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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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<publisher-name>Associação Brasileira de Linguística</publisher-name>
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        <article-title>A DESCRIÇÃO DAS LÍGUAS ‘EXÓTICAS’ E A TAREFA DE ESCREVER A HISTÓRIA DA LINGUÍSTICA</article-title>
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      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-1">Do ponto de vista da história do conhecimento sobre a natureza da linguagem, ninguém negaria que o contato do homem europeu com a diversidade linguística ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX trouxe uma contribuição considerável ao alargamento — quantitativo e qualitativo — do conhecimento empírico sobre as línguas (cf. Swiggers 1997, Law 2003). Ao longo de quatro séculos, franciscanos, dominicanos, agostinianos e, principalmente, jesuítas participaram da empresa colonial americana com o objetivo de exercer a dupla função do trabalho missionário: catequese e ensino da leitura e escrita. Não por acaso, já que a condição, oﬁcial ao menos, para que tanto Portugal quanto Espanha pudessem expandir seus domínios territoriais era ampliar a fé católica, o que signiﬁcava granjear ﬁéis em cada canto do mundo e, por suposto, em cada língua. A missão de conversão religiosa passava, pois, pela tarefa prévia de fazer a mensagem religiosa ser compreendida pela população ‘inﬁel’, fosse através da tradução da bíblia e do auxílio de intérpretes — estratégia preferida pelos protestantes — fosse através da aprendizagem e utilização da língua nativa — estratégia preferida do missionário católico.</p>
      <p id="paragraph-2">Em consequência, e diferentemente do Budismo e do Islamismo, que também enfrentaram em outros séculos o desaﬁo de propagarem sua fé (v. Ostler 2003), as missões cristãs, principalmente as católicas, se tornaram bastante soﬁsticadas na tarefa de elaborar instrumentos pedagógicos para o estudo das línguas dos territórios a serem colonizados, sobretudo gramáticas, vocabulários, dicionários, catecismos. Em muitos casos, essa documentação é o único testemunho que temos da existência de centenas de línguas, muitas delas hoje extintas, tanto da América, quanto da África, da Ásia e das ilhas do Pacíﬁco.</p>
      <p id="paragraph-9c73a50bbe2cb3345a072ee6169633b1">Podemos vislumbrar o volume do trabalho desses missionários através dos números apresentados por Wonderly &amp; Nida (1963: 117) sobre a produção hispano-americana. Só para o século XVI aﬁrmam ter registrado 212 trabalhos de missionários. Desses, 30 sobre línguas sul- americanas; 27 sobre línguas da América Central e 155 sobre o México, sendo que o Náhuatl clássico, língua dos astecas do México central, foi a mais representada, com 92 trabalhos. No século XVII, registraram mais de 250 trabalhos sobre as mesmas línguas; no XVIII, 210. Se incluirmos nessa conta as gramáticas missionárias escritas no período colonial sobre as línguas asiáticas (por ex.: japonês, chinês, vietnamita; línguas ﬁlipinas: tagala, bisaya, pampango, iloko, pangasinán, ibanag; indianas: tamil), além das africanas e australianas, esse número cresce sensacionalmente (cf. Ridruejo 2000; Zwartjies &amp; Hovdhaugen 2003. Zwartjes &amp; Altman 2005, Zwartjes, James e Ridruejo 2007). Trata-se de uma produção respeitável.</p>
      <p id="paragraph-3">Entretanto, quando se buscam informações em nossa historiograﬁa oﬁcial sobre a eventual contribuição para a linguística geral dos três ou quatro séculos de copiosa coleta de dados de ‘línguas exóticas’, levada a cabo pelos missionários sul-americanos, nos surpreendemos pela parcimônia das referências. Raras são, nos manuais tradicionais de história da linguística, isto é, naqueles elaborados por linguistas não especialistas em americanística<xref id="xref-d922954e5e32dc6e951947a365a23fe0" ref-type="fn" rid="footnote-bec70ce42aa16ae64f078340265ec403">1</xref> referências mais detalhadas sobre as contribuições, por exemplo, do <italic id="italic-1">Saggio di Storia Americana </italic>(Roma, 1780-1784, 4 vols.), de Filippo Salvadore Gilij (1721-1789), ou sobre o monumental <italic id="italic-2">Catálogo </italic>(1a. ed Cesena, 1785), de Lorenzo Hervás y Panduro (1735–1809) que, ao compilar exaustivamente a produção gramatical jesuítica, constituiu um precioso banco de dados de línguas do mundo todo.</p>
      <p id="paragraph-0d0c8a527189767ce3ba55d927b3e07e">Neste sentido, um dos desaﬁos do historiógrafo interessado nas tradições linguísticas latino-americanas é tentar reconstruir e, se possível, explicar, como e por que, no processo de seleção das idéias e práticas linguísticas que efetua, certas tradições de estudo, como, por exemplo, o da chamada linguística missionária, teriam sido subestimadas (para não dizer excluídas, em uma interpretação mais forte) da historiograﬁa linguística canônica, pelo menos até a segunda metade do século XX.</p>
