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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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        <article-title>O FUTURO NAS LÍNGUAS ROMÂNICAS</article-title>
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    <sec id="heading-538caf09bba8d029fc2e6a10cfbac52f">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-1">A expressão verbal do futuro nas línguas românicas se dá por formas que, em larga medida, remontam aos moldes latinos. O latim clássico tinha duas formas indicativas de futuro, uma imperfeita e outra perfeita, que se traduzem em português pelo futuro do presente e pelo futuro composto, respectivamente. Eram construções sintéticas, apoiadas em sufixos, que já no latim vulgar seriam substituídas paulatinamente por formas analíticas, constituídas por um verbo principal e um auxiliar.</p>
      <p id="paragraph-2">O futuro imperfeito tinha contra si alguns fatos, a começar pela falta de unidade nas desinências. Enquanto a primeira e a segunda conjugações faziam o futuro com -<italic id="italic-1">bi </italic>(<italic id="italic-2">amabo, amabis; delebo, delebis</italic>), a terceira e a quarta utilizavam o sufixo -<italic id="italic-3">e </italic>(<italic id="italic-4">legam, leges; capiam, capies</italic>). Ademais, esta segunda desinência produzia coincidência de forma da primeira pessoa com o presente do subjuntivo (<italic id="italic-5">legam</italic>). A evolução fonética ampliaria os casos de confusão: <italic id="italic-6">amabit </italic>com <italic id="italic-7">amavit</italic>, <italic id="italic-8">dices</italic>, <italic id="italic-9">dicet </italic>com <italic id="italic-10">dicis</italic>, <italic id="italic-11">dicit</italic>. A coincidência de formas alcançava também o futuro perfeito, que era igual ao perfeito do subjuntivo, salvo na primeira pessoa.</p>
      <p id="paragraph-3">O futuro imperfeito enfrentava ainda a concorrência do presente do indicativo e de perífrases verbais, fato que se explica pelo próprio conteúdo semântico do futuro, que pode comportar a idéia de intenção, plano ou compromisso manifestos no presente. O uso do presente pelo futuro se registra em textos de cunho popular e se amplia nos escritos cristãos. As perífrases eram de dois tipos: o primeiro consistia em associar <italic id="italic-12">sum </italic>como auxiliar ao principal no particípio futuro (<italic id="italic-13">amaturus </italic><italic id="italic-14">sum</italic>) ou no gerundivo (<italic id="italic-15">baptizandi sunt</italic>); o segundo era dado pelo principal no infinitivo, acompanhado por <italic id="italic-b86a3c75d523880bc1a68526dfa4056b">habeo, volo/voleo, debeo </italic>ou <italic id="italic-87bcd5f63f4bfe8eaac427b3eda521de">venio</italic>. Esta segunda modalidade tinha na origem claro cunho modal: por exemplo, <italic id="italic-6da182bd2b5f580b7c64f64c10781dac">scribere habeo </italic>em Cícero se traduz por “tenho que escrever”. Mas já em Santo Agostinho se encontra ocorrência da perífrase em que <italic id="italic-1f00dcdf6319bb8b9fa5288a17a97cd2">habeo </italic>está esvaziado do sentido de obrigação: “<italic id="italic-e3d79ab924016845bdfaf0653c3440b7">tempestas illa tollere habet totam paleam </italic><italic id="italic-ab0c18269a6cab44717cb9268181056d">de area</italic>”.</p>
      <p id="paragraph-14f21e3101361b9a027a4ced01c2c32c">No processo de formação do futuro românico, uma das perífrases se se impôs às demais. Prevaleceu <italic id="italic-3f923dadbf806e63e52fca951f01428e">habeo</italic>, salvo no romeno e, parcialmente, no dalmático, que optaram por <italic id="italic-dbd862adb2f479d092fe20a8f0dcce1f">volo</italic>, do sardo, em que concorrem <italic id="italic-f759e1c39ef1aece2a97d01188500656">habeo </italic>e <italic id="italic-dba81dd7315ceecd2c40a500339e17bf">debeo</italic>, e da maioria das variedades reto-românicas. No curso da gramaticalização da locução com <italic id="italic-f158f071e2c0773403b5eecf14df3baf">habeo</italic>, o auxiliar perde sua autonomia, soldando-se ao verbo principal. O registro mais antigo da forma aglutinada é datado de 613: “<italic id="italic-b2a7190427f0546c403697f9c069c3f7">– et ille respondebat: non dabo.– Iustinianus </italic><italic id="italic-eb97ecd983a00192abec2a362e502d09">dicebat: daras</italic>.”</p>
