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        <article-title>MAPEAMENTOS METAFÓRICOS A PARTIR DO ESQUEMA IMAGÉTICO DE CONTENTOR: O CASO DE <italic id="italic-e6a76570394dd9312ef8a538fea0e419">EM</italic></article-title>
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            <given-names>Aparecida de Araújo</given-names>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="jul/dez 2011" />
      <volume>10</volume>
      <issue>2</issue>
      <fpage>43</fpage>
      <lpage>65</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-b65b3d7f33bec4e8ec61aa5f149afacd">Este artigo explora a metáfora conceitual como fenômeno cognitivo motivador para usos locativos e não locativos da preposição <underline id="underline-d463e47948a1f1c76e15b4b5f16d2ce3">em</underline> do PB, debruçando-se mais especificamente sobre diferentes processos cognitivos envolvidos nesses significados. Entre estes, destacam-se a “lógica básica” dos esquemas imagéticos, transformações de esquemas, efeitos de semelhança estrutural e de semelhança funcional e correlação de experiências. Assume-se como premissa que os usos espaciais e não espaciais dessa preposição compõem uma estrutura polissêmica sistemática e motivada, cuja origem sincrônica pode ser explicada a partir do esquema imagético de CONTENTOR.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">In this paper, we analyze conceptual metaphor </italic>
          <italic id="italic-2">as a cognitive phenomenon motivating locative and non-locative uses of the Brazilian-Portuguese preposition <underline id="underline-1">em</underline>. More specifically, we </italic>
          <italic id="italic-3">focus on the various cognitive processes involved in these meanings. Among these phenomena, </italic>
          <italic id="italic-4">we highlight the “basic logic” of image schemes, image scheme transformations, effects of structural and functional resemblance, and experiential correlation. Our basic assumption is that spatial and non-spatial uses of this preposition constitute a systematically-motivated </italic>
          <italic id="italic-5">polysemous structure, whose synchronic origin can be accounted for in terms of</italic>
          <italic id="italic-6" />
          <italic id="italic-7">mappings from </italic>
          <italic id="italic-8">the CONTAINER image scheme.<italic id="italic-9"/></italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-1bba6f12363f2d4864862b7e6e2fff96">Conceptual metaphor</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-7ac6bf95f9cfd1a298dbec441757a4c1">Image scheme</italic>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-90eb07c578265f75303b4454bf7599dd">Polysemy</italic>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-3210c30d57d11bbe37e91347ac586ae3">Preposition</italic>
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    <sec id="heading-16289a7e24e6ac820ba58e1044fd99a1">
      <title>Introdução<xref id="xref-142d4a0f0f81ddf27079eb93b03e52e3" ref-type="fn" rid="footnote-c4b9869f204de39b27fd002276bd890d">1</xref></title>
      <p id="paragraph-1">O propósito deste artigo é demonstrar o papel dos esquemas imagéticos (JOHNSON, 1987) como ponto de partida de metáforas conceituais (LAKOFF e JOHNSON, 1980) nos casos em que uma mesma preposição é empregada para se referir a domínios distintos e se constitui, assim, numa estrutura polissêmica. Para isso, apresenta-se uma análise de usos atestados locativos e não locativos da preposição <italic id="italic-f2d797a47a0a125ec2d5715bc595f4c3">em </italic>do português do Brasil, em domínios não espaciais, em que se demonstra como tais usos podem ser relacionados, de maneira sistemática, a empregos espaciais dessa forma linguística, os quais compartilham um esquema imagético de CONTENTOR.</p>
      <p id="paragraph-2">Admite-se, assim, que processos de extensão semântica seguem, <italic id="italic-77b7150032cae37e0c861428cd841617">em geral</italic>, a direção do concreto para o abstrato (LAKOFF,1987: 268; SWEETSER, 1990: 18; PÜTZ, 1996: xviii; GRADY, 1997a: 288), embora</p>
      <p id="paragraph-3">também possa haver mapeamentos entre dois domínios concretos ou, ainda, partindo de um domínio abstrato para um concreto (STEEN, 2007: 172). A expressão “cadeira em couro” seria um exemplo de extensão metafórica da preposição <italic id="italic-e96075c6242d0ba432227aa91244e178">em </italic>na qual o domínio alvo também é concreto. Além disso, também a propósito de domínios conceituais, entende-se que a noção de ‘localização’ não está restrita a usos espaciais, como demonstram “no dia 1º de outubro” e “entrei na seleção”.</p>
      <p id="paragraph-09ad5cc01cda9137828c24538f363734">Com a análise descrita mais abaixo, que inclui amostras de três jornais brasileiros de grande circulação, também se pretende corroborar a ideia de que, em muitos dos casos, os mapeamentos envolvem diferentes aspectos do processamento cognitivo além da ‘transposição’ da <italic id="italic-478b8cbee0cd3721739df0303bb05e7b">estrutura </italic>do esquema imagético de um domínio para outro.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-4361968aa31c59a67d86baa1f66777fa">
      <title>1. Esquematização e esquemas imagéticos</title>
      <p id="paragraph-45d7ba8c7e3c792c3b08eb39f5b47c22">Nossa capacidade para comparar objetos e eventos, selecionar aspectos relevantes e abstrair padrões recorrentes na experiência nos permite formar <italic id="italic-b9826e1408bb5efaa06db222efc5d7db">esquemas </italic>que representam uma categoria ou conceito e que se organizam como <italic id="italic-b04fc20e0a095cf6260dae0e72f3339a">gestalts. </italic>Essas e outras habilidades têm papel capital na linguagem, como afirma LANGACKER (1987: 100-105, 162). Segundo esse autor a recorrência de experiências semelhantes gera o <italic id="italic-5f94aef0d06f5ca1796db2b6e13e480b">entrincheiramento </italic>de padrões na memória do falante, como rotina estabilizada, afirmação que reflete o espírito da proposta experiencialista e corporificada que caracteriza a Linguística Cognitiva.</p>