      <p id="paragraph-08ea5c7a1ae13b1fbe147e934427dddf">Na presente intervenção, a partir de um conjunto de reﬂexões que tenho acumulado ao longo de todos esses anos dedicados ao estudo da linguística feita no Brasil (especialmente Altman 1993, 1996a e b, 1997a e b, 1998a e b, 2001, 2003, 2007 e 2009) chamo a atenção para certos aspectos pertinentes, a meu ver, à tarefa de escrever sua historiograﬁa. Meus parâmetros de observação serão, principalmente, aqueles relativos às inevitáveis pressões das visões do momento sobre o linguista interessado em historiografar o passado da sua disciplina.</p>
      <p id="paragraph-4">
        <italic id="italic-5177cad42814694297ad38bf976589c8">Algumas notícias sobre a produção linguística ‘colonial-missionária’ sul- </italic>
        <italic id="italic-0dfe99220476e2a3c665780df42a935c">americana.<italic id="italic-3"/></italic>
      </p>
      <p id="paragraph-5">No que diz respeito especiﬁcamente à América Portuguesa, ainda que seus interesses e os da América Espanhola fossem em grande parte coincidentes ¾ ao menos oﬁcialmente formaram uma só coroa sob o domínio espanhol entre 1580 e 1640 ¾ a produção linguística de ambas as colônias foi bastante desigual. As gramáticas da América Espanhola foram bem mais numerosas, certamente devido a uma política de ensino de línguas indígenas bem mais agressiva (cf. os três Concílios Limenses em 1551, 1567 e 1582–1583) do que a da América Portuguesa, cujos interesses estavam, neste momento, mais a Oriente. Observe-se, ainda, que a cidade do México possuía imprensa própria desde 1539 (Sedola 1994: 86) e Lima (=Ciudad de los Reyes) já contava com uma Universidade desde 1551, com uma cátedra de língua indígena desde 1580 e, desde 1582, também com imprensa própria (Cerrón-Palomino 1997: 198).</p>
      <p id="paragraph-3a04d1a24eddf14c141ce3edd4d834f1">O Brasil, ao contrário, só teria sua própria casa impressora no início do século XIX, e uma cátedra para o estudo do Tupi antigo só no século</p>
      <p id="paragraph-833214300ef55a3775b47f952a014812">XX. Não é de se estranhar, pois, que, das eventuais centenas de línguas originalmente existentes em território português nos séculos XVI e XVII (Rodrigues 1993, 1994), só tenhamos tido a descrição gramatical de duas delas, como é sabido: do Tupi (=Tupinambá), elaboradas pelos jesuítas José de Anchieta (1534–1597), e Luís Figueira (1575–1643) e do Kiriri, elaborada pelo também jesuíta Luis Vincencio Mamiani (1652–1730) (cf. Anchieta 1990[1595]; Figueira 1621 e Mamiani 1877 [1699]), todas escritas em português e publicadas, pela primeira vez, em Portugal<xref id="xref-fc6307bc8af3f2614b9c7d0bb5007a94" ref-type="fn" rid="footnote-8b84385c5b30109cd0e519af61869332">2</xref>.</p>
      <p id="paragraph-6ede90ce021669661dec665eae62fc27"> Guardadas as devidas proporções, entretanto, é razoável imaginar que, para ambas as Américas, tanto a Espanhola quanto a Portuguesa, as línguas locais das várias ‘nações’ americanas também fossem alvo de curiosidade por parte dos europeus e, em consequência, objeto de coleções, ao lado de plantas, animais, costumes e instituições ‘exóticas’ (cf. a extensa literatura dos viajantes em Gimenes 1999). O domínio de todas essas línguas era indispensável ao sucesso da empresa colonial, o que favoreceu a implantação de uma série de medidas que visassem ao conhecimento (e, por extensão, ao controle) da heterogeneidade linguística das Colônias. Na medida em que os missionários foram sentindo a necessidade de também documentar a dialetação das línguas gerais, ao longo do século XVII e início do século XVIII, bem como a diversidade das línguas regionais e locais, várias outras gramáticas de outras línguas sul-americanas surgiram nos mesmos moldes. O Catálogo de Hervás, na sua versão espanhola de 1800, menciona 218 designações diferentes, relativas a línguas e a dialetos que hoje situaríamos no território sul-americano. (Parada 2002). Em quatro séculos, a empresa missionária colonial acumulara informação sobre a diversidade linguística americana o suﬁciente para notar o quanto poderia haver de ‘aﬁnidade’ e de ‘divergência’ entre as línguas: na pronúncia, no vocabulário e, nos termos de Hervás, também no seu ‘artifício gramatical’.</p>
      <p id="paragraph-2a0870f837d47d1aa8b0d57b41f4bf99">Com efeito, a produção gramatical do período dito renascentista se caracterizou, de maneira geral, pela procura de princípios ou regras, i.e., pela busca de regularidades nas variedades a serem descritas; pela transferência do modelo gramatical latino — já parcialmente adaptado, por sua vez, da gramática grega — à descrição dos vernáculos, e readaptados, ainda uma vez, à descrição das chamadas línguas exóticas; pela mesma estruturação atribuída à fonologia e à morfologia, que se completa pela descrição de uma rotina de uso da língua (usage) (v. Swiggers 1997, Auroux 1992a e b):</p>
      <p id="paragraph-60ccce15ab3df87e25cc966cc53d9d1b">As gramáticas das línguas ‘exóticas’, sejam americanas ou asiáticas, não constituíram exceção a esse cânone. Às regras de pronúncia das línguas, seguiam-se, com poucas variações, regras de declinação dos nomes, adjetivos e pronomes; regras de formação e conjugação de verbos e uma lista das ‘outras partes da oração’, via de regra constituída de preposições, advérbios, interjeições e conjunções. O estudo da palavra no contexto dessas gramáticas assumiu a feição de uma morfossintaxe e a sintaxe propriamente dita consistiu, frequentemente, em uma prática cujas ‘regras’ se reduziam a hábitos de repetição, de ‘maneiras de dizer’ que era preciso memorizar.</p>
