<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Archiving and Interchange DTD v1.2 20190208//EN" "JATS-archivearticle1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:ali="http://www.niso.org/schemas/ali/1.0">
  <front>
    <article-meta>
      <article-categories>
        <subj-group>
          <subject content-type="Tipo de contribuição">Artigo</subject>
        </subj-group>
      </article-categories>
      <title-group>
        <article-title>ACUSATIVO E DATIVO ANAFÓRICOS DE 3ª PESSOA NA ESCRITA BRASILEIRA E LUSITANA</article-title>
      </title-group>
      <contrib-group content-type="author">
        <contrib id="person-0ef5f4978e3803892c2b2ed4cdc2842d" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>Freire</surname>
            <given-names>Gilson Costa</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-410bbe3185758c8a4af58857fc06cbd0" />
        </contrib>
      </contrib-group>
      <aff id="affiliation-410bbe3185758c8a4af58857fc06cbd0">
        <institution content-type="orgname">Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)</institution>
      </aff>
      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="jan/jun 2011" />
      <volume>10</volume>
      <issue>1</issue>
      <fpage>11</fpage>
      <lpage>32</lpage>
      <page-range>11-32</page-range>
      <permissions id="permission">
        <license>
          <ali:license_ref>http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/</ali:license_ref>
        </license>
      </permissions>
      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-a8c13c9af0e25c0796db585843093633">Baseado em uma amostra constituída de diferentes gêneros textuais distribuídos ao longo de um contínuo oralidade-letramento, o presente estudo investiga o uso dos clíticos acusativo e dativo de terceira pessoa e suas formas variantes (pronome tônico, SN anafórico ou SP e uma categoria vazia) na escrita do português brasileiro e do português europeu, com o propósito de levantar possíveis diferenças e semelhanças entre as duas variedades comparadas à modalidade escrita e de discutir, com base em Kato (2005), aspectos da gramática do indivíduo letrado.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">Based on a sample of different types of texts distributed along a continuum orallity-literacy, the present study investigates the use of third person accusative and dative clitics and their suppletive strategies (nominative pronoun, anaphoric NP/ PP and a null category) in written language of Brazilian Portuguese and European Portuguese, with the purpose to identify possible differences similarities between both varieties when compared to speech and to discuss, based on Kato (2005), aspects related to the grammar of a literate individual.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-f9e2189e15fd63df23418a36486cc845">accusative clitic</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-6f2e14195623228126991abc81b1c567">dative clitic</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-af85c6c1a9b3b8a309183cacde7b38e2">anaphoric NP/SP</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-0f3c6b932c00a433cbbe301f3325b2c5">null object</italic>
        </kwd>
      </kwd-group>
    </article-meta>
  </front>
  <body id="body">
    <sec id="heading-73caddee23e523c0dbed744e4d14c8df">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-01dcbca3d793150b1e0a6b1709aa50b7">O presente trabalho investiga a frequência e as estratégias de substituição dos clíticos acusativo e dativo de terceira pessoa na modalidade escrita do português brasileiro e europeu (doravante PB e PE, respectivamente), a partir de um contínuo oralidade-letramento (cf. Bortoni-Ricardo, 2004), visando identificar diferenças entre as duas variedades, bem como discutir aspectos da gramática do indivíduo letrado, com base em Kato (2005). Para a orientação da pesquisa, foram levantadas as seguintes hipóteses:</p>
