21">ir + infinitivo</italic>, o que varia dependendo do <italic id="italic-22">corpus </italic>de análise.</p>
      <p id="paragraph-4f29117434fd5e66c913c5c12ac18591">Quanto às <italic id="italic-2dce61e0c489b7c900ab46c26540f7c4">perífrases </italic>os <italic id="italic-896fc048d46d6ebb22d857a889d98d27">corpus </italic>mostraram que <italic id="italic-cf2e7a16047c02e7e79f39948136aa5a">ir + infinitivo </italic>está em processo final de gramaticalização, se levarmos em conta somente os textos escritos, uma vez que a construção <italic id="italic-71baf4badddba07ab38b93d9156a9dc8">vou i(r)</italic>, ocorre de maneira profusa na fala, notadamente na fala de crianças e adolescentes, e já é frequente na de adultos, conforme se constata no dia a dia (no oral, a gramaticalização já se consolidou completamente, regularizando o paradigma).</p>
      <p id="paragraph-eb71f84959e0c5036e419266cd0ac6d0">Se a forma ainda encontra resistência nos textos escritos, mesmo nos considerados ‘infantis’, o caso das histórias em quadrinhos aqui analisadas, é porque essa linguagem, que se quer representante da língua oral, não o é realmente, obedecendo aos cânones da gramática tradicional, que ainda não concebe a realização do futuro por perífrases.</p>
      <p id="paragraph-809a1d448d66f1a2dda299d729ccb48d">Pode-se, portanto, afirmar que aqui há uma mudança em curso, pois a partir dos pressupostos da teoria da Mudança Linguística, vistos acima, temos a representação do tempo futuro sendo representada por quatro variantes, que apresenta características de uma diferenciação ordenada, está ocorrendo e sendo transmitida de modo geral na ‘comunidade de fala’ e sua explicação está intimamente ligada a fatores linguísticos e extralinguísticos.</p>
      <p id="paragraph-e8e1e027ffa49c804290df6eaabf6fc3">Nos dois <italic id="italic-62b712552b75d96960f057080923f992">corpus </italic>o <italic id="italic-7aaca9f540d22b4cd87e2f97ac73d6ef">futuro sintético </italic>se mostrou como uma variante condicionada, principalmente, pelo mesmo elemento: textos antigos, ou seja, quanto mais antigo o texto maior a chance de a representação do tempo futuro se fazer pelo <italic id="italic-c9068f28bdc6b2b6d9d5ae4770626374">futuro sintético</italic>. O oposto é verdadeiro para <italic id="italic-a9923701e4a3180662f2232bb4c884f7">ir + </italic><italic id="italic-0341688cf7793b92183950257d9df809">infinitivo</italic>: quanto mais recente o texto, maior a chance de o tempo futuro ser representado só por essa variante.</p>
      <p id="paragraph-ee1de2c3da6ce65fc7793b68d7f2b18b">O <italic id="italic-8017e28b1df73a2d3ad3bfd1a7e0e73a">futuro sintético </italic>também está relacionado às situações de promessas e a uma projeção do fato mais distanciado temporalmente. Vale destacar ainda que os verbos monossilábicos são os que favorecem grandemente a representação do tempo futuro a partir dessa variante, bem como a primeira pessoa do plural canônica: <italic id="italic-9b2a9027a147f40944e49dcce56fde0f">nós</italic>. Algo que também se pode notar é que nas interações que registram o <italic id="italic-1f23dd1e8990c45b7c6c629267da46ed">futuro sintético </italic>há, via de regra, um adulto envolvido, o que evidencia ser a idade um fator relevante.</p>
      <p id="paragraph-84ac8220ca6a3b482d2c59be0856cd3c">Por sua vez <italic id="italic-7aea041a980fe8d7a9030aa84ef29aa7">ir + infinitivo </italic>, como já apontado, tende a ocorrer em textos mais recentes, onde a situação de futuridade se dê em projeção mais próxima, com verbos, di-, tri- e polissilábicos. Os pronomes que favorecem sua ocorrência são <italic id="italic-1d89155f73bbf7de4d0fb34ded739e15">você </italic>e <italic id="italic-b1dbaf0c86648760be6f6e42e3aa672a">vocês</italic>, nas interações entre iguais, em ambos os <italic id="italic-5c81882e33e5810e2b0b5b9782e9471f">corpus</italic>.</p>
      <p id="paragraph-f23239993663a23221f9620a73814949">Ao observar as ocorrências de representação do tempo futuro nos autores, principalmente os do sexo masculino e do século XIX, vemos que as gramáticas tradicionais não mentem quando citam exemplos retirados dessas obras para elucidar situações de uso do <italic id="italic-35bda553c3fd12a5dbdf0bd64be5db2a">futuro sintético </italic>para representar o tempo vindouro. O fato que elas omitem é o de que esses autores usam igualmente <italic id="italic-47d142b7d02f08f26caf472705b6fc27">ir + infinitivo </italic>para representar esse mesmo tempo. Os gramáticos simplesmente ignoram (em todos os sentidos) a existência dessa variante, mesmo constando nos seus textos e nas obras de autores usualmente utilizados nos exemplos das teorias por eles apresentadas.</p>