      <p id="paragraph-4ac48e9ac1ac6ba46a139be02fb18a4d">Vidos entende que a ampla disseminação do novo futuro sintético pelo mundo românico não se deveu apenas à origem latina comum das línguas em que se implantou, mas também à influência cultural que sobre elas exerceram o francês e o provençal durante a Idade Média.</p>
      <p id="paragraph-4">O futuro perfeito se perdeu muito cedo, tendo sobrevivido apenas nas margens da România: em português e espanhol, na função de “futuro do subjuntivo”, e no dalmático, em que substituiu o futuro imperfeito, o que não era raro no baixo latim.</p>
      <p id="paragraph-5">O latim não dispunha de forma própria para o “condicional” (futuro do pretérito). Essa função era preenchida pelo mais-que-perfeito do subjuntivo, que em latim vulgar passou a ter a concorrência de uma construção perifrástica paralela à do futuro, constituída do infinitivo do verbo principal mais <italic id="italic-1455eade01973111176dbbce35cc0dfd">habebam</italic>. Essa locução também entrou em processo de gramaticalização, produzindo o condicional dos romanços da Ibéria e das Gálias.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-6e8ee940b2de4ac9731aaf837f4f3aa8">
      <title>1. Panorama românico</title>
      <p id="heading-312e9a8ab8a5159ea8f3acbbe23a18b8">Os romanços da Península Ibérica desenvolveram duas perífrases com <italic id="italic-15721a67658d5c04b25da4f5dbfb41a2">habeo </italic>mais infinitivo, segundo as duas ordens já utilizadas na fase pré-românica: infinitivo + <italic id="italic-47acf3761a6f06e31cff917bfb2c5656">habeo </italic>(<italic id="italic-f416f151a849903e6799711434ccfc2c">cantarei</italic>) e <italic id="italic-f85ed3632df89f2f3f63e0d38ebc33ee">habeo </italic>+ <italic id="italic-8f52822dd4d79049f4ecb1cfb4f499fd">de </italic>+ infinitivo (<italic id="italic-6b47f9c415918fb52d2d833b90752df6">hei de </italic><italic id="italic-b3edb39065f6e51b794da0eddc98cf26">cantar</italic>). A primeira impôs-se como variante canônica, tendo para isso contado provavelmente com a preferência dos meios mais cultivados. A segunda, que jamais foi rival de peso, de maneira geral declina desde o Renascimento em português e espanhol, para praticamente extinguir-se, como expressão de futuridade, no século XIX.</p>
      <p id="paragraph-188fc35a43082fdb2f7396ab54d00766">A transformação da construção infinitivo + <italic id="italic-a8b1f1f40be3e8e5d48cc86b2038e2df">habeo </italic>no futuro sintético não se operou de maneira uniforme em todos os contextos e em todas as variedades. Prova disso é a tmese (mesóclise), que permaneceu em português mas não em castelhano, em que desaparece no século</p>
      <p id="paragraph-6b01b5aebab6c0db1ae0c8fbfec04d86">XVII. Mesmo no português medieval, a tmese conviveu com variantes sintéticas consumadas, de que são exemplos formas como “darei-te”.</p>