      <p id="paragraph-cfe959573d73c0fa0412a332ece029b4">a) Por focalizar a escrita, acredita-se que ambas as variedades apresentem um significativo uso de clíticos de terceira pessoa, todavia sob diferentes condições: no PE, em todos os níveis do contínuo; no PB, mais frequentes somente em contextos de [+ letramento].</p>
      <p id="paragraph-6878db0b3ae362a4061dd192ba9a35ee">b) Sobre o PB, devido à aprendizagem tardia dos clíticos via escolarização, espera-se encontrar uma larga ocorrência de outras formas de representação do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa em lugar dos clíticos.</p>
      <p id="paragraph-a207fda3a55634815b2bd81a2d8e0e1e">Ao levantar as diferenças entre as duas variedades no que diz respeito ao uso dos clíticos acusativo e dativo na escrita, este trabalho aponta aspectos característicos da gramática do letrado brasileiro e permite discutir como a escola consegue recuperar formas praticamente extintas na fala, o que remete à hipótese de Kato, segundo a qual uma gramática periférica — com estruturas que não fazem parte da gramática nuclear — seria ativada no processo de ensino-aprendizagem.</p>
      <p id="paragraph-59caeae9cbe84f762694c81768359b63">Este artigo está assim organizado: na seção 1 serão apresentados os pressupostos teóricos e a metodologia utilizada; na seção 2, será feito um breve resumo dos trabalhos encontrados para a modalidade oral em ambas as variedades aqui focalizadas; na seção 3 apresentam-se os resultados para a escrita; finalmente, na seção 4, serão apresentadas algumas considerações acerca do fenômeno estudado, à guisa de conclusão.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-6dca5a7465cfb26843c422bfa6a06475">
      <title>1. Pressupostos teóricos e metodologia</title>
      <p id="paragraph-2">Para a investigação das diferenças entre as duas variedades quanto à realização do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa, parte- se das hipóteses de Galves sobre o fato de o PB e o PE constituírem duas Línguas-I distintas (1998) e sobre o enfraquecimento da concordância na variedade brasileira (1993, 2001), o que a distingue do PE, caracterizado como um sistema de concordância rica.</p>
      <p id="paragraph-edaf22c000e8e6797fdad9e01f7e9bbd">Com relação à variedade brasileira, duas grandes questões discutidas por Kato (2005) são abordadas: a natureza da escrita do adulto letrado brasileiro e a maneira como ele obtém esse conhecimento linguístico. Quanto à primeira questão, especula-se que a escrita do letrado brasileiro adulto se apresentaria sob uma das seguintes formas: (a) como o conhecimento gramatical de um indivíduo de alguma época passada, devido ao caráter conservador das normas da modalidade escrita; (b) como o conhecimento linguístico do falante português, haja vista as prescrições da gramática normativa em razão de acordos culturais entre Brasil e Portugal, com vistas à unidade linguística. No entanto, a autora supracitada acredita que a escrita do letrado brasileiro hodierno se apresenta como algo distinto desses dois primeiros modelos. Acerca da segunda questão, o problema que se coloca é o possível acesso à <italic id="italic-23a7456f1c7b577784387457ae4e0ee5">GU </italic>na aquisição/aprendizagem da escrita: a mesma autora defende que o letrado brasileiro obtém esse conhecimento linguístico mediante acesso indireto, isto é, através da primeira gramática que, no caso, é a da língua falada. Para fundamentar essa hipótese, a autora parte da ideia de que a gramática da L1 contém uma periferia marcada em que valores paramétricos opostos aos da gramática nuclear estariam presentes com caráter recessivo, mas que poderiam se mostrar competitivos, durante a escolarização, em relação aos valores que se encontram definidos na gramática nuclear.</p>