      <p id="paragraph-6f8c0cbc254c51e4559d88f28dfd2533">Esse mesmo procedimento aplicado à descrição das variedades nacionais européias, das línguas africanas, asiáticas e americanas viabilizava, por hipótese, pela primeira vez, o cotejo de dados equivalentes de línguas, mesmo que geográﬁca ou historicamente dispersas. Adequada ou não, a prática missionária de registrar as línguas nativas americanas em forma de vocabulários e gramáticas, nos mesmos moldes, possibilitou a Hervás, trezentos anos depois das primeiras descrições dessas línguas, compará-las, classiﬁcá-las, e colocá-las em perspectiva histórica. Para este autor, e para o tipo de estudo comparativo que efetuou, seria preciso veriﬁcar, além da história dos povos que falaram essas línguas, também seu vocabulário fundamental e as regras de estrutura gramatical (Parada 2002 e Parada e Altman 2000). Tarefa perfeitamente viável, já que a concentração de jesuítas expulsos de todos os territórios espanhóis e portugueses em Roma a partir de 1759, onde já se encontrava Hervás, signiﬁcou também a concentração privilegiada, em um único lugar, de trezentos anos de know how de descrição gramatical.</p>
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    <sec id="heading-7c4fd180731eb6b75a32042ab98813d2">
      <title>1. O registro dessa produção em nossa historiografia linguística</title>
      <p id="heading-30b4f3f8a504a457feb2694769c5547b">Na sua <italic id="italic-2058a04101b7b206b2b89b4aa5be0e45">Introdução às Línguas Indígenas Brasileiras </italic>(Mattoso Câmara 1977), que reúne o conjunto de dez palestras que proferiu em 1960 no Museu Nacional, Mattoso Câmara descartou essa herança descritiva do nosso horizonte de retrospecção, na medida em que qualiﬁcou — não sem certa dose de razão — essa linguística missionária de utilitária, centrada na comunicação com os nativos para ﬁm de propaganda religiosa, diferente daquela que seria feita por um linguista moderno, objetiva e desinteressada em seus propósitos (p. 101). Na sua avaliação, o contexto colonial era favorável ao surgimento de uma língua franca, variedade simpliﬁcada da língua originalmente falada no Brasil, que fora o objeto das primeiras descrições dos jesuítas, cujo intento último era o ‘disciplinamento’ da língua da terra que ascenderia, dessa maneira, à desejável estrutura da língua latina. O resultado foi, na interpretação de Mattoso, uma língua quase artiﬁcial: o Tupi Jesuítico, ou Missionário, distanciado do Tupi natural que lhe serviu de base. Nos seus termos: “<italic id="italic-140cd78813514c4c03bdec3193d49cec">o </italic><italic id="italic-6deb7c5b70507563bfaaef7919d95067">missionário linguista foi catequético tanto quanto o missionário religioso</italic>. <italic id="italic-18255e070612aac04a4f0d1660b174a2">Da mesma sorte que se queria melhorar os costumes, o espírito, a moral, a religião do índio, </italic><italic id="italic-14892dedb139c71e17375d2af2fb6d12">também se pretendia melhorar-lhe a língua</italic>”, moldando-a ao latim (Mattoso Câmara 1977: 102). O campo de estudo das línguas indígenas dividia-se, assim, para Mattoso, entre uma linguística Tupi, “<italic id="italic-18cb1a5d964a98069b2fc2ad9e0eb81c">ou estudo objetivo da língua em todas as suas manifestações e especialmente as orais</italic>,” ainda por ser feito, e uma ﬁlologia Tupi, “<italic id="italic-5f304b18f89da4c4d53b54dbcc7cb85d">interessada na literatura de intenção religiosa criada em Tupi </italic><italic id="italic-80253de6d9919759f2cba4715cceb27f">pelos missionários</italic>.” (<italic id="italic-534b24be2e77a09f964c650b87ce9949">id. ib</italic>. 106)</p>
      <p id="paragraph-cc6683a2448ba3f5ab3f7a511e6e4bd1">Por um lado, é inegável que as gramáticas coloniais, aí inclusas as gramáticas missionárias, se organizaram como reza certa tradição latina. Não poderia ser diferente, aliás, dado o momento histórico em que foram produzidas. Embora os missionários-linguistas da tradição gramatical em língua portuguesa não tenham explicitado o modelo que lhes serviu de referência — ao contrário dos seus colegas espanhóis que sempre renderam tributo explícito à Elio Antonio de Nebrija (1441/44–1522) — o que especialistas geralmente admitem (<italic id="italic-abaff3cf5ec1bada7d5ff45c45f16f26">cf. </italic>Rosa 1995, Zwartjes 2002, Tashiro 2003) é que a principal referência dos missionários-linguistas da tradição portuguesa<xref id="xref-9995c760358b967d2a5fadaac2e8afbf" ref-type="fn" rid="footnote-91d279d5e923e8be5fafad16a5f09c5f">3</xref> tenha sido o <italic id="italic-34ec783fa731823482f830268caf19cb">De</italic><italic id="italic-d23333241173e6b1c2b94a54d10eda01"> </italic><italic id="italic-af79f705e8c23e0ca6970800ef071c86">Institutione</italic><italic id="italic-e0f347671cdab9182b83caf4af70c453"> </italic><italic