      <p id="paragraph-66279eca61b4aa964cb9d4bee7e7fde5">A partir dos séculos XV e XVI, veio juntar-se nova perífrase de infinitivo, tendo como auxiliar <italic id="italic-745719446d58b23b47b2acd839da1cf0">ir</italic>. Em galego, português e leonês, na forma de <italic id="italic-4423f17d8126e7fe5dc9a15b7ae3287f">ir </italic>+ infinitivo (<italic id="italic-4b9e14a71346235721cf8dda420f97c3">vou cantar</italic>), em espanhol de <italic id="italic-7a687d720c96e405f5b98d889ae4cb16">ir + a + </italic>infinitivo (<italic id="italic-bfa62951bb486fe5828112eef0beb18f">voy </italic><italic id="italic-566d0fcf17f8ce07869ac61d0a4d0293">a cantar</italic>). A nova variante - provavelmente uma derivação semântica da construção em que o verbo <italic id="italic-39c540ab62eb8df2f03ac087cce6655f">ir </italic>de fato exprime deslocamento no espaço - indica fato que se dá como de ocorrência certa e imediata, porque está na dependência apenas da intenção do falante, <italic id="italic-16">eu </italic>ou <italic id="italic-17">nós</italic>. Logo a forma se difunde pelas demais pessoas, ao mesmo tempo em que se reduz o conteúdo modal de certeza, começando a sua gramaticalização. A implementação dessa perífrase avança mais rapidamente na América do que na Europa, em situações antes coloquiais do que formais.</p>
      <p id="paragraph-6">A nova perífrase de futuro não se desenvolveu em catalão, e por um bom motivo. É que aí a construção <italic id="italic-18">anar </italic>+ infinitivo surge no fim da Idade Média com valor de pretérito, vindo a constituir o chamado <italic id="italic-19">passat perifràstic</italic>. Por influência do castelhano, usa-se uma que outra vez uma perífrase de futuro com a preposição <italic id="italic-20">a </italic>de permeio: <italic id="italic-21">anar a cantar</italic>. Quando se considera a terceira pessoa – <italic id="italic-22">va a cantar </italic>–, logo se percebe o risco de confusão com o <italic id="italic-d3800e5a0a51698f0cbb4d5642de1dde">passat perifrástic </italic>– <italic id="italic-29c4a0ae529b3ec330fef1c64bf4e1e3">va cantar</italic>, o que acaba rechaçando o castelhanismo em favor do futuro sintético.</p>
      <p id="paragraph-d3c74640848e3c3ad5d1f5b4cc7d1f67">Praticamente extinto em espanhol, o futuro do subjuntivo comporta- se em português como simples variante do presente do subjuntivo, sem apontar exatamente para um futuro, mas para um <italic id="italic-d26268fc3bac1adb84987eb19a447acc">irrealis</italic>.</p>
      <p id="paragraph-c97bded9bb00fed90963773aaf01f2dd">No francês contemporâneo, o futuro pode ser expresso pelo futuro sintético (<italic id="italic-3fc355aa1c55c1d5a8bf5e8f1b771fb8">je chanterai</italic>), pela perífrase <italic id="italic-df7a7e81529b3dcaa994fca0316feea8">aller </italic>+ infinitivo (<italic id="italic-874bab0486eda7ca5d554b163ab0cba2">je vais chanter</italic>) e, como nas demais línguas neolatinas, pelo presente (<italic id="italic-86ac2725b6343c345a8e759e21766d9f">je chante</italic>). O futuro sintético estava estabelecido em francês já no século IX (Serments de Strasbourg) e se supõe que, na altura dos séculos XIII e XIV, já circulassem em alguns meios duas perífrases para o futuro: com o verbo <italic id="italic-7cba11e6025319435a21258c7de6c865">avoir </italic>(<italic id="italic-6cc070e159acace64422e658bf8d02de">j’ai à écrire une </italic><italic id="italic-39ba4a0608f195b74cb2d157aec8afe2">lettre</italic>) e com o verbo <italic id="italic-573878d0d7d1e3173e913e36f9f548f7">aller </italic>(<italic id="italic-0eb39f6d210e4512f2ec315b69c03dc6">je vais écrire une lettre</italic>); das duas, apenas a segunda permaneceu como variante efetiva de futuro, tendo se disseminado na fala coloquial no século XV ou XVI. Os primeiros registros escritos datam dos séculos XVI e XVII.</p>
      <p id="paragraph-456ff15037f8532c0018bca5d2b7480a">Como acontece em português e espanhol, a perífrase avança sobre o domínio do futuro sintético, que perde terreno e vai se restringindo às situações de formalidade. O que é marcante no caso do francês é o estágio avançado em que está o processo de gramaticalização dessa perífrase, que, segundo Vetters e Lière, já satisfaz cinco critérios de gramaticalização propostos pela literatura: unidade auxiliar-auxiliado; dessemantização; transparência do auxiliado; conjugação restrita do auxiliar; mudança semântica. Esses pesquisadores concordam com Co Vet, que deu a perífrase por integrada no sistema verbal do francês.</p>