      <p id="paragraph-a8da65e9c2364c4e527194a7cc061258">No tratamento do fenômeno pesquisado, este trabalho combina os modelos teóricos e metodológicos da Sociolinguística Variacionista e da teoria de Princípios e Parâmetros.</p>
      <p id="paragraph-b94a859245b828791046cb05c346e847">Foram selecionadas duas amostras, uma para o PB e outra para o PE, a partir de textos de jornais e de seus respectivos suplementos, representativos do Rio de Janeiro e de Lisboa, além de histórias em quadrinhos de gibis que circulam nas bancas dessas cidades. Os diferentes gêneros textuais da amostra brasileira foram produzidos entre os anos de 1995 e 2004, tendo sido colhidos aleatoriamente a partir dos seguintes veículos: <italic id="italic-dd4a19b4314a8cc05b7460f5731c879d">Jornal do Brasil</italic>, <italic id="italic-2">O Globo</italic>, gibis da <italic id="italic-3">Turma da Mônica </italic>e gibis da <italic id="italic-4">Disney</italic>. Quanto à amostra portuguesa, os textos datam do período entre 1998 e 2004 e foram colhidos aleatoriamente a partir dos seguintes veículos: <italic id="italic-5">Diário de Notícias</italic>, <italic id="italic-6">Expresso</italic>, <italic id="italic-7">Público </italic>e gibis da <italic id="italic-8">Disney</italic>.</p>
      <p id="paragraph-0fa6bb40a4e2d1e6f050490e6630711d">Os dados dessas duas amostras de escrita (PE e PB) foram organizados a partir da proposta de Bortoni-Ricardo (2004), segundo a qual o fenômeno da variação linguística pode ser compreendido a partir de um contínuo <italic id="italic-4b3eb853d93ff29f58046fc00d7ce167">oralidade-letramento</italic>: num extremo, estão os dados cuja produção é mediada pela língua escrita, sendo esta entendida como um padrão de comunicação sistematizado pela tradição literária e altamente prestigiado nas camadas sociais letradas; no outro extremo, estão aqueles cuja produção busca certa transposição da fala para a escrita. Considerando a mediação da língua escrita, nos termos propostos pela autora supracitada, os gêneros textuais presentes nas duas amostras foram distribuídos em três grupos no contínuo:</p>
      <p id="paragraph-389338bf77caa0dc71da06bdc2a8f565">a) [+ ORALIDADE/ – LETRAMENTO]: tiras e histórias em quadrinhos;</p>
      <p id="paragraph-2a80e0618a1220d8341e9f07d16850ac">b) [+ ORALIDADE/ + LETRAMENTO]: crônicas, trechos de fala transcrita em reportagens e entrevistas transcritas;</p>
      <p id="paragraph-3">c) [– ORALIDADE/ + LETRAMENTO]: reportagens, editoriais, críticas de livro/filme e artigos de opinião.</p>
      <p id="paragraph-eeb5d824f5fabec0dcdc234f6ba9de29">A partir desse contínuo, foram examinadas as ocorrências dos clíticos e das demais variantes que com eles competem na representação do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa, a fim de avaliar o grau de implementação das formas alternativas aos clíticos de terceira pessoa na escrita brasileira e na portuguesa. Pretendeu-se com isso alcançar dois propósitos: (a) verificar, especialmente no PB, até que ponto os clíticos das duas funções, praticamente extintos na fala, são recuperados na modalidade escrita; (b) contemplar as diferenças de ocorrência desses mesmos itens linguísticos nas duas variedades, o que permitiu evidenciar as características da escrita do letrado adulto brasileiro em contraste com a do letrado português.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-ceb0a190cc8ae491d81aaa831d30c972">
      <title>2. Análise dos dados</title>
      <sec id="heading-94f5409c7e4a69f504eb9cacc8081a71">
        <title>2.1. Função acusativa</title>