id="italic-14">grammatica</italic>, 1ª. ed de 1572, de Manuel Álvares, S. J. (1526–1582), escrita sob encomenda para a Ordem, embora não se possam descartar outras possibilidades, como a gramática de Johannes Despauterius (c.1460–1520), que logo substituiria a de Álvares na preferência dos jesuítas (Zwartjes 2002: 29). Seja como for, o modelo de gramática que regeu a tradição descritiva do Tupinambá e que designaremos aqui, de forma genérica, como ‘modelo latino de referência’— é aquele que se erige em oito partes da oração: nome, pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, interjeição, conjunção, basicamente o mesmo proposto por Donatus (metade séc. IV), Priscianus (ﬁnal séc. V, início séc. VI), Nebrija (1981[1481]) e Despauterius (1528), embora não obrigatoriamente nesta mesma ordem de apresentação, nem com exatamente o mesmo número de ‘acidentes’ (Robins 1986; Colombat 1988)<xref id="xref-cf7c4fed5557301db8b43cd9ea9eec66" ref-type="fn" rid="footnote-12df1d55b09e362a20e4d093626ecb6b">4</xref>.</p>
      <p id="paragraph-eee88ef0c3423c681233fc65eb5ae675">Acrescente-se, ainda, que reconhecer o modelo latino como forma a partir da qual todas essas gramáticas se constituíram não deve implicar, entretanto, que havia um modelo ‘latino’ único. É interessante notar neste sentido que, diferentemente de Portugal e Espanha, a linha de reﬂexão sobre a linguagem em boa parte da Europa, neste momento, ia na direção de uma gramática ﬁlosóﬁca, escolástica, baseada na lógica — cf. <italic id="italic-42bca6709f7f3cf250b653523c7aa677">inter alia </italic>os gramáticos-ﬁlósofos de Port Royal e, por exemplo, Francisco Sánchez de las Brozas (1523–1601), <italic id="italic-dd001cb0a1632dc7dbe46e370e95c5d7">El Brocense</italic>, de leitura proibida, aliás, na Ibéria do ﬁnal do século XVI (Zimmermann 1997: 14). Neste quadro de trabalho, como se sabe, a questão da diversidade linguística se colocou de outra maneira. Aqui emergiram programas de investigação que propunham a construção de sistemas universais de comunicação, ou de sistemas de organicidade perfeita (v. Eco 1995), ou a construção de teorias dos elementos comuns, universais a todas as línguas, para além do seu uso individual e histórico. Não houve interesse, nesta tradição ‘universalista’, na comparação linguística ‘empírica’, a não ser já ao ﬁnal do século XX, quando a diversidade estrutural, intra-sistêmica, também foi considerada uma propriedade universal a todas as línguas.</p>
      <p id="paragraph-b8194dc6f6030c164dad6cb7f7718f83">Nada em comum entre essa orientação ﬁlosóﬁco-universalista e os processos envolvidos na codiﬁcação de uma língua geral, ao menos tal como se deram em contexto sul-americano (v. Rosa 1995, Altman 1997a e b). A descrição de línguas tipologicamente tão diferentes sob um ‘mesmo’ molde abriria margem, a um tempo, para a relativização da universalidade deste molde (Altman 2002) e para uma apreciação, também relativa, das diferenças linguístico-culturais (v. Zimmermann 2005). Não para a criação de uma língua artiﬁcial como um ‘Tupi- jesuítico’ (Mattoso Câmara 1977: 102-103; mas v. também Edelweiss 1969: 40), ou para uma ‘gramática geral’ das línguas gerais.</p>
      <p id="paragraph-b2c169df9e518a519b34bd5cd3f3d4a3">Mas não foi esse o ideário reproduzido no Brasil por Mattoso Câmara, em meados do século XX, a quem cabe novamente a autoria do único manual brasileiro de história da linguística, suﬁcientemente abrangente, publicado até a década de oitenta<xref id="xref-d27682cc04b52bb4707ff8e385c06378" ref-type="fn" rid="footnote-9dc07c6f6467c7fbd1feb5a27d34f164">5</xref>. Mesmo assim, trata- se de um conjunto de palestras destinadas a um curso de ‘história da linguística’, originalmente escritas em inglês, para um público não brasileiro que, somente alguns anos depois, seriam vertidas para o Português e publicadas em forma de livro, postumamente, em 1975<xref id="xref-0042da13b092d91feb180d875b925253" ref-type="fn" rid="footnote-021975a30398eeda49eec47503d41842">6</xref>.</p>
      <p id="paragraph-4ae9dd6090732a57fa1e504884fbbf0a"> Mesmo constituindo, como aﬁrma o autor na sua ‘Advertência prévia,’ apenas <italic id="italic-f0ed41cfb3c59f70cf4cb9833aa5b218">“... um resumo à vol d’oiseau das grandes idéias linguísticas até </italic><italic id="italic-1c8f562032f0b1d6ed7af4f5506edada">nossos dias...” </italic>o livro cresce em signiﬁcado ao ser qualiﬁcado pelo próprio Mattoso como um complemento aos seus <italic id="italic-7ac9a2accf9e9efa2a632df097127b11">Princípios de linguística Geral </italic>(1a. ed. 1941, reimpressa em 1942), princípios esses que nortearam em grande parte as primeiras gerações de <italic id="italic-446c567cda163158e6c10de364caedbb">scholars </italic>envolvidos na institucionalização da disciplina linguística no Brasil. Neste sentido, a releitura da sua <italic id="italic-88d38143efdf91f0c59898f4c4ff9c4b">‘História Sumária da linguística’ </italic>(título que originalmente lhe deu) é de fundamental importância para a elucidação da percepção que teve Mattoso, tanto das tradições linguísticas que o antecederam na cronologia da disciplina, quanto do que denominou ‘correntes contemporâneas’.</p>