      <p id="paragraph-e57f07a7b6ab3915f827718c580b6eab">Esquemas podem ser usados para explicar o significado da categoria das preposições, que designam uma relação assimétrica entre duas entidades. Uma delas, denominada <italic id="italic-ec7fdbceab1210f8f8ce0447d80ed9cc">trajetor</italic>, é o objeto focal primário (figura, na <italic id="italic-6bd9d934f443e93e538deec2c6ab6239">Gestalt</italic>) e a outra, o <italic id="italic-23d3387394521ebfc09f611e46daa522">marco</italic>, é o objeto focal secundário (ou fundo). Diferentemente de <italic id="italic-d882e32a5036d5d77ed237d550edcd86">em</italic>, outros esquemas preposicionais podem conter informação mais específica de natureza topológica e mesmo geométrica. Entretanto, de qualquer modo, predicações relacionais como as preposições dependem conceitualmente das duas entidades, como se revela no exemplo (1): o significado da preposição <italic id="italic-0d7c18f72bc8abe8081d60505597ec31">em </italic>requer que os conteúdos de “o novo livro” (o trajetor) e de “todas as grandes livrarias” (o marco) também sejam acessados.</p>
      <p id="paragraph-4">(1) <italic id="italic-b9a0e605c0a94499eddaf6895595e112">O novo livro </italic>está em <italic id="italic-10">todas as grandes livrarias</italic>. (JB – 21.06.2008)</p>
      <p id="paragraph-3903cefe7c85cc46d93ffc4b4b859322">Segundo JOHNSON (1987: 29), um esquema possui um nível básico de especificidade e não se refere a nenhuma instância de uso em particular e, tampouco, apenas à capacidade linguística. Entre essas estruturas mentais, ele destacou uma variedade particular, originada em nossa experiência sensório-motora cotidiana, a que denominou <italic id="italic-73d0c50a761355574b8e3e991ea98813">esquema imagético. </italic>Entre os tipos encontrados na literatura, HAMPE (2005: 2) destaca os esquemas imagéticos de CONTENÇÃO/CONTENTOR, EQUILÍBRIO, PARTE-TODO, ATRAÇÃO, PERCURSO/FONTE-PERCURSO-ALVO, CENTRO- PERIFERIA, ELO, REMOÇÃO, COMPULSÃO (JOHNSON, 1987; LAKOFF, 1987), CONTATO, SUPERFÍCIE, OBJETO, COLEÇÃO, CHEIO-VAZIO, ITERAÇÃO, FUSÃO (JOHNSON, 1987) E VERTICALIDADE E FRENTE-VERSO (LAKOFF, 1987).</p>
      <p id="paragraph-f7a60395bc782612e3cbdbdc2327226f">Essas <italic id="italic-b5672c42a7787236f56f663e98bf0a83">gestalts </italic>constituídas pelos “contornos” da experiência são dotadas de estrutura interna e possuem grande flexibilidade topológica. Isso permite que elas se transformem conforme variem as experiências das quais se originam. Dessa forma, o conceitualizador pode, mentalmente, sobrepor esquemas, girá-los, condensar um conjunto de objetos em um todo homogêneo, focalizar sua atenção em pontos diferentes ao longo de um trajeto ou seguir uma trajetória (JOHNSON, 1987). Além disso, eles também possuem uma lógica básica de funcionamento, como destaca LAKOFF (1987: 272).</p>
      <p id="paragraph-8e10b5714f0e1087ff7a368920be671e">Tais características permitem que os esquemas imagéticos atuem na categorização de novas experiências por comparação e, mais importante para este estudo, possibilitem a ocorrência de mapeamentos metafóricos. Por essa razão, elas são exploradas, a seguir, nos esquemas imagéticos de CONTENTOR, de FONTE-TRAJETO-ALVO e de CONTATO.</p>
      <p id="paragraph-5">O esquema imagético de CONTENTOR é central na semântica da preposição <italic id="italic-3ded964ad27935b9008cfafbcda11238">em</italic>, sendo o mais frequente na polissemia dessa preposição (OLIVEIRA, 2009). Ele envolve um objeto de duas ou três dimensões, constituído por um lado exterior, um limite ou fronteira e um interior,no qual se situa outro objeto (LAKOFF e JOHNSON, 1999: 32-3). A emergência desse esquema imagético decorre de padrões percebidos em situações como estar em/dentro de uma sala, observar um objeto no interior de outro, etc. Como parte da interpretação do exemplo a seguir, pressupõe-se uma configuração espacial de movimento para dentro de um CONTENTOR.</p>
      <p id="paragraph-cfe34ecdea3078a6afd55bdf0b69a2c1">(1) Despeje o suco <italic id="italic-33e83a8811b8e975da20c1a6806cc3e7">num copo</italic>.</p>
      <fig id="figure-panel-33a156acf379db074391e0ec8f7e718a">
        <label>Figure 1</label>
        <caption>
          <title> FIGURA 1: Representação do esquema imagético complexo que inclui um ‘trajeto’ para dentro de um ‘contentor’: o retângulo menor representa o CONTENTOR (copo), com seu interior em foco. A seta representa o movimento evocado pelo verbo “despejar”. A entidade que se desloca (suco) aparece como o círculo.</title>
          <p id="paragraph-65978d4c41e56bb06ad144ff367ad43f" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-3a53868681c25065eca59668f31b8cbf" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1_2.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-584cf89d388e436638ba1f4da4e1d1a0">Esse esquema é neutro quanto aos eixos vertical, horizontal e ortogonal e, como toda representação desse tipo, não inclui aspectos pragmáticos, como, por exemplo, a disposição do copo e o trajeto canônico do suco em função da força da gravidade.</p>
      <p id="paragraph-44d63fbca82d77bd22fc2d60f640cae2">Por sua vez, o esquema de FONTE-TRAJETO-ALVO, que também faz parte do exemplo (2), é constituído por um ponto de partida ou origem, um alvo e uma sequência de localizações contíguas ligando os dois extremos. A âncora experiencial desse tipo de esquema são situações de movimento, tão diversas como o trajeto de casa para o trabalho ou o caminho percorrido por um foguete lançado ao espaço.</p>
      <p id="paragraph-f58c1bd71fd17c30d3375e07ca4e603b">O esquema complexo (CONTENTOR/FONTE-TRAJETO-ALVO) também constitui o significado das preposições inglesas <italic id="italic-5eb9d719914eced109b7e4850df2513b">into </italic>e <italic id="italic-eaf5a905bdfbd33d0ebe8c4e79d06a93">out of</italic><italic id="italic-df9509efb2fd62fee623c4aa3aad396d"> </italic>(LAKOFF e NÚÑEZ, 2000), e representa um dos tipos de transformação mencionados anteriormente (sobreposição de esquemas). No exemplo</p>
      <p id="paragraph-06864a4373c204077e05aca9b3948585">(2) acima, devido à baixa especificidade semântica da preposição <italic id="italic-601ad3f60c07de16736924f812169b31">em </italic>do PB, as noções de ‘alvo do movimento’ e ‘localização no interior de um contentor’ são inferências feitas a partir do verbo, da preposição e do conhecimento enciclopédico do falante.</p>