        <p id="heading-63415f38418879b1ae57af63f09c7d5c">Em substituição ao clítico acusativo, os trabalhos acadêmicos registram a ocorrência de três outras estratégias de realização do objeto direto correferente com um SN mencionado no discurso (<italic id="italic-176bc29a71c0d3403a2860e867b18678">acusativo anafórico de terceira pessoa</italic>) em progressiva substituição à variante padrão: o pronome lexical (forma nominativa em função acusativa), os SNs anafóricos e o objeto nulo (cf. Duarte, 1989; Freire, 2000). Abaixo, seguem os exemplos das variantes focalizadas em cada ponto do contínuo:</p>
        <p id="paragraph-e76d209c488141a8b38f758470effa0e">a) [+ ORALIDADE/ – LETRAMENTO]</p>
        <p id="paragraph-da3482e5808c9da776f39462ea9db8a2">
          <bold id="bold-3298acfd7add3722bb7c52ece491a3de">(i)  clítico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-1cefea78c75624e3cd4c6d8f5d3d1a13">(01) O Cebolinha vai adorar <underline id="underline-1">o computador</underline>! Só preciso dar um jeito dele não quebrá-<bold id="bold-1"><italic id="italic-836b041a6f49132767c5fe97c242dab1">lo </italic></bold>em dois minutos! (PB: <italic id="italic-d70281f7584b96d6ee9c3876acba4a8c">Almanaque do Cebolinha</italic>, n.º 77, outubro de 2003 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-64350b95ece45d3b1c6bf5915e3e96f7">(02) Sujou <underline id="underline-832eec92bf830379ea2dd9ac720795ee">as jóias</underline> de propósito para <bold id="bold-2dadf5bb0f7f45276d505622e75a4271"><italic id="italic-efe1d232b18a4b117f25b91e53e3d3fa">as </italic></bold>distinguir! (PE: <italic id="italic-612b72377851816c5cf29df949e1902c">Série Ouro Disney</italic>, n.º 35, junho de 2001 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-74a251c382e0f468c697f8dc5ac2f11a">
          <bold id="bold-35b1453d839e78464de0715342b2ed42">(ii) pronome lexical</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-1">(03) Eu também já tive o meu bonequinho! Era <underline id="underline-e49e61908da65a7e61155ed7bcbc9fd1">o ursinho Bilu</underline>! Pra onde eu ia, sempre levava <bold id="bold-6854fb784bdfd300604006c0aff82024"><italic id="italic-fb72260ce257d016eabdc69c6afc2dbb">ele</italic></bold>! Na escola, no parque, no cinema… (PB: <italic id="italic-0ca38a4ad1b6364d7becb6ea7ed381af">Almanacão de férias da Turma da Mônica</italic>, n.º 36, 2002 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-fd02132fef449065ea3cb035f82f077e">
          <bold id="bold-44558d406d58350ba39888c35179e073">(iii) SN anafórico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-29aeed16d43abe22d3631be46a0ba2e6">(04) Então quem aterrorizava as fábricas do <underline id="underline-4fd96b478c956bea15946c012c485d9f">tio Patinhas</underline> no Canadá não eram os wendigos, e sim os índios nanicós! E eles raptaram <italic id="italic-102c142f60ebed60048e29a692d44a3c">o </italic><bold id="bold-f2671975a19e8cdf1bc892309d19a413"><italic id="italic-776b2c237285981fa5ae608ebb717ae3">tio Patinhas</italic></bold>! (PB: <italic id="italic-3bbc316edd7344a9b8e72a2736ca7ec6">Tio Patinhas</italic>, n.º 471, outubro de 2004 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-ec43a891b0efe43493f023f2a9667a6a">(05) Quando ele morreu, o seu fantasma passou a sair à meia noite para procurar <underline id="underline-2">a gaita de foles</underline> pelo castelo! E agora, graças a vocês, o fantasma recuperou <bold id="bold-2"><italic id="italic-d8ae6fe1c16ddabdea4313cab20870c0">a sua gaita de foles</italic></bold>! (PE: <italic id="italic-5776c45d04412f92d0481355de12da69">Disney Especial</italic>, n.º 222, outubro de 2004 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-7bd02004944abe541fa51a8df55b8bc5">