      <p id="paragraph-4e7c79b73ebca94149bdc44257d64a88">E, na sua percepção, <italic id="italic-eedc15abdcc3d4e375215157a939c9e1">“A </italic><italic id="italic-b7c795bb547524e6641570eaf85c0c4a"><bold id="bold-1">linguística </bold></italic><italic id="italic-e1e440315118ae2fc2457d45fe7f1c52">é uma ciência muito nova </italic>[que] <italic id="italic-621eab3ed6d6fab8713e502a1ed18e6b">começou a existir na Europa em princípios do século XIX sob o aspecto de um estudo </italic><italic id="italic-d1a8f0917217217b0068826369a10c55">histórico,..”</italic>(Mattoso Câmara, 1975:13), não apenas distinta da Filologia, que deﬁniu como o estudo dos textos antigos que visa à compreensão dos traços linguísticos obsoletos a ﬁm de captar a mensagem artística que encerram (cf. <italic id="italic-49fcbd36af96397705e9c683375861ee">id.</italic>:11), mas também distinta da investigação dos aspectos biológicos relacionados à faculdade de linguagem, abordagem que denominou biológica, e da tradição ﬁlosóﬁca grega, que denominou de estudo lógico da linguagem.</p>
      <p id="paragraph-2e3b9021f3833ac71a44e6354814cf47">A Filologia, ao lado da tradição normativa (<italic id="italic-c2a27bef32decbf1297ffdb8c0bafb7d">Do and Don’t study</italic>) e do estudo motivado pelas situações de contato linguístico (<italic id="italic-780a72ad4d0ddcb5060b21759826a23f">Foreign Language </italic>s<italic id="italic-6e3d402a2b64cf2d536f164abde8e561">tudy</italic>) constituíam, para Mattoso, o campo dos estudos <italic id="italic-c62ec7a31cb4512e77c4bc1d0be60a0e">pré-linguísticos, “</italic>... <italic id="italic-93b1248c824f00fffa3639e1c5432ff0">isto é, algo que ainda não é linguística.</italic>” (<italic id="italic-06a365953777dae6779d27955b791aac">id.</italic>:13). O estudo lógico (ﬁlosóﬁco) e o estudo biológico, por sua vez, por não fazerem parte do que considerou o domínio da linguagem propriamente dito, constituíam um domínio a ele limítrofe, na sua denominação, <italic id="italic-15">paralinguístico</italic>. Na retrospecção do pensamento linguístico a que se propôs Mattoso, antes do século XIX, só era possível encontrar na tradição ocidental, estudos do tipo que denominou <italic id="italic-16">pré-linguí</italic>s<italic id="italic-17">ticos</italic><italic id="italic-18"> </italic>e <italic id="italic-19">paralinguísticos</italic>, e, na tradição oriental, mesmo entre os que considerou os <italic id="italic-20">“... países mais adiantados de então, ou seja, a </italic><italic id="italic-21">China e a Índia antigas.” </italic>(<italic id="italic-22">id.ib</italic>.), não houve qualquer tipo de linguística (<italic id="italic-23">sic</italic>).</p>
      <p id="paragraph-5e2cecdaaeeca74c5996f87e372db860">A visão parcial e fortemente restrita de Mattoso da história do pensamento linguístico que, para ele, a rigor, não começou senão na Europa do século XIX, não é tão importante quanto o fato de ter sido esta a visão divulgada dentre aqueles que considero a primeira geração de pesquisadores brasileiros que então buscavam aﬁrmar sua autonomia enquanto linguistas. Como a <italic id="italic-9d5051e342cc6c4c2b3f48b7529281e9">pré- linguística e a paralinguística </italic>não se interromperam, segundo Mattoso, com o advento da <italic id="italic-8588bc7d11fdf28f284069ef650129c8">linguística </italic>(cf. Mattoso Câmara, 1975:14), excluir essas tradições do então novo campo de estudos que apenas se inaugurava no Brasil era uma consequência inevitável. Ser linguista brasileiro signiﬁcava naquele momento, ﬁliar-se a uma tradição ocidental, iniciada na Europa do século XIX, e excluir-se da tradição normativa, da investigação da linguagem enquanto fenômeno biológico, da tradição do pensamento ﬁlosóﬁco grego e, principalmente, da tradição ﬁlológica, então dominante. Como consequência, qualquer reﬂexão sobre a história do pensamento linguístico no contexto brasileiro encontrava (e encontrou), pois, no limiar do século XIX europeu, senão depois, o limite do seu horizonte de retrospecção.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-c34518c7d4569d8103cd9527af533330">
      <title>A título de considerações finais</title>
      <p id="heading-974952864e65e9ff00f82ef93ec58088">O contexto estruturalista no qual estava inserido Mattoso Câmara nos anos sessenta, que enfatizava a especiﬁcidade estrutural das línguas naturais, em consequência, irredutíveis umas às outras, o levou a interpretar a tradição descritiva missionária como uma tentativa ‘bem sucedida’ de criação de uma língua artiﬁcial, em que as especiﬁcidades estruturais e dialetais das línguas indígenas foram propositadamente desprezadas. Nada mais distante, a meu ver, do que nos revelam essas gramáticas, quando revistas no seu contexto especíﬁco de produção, isto é, a linguística colonial renascentista. (Para uma crítica recente v. Rodrigues 1996, Leite 2003 e 2005 e Altman 2007).</p>