      <p id="paragraph-f079cb5c85f578df186382715f773070">O esquema imagético de CONTATO também se aplica a usos dessa preposição, quando duas ou mais entidades se tocam, como na situação descrita em (3). Aí, a noção emerge da disposição dos jogadores em relação à quadra e indica a ausência de lacuna entre as entidades. Através de seu conhecimento leigo sobre a física do dia a dia, o falante compreende o efeito funcional de ‘suporte’ que a quadra exerce em relação aos atletas como uma consequência comum da configuração espacial.</p>
      <p id="paragraph-6d6ca8d5c351ae7f3cfb96c4d1a4cbf6">(3) Os atletas jogam sentados <italic id="italic-327d0a6ead349709bacd20f2a891990c">na quadra</italic>. (3f)</p>
      <fig id="figure-panel-67aa43d25369c18fd9dc123e2e2ce50d">
        <label>Figure 2</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 2: Representação do esquema de CONTATO, sem orientação intrínseca, no qual se destaca um objeto (o círculo) em contato com uma superfície.</title>
          <p id="paragraph-f5ee9751f081b7679a95d3cba7790f2a" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-64760475e7278c0f195495cf2e1db02d" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="2_2.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-e8e3cf91bbe645c9497c865511678437">Além desses esquemas, a noção de ‘localização’ também caracteriza a semântica de <italic id="italic-b78081e7fd3e2e31ee9a7621151f1685">em, </italic>sem, contudo, constituir um conceito imagético nos termos descritos acima. Esses esquemas são obtidos na associação de <italic id="italic-e55b36a3aebde4444bf80a7e4f39615b">em </italic>com outros elementos, que formam, juntos, instâncias mais específicas daquela noção e, como se verá a seguir, sua importância também se deve a seu potencial para motivar a polissemia.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-27e44122fc4653d102c42b21edf6050e">
      <title>2. Esquemas imagéticos e usos metafóricos locativos</title>
      <p id="heading-a534d0d6dde84f8f8c97316aced1f28f">Os mapeamentos metafóricos podem ser motivados pela <italic id="italic-e28d33bd961f1c8afd8e0fdbe5bc879e">semelhança perceptual </italic>(LAKOFF e JOHNSON, 1980; GRADY, 1997b). Nesse caso, conceitos de domínios distintos são associados devido a semelhanças físicas ou características abstratas percebidas. É o que se observa em um grande número de usos metafóricos locativos da preposição <italic id="italic-2f8af73fdcda3867265941ad6cabde95">em</italic>, instanciados como localização no interior de um contentor ou no alvo de um movimento, que podem igualmente envolver outros processos.</p>
      <sec id="heading-7e6c7e84157a90b7ebf1b93b55ff2d78">
        <title>2.1. Palavras como contentores</title>
        <p id="paragraph-9d4f4a6a2d2fd7b0d2841f8844f7b906">O fenômeno conhecido como a Metáfora do Conduto, (REDDY, 1979), em que A MENTE É UM CONTENTOR e AS IDÉIAS SÃO ENTIDADES,</p>
        <p id="paragraph-1a59b0824c7ae0ba3ec0e2263692f125">é abundante na linguagem e determina que a comunicação se dá pela transferência de ideias (objetos) da mente do emissor para outro CONTENTOR, as palavras, e, em seguida, para dentro da mente do ouvinte. Observa-se aqui a lógica básica, segundo a qual a localização do contentor define a localização do objeto contido. No exemplo (4) a seguir, as palavras “carregam” as ideias do técnico a respeito do que aconteceria a seu time em Pequim.</p>
        <p id="paragraph-09c79b2f5f7078c6c1b901dc21f2cfa0">(4) A seleção masculina de vôlei do Brasil viverá nos Jogos de Pequim o fim de uma geração “surreal”, <italic id="italic-08f97dcb7a2c96d8b53b1a66a31b400d">nas palavras </italic>de seu comandante. (Estadão – 24.06.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-6abbf9860bc4e5abbaa348aaa7b304a3">
        <title>2.1. Localização no tempo</title>
        <p id="heading-89097872f94e51fad1306ccae3b8d177">Vários autores, entre eles LAKOFF e JOHNSON (1999: 128, 139- 169), discutiram a dependência conceitual entre o domínio temporal e nossa conceitualização do espaço no pensamento ocidental, destacando particularmente a ligação entre o tempo e o movimento. Nessa metáfora, tempos são considerados objetos. Assim, o início do trajeto é mapeado para o primeiro instante de um período de tempo; o fim do trajeto, para o último instante desse período; e a sequência de pontos que formam a região interior do trajeto, para o próprio intervalo de tempo, desconsiderados o primeiro e o último instantes (SMITH, 1994).</p>
        <p id="paragraph-a5bdad66e542199e5f53c83d4f5cc30d">Enquanto certas locuções prepositivas e preposições (por exemplo, <italic id="italic-42d91f998fb818c3e9dba78e940066a9">através de </italic>do português e <italic id="italic-d10f96821df4b9f5646e20b250e0423f">over </italic>do inglês) evocam toda a extensão do TRAJETO, incluindo suas extremidades, a preposição <italic id="italic-df3ce80e0cff6bbcfe206929f9592109">em, </italic>por sua vez, salienta apenas seu interior ou um ponto dessa região, por transformação do esquema imagético. No uso temporal (5), o processo de funcionamento do bonde é avaliado dentro de todo o período de tempo de “11 anos”, que pode, complementarmente, ser conceitualizada como um CONTENTOR delimitado onde uma atividade <italic id="italic-2bdb7a6ec5e3efb26f15cb93dc9a43bf">durativa </italic>ocorre. Já em (6), o trajetor, a falência do banco, é um evento sem duração interna (<italic id="italic-7fde5f54e7faa061f0e380b25c93914d">achievement</italic>, de acordo com VENDLER, 1967), que ocupa apenas um ponto do interior do marco “neste ano”. E em (7), o marco “dia 1º de outubro” não é elaborado internamente como um CONTENTOR e sim como <italic id="italic-9e602e1dad70a6df3c78e10f35b932dd">ponto </italic>de referência para a entrega do helicóptero, que, em termos aspectuais, é um evento derivado de verbo de <italic id="italic-d73ba321dc802430c14af86b970dba5a">achievement</italic>.</p>