      <p id="paragraph-ba5fe5700a586242302c10c9d383540d">Perífrase análoga desenvolveu-se no occitano: <italic id="italic-bfa182397bdc43bcd93d576bdacf8733">vau cantar</italic>.</p>
      <p id="paragraph-49e410cc4d5d6a04e559b1eef305e1a6">Quanto ao futuro, as línguas neolatinas da Península Itálica formam dois blocos, separados por uma linha que passa por Viterbo, Perúgia e Ancona. Ao norte, ocorrem formas sintéticas que provêm da perífrase infinitivo mais <italic id="italic-199c2ad416ba23a637a270a426fe20df">habeo</italic>; ao sul é praticamente inexistente, sendo substituído em largas áreas pelo presente, como no calabrês (<italic id="italic-20d80de87e5507f0a414bd6ee63241ae">lu fazzu crai </italic>“eu o faço amanhã”). Sobrevivem na porção meridional construções analíticas do tipo <italic id="italic-715a2f21f21f7c7ccdc6446c75b5481a">cantare habeo </italic>ou <italic id="italic-089beae5e8fa8aec3e31036037d4da65">habeo ad cantare</italic>; a primeira é condicionada a situações em que o presente geraria ambiguidade, ao passo que a segunda ainda guarda o sentido de necessidade.</p>
      <p id="paragraph-e02419d550101b7b6f9f2b1e9ec5b69e">Em italiano, o futuro sintético não sofre concorrência direta. As perífrases que mais se aproximam da esfera da futuridade são <italic id="italic-6b88d46a3c80379a3e1ff05c789060cf">stare </italic>+ <italic id="italic-2c691efbf9a543963de05ba4db45fd32">per </italic>+ infinitivo (<italic id="italic-c1b54393a8c546747f4cbb6bb79bb715">sto per scrivere la lettera</italic>), que exprime fato a dar-se de imediato, e <italic id="italic-a431d42f01b7274182385b3009756a04">andare + a </italic>+ infinitivo, que, segundo Luisa Amenta e Erling Strudsholm, compõem três construções distintas: a) <italic id="italic-061f81567486a1477f77d5c9b2a3e518">andare </italic>lexical (verbo pleno: <italic id="italic-c6ed6611d30d9d1843e4ac890deed7a5">vado a dormire</italic>); b) <italic id="italic-6b935ee50718f2b2b3c1dc92e95dc30b">andare </italic>em perífrase “resolutiva” (<italic id="italic-ea2d541151028d6021b8a8099c159c77">andare </italic><italic id="italic-2303ae20c51478d817f0baa2f4e72817">a capire </italic>“chegar a compreender”<italic id="italic-7018be2482a7778ddcc105591855252b">)</italic>; c) “sintagma polirremático”, isto é, verbo complexo (<italic id="italic-2204700d136a16c7f234fc9f8022f6e7">andare a ﬁnire </italic>“acabar”). Esses autores, no entanto, registram no italiano regional ocorrências em que a perífrase com <italic id="italic-a2f4e4e6ef55f5b33feef47036270345">andare </italic>admite sujeito inanimado ou ausência de deslocamento, estando assim dessemantizado (<italic id="italic-8148294595151011415ad8eb7ac7ecf9">l’amico va a morire</italic>).</p>
      <p id="paragraph-82fac3af2a475636b8d79a1e10c78650">Em corso o futuro sintético tem a concorrência de uma perífrase formada por <italic id="italic-c1df08b720617b2fdf8f1c75d701d805">avè </italic>+ <italic id="italic-63000848263302cfbf071cd6dfaad3d9">da </italic>+ infinitivo (<italic id="italic-ca11f6527e9997291d80da5d564cd3be">aghju da fà</italic>, “vou fazer”).</p>
      <p id="paragraph-8b199e7a1104cb141d029dc8050f3e3f">Como já mencionado, o sardo tem dois futuros, ambos analíticos: um com <italic id="italic-81bf4dbb3c8d89fc3eeab5a2fae6282a">aere </italic>(haver) + <italic id="italic-33733accca896ec481402ca27340965c">a </italic>+ infintivo, e outro com <italic id="italic-8dfb474a3c5b602e64cf69cbbd8cffbd">devere </italic>+ infinitivo: <italic id="italic-85a022374105b6f1e3cfa647df46d1d6">apo a kantare</italic>, <italic id="italic-5a73ef6622a733c7734ee92d6b0711ed">depo kantare</italic>. O primeiro é a forma canônica, ao passo que o segundo é empregado para indicar dúvida ou incerteza. A estrutura com <italic id="italic-156d45fcbcf1f0a764e24ca6cdff740c">aere </italic>corresponde ao molde <italic id="italic-23">habeo ad cantare</italic>, que, como já visto, foi igualmente produtivo no sul da Itália e na França, e conserva o sentido deôntico em leonês: <italic id="italic-24">han a facer </italic>“hão de fazer”.</p>