          <bold id="bold-2dac6b2bbf06d1aa3ba1aa81e05ccc12">(iv) objeto nulo</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-1211cc9be1e94e25c6f407a90278a793">(06) Quase pronta, mãe! Só vou deixar <underline id="underline-32197204c1b11d913ed4f3553a1d1e94">um bilhete</underline> para o Zé. Tenho que deixar<underline id="underline-63da95e2926b690e744f3a6415aff093"> </underline>onde ele não deixe de ver<underline id="underline-3"> <underline id="underline-4"/></underline>! (PB: <italic id="italic-a02c6358af7cb579e171b8d24aeef65e">Zé do Boné </italic>em <italic id="italic-414921462e20f52a3f3d80d462ca3056">O Globo</italic>, 17-06-2004 – Tira em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-d30972de10c19a023612235b1aaa48ca">(07) “Excêntrico é pouco! Disse-me que um fantasma anda a roubar-lhe coisas do castelo e exige que eu investigue <underline id="underline-5">o caso</underline>!” “E o senhor vai investigar<underline id="underline-6"> </underline>?” (PE: <italic id="italic-febe1dd647323cc96512076aea85a9ac">Disney Especial</italic>, n.º 222, outubro de 2004 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-5ac0b096cd8b56e8ba31f337458fb3be">b) [+ ORALIDADE/ + LETRAMENTO]</p>
        <p id="paragraph-23544e1df6b02f8f34cbf455bf5f5e11">
          <bold id="bold-3f63a10c4ef16e07cadb9a0b8dde469d">(i) clítico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-5a0cef25e611ffe0284ac2959d96b2ff">(08) Você ainda não se libertou nem vai se libertar nunca. Mas você pode porque seus fantasmas são a matéria-prima com que trabalha. <underline id="underline-394be748d54ce21bfbdc8873cdd563e4">Os meus</underline> só me rendem alucinações e não sei aproveitá-<bold id="bold-26a9136d86dbebff568ea06912656bde"><italic id="italic-6ca44da2153dc689843035b6d0cf12d5">los</italic></bold><bold id="bold-8df7405c2bb02377eb8e026b29e99860"><italic id="italic-e551a17e7281f47fc6d29a255bc54364"> </italic></bold>literariamente, artisticamente. (PB: Revista <italic id="italic-60398087d5e2138473e2c2e969af4871">Domingo </italic>do <italic id="italic-c1b80e79d54c97f1dcf1023347f166b6">Jornal do Brasil</italic>, 28-03-1999 – Entrevista)</p>
        <p id="paragraph-5fe7cafcc98f798150f5fd1fdb646c34">(09) […] não posso comprar detergente suave para lavar <underline id="underline-fe39d1b3600e67b2a54224992a604d8d">as minhas</underline> <underline id="underline-0a8053469b4a441d2f308d6fbb27cd19">duas</underline> <underline id="underline-42830488aff8adabd6b20f72861cd5b3">únicas camisas</underline>, mantenho-<bold id="bold-3"><italic id="italic-ddbb95f145d651856a603df2fede5a10">as </italic></bold>bem limpas com sabão azul. (PE: Suplemento <italic id="italic-3d9deae1f353c82a57856af0c17b6724">DNA </italic>do <italic id="italic-fc1a849ade1241f6d6dde61e9410ffbc">Diário de Notícias</italic>, 19-02-2000 – Crônica)</p>
        <p id="paragraph-de4891b863fdfe84f88e3656e7e1b3d7">
          <bold id="bold-c7ba2853df8afb911286268f09b95974">(ii) pronome lexical</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-9c62f51aa01a038578d839b541805b42">(10) Enfim, como toda heroína de novela, <underline id="underline-b30d5a94aab536527ab572f80280e861">Maria Clara</underline> é ingênua. Deixa <bold id="bold-4"><italic id="italic-f9eddade3a2fc7c2a309423f46cfce94">ela </italic></bold>pensar que vai se dar bem com essa bobagem. (PB: <italic id="italic-9">Segundo Caderno </italic>de <italic id="italic-10">O Globo</italic>, 16-06-2004 – Crônica)</p>
        <p id="paragraph-be5778de4272a00906dde406ed9b99e7">
          <bold id="bold-85ec91fc5e32ad0f91546bf6650b87ca">(iii) SN anafórico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-abe88abdbdc131adcca4a8adcb5cac95">(11) O acidente <underline id="underline-228294157be16f8761d0658c9c12d70b">do Rubinho</underline> na sexta-feira foi horrível. Ele quis ver <bold id="bold-5"><italic id="italic-11">o Rubinho </italic></bold>no hospital de Ímola. (PB: Seção de Esportes do <italic id="italic-12">Jornal do Brasil</italic>, 25-04-2004 – Entrevista)</p>