        <p id="paragraph-41ee498ae257ce828baad1d616a36819">(5) ... <italic id="italic-c1b07e645bf5e8b1613b0d867bf8f933">características técnicas que sempre funcionaram em seus 11 anos de </italic><italic id="italic-b918c7bb22b8a983b96316fbdfc49179">existência. </italic>(JB – 21.06.2008)</p>
        <p id="paragraph-c705095444e681501c344296706dc2e6">(6) Trata-se do quinto banco a falir neste ano no país. (Estadão – 24.07.2008)</p>
        <p id="paragraph-7">(7) <italic id="italic-0093d8be9e37d3b3717202d4498da7cf">O helicóptero </italic>foi entregue ao Governo do Estado <italic id="italic-11">no dia 1º de </italic><italic id="italic-12">outubro. </italic>(Estadão – 24.06.2008)</p>
        <p id="paragraph-9">Os esquemas cujas estruturas são mapeadas para o domínio temporal podem ser encontrados em usos espaciais nos quais o trajetor ocupe todo o interior do CONTENTOR ou apenas parte de seu interior, ou ainda, o marco possa ser conceitualizado como um ponto.</p>
        <p id="paragraph-d665c60f93ca1fce7b93a41b93c24767">(8) ...[o meteorito] foi mantido <italic id="italic-78de88ac8f172100da859940528ef6ef">em nitrogênio em um ambiente isolado</italic>. (Estado de Minas – 06.08.2008)</p>
        <p id="paragraph-08c05f50d1ae76b8f2705d1a8d243c33">(9) Havia cinco frascos de lança-perfume <italic id="italic-43c98402d3845660abd5984e662065dd">no carro dirigido por </italic><italic id="italic-11c1fc90c3b2abfebaeddacf3839cda4">Lombardi </italic>(Estadão – 24.06.2008)</p>
        <p id="paragraph-542b6c79b933b6b1b96fe58116235c30">(10) <italic id="italic-4e89ba8ac62a9471c1660478aeb6ebb6">No km 405</italic>, o cenário é de bombardeio. (Estado de Minas – 21.06.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-62c24f0c67e438061dec0078d759cc53">
        <title>2.3. Localização em grupos</title>
        <p id="paragraph-3a7c98d764beb7ca04a08bc7d23072e0">Em certos usos metafóricos, o conceito de ‘localização’ aparece mais definido, como no caso de ‘grupo’, que remete aos esquemas de COLEÇÃO (JOHNSON, 1987) e à transformação multiplex-massa. Esta última diz respeito à possibilidade de uma entidade coletiva ser concebida como um conjunto de objetos distintos (<italic id="italic-346fa224fcc832d424c9a4d6689795ec">multiplex</italic>) ou como uma massa homogênea. Após serem conceitualizados como massa, essas entidades podem funcionar como marcos delimitados e possibilitar interações dinâmicas e estáticas com trajetores, em relação de ‘inclusão’ (TYLER e EVANS, 2003: 185). No enunciado (11), o marco “seleção”, formado por uma COLEÇÃO de jogadores e comissão técnica, é conceitualizado como um CONTENTOR delimitado, no qual se pode entrar e do qual se pode sair.</p>
        <p id="paragraph-db4e9d4fcd41f77dd1fa2fcd472f9c44">(11) “Quando eu entrei <italic id="italic-13def0368275f7234d7048b3130c3905">na</italic><italic id="italic-5839647bda2c790a07206ddd33adc0cb"> </italic><italic id="italic-8b1fe19fd480cdb7064c94b24988f34e">seleção</italic>, cobravam porque não convocava o Mineiro e o Josué...” (Estado de Minas – 06.08.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-c024cc15bc5d68352367798fe5119217">
        <title>2.4. Atividades e eventos</title>
        <p id="heading-83db90012c051c448a49b8759c07eb5c">Em muitas situações do cotidiano, existe uma forte relação cognitiva entre uma atividade e o local em que é desenvolvida (TYLER e EVANS, 2003: 189), por exemplo, entre a ocupação de uma pessoa e seu local de trabalho.</p>
        <p id="paragraph-8cb2183100ddeff7df4c6a2fb3031648">(12) Mas houve um outro erro logo no início de seus anos <italic id="italic-30d7e224a9ecc9cf2105be62b14ac911">na Casa </italic><italic id="italic-34be7d6f53d3fd8150f37be8a5b97e76">Branca... </italic>(g1.globo.com)</p>
        <p id="paragraph-4716a6fa02f720b22b50b9a3a37dd762">Nesse processo metonímico de “local por atividade”, o edifício é um conceito secundário evocado pela expressão linguística. Ocorrendo com frequência, a associação entre atividade e local se fortalece e <italic id="italic-900a0b1725f3a48e035100e1207a2dfe">em </italic>passa a ser empregada também com o nome da atividade propriamente dita. Tanto atividades (durativas) como eventos (pontuais) podem ser conceitualizados como ‘coisas’ (LANGACKER, 1987) e, consequentemente, ser imaginados como contentores ou pontos de referência, gerando a mesma motivação para o emprego de <italic id="italic-767fa4e683d05dec62797706123cf199">em</italic>:</p>
        <p id="paragraph-5518a8d369ab850b395ea0bcc186dc43">(13) Com um dos maiores atacantes de sua história <italic id="italic-b58557cb108ee132046d5eafb1feea40">no comando</italic>, os mexicanos não conseguiram vaga <italic id="italic-8d5c41cb353061e482f7b96396ec5444">nos Jogos Olímpicos de Pequim </italic>e ainda foram derrotados pelos Estados Unidos <italic id="italic-caf12525b44fed67cf7df9fa4e39dd56">na decisão </italic>da Copa Ouro. (Estadão – 24.06.2008)</p>
        <p id="paragraph-3e04864785de7bf593202713ecf3e9ee">A ocorrência de atividades e eventos como marcos de <italic id="italic-33eac89c053a7aa55559fb5b45b2007a">em </italic>(e outras preposições) é natural devido à flexibilidade de nosso sistema cognitivo que nos permite processar estágios de uma cena complexa sequencialmente ou em resumo (<italic id="italic-6b999697af422c524bd39285dca05b91">sequential x summary scanning</italic>) (LANGACKER, 1987: 145- 6, 248-9). Essa distinção se manifesta na língua, respectivamente, por meio de verbos conjugados ou de substantivos deverbais, podendo estes últimos compor o sintagma preposicional.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-15b77b2d9b5942e7b76f07918ecb36b9">
        <title>2.5. Estados e situações</title>
        <p id="paragraph-0148407ff3b78a3431197bb70c12dded">Estados e situações também são conceitualizados como regiões delimitadas no espaço (LAKOFF e JOHNSON, 1999. p. 176, 179-81), o que lhes confere propriedades semelhantes àquelas de CONTENTORES espaciais, tais como alguém estar “em/dentro ou fora/à beira de” um estado ou “cair em um estado profundo” e, portanto, ser difícil abandoná-lo. Observa-se, em (14), (15) e (16), a sobreposição dos esquemas imagéticos de CONTENTOR e de TRAJETO descrevendo uma mudança.</p>