      <p id="paragraph-339b60ae0abf2de6881eae6558c0c083">Para exprimir o futuro, o romeno não dispõe de forma sintética, mas sim de quatro formas analíticas, todas igualmente frequentes: duas com auxiliar seguido de infinitivo e duas com o subjuntivo. O primeiro tipo é dado pelo auxiliar <italic id="italic-25">a vrea </italic>(<italic id="italic-26">querer</italic>) seguido do infinitivo sem a partícula introdutiva <italic id="italic-27">a</italic>: por exemplo, <italic id="italic-28">voi veni </italic>(<italic id="italic-29">virei</italic>). Nesta construção, própria à norma culta, o auxiliar sofre redução de forma em todas as pessoas, com a exceção da sexta. Embora menos corrente, a posposição do auxiliar é possível: <italic id="italic-30">veni-voi</italic>. Em qualquer caso, o clítico precede o auxiliar: <italic id="italic-31">le vom </italic><italic id="italic-32">vizita</italic>; <italic id="italic-33">vizita-le-vom </italic>(<italic id="italic-34">nós os visitaremos</italic>).</p>
      <p id="paragraph-83cf1afd4bc630f24a5da91f3f50fd20">O segundo tipo com auxiliar é uma variante do anterior, em que a redução fônica do auxiliar se acentua com a perda da consoante inicial em todas as pessoas: <italic id="italic-fa86b3f83db1feba1a46048bbdd30972">oi veni </italic>(<italic id="italic-4079fc82de55060f9efe87caefc4992f">virei</italic>).</p>
      <p id="paragraph-f6f1d270924e0032ca93271597c1082e">A construção com o subjuntivo tem como primeira modalidade a forma <italic id="italic-25817870f7e6c704a5904242532a8ca1">o </italic>+ s<italic id="italic-6327cd91b3dc31557d6f4c45e2dfeaba">ă </italic>+ subjuntivo, em que <italic id="italic-ea958c1b4dda4cbf197e83a6c12f31db">o </italic>é uma partícula verbal invariável, s<italic id="italic-3433e91484cf691ca0f2b96102f755ac">ă </italic>é o marcador do subjuntivo e finalmente o verbo no subjuntivo, que carrega a desinência de pessoa. Exemplo: <italic id="italic-aa84d558cc30ff375c41e6da93909c47">o </italic>s<italic id="italic-23d5574634ea880555ebc88805a67e71">ă vin </italic>(<italic id="italic-82b0b9039d5f07dbe8f4a9389d4f82ed">virei</italic>).</p>
      <p id="paragraph-57b6b4816e12acc52aff914f26e6080c">A segunda modalidade consiste na sequência formada pelo presente do auxiliar <italic id="italic-b17f40bb1e513b8a054ce0f19d920cc6">a avea </italic>(haver) + s<italic id="italic-cfe8f992120fa9cfd2ca8f7af06da5de">ă </italic>+ subjuntivo. Neste caso, a pessoa é marcada duplamente, pelo auxiliar e pelo verbo principal. Nas construções com subjuntivo, o clítico precede imediatamente o subjuntivo: <italic id="italic-3909e38269f934ec854807bd10291dea">o </italic>s<italic id="italic-14f0fedeea9300fb29e06c18c819bac7">ă le vizităm </italic>(nós os visitaremos).</p>
      <p id="paragraph-96849519c70def86347dd78cda103356">Assim como em latim, não há condicional em romeno. Os contextos próprios ao condicional são preenchidos pelas formas do futuro.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-2bff9e9afdecccd47cf98d4c4853f2d5">
      <title>2. Instabilidade do futuro</title>
      <p id="heading-6923511047d50985e8ac0899f9af4a97">É antiga a constatação de que as formas verbais que exprimem o presente e o pretérito são mais estáveis que as que denotam futuro. Essa diferença provavelmente se prenda ao fato de que o semantismo do presente e do pretérito repousa sobre uma factualidade, mas não o do futuro, que remete ao provável ou ao que se toma como certo, mas jamais a fato. Por conseguinte, seu significado tende a espraiar-se, da certeza ao simples desejo, intenção ou compromisso.</p>