      <p id="paragraph-b9f9a51ae4d2ed17ec03c7994f198e7a">Não se pode aﬁrmar, entretanto, que descrever centenas de línguas sob o mesmo modelo latino de referência, o que tornou possível a Hervás cotejá-las e compará-las trezentos anos depois, tenha sido a intenção inicial dos missionários, e que todos os passos que deram foram, inequivocamente, nesta direção. Ao contrário, o conhecimento linguístico parece ser um processo complexo, pluridirecional, cujas continuidades (e descontinuidades) só podem ser restabelecidas pelo historiógrafo da linguística, a posteriori, e muitas vezes, tentativamente, como no presente texto, a partir da perspectiva privilegiada do presente histórico.</p>
      <p id="paragraph-c0fa156c8d91d74f78bf0c350bc79e86">Seja como for, feitas por missionários e para missionários, o impacto dessa produção linguística na esfera civil e do estado foi, de um lado — é preciso reconhecer — pequeno para alterar conceitos (arraigados) da inferioridade linguística do índio, a que corresponderia sua inferioridade social e política. De outro, foi insuﬁciente para se fazer visível a uma linguística européia voltada, principalmente a partir do século XVIII, para a elaboração de uma gramática universal, desinteressada, como consequência, das questões sobre diversidade linguística. Se essas gramáticas contribuíram para a formação de uma cultura linguística nova, como acredito, de base experimental, não mais estritamente ‘ocidental’ e ‘clássica’, nossa historiograﬁa canônica não registrou.</p>
      <p id="paragraph-10eb75f0e05ed284f5713d4e21455b5f">Some-se a isso a retórica de ruptura da linguística (alemã e dinamarquesa) do século XIX que dividiu o conhecimento linguístico entre um período pré-cientíﬁco, aquele que a antecedeu, e um período verdadeiramente cientíﬁco, aquele que inaugurou com o método histórico-comparativo. Independentemente, pois, do seu valor descritivo, a produção linguística missionária permaneceu circunscrita ao mundo do ‘exótico’, da fé religiosa, da não-ciência, excluída dos projetos europeus que almejavam conferir ao estudo histórico e comparativo das línguas indoeuropéias o estatuto de uma ciência natural, e excluída, por extensão, da historiograﬁa oﬁcial que legitimou a <italic id="italic-a2bd0f2bc98989e069692059c4b47aa3">Neue Philologie </italic>alemã como a ‘verdadeira’ ciência da linguagem.</p>
      <p id="paragraph-14bea70dc8f1331ba66a2b4eb99f223b">Se é verdade que o linguista individual pode prescindir da dimensão histórica da sua disciplina para exercer seu ofício, também é verdade que é o passado que informa continuamente o presente. Os conceitos e os procedimentos de pesquisa que o linguista utiliza são produtos históricos. Se uma das tarefas da historiograﬁa linguística é (re)estabelecer os pressupostos, nem sempre explicitados, com que os linguistas do passado sustentaram suas práticas, bem como as consequências das suas proposições para o desenvolvimento do conhecimento que produzimos sobre a linguagem e as línguas, a investigação das condições passadas de produção e recepção do conhecimento linguístico, aí inclusas aquelas da chamada linguística missionária, é um passo importante para nosso entendimento das ciências contemporâneas da linguagem e das suas metodologias como um todo.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-7ca4b1a0694e01dc503c860caf283ca2">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-3bf2bf1ce90b722bee8804424281685e">ALTMAN, Cristina. 1993. <bold id="bold-75a86f2b46327a5bc0b65ba79f99704d">Unificação e Diversificação da Linguística: </bold>Pesquisa documental de produção linguística brasileira contemporânea (1968-1988)<italic id="italic-82bcf2de5418ef0d8eaee126c897fd63">. </italic>Tese (Doutorado). Universidade de São Paulo: Faculdade de Filosoﬁa, Letras e Ciências Humanas. Publicada em forma de livro em Munique: Lincom Europa, p.198, 2a ed. com o título de <bold id="bold-2">A Pesquisa Linguística no Brasil (1968-1988)</bold><italic id="italic-8d11565d4a9d7c955b79b69c01b6ccf6">. </italic>São Paulo, Humanitas, p. 380, 1998.</p>
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      <p id="paragraph-2ed32422fa274bac768d07a815c97577"><underline id="underline-3060b6a2a1e1b9a5a31b083e5811cd3a"> _______</underline>. <bold id="bold-6a82a443e40864a2ff5a57cef8764933">“South American Missionaries and the Components of a Descriptive Grammar”</bold>. Texto proferido na Reunião Anual da <italic id="italic-37e4da3704587c4284228b0a6219b078">North </italic>American Association for the History of the Language Sciences (NAAHoLS), conjuntamente com a Reunião Anual da Linguistic Society of America (LSA), realizado em Nova Iorque, Estados Unidos, 8 e 11 jan. 1998. 1998a.</p>
      <p id="paragraph-8d0539936f3c0247d7b15377d25f4ae2">_______<underline id="underline-11e21c5dc5f5588fede65a6064668bf4"> </underline>. <bold id="bold-409a35a2e65949bd15f6ee3d6d59d1c9">‘Rules’ and ‘Use’ in 16th and 17th Grammars of South American Languages</bold>. Texto proferido na XV Annual Meeting of Henry Sweet Society for the History of Linguistic Ideas, realizada na Vrije Universiteit Amsterdam, Holanda, 6 e19 set. 1998. 1998b.</p>