        <p id="paragraph-50455638502f8907a07675897f672f5b">(14) Ao passar pelo canal maior, a mistura se transforma <italic id="italic-730f6609b555a950519bdb04501773bc">em fibra</italic>. (Estadão – 01.05.2008)</p>
        <p id="paragraph-48c73b37c3718022cc26617aefbc18b4">(15) Com isso, a tradição de dar notas e conceitos aos alunos <italic id="italic-8deb1cad3c07a711b533660d157dc9ba">caiu em desuso</italic>. (Estado de Minas 05.08.2008)</p>
        <p id="paragraph-8">(16) ‘Agente 86’ tem a seu favor <italic id="italic-7044fde12d79857d780bbe78074e124d">sair</italic><italic id="italic-ee16aeb2af79a910abd86cc0e544eb8a"> da mesmice. </italic>(JB – 21.06.2008).</p>
        <p id="paragraph-10">Esses usos compartilham a estrutura do esquema imagético complexo que emerge de um uso como o apresentado abaixo:</p>
        <p id="paragraph-12">(17) Anderson entra <italic id="italic-a5031fe014aa0dc5b1a3a6b3b28fcb92">em casa </italic>para contar a novidade à mãe. (Estadão – 25.06.2008)</p>
        <p id="paragraph-14">Esse processo também pode ser explicado por efeito de correlação de experiências (GRADY, 1997b), como em (18). Aqui o trajetor se localiza dentro de um ambiente duplamente qualificado como um CONTENTOR (“quitinete” e “caixa”), gerando, assim, uma resposta cognitiva natural que é a sensação de desconforto pela supressão dos movimentos, que não emerge do exemplo (19). Segundo Grady, devido à recorrência, gradativamente as sensações são desvinculadas da experiência física e passam, elas próprias, a ser expressas na linguagem em construções semelhantes àquelas empregadas com marcos espaciais, como em (20).</p>
        <p id="paragraph-16">(18) Paula mora <italic id="italic-a880582c6a6b9f1e9dcd2904f9b0f1c8">em uma quitinete </italic>que mais parece uma caixa de fósforos. (jornaldacidade.uol.com.br)</p>
        <p id="paragraph-18">(19) Paula mora <italic id="italic-2059812592db07cf84a0181c6d3254f1">em uma quitinete </italic>que mais parece uma galeria de arte.</p>
        <p id="paragraph-a734af136823293f88cc220986d19e26">(20) Hoje, os palestinos vivem <italic id="italic-06fbf0e0f4ffe0c6bfe46e0ebceecba4">em desconforto</italic>. (Estadão – 28.08.2010)</p>
        <p id="paragraph-43f246dcd2c15580fd854d7a32e421c4">Interpretação um pouco diferente pode ser obtida nesse outro enunciado que expressa a mudança de estado causada por um agente externo. O verbo “inserir” pressupõe que, por força de um agente (“poetas chineses”), o trajetor (“originalidade”) mude de posição rumo ao marco (“seu conteúdo”), o qual é afetado pela mudança e é elaborado como um CONTENTOR.</p>
        <p id="paragraph-1d23a754998399dc9ba69a25b1dbb281">(21) “Um barco remenda o mar” reúne versos de dez poetas chineses, que inserem <italic id="italic-584532f5d3ee37b121b9f8c6ceb75660">em seu </italic>conteúdo uma originalidade própria e única. (JB – 15.08.2008)</p>
        <p id="paragraph-1df7bba57bf7d5c95c29003a60b8ed9f">Em casos como esse, o esquema de CONTENTOR se sobrepõe ao esquema de DINÂMICA DE FORÇAS (TALMY, 2000; ver também SILVA, 2006), que inclui um <italic id="italic-208984a238899c9cdda695fbbdd2395e">agonista </italic>– entidade em foco – sobre o qual um <italic id="italic-89bd0fe12b741a381d80b1086691c82c">antagonista </italic>exerce sua força, provocando ou não o movimento (mudança) do <italic id="italic-5d4d04c39ea158bfa029014e21788844">agonista</italic>. No exemplo (21), o agonista é representado por “originalidade” e o antagonista, por “dez poetas chineses”.</p>
        <p id="paragraph-6">O esquema de FORÇA ‘depende’ do esquema de TRAJETO, uma vez que trata de movimento causado e emerge de situações recorrentes como a descrita abaixo, na qual o promotor é o antagonista e os tiros (os projéteis) representam o agonista:</p>
        <p id="paragraph-e8f5dc3c8465f3179f2f278c8e383c00">(22) Após um desentendimento, o promotor disparou 12 tiros <italic id="italic-ff8273e4c827fc3635db4e15ff71ed96">em Modanez e Souza</italic>. (Estadão – 24.06.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-1c151b4969475708ffa3206fac1fe537">
        <title>2.6. Finalidade</title>
        <p id="paragraph-8bdc3610e2ec755f564aa6347006686e">O esquema de TRAJETO também faz parte do significado do exemplo (23), no qual o ‘propósito’ de uma ação bastante abstrata também pode ser comparado ao alvo de um movimento físico (LAKOFF e JOHNSON, 1980). Em relação à “defesa da turista brasileira” (o marco), pode-se argumentar que representa a finalidade ou o alvo metafórico da ação do jornal. Este, por sua vez, é o trajetor em movimento.</p>
        <p id="paragraph-52e648d883a46edc8f078322a8451816">(23) O jornal espanhol El Mundo saiu <italic id="italic-cfdab95b4a2fb20b14af5c74effed439">em defesa </italic>da brasileira Janaína Agostinho. (Estadão – 24.06.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-501f12c406c5302d3bb910d52edbfc70">
        <title>2.7. Alvo de atividade cognitiva</title>
        <p id="paragraph-f0ad5a83dbace5d3e033c24df16ea303">A última categoria locativa descrita refere-se à conceitualização de certas cenas em que o observador constrói uma espécie de movimento virtual – <italic id="italic-6f5386abc2e73847eaf0fd4b96c1d6c6">fictive motion </italic>– (TALMY, 2000:110-111) cuja trajetória se constitui como uma “linha de visão”. Virtual, como explica o autor, porque a linha que vai dos olhos do observador até o objeto observado não implica qualquer movimento de fato. De uma situação como descrita em (24) emerge um esquema de movimento que sanciona outros usos em contextos abstratos.</p>
        <p id="paragraph-d83bcc3b706f7025ab20adcc70ead629">(24) Ele mantém o olhar <italic id="italic-35d1462f8dbbefb28d4669b68ada5737">no copo</italic>. (www.anjosdeprata.com.br)</p>
        <p id="paragraph-6e51d0613691c5f9263adcf9ad17fa6f">A proximidade entre percepção e cognição reconhecida por Talmy permite que, à moda de atividades sensoriais, os processos cognitivos também gerem elaborações constituídas de movimentos virtuais como acima, onde a preposição <italic id="italic-89d3002c6fd838a81238e299680355d6">em </italic>localiza o trajetor no ponto final de um trajeto fictício. Teoricamente, também há um TRAJETO cujo ponto final é o objeto do pensamento (o marco) em (25) e em enunciados com outros verbos que expressam processos cognitivos.</p>