        <p id="paragraph-0727975a25be50c6b0a0c7afb39e6794">(12) Eu não tinha noção nenhuma de <underline id="underline-7">composição ou de</underline> <underline id="underline-8">enquadramento</underline> e foram eles que me ensinaram <bold id="bold-6"><italic id="italic-13">esses pormenores</italic></bold>. (PE: Suplemento <italic id="italic-14">DNA </italic>do <italic id="italic-15">Diário de Notícias</italic>, 05- 02-2000 – Entrevista)</p>
        <p id="paragraph-45232fdc26505b854650668a27296536">
          <bold id="bold-b7c73afc54cdc49d2e078d1f60654288">(iv) objeto nulo</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-846c575142516771f4e2bc9aa9c061e1">(13) Tinha <underline id="underline-9">uma leiteira de alumínio</underline> que pertenceu à minha avó, mas acabei dando<underline id="underline-10"> </underline>para uma grande amiga. (PB: Suplemento <italic id="italic-16">Casa &amp; Decoração </italic>do <italic id="italic-17">Jornal do Brasil</italic>, 25-04-2004 – Entrevista)</p>
        <p id="paragraph-285a44c90026aa41adcb785dbe1b8b75">(14) Quando digo isto parece que vou comer lagostas todos os dias e que tenho <underline id="underline-11">carros de 18 mil contos</underline>. Não tenho<underline id="underline-12"> </underline>. Nem ambiciono<underline id="underline-13"> </underline>. (PE: Suplemento <italic id="italic-18">DNA </italic>do <italic id="italic-19">Diário de Notícias</italic>, 04-03-2000 – Entrevista)</p>
        <p id="paragraph-bb4647b9ef34ee5d216e5ae20e5d09ff">c) [– ORALIDADE/ + LETRAMENTO]</p>
        <p id="paragraph-54638d8693f95f76e34b796fbf10dbee">
          <bold id="bold-dd160b6c7ea56dede4a3400c743c037d">(i) clítico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-06d64e406879726d7ba454d5119445d5">(15) <underline id="underline-4531a3052e3f7494c664b6bc0f618727">O presidente</underline> recebia ovações matinais e no fim do dia as pesquisas <bold id="bold-bac0c0567b4723ff5cde449951da6f12"><italic id="italic-4a7ee55c7672d75853a3332c2bc8ed3b">o </italic></bold>louvavam. (PB: <italic id="italic-64fd8aa3b22a049fb2c0ff210a52c824">Jornal do Brasil</italic>, 25-04-2004 – Artigo de opinião)</p>
        <p id="paragraph-a8e7c459abc2d5981ac0aab6db1a2171">(16) Mas a Câmara, de maioria republicana, rejeitou o artigo que acusava <underline id="underline-9f5fd18a84dce1365e61f288a34de644">Clinton</underline> de abuso de poder, e também o que <bold id="bold-4e547833a50bf975c3839068de7c1d60"><italic id="italic-08d7deebd273998fa73e893888f269a8">o </italic></bold>acusava de perjúrio no testemunho sobre o caso Paula Jones. (PE: <italic id="italic-1e444c1b32ba6ae9e3b4422db2cd571b">Diário de Notícias</italic>, 20-12-1998 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-78e4b8f806d1c891bf402686a8fdc577">
          <bold id="bold-48ac538c2ba0c299c4db0f20bef7eacc">(ii) SN anafórico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-21eaf2275ab86f9bdc83a26551a55247">(17) A nova lei permite que <underline id="underline-fe20b327179b47bff457df214952fd02">os pequenos partidos</underline> formem uma “federação”. Esse ponto garante que cada um mantenha sua própria organização ao mesmo tempo que permite a eles disputar as eleições sob uma mesma sigla partidária. Esta fórmula ajuda <bold id="bold-242b04e69cdb46ad64ef2044d7796d23"><italic id="italic-1fec55e987bddbc349961f08eb142bb2">os pequenos partidos </italic></bold>a atingirem a cláusula do desempenho. (PB: <italic id="italic-e1013b01c7528b583266addef5f62d62">O Globo</italic>, 12-09-2004 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-fadb9777cee4508dc53312ff60a262bd">(18) Na verdade, a situação específica