      <p id="paragraph-d8b71abc5285c00cde18890e92f85660"><underline id="underline-7665581ade6ec4d3345514b201fd883b"> _______</underline>, coord. <bold id="bold-1f2c1cb131803d4338a33d73de4399a8">Nossa língua e Essoutras. Diversidade e universalidade na linguística latino-americana</bold><italic id="italic-e7645899b88da6bf954c5000bd234994">. </italic>Projeto integrado CEDOCH-DL/USP. Boletim VII do Centro de Documentação em Historiograﬁa Linguística<italic id="italic-60a79cc457d1f0192c35ca866c72b45f">. </italic>São Paulo: Humanitas. 2001.</p>
      <p id="paragraph-9f155e1654745412b5b20ef2e5dbb055"><underline id="underline-2eea47530a8b9f547472ad8344c0382a"> _______</underline>. <bold id="bold-1d071cdd864d8a33ab141efb918de8fa">“As Línguas Gerais e a Empresa Missionária Colonial. Linguagem e Representação Metalinguística”</bold>. In Bessa Freire &amp; Rosa, orgs. 2003. p.77-83.</p>
      <p id="paragraph-79533789d61850272d19066ef7690e22"><underline id="underline-5"> _______</underline>. <bold id="bold-5d16e1ce37f1a4d5ee36ab0b7fd3ff89">“Artigos e Pronomes na Tradição Linguística Missionária </bold><bold id="bold-9ec831ed91258dec363d98338f8605ea">da</bold><bold id="bold-7"> </bold><bold id="bold-8">Língua</bold><bold id="bold-9"> </bold><bold id="bold-10">mais</bold><bold id="bold-11"> </bold><bold id="bold-12">Falada</bold><bold id="bold-13"> </bold><bold id="bold-14">na</bold><bold id="bold-15"> </bold><bold id="bold-16">Costa</bold><bold id="bold-17"> </bold><bold id="bold-18">do Brasil”</bold>. Romani en interacción: entre historia, contacto y política. Ensayos en homenaje a Klaus Zimmermann, ed. por Martina Schrader-Kniffki y Laura Morgenthaler García, Frankfurt am Main: Iberoamericana/ Vervuert. 2007. p.837-854.</p>
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      <p id="paragraph-e7f78b244edf99d33ee1bf4de5c03ab4">WONDERLY, William L. &amp; Eugene A. Nida. <bold id="bold-8bf07cf7ac72e949214464e105d288e0">“Linguistics and Christian Missions”</bold>. Anthropological Linguistics 5.1. p.104-144. 1963.</p>
      <p id="paragraph-617728290d119ed7c50e81993a5caf6c">ZIMMERMANN, Klaus. <bold id="bold-229d7017e792faaeafb8bec4669f687e">La Descripción de las Lenguas Amerindias </bold><bold id="bold-c828db93b68246e2d44c234e2ba64233">en la Época Colonial</bold>. Frankfurt am Main: Vervuert; Madrid: Iberoamericana. ed. 1997.</p>
      <p id="paragraph-0625b7bf652954ccf17e15d949ff12e0"><underline id="underline-6c5913b71ad011fe806a94b6f85138b8"> _______</underline>. <bold id="bold-67115b3ea17850b23fa3c25c497dcf40">Traducción,</bold><bold id="bold-9bb6446bbfe770f1350114fcd766102a"> </bold><bold id="bold-58d8564aff70038cc9313960f34da9f1">Préstamos y Teoría del Lenguaje: </bold>La práctica transcultural de los linguistas misioneros en el México del siglo XVI. In Zwartjes &amp; Altman, ed. 2005. 2005. p.107-136.</p>
      <p id="paragraph-e931d74ebdfade09784095de20909b04">ZWARTJES, Otto &amp; Cristina Altman. <bold id="bold-cbba372e5cb19eafa2fe7c30add31850">Missionary Linguistics II/ Linguística Misionera II</bold>. Orthography and Phonology. Amsterdam &amp; Philadelphia: John Benjamins. eds. 2005.</p>
      <p id="paragraph-0ff67a03e80370b6856fbd226bffd36b"><underline id="underline-5c4db838e6bf9be219ddcf251df4151b"> _______</underline>&amp; Even Hovdhaugen, <bold id="bold-f4096bfa3d3f124cb083ffd32ec6138a">Missionary</bold><bold id="bold-2fb538507e7624f8f8a75c3dccacc11b"> </bold><bold id="bold-4e241ddf5b5d33e492b01838624a1f37">Linguistics I/ Linguística Misionera I. </bold>Amsterdam &amp; Philadelphia: John Benjamins. eds. 2003.</p>
      <p id="paragraph-0081adf23ced15bf81da429ead29cfa4"><underline id="underline-2f844514d488a95046bc316ad4b0d976"> _______</underline>, Gregory James &amp; Emilio Ridruejo. <bold id="bold-c240f00442e3016c4a24fb5248c2ba6c">Missionary Linguistics III/ Linguística Misionera III</bold>. Morphology and Syntax. Amsterdam &amp; Philadelphia: John Benjamins. eds. 2007.</p>
      <p id="paragraph-74d8287b56fbedb71501bae7000a7290">_______<underline id="underline-9a1c309638604d9b88dbdcd6a2862669"> </underline>. <bold id="bold-d426325072c76fe6c943736f64559635">“The Description of the Indigenous Languages of Portuguese America by the Jesuits during the Colonial Period. The impact of the Latin grammar of Manuel Álvares.” </bold>Historiographia Linguística 29.1/2. p.19-70. 2002.</p>
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    <fn-group>
      <fn id="footnote-bec70ce42aa16ae64f078340265ec403">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-a765a1b54bbc8af013095cc7cac99bc7">Há, sem dúvida, uma respeitável literatura bibliográﬁca sobre a produção americanista — por ex. Backer &amp; Backer 1869-1876, Mendiburu 1874-1890, Muñoz y Manzano 1892, Pastells 1912- 1915, Leite 1938, Tovar 1961, Meliá et al. 1987 — que não supre , entretanto, o interesse em se preservar um <italic id="italic-77fa87c06f1e377d746eb06af66829ca">corpus </italic>de textos e não oferece (e nem é seu objetivo oferecer) uma discussão sobre sua conﬁguração teórica.