        <p id="paragraph-8e1f424c45aaa6b5c1d629640ef1cd41">(25) “Não posso comandar meu time pensando <italic id="italic-0077b8da3183898bbfc58380e9816e19">no outro jogo.</italic>” (Estado de Minas – 06.08.2008).</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-e1fad7c2ce442c1b963b84b0a9897626">
      <title>3. Usos metafóricos não locativos: especificação</title>
      <p id="heading-63552d7e170d1a607a69ca43da470627">Outros usos da preposição <italic id="italic-a65f7a1333719343f436b171fd615098">em </italic>não são entendidos como elaborações do conceito de ‘localização’, mas como instâncias da noção de ‘especificação’. Eles emergem, em boa parte, da lógica básica (LAKOFF, 1987, LAKOFF e JOHNSON, 1999) de ‘controle’ e ‘suporte’ associados às noções topológicas de ‘inclusão’ e de ‘contato’ ou, ainda, entende-se aqui, de efeitos funcionais ou pragmáticos como aqueles propostos por VANDELOISE (1991) que constituem o que ele denominou “Relação Contentor/objeto contido”.</p>
      <p id="paragraph-93abe917f13c90ed04196374819305ad">Em função de sua <italic id="italic-f68b07f5df019301a352dd160593f71f">estrutura </italic>e <italic id="italic-79f8d78b406e497f5807d4de3393d74e">propriedades</italic>, os esquemas imagéticos apresentam uma “lógica básica” (LAKOFF, 1987: 272-273), fruto da percepção e cognição humanas, que dão significado a nossas experiências. Por essa razão, LAKOFF e NÚÑEZ (2000: 31) explicam que ela não deve ser confundida com postulados da lógica formal, visto não resultarem de operações formais envolvendo símbolos.</p>
      <p id="paragraph-eff7a6faa971c7d6d2437418ecaf4d9c">Para o esquema de CONTENTOR, podem-se inferir as seguintes consequências, segundo JOHNSON (1987: 22), LAKOFF (1987: 272) e LAKOFF e JOHNSON (1999: 31-32):</p>
      <p id="paragraph-66afaff0dd69b01e32cc1b7bd7034ade"><italic id="italic-2a13edb7ba8d00a5a31f9ac17a4efa3e">I. </italic><italic id="italic-d6064dc922096c13b7e6c4d88466e07d">O </italic><italic id="italic-08bee481f388f9fc7f623a759a9a0c80">OBJETO CONTIDO É PROTEGIDO CONTRA FORÇAS EXTERNAS</italic>, nesse caso, o calor do ambiente.</p>
      <p id="paragraph-636265626edcd2546872ee739dfa0c53">(26) Ela estava preservada <italic id="italic-e5a141c72d8ad58762e5f2ef526be426">em gelo. </italic>(Estadão – 01.05.2008)</p>
      <p id="paragraph-5bc9c3c8e1cdff400bb0673d5fb26074"><italic id="italic-74e9502e0968b8f710678071c8d57bdc">II. </italic><italic id="italic-18ad2ad4f7fe8856eb5c2d619989a9d4">A</italic><italic id="italic-4f467d40b83b283edeb7219a151810cc">S</italic><italic id="italic-ca904bb2eef071589facad2ac7635350"> </italic><italic id="italic-48b08a0e039bd21d5702fd1f78fde77c">PAREDES</italic><italic id="italic-13"> </italic><italic id="italic-14">DO CONTENTOR PODEM OCULTAR O OBJETO CONTIDO</italic>.</p>
      <p id="paragraph-e0162911a12c6411c455ab8ad33f1d5f">(27) As aves estavam escondidas <italic id="italic-15">em uma caixa de papelão. </italic>(Estado de Minas – 2007)</p>
      <p id="paragraph-2fe915af8fdc05b6d0a6e5288cea5979"><italic id="italic-16">III. </italic><italic id="italic-17">O </italic><italic id="italic-18">OBJETO CONTIDO TEM SUA LOCALIZAÇÃO RESTRITA PELO CONTENTOR</italic>.</p>
      <p id="paragraph-13">(28) A cantora passou a noite <italic id="italic-19">numa cela policial</italic>. (JB – 17.05. 2008)</p>
      <p id="paragraph-e32ed46d9c7abf42883a7d8072b87045"><italic id="italic-80deaaac98728c23e85f0de242ac0138">IV. </italic><italic id="italic-c634714c59a12e0647617f3830d34bd3">O</italic><italic id="italic-965d7dc6683d8d81e04575b84d6accd6">CORRE TRANSITIVIDADE DA CONTENÇÃO</italic>, ou seja, um objeto A contido em um contentor B, o qual está contido em um contentor C, também está contido em C.</p>
      <p id="paragraph-493b313ec3b07d81ae488b14026dffb0"><italic id="italic-ebb3737551de414e63907e3637d29ad1">(29) </italic>As aves estavam escondidas <italic id="italic-c1d7a51d50ea363f96730ee451973ab9">em uma caixa de papelão dentro de uma <italic id="italic-bd41a1cb3a8daf2be9734442c391c6e2"/></italic><italic id="italic-9264d123fff3426a5fcbc41e236fd060">bolsa de viagem. </italic>(Estado de Minas – 2007)</p>
      <p id="paragraph-dffe8b62044994c47d6bcbfeb3a6c7cc"><italic id="italic-f8d822722b1a76bd22a6e2346fb6d08f">V</italic><italic id="italic-4ea0aad9fc99fcb8855f338cc5dd4e4e">. </italic><italic id="italic-46adccb1c074ae2718eb94ca23284abc">A</italic><italic id="italic-0320fd7f245a683c07489d73cbd09104">S PAREDES DO CONTENTOR RESTRINGEM E CONTROLAM FORÇAS NO SEU INTERIOR</italic>.</p>
      <p id="paragraph-99d6ebdefc8abf57de2076df1c05df2d">(30) ...29 mil m3 de resíduos tóxicos armazenados <italic id="italic-0ab052cd6037a118e0c455d0689825e8">em valas </italic>e <italic id="italic-0225f1f6b787555119fc9e18ae5ddcfc">em galões </italic>enterrados <italic id="italic-4d7cf92c1fa695f34c02df453c6e5190">no solo</italic>. (JB – 21.06.2008)</p>
      <p id="paragraph-500531a226219302bbdb2b2c69fab060">A importância dessas implicações pragmáticas está na sua recorrência, que nos permite facilmente aprender a “lógica” da contenção. Embora nem todas sejam produtivas no português, algumas delas se estabilizaram na língua. No último dos casos acima, o efeito V inferido reflete-se na construção “nas POSS mãos” ou “nas mãos de X”, usada para indicar que X tem o poder para decidir ou agir sobre uma situação.</p>
      <p id="paragraph-c03595a7dcc6760aee0ff424f4c914c1">(31) O futuro desta campanha está <italic id="italic-ac82a366e1d27a97eb338e75d23db592">em suas mãos. </italic>(Estadão – 01.05.2008)</p>
      <p id="paragraph-020c18b1188347603239e0e15a31a089"> Esse efeito do esquema imagético de CONTENTOR também motivaria uma série de usos não locativos da preposição <italic id="italic-8e9aa7b75a41f01bf685d3a0507b3297">em </italic>que elaboram uma noção mais abstrata de ‘especificação’. De um modo geral, especificar uma entidade implica delimitar ou ‘controlar’ a abrangência de seu significado. Nesses usos, o trajetor é especificado pelo marco de <italic id="italic-d490f7bb379babc777c719ce0ba7a43c">em.<italic id="italic-4a3e94e2ea081ba0702ab466be439576"/></italic></p>