d<underline id="underline-2de45993eaf5f7786289cf81b393f67c">aquela mulher</underline> prendia-se, numa leitura mais imediata, com questões económicas pelo simples facto de ser dona de casa sem proventos e, desta forma, com a capacidade de decisão diminuída. Dentro deste cenário, é possível explicar uma parte substancial que levou <bold id="bold-ccf35cbc7ccc9e6e0101827430b5e272"><italic id="italic-1f8de680fbf07814c2963376e3c899e5">aquela mulher </italic></bold>a suportar tortura psicológica e física por parte do marido. (PE: Suplemento <italic id="italic-974b006c293d18f7dbcfb2a52357de00">DNA </italic>do <italic id="italic-e3b9be1ab7451ae9899ef206263e0c1f">Diário de Notícias</italic>, 11- 03-2000 – Artigo de opinião)</p>
        <p id="paragraph-780a7504a007f66784068bcf8e5a6a69">
          <bold id="bold-e0c1d4a801cbda19b3b4aac3425ae5b6">(iii) objeto nulo</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-2a2065d2361aa4561936bdf6c335be35">(19) Esses dólares são taxados em 15% de imposto na hora da remessa, mas não integram <underline id="underline-a02d86f8274f8611dea1f4b53b141806">o artigo 3 do projeto da nova lei</underline> <underline id="underline-7e0a4feea27d1d2e4d1f0d2b7c732a36">do audiovisual</underline>. Poderiam integrar<underline id="underline-5a4ae5ca34055d2aa3eace62a6a4ad1a"> </underline>. (PB: <italic id="italic-3f53f13cc6dce409a1df4ba8f198ed5b">O Globo</italic>, 12-09- 2004 – Artigo de opinião)</p>
        <p id="paragraph-24aaef99185ba31aa9ddb7ed28fa2cc4">(20) Mesmo o Partido dos Trabalhadores (PT, oposição) contribuiu, não <underline id="underline-03a9051583037b310da8953dd1fc4196">obstruindo as votações</underline>, como sempre faz<underline id="underline-cd9709992bac704fae4ae37a5ef8eefd"> </underline>. (PE: <italic id="italic-79d27f5943bc57bc8d1dd71f1ba18e2b">Expresso</italic>, 16-01-1999 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-33e867edcc9ce4d27a4d26ea130040a8">A tabela a seguir exibe os resultados gerais no que diz respeito à distribuição das variantes nas duas variedades do português:</p>
        <fig id="figure-panel-c4db6784c1038ba151f57b7837afd638">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <title>TABELA 1: Função acusativa: distribuição dos dados segundo a variante usada</title>
            <p id="paragraph-5ae8060328f7d353ea234866fc007ec0" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-8a98270c7169e0c49b67d0f9628d5be3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Captura de tela 2021-06-01 164636_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-c3544fdcdb19e38f757e7e02f3153d19">Os resultados gerais apresentados na tabela acima revelam que o clítico constitui estratégia significativa para representar o acusativo anafórico de terceira pessoa na escrita das duas variedades, porém com uma diferença marcante: enquanto no PE ele é de longe a variante majoritária (77%), no PB aparece ligeiramente superado pelas demais variantes somadas (53%). Por conseguinte, os resultados relativos à variedade brasileira apontam para um fato contundente e inegável: já se encontram plenamente infiltradas na escrita as estratégias alternativas ao clítico acusativo comuns na fala (cf. Freire, 2000), destacando-se dentre elas o objeto nulo. Por outro lado, a escrita do PB recupera, de modo bastante expressivo, uma variante praticamente ausente da fala. Tais resultados demonstram ainda que a influência da tradição gramatical sobre a modalidade escrita se faz perceber com mais força na considerável redução do pronome lexical em função de objeto direto, tão combatido por essa mesma tradição, não conseguindo minimizar a frequência das demais estratégias de representação do acusativo anafórico de terceira pessoa: o SN anafórico e o objeto nulo somados estão em equilíbrio com o