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-8b84385c5b30109cd0e519af61869332">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-768f453d9fe31bb2737a162020aff4f0">Há referências a um trabalho conjunto dos P. José de Anchieta e P. Manuel Viegas (1533–1608) sobre a língua dos índios <italic id="italic-000d5de64a01b8a8610f3cbff9c852e3">maromomi </italic>(= <italic id="italic-5b2bb8ac4f8ec3d090b8f9c3049d4865">maromemim</italic>, <italic id="italic-f836b415240dfd8b94166948d640bd5b">marumimi</italic>, <italic id="italic-4">guarumimim</italic>, <italic id="italic-5">guarulho</italic>) de que não restou cópia (Rodrigues 1998: 61). Quanto aos vocabulários, seria preciso acrescentar a este elenco: Anônimo. 1938[1621]. <italic id="italic-6">Vocabulário na língua brasílica</italic>. Manuscrito Português-Tupi do séc. XVII coord. e pref. por Plínio Ayrosa. São Paulo: Departamento de Cultura. (2a ed., Boletins 137 e 164 da Faculdade de Filosoﬁa Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 1952 e 1953.); Anônimo. 1771 (ms. inédito). <italic id="italic-7">Dicionario da lingua geral do Brasil que se falla em todas as villas, lugares </italic><italic id="italic-8">e aldeas deste vastissimo Estado</italic>. [Escrito na cidade do Pará, anno 1771]. Coimbra: Universidade de Coimbra, ms. 81; Anônimo. 1751 (ms. inédito). <italic id="italic-9">Dicionário português-brasiliano e brasiliano-português</italic>. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, ms. I-1, 1, 14; Anônimo. 1795 (1ª. edição). <italic id="italic-10">Dicionário por- </italic><italic id="italic-11">tuguês-brasiliano e brasiliano-português. </italic>Lisboa: Ofﬁcina Patriarcal; Ayrosa, Plínio. 1934. <italic id="italic-12">Dicionário português-brasiliano e brasiliano-português</italic>. [Reimpressão da 1ª. parte da edição de 1795 (Lisboa: Ofﬁ- cina Patriarcal, ano MDCCXCV. Com licença, sem designação do autor), seguida da 2ª. parte, até então inédita, ordenada e prefaciada por Plinio M. da Silva Ayrosa]. <italic id="italic-13">Revista do Museu Paulista</italic>. São Paulo: Imprensa Oﬁcial do Estado, tomo XVIII.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-91d279d5e923e8be5fafad16a5f09c5f">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-d3e01fad2b7fd80e76fb0094c7cd31ec">A despeito do fato de Anchieta ser, a rigor, espanhol, uma vez que nasceu, em 1534, em Tener- ife. Mas estudou em Coimbra entre 1548 e 1551 (Rodrigues 1997: 373) e, uma vez no Brasil, aos 19 anos, reportou-se sempre ao ramo português da Cia. de Jesus, até sua morte em Lisboa, em 1597.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-12df1d55b09e362a20e4d093626ecb6b">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-ec7d9c0782661454c27a9225be708c9a">Do ponto de vista do número e hierarquia das partes de que se compõe a gramática, Anchieta (1990 [1595]) é, relativamente, o mais ‘livre’ em relação ao modelo de referência. Desenvolvida em dezesseis capítulos, sua gramática se inicia com um apanhado geral das letras, ortograﬁa, pro- nunciação e acento (1-9), seguido da exposição das propriedades da morfologia dos nomes (9- 10v), dos pronomes (10v-17) e dos verbos, de longe a parte mais extensa da gramática (17v-40; 46-58v), intercalada com uma enumeração das preposições (40-46). Não há capítulos especial- mente dedicados aos advérbios (embora a eles se faça menção em alguns pontos da gramática), às interjeições e às conjunções. Já a gramática de Figueira (1621), que teria, entre outros, o mérito de ter ajustado a gramática de Anchieta ao cânone latino adotado pela Cia. de Jesus (Rosa 1995: 280) é a que segue, de fato, bem de perto, o modelo prisciano das 8 partes do discurso.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9dc07c6f6467c7fbd1feb5a27d34f164">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-108180a698ff33fa30b6be9424c8d1ef">Outros manuais de História da Linguística entraram no país até os anos oitenta, em versão brasileira portuguesa, espanhola ou argentina e tiveram alguma recepção nos cursos de gradu- ação da década de setenta: principalmente, Thomsen 1945 (versão espanhola; até onde pude veriﬁcar, nunca traduzido para o português); Machado 1942 (orig. português); Leroy 1963; Gue- vara &amp; Llorente 1967 (orig. espanhol); Vilanova &amp; Lujan 1950 (orig. espanhol); Coseriu 1980; Malmberg 1964 [1959]; Mounin 1970[1967], 1972; Robins 1967; Lepschy 1971.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-021975a30398eeda49eec47503d41842">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-103ee4fc617526207aeb9496ad131d41">Nas palavras do autor: “Este despretensioso livrinho teve sua origem num curso sobre ‘História da Linguística’, que dei no verão de 1962 na Universidade de Washington, em Seattle, Wash., como professor visitante para o Instituto Linguístico organizado por aquela Universidade em cooperação com a Sociedade Linguística da América. Elaborei, para isso, minuciosas súmulas em inglês, que, a pedido dos alunos, foram datilografadas e mimeografadas e despertaram certo interesse dentro e fora da Universidade.” (Mattoso Câmara s/d, ‘Advertência prévia’ ao seu <italic id="italic-fe45d9a6ace28ddbfa56baaf1425bf59">His- </italic><italic id="italic-3a642f02e38657cbb8f0cb4ecd5594c4">tória Sumária da Linguística</italic>, manuscrito inédito). Agradeço a Angela Maria Ribeiro França que me cedeu cópia de parte do manuscrito inédito de Mattoso Câmara.</p>
      </fn>
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