      <p id="paragraph-1935d5588d6087d41628828171ce5b4c">Nos dois exemplos abaixo, o marco delimita a amplitude do conceito que precede a preposição: em (32), o evento não envolverá, por exemplo, especialistas em linguística e, em (33), trata-se de um tipo específico de adição entre várias possíveis.</p>
      <p id="paragraph-9ae2d210c2eed898edfe8fb4570bc6ef">(32) O evento envolverá autoridades e especialistas <italic id="italic-1f8536362eefe0f049574dbfb93d8e8b">em saúde</italic>. (JB – 21.06.2008)</p>
      <p id="paragraph-8e0664447b5ff79a0da4e926ece8aff1">(33) Quem mora perto da construção diz que o local abriga assaltantes e viciados <italic id="italic-7afd79f0ff9c11b203adedce27e4dda9">em drogas</italic>. (Estado de Minas – 05.08.2008)</p>
      <sec id="heading-da06b918f0e665d5f73711633834a25c">
        <title>3.1. Forma</title>
        <p id="paragraph-ff589a66a3dfd313e2fecdbd195042b9">Outro tipo de especificação é a ‘forma’, que, além de representar certo controle sobre um objeto, pode emergir de outro fenômeno cognitivo. Como destaca LANGACKER (1987), a forma externa de um objeto normalmente está incorporada em sua representação mental, porque os limites da entidade são mais salientes que seu interior, constituindo sua <italic id="italic-7e717f6dae717c08cf669bb6ca676ed8">zona ativa. </italic>Pela relação bastante próxima entre a forma e os limites do objeto, muitas vezes apenas a forma já é suficiente para designar a entidade e seus limites (TYLER e EVANS, 2003: 196). Por isso, o emprego de <italic id="italic-37ca2620e388bf6aca1f45047d5edfc8">em </italic>passa a ser comum mesmo quando o marco é uma forma, como nos exemplos a seguir:</p>
        <p id="paragraph-5ba7b6e7c7672ff6b8924a52bcaa1b4b">(34) [O] Viaduto Santa Tereza guarda no seu desenho <italic id="italic-b8c216e82206c229e3bf9c2ba43d9ecc">em arco </italic>páginas importantes da história de Belo Horizonte. (Estado de Minas – 30.04.2008)</p>
        <p id="paragraph-ee0c680be30ce927e6f12e2762628414">(35) Lins chegou a se comparar a super-heróis de histórias <italic id="italic-f7916b7c41cdbbc178d9fca6c35f4839">em quadrinhos </italic>(JB – 15.08.2008)</p>
        <p id="paragraph-7407a7e76867d41a5116eb734ae62acb">A expressão “em arco” não evoca no falante a ideia de que o desenho do viaduto se <italic id="italic-1ac6b87448c4708b737edaf19a147b1d">localiza </italic>em um arco, mas sim que “arco” define ou ‘controla’ a forma arquitetônica da construção. Alternativamente, o marco de <italic id="italic-82ee27b1b5d729f8d5226107574f2467">em </italic>também pode ser a forma interna do objeto, o que não impede o uso da mesma preposição, como em (35). Esse é um aspecto tipológico comum, que diz respeito à neutralidade das classes fechadas quanto à constituição interna e à continuidade dos objetos que relacionam (TALMY, 2000: 30).</p>
        <p id="paragraph-a3fc11bf473e0bbd558b0d9298dcae30">Essa explicação é corroborada por construções especificadoras com <italic id="italic-e43d15b21dd9508e5f95ecd1485b13fa">em </italic>seguido por uma noção mais esquemática (forma, formato), como no exemplo a seguir:</p>
        <p id="paragraph-6e74c869ac142a80080cb30cc9ba52e3">(36) A escultura é formada por três chapas de aço, duas <italic id="italic-045b28e7560cee011b29872c1c7687f2">em forma de </italic><italic id="italic-d0ecbd28ce0cb404d1278b95db1b1a9c">triângulo </italic>e uma retangular. (Estado de Minas – 05.08.2008)</p>
        <p id="paragraph-11f3aa85ddd39f31b0b2b673d4c5ee85">Por extensão, construções com <italic id="italic-a63ca4e77565790f79176586eb61c0f9">em </italic>também determinam o modo como um processo se desenvolve. No enunciado (37), “sacrifício” não é simplesmente um estado em que o jogador possa se encontrar, mas também o modo como essa atividade será desenvolvida. E é bastante provável que seu desempenho seja controlado ou determinado pelo marco da preposição.</p>
        <p id="paragraph-47eca73c2c450a38398a3e27734fc7f1">(37) “Sou a favor de jogar <italic id="italic-87747d2a1192aaad953b678aa788cdb3">no sacrifício </italic>desde que o jogador tenha as mínimas condições possíveis de jogar”. (Estado de Minas – 06.08.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-939f48e2345caf7805e54f52391c87df">
        <title>3.2. Meio ou instrumento</title>
        <p id="heading-98d0ee61eaf86ec03c36ee8b04b7087b">Outra extensão metonímica do uso de <italic id="italic-54f77e4016da69c075a55fbf3dd0420b">em </italic>com atividades se traduz no processo pelo qual o meio ou o instrumento utilizado para realizá-la aparece em colocação com <italic id="italic-11633a03596a3ce6b76c47ad32ae1c9d">em</italic>. Essa associação é registrada no exemplo (38) abaixo (NEVES, 2000: 678. Ênfase no original). O mesmo ocorre em outros dois casos. Em (39), a ferramenta empregada delimita características da mensagem e em (40), os dois idiomas são igualmente uma forma que delimita ou controla o conteúdo informativo, ao mesmo tempo em que não se pode descartar a língua como contentora de informação.</p>
        <p id="paragraph-ff43624bb88f8ac8fb48ff05e8093947">(38) “Faz rascunho, como um colegial”, diz, ao me ver <italic id="italic-296f7402ceaa8c11d4dd67db4054a9f1">tirar na máquina </italic>outra lauda. (instrumento)</p>
        <p id="paragraph-cf39a744e9ff6a783df2e0975738df0b">(39) Crie uma nova mensagem de e-mail <italic id="italic-ed7bedb7d0a8648b6540249289131ee8">no Outlook</italic>. (Estado de Minas – 03.08.2008)</p>
        <p id="paragraph-23cd844f2ec4d4cde8c009c9e39273fc">(40) Os cartões são impressos nas duas faces, <italic id="italic-284c064a66cea60fa9b9e6702bf3b925">em inglês e chinês</italic>. (Estadão – 01.05.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-25784e9042a708f8f55657a7c63aa3f4">
        <title>3.3. Material e cor</title>
        <p id="paragraph-138c78dbef065f063be66b2fe62a92b3">De modo semelhante, as características físicas de um objeto, tais como sua cor e o material empregado em sua fabricação “controlam” a eficiência final desse artefato, como se lê nos exemplos:</p>