      <p id="paragraph-62a79f7c42fa9dc9b9b33979db5b1086">No contexto românico, a instabilidade do futuro tem suscitado tentativas de explicação, como a de alguns estudiosos que, centrando- se no plano da forma, formulam a hipótese de uma alternância cíclica entre construções sintéticas e construções analíticas. De fato, já o futuro latino em <italic id="italic-78537a9808c5e790996626a0734ce231">–bo</italic>, da primeira e da segunda conjugação, teria sido o estágio último do processo de gramaticalização de uma perífrase, em que o verbo auxiliar se reduziu ao morfema <italic id="italic-a82bae842f068a36afa29fad74be353b">–bi</italic>. É evidente que uma argumentação com base apenas na forma não pode prosperar. A substituição de uma forma analítica por forma sintética por efeito de acomodações morfofonológicas pode ser explicada passavelmente com base em considerações meramente formais. No entanto, o mesmo não se dá quando se passa da sintética à analítica. Uma construção sintética, por si, não induz a criação de construções analíticas alternativas. Fosse assim, um paradigma sintético como o pretérito imperfeito deveria estaria na origem de variantes analíticas, o que não se verifica nas línguas românicas.</p>
      <p id="paragraph-a7acaa4ee6ac22a5d12b690507e4dcb2">A explicação deve buscar-se na esfera semântica. Aqui se vislumbram ao menos duas alternativas: ou bem são as formas futuras originais que se modalizam e abrem espaço para uma construção alternativa, ou bem é uma construção que perde seu conteúdo originalmente modal e passa a fazer concorrência à construção vigente.</p>
      <p id="paragraph-0fab3150da3e5d75eeb0a4d2b49fa572">Para Bybee, Pagliuca e Perkins, os tempos verbais futuros seguem todos a mesma evolução. De início exprimem obrigação, vontade ou movimento em direção a um ponto; na sequência todos se tornam intencionais e depois preditivos, antes de evoluírem para a expressão do futuro propriamente dito. Neste ponto, passam a comportar igualmente dois empregos modais: o imperativo (<italic id="italic-d8598edf2c963e9bf3e25c2c1143c2f9">não matarás</italic>) e o conjetural (<italic id="italic-563dd49b6b4be804e853fb440b93cd8a">quem </italic><italic id="italic-c1d3cd6a0fa4248ff6a218d81c4ce8bd">será?</italic>).</p>
      <p id="paragraph-74647df09739ab23bfa80270208a2376">Suzanne Fleischman propõe que a evolução das formas futuras é regulada pelo equilíbrio entre a temporalidade, a modalidade e, de forma secundária, a aspectualidade. Se uma forma verbal futura se tornar mais modal que temporal, será necessário providenciar nova forma própria a exprimir a temporalidade. Como não se exclui que a nova forma por sua vez também venha a ganhar empregos modais, estaríamos diante da hipótese de outra alternância cíclica, entre temporalidade e modalidade. Gerard Barcelò entende que essa tese tem dois argumentos a seu favor: primeiro, fornece um princípio explicativo coerente; segundo, há casos concretos que poderiam sustentá-la, como é o caso de espanhol, em que o futuro simples é bastante modalizado. No entanto, acaba afastando a proposta de ciclo em vista de contra-exemplos, como a passagem do futuro sintético latino ao futuro perifrástico românico ou a divergência das línguas neolatinas quanto à expressão e os valores do futuro. Sugere que se coloque em primeiro plano o que Fleischamann tomou como secundário: a aspectualidade, na forma de pertinência ao presente. Ou seja, são as formas retrospectivas com relação ao presente que podem tornar-se novos tempos pretéritos; são as formas prospectivas que acabam convertendo-se em novos tempos futuros.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-1d7e0f1d0a5e3ded0ba76c51e0e58ed0">
      <title>Referências</title>
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