      <p id="paragraph-7aab3a26735599ee76c0cd681caae929">O <italic id="italic-892efd15ab973e67bfb3fce6c760f47f">corpus </italic>2 mostra que ainda antes do Modernismo, Lima Barreto já utilizava mais <italic id="italic-20bc12002a7b4073ef6612c9ea48f50e">ir + infinitivo </italic>do que o <italic id="italic-35b46a6e5a2c88399ff78624af93583a">futuro sintético</italic>. Depois, em Oswald de Andrade, essa variante foi ganhando espaço. O que a análise dos resultados dos autores mostra é que a trajetória da representação do tempo futuro não se dá diretamente do <italic id="italic-ccdff1285db6251e96f75ce033b857cb">futuro sintético </italic>para <italic id="italic-053c4b248cc222d6349f0b7e0c63e6e8">ir + infinitivo</italic>. Ela passa pelo <italic id="italic-35a5a0d1df6052742510d7448bb45bf0">presente do indicativo</italic>, que esteve e está funcionando como uma ponte no processo de mudança entre as variantes de representação do tempo futuro. Se antes a forma majoritária era o <italic id="italic-f23d254ceefca809a94ec62d39c2a693">futuro sintético </italic>e hoje é <italic id="italic-a06182f7be6c06b786f269ed172b79ca">ir + infinitivo </italic>ela já foi mediada pelo <italic id="italic-68c582226c74518cc776b8c30acc1618">presente do indicativo.<italic id="italic-3e696300fe1e69ac6ea9dd898a35681a"/></italic></p>
      <p id="paragraph-da9cd799590375ae646f1f2df1436bf7">Por outro lado, o estudo da mudança no indivíduo proporcionou observar que a tendência diacrônica natural dessas quatro formas é a mesma nos dois <italic id="italic-939fbf9691ccb9930ddf86686fc4cb5c">corpus</italic>: <italic id="italic-2b3a00d9df000d733562eb72e681249a">haver + de + infinitivo </italic>como um resquício de uso, concorrendo com o <italic id="italic-3ec944c449306941c9ff10a8a2e310af">futuro sintético </italic>e quase se extinguindo por conta da ascensão desse que, por sua vez, vai dividindo o campo com o <italic id="italic-2ccc915ad2bc350bd8ca1f907b56f1b1">presente do indicativo </italic>que, por sua vez, abre caminho para a perífrase <italic id="italic-3eb110928b5961e066f8baa79cedcf38">ir + infinitivo</italic>, que o supera em muitos contextos. Tal trajetória é visível tanto nas obras dos autores como nas autoras e, nessas, tendendo mais ao uso da perífrase do que da forma canônica, o que as coloca na posição de inovadoras, deixando o perfil mais conservador, nesse caso, para os homens.</p>
      <p id="paragraph-83ac543a518f16fb2a317555501ba217">Fechando esta pesquisa, mas não as possibilidades de estudos da variável dependente aqui analisada, é imprescindível observar que, independente da obra, a mudança na representação do tempo futuro está encaixada na estrutura linguística, mas que apresenta, ainda, um contexto de resistência, validado pelo processo que Weinreich, Labov e Herzog (2006) chamam de <italic id="italic-b43a30d1dd132f806a696add632938e4">avaliação</italic>, ou seja, a sociedade detecta variações que são avaliadas como negativas e essas passam a ser estigmatizadas. No caso da variável em questão, em se tratando de <bold id="bold-852fe81879b6edf707c50abb538104ed">língua escrita</bold>, o estigma está na forma <italic id="italic-52b492e6166a050f5361bfe6d7b14c8c">vou ir</italic>, sem nenhuma ocorrência entre os 6.616 dados analisados nos dois <italic id="italic-8bd8ee1127a0cf7596bf7a2640c26d21">corpus </italic>desse estudo. É interessante salientar que não houve nenhum caso de <italic id="italic-3a186381e2027dd41d57d775fedfeeab">vou ir </italic>mesmo nas histórias em quadrinhos, que parte da sociedade ainda tende a classificar como leitura não recomendável.</p>
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      <title>Referências</title>
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      <p id="paragraph-e4e52a6b2e199c2a4e35162d32af9d7c">WEINREICH, U.;LABOV, W.; HERZOG, M. I. <bold id="bold-533e084df01a4caa52445ce129b291fe">Fundamentos </bold><bold id="bold-f774c70bd78ed66a4630d49227c8d7a8">empíricos para uma teoria da mudança linguística</bold>. Tradução de Marcos Bagno. São Paulo: Parábola, 2006.</p>
    </sec>
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    <fn-group>
      <fn id="footnote-3602a9818ce7dcc4fa2f3c45319b1015">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-9bc63d0cfd90e9e748ea27a210099151">Em 2006, Marcos Bagno traduziu e publicou este texto em português, com revisão técnica de Carlos Alberto Faraco e posfácio de Maria C. A. de Paiva e Maria E. L. Duarte, intitulado <italic id="italic-bbfc45db6353c0c78d9f9f62d220c248">Funda- mentos empíricos para uma teoria da mudança linguística</italic>.</p>
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