        <p id="paragraph-81622e5de697653806a64ec33a156d13">(41) Himel et al. 20, 1995, observaram maior eficiência para as limas de níquel-titânio quando comparadas às de aço inoxidável. (www.unincor.br)</p>
        <p id="paragraph-6e41f5de7c88c56cdc0dd7bf8761f919">(42) “A cor também tem que acentuar o corte”, Hazan continua. (www.shoppingnatural.com.br)</p>
        <p id="paragraph-8f00c0b6fc85a8066045a1c56d9dc5cb">Dessa forma, em (43), o bronze determina/controla a estética e o peso de uma escultura e, por conseguinte, sua mobilidade. Com relação ao exemplo (44), é sabido que a fotografia em preto e branco representa um nicho específico dessa arte – em comparação com a fotografia em cores – com profissionais e adeptos particulares, o que remete de volta à ideia de que a especificação pela cor é um tipo de controle.</p>
        <p id="paragraph-6c0be8469e18a8d7d3947276d7d514a9">(43) Confeccionada <italic id="italic-fa963e015f2d82d95de2182ad85575d4">em bronze </italic>pelo artista plástico Ruthnac, a escultura pesa 200 quilos e tem dois metros de altura, incluído o pedestal. (JB – 21.06.2008)</p>
        <p id="paragraph-9b789eb6d5299bd8cf92a2a8efd7024a">(44) A seção internacional do Japan Times trazia uma enorme foto <italic id="italic-1e5f21fd354bb1c03b5b60a9fdcf39b9">em preto e branco </italic>de uma favela de Recife. (Estadão – 01.05.2008)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-0ee99080e5476dfa166f9f53ae59d62a">
        <title>3.4. Suporte metafórico</title>
        <p id="paragraph-4ed551312d7d067a218a0222cbbb9d2e">A noção funcional de ‘suporte’, como já mencionado a respeito do exemplo (3), emerge de inúmeras situações espaciais que envolvem esquemas de CONTATO. Uma vez mapeada para domínios abstratos, o novo emprego passa a incorporar a linguagem por efeito de recorrência, mesmo na ausência de um vínculo físico motivador.</p>
        <p id="paragraph-909b5f6bccc2d92e6c8e031ba2d6dfb1">Além disso, uma transformação no esquema de CONTENTOR, na qual o foco da atenção recaia sobre a relação de CONTATO entre um objeto e a superfície interna do marco, também pode gerar a noção de ‘suporte’. Esse é o caso de (45). Na cena descrita, o trajetor se apoia em uma das paredes internas do marco, que tem propriedades geométricas de um CONTENTOR aberto com seu limite interno provendo suporte ao marco. Por força da recorrência de situações como essa, a forma deixa de ser relevante e a preposição passa também a ser empregada em situações de ‘contato’.</p>
        <p id="paragraph-40f38167b7bdb522d5fed8fb4cba3691">(45) Quartiero seguiu <italic id="italic-0f9170073db19e94a9fc7c950476bebd">na carroceria </italic>de uma caminhonete. (JB – 17.05.2008)</p>
        <p id="paragraph-8cc5d773931d4a0eb11ca79404ff6377">Outra razão provável são as inúmeras possíveis experiências que um indivíduo venha a ter com o esquema imagético de CONTENTOR, no que diz respeito a sua geometria. Sabe-se que os itens de classes fechadas como preposições não costumam evocar especificidades geométricas tais como a forma (TALMY, 2000). Portanto, pragmaticamente falando, é possível que <italic id="italic-6e0b78ce0ee427a2475cd7bc8617ca43">em </italic>codifique relações de inclusão com contentores totalmente fechados, como um balão, e contentores abertos, desde garrafas até objetos com concavidade mínima, como uma fruteira. Nesses casos extremos, a distinção entre ‘inclusão’ e ‘suporte’ é muito tênue, sendo impossível estabelecer, com precisão, o momento em que o trajetor deixa de estar “dentro” do marco e passa a se localizar “sobre” ele.</p>
        <p id="paragraph-b1538dd249e8ab4064472a17bf9d0a52">O mapeamento que gerou a extensão é percebido pelo uso do mesmo item lexical em construções semelhantes, variando apenas o domínio.</p>
        <p id="paragraph-4ef4fa50848a4d6c18ea57c616afd525">(46) Os trabalhos foram conduzidos por três dos seus diretores, ..., que se apoiaram <italic id="italic-b14ed45262344ccca15494e7ea93c735">em experiências </italic>feitas com camundongos. (Estado de Minas – 06.08.2008)</p>
        <p id="paragraph-35342641b2b1461d6cc8e3943e9d185e">(47) O revezamento da tocha será baseado <italic id="italic-5b46168ec37d15ca412285adb70d97c8">no princípio </italic>de que a segurança deve vir em primeiro lugar. (Estadão – 24.06.2008)</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-4e9958458f4b00a435d53397e3eb3e5c">
      <title>Conclusão</title>
      <p id="heading-78b2743a32164ec2089f0f917cae93c4">Neste artigo, buscou-se demonstrar a importância do esquema imagético de CONTENTOR na polissemia da preposição <italic id="italic-37fd53fae25a9490696a345d9b722807">em </italic>do PB, como motivação para extensões metafóricas, procurando estabelecer relações coerentes entre usos metafóricos e sua contraparte sincrônica em contextos espaciais. Foram descritos mapeamentos por sancionamento total (LANGACKER, 1987) ou parcial. O primeiro tipo corresponde aos casos em que se percebe a estrutura topológica do contentor em marcos metafóricos, e o segundo, quando as extensões metafóricas são decorrentes de efeitos funcionais, correlação de experiências ou a lógica básica dos esquemas imagéticos.</p>
      <p id="paragraph-e01063a3fb3e89177b3cc8f0833792e8">A análise pôde demonstrar duas noções mais esquemáticas que constituem a polissemia da preposição <italic id="italic-95117b789ddf44ccb64a608f2d83e1bf">em</italic>, quais sejam a ‘localização’ e a ‘especificação’, ambas derivadas do esquema imagético de CONTENTOR. Entretanto, conforme se pôde observar, quase sempre o processamento de um uso envolve múltiplos fenômenos cognitivos e, muitas vezes, mais de um esquema imagético.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-eedbed57b9eb1cef717400f1064cf657">
      <title>Referências</title>
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    </sec>
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      <fn id="footnote-c4b9869f204de39b27fd002276bd890d">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-872f4d31a82655edae6273e2c2219f63">Este artigo relata parte de uma pesquisa realizada com apoio da FAPEMIG e da CAPES.</p>
      </fn>
    </fn-group>
  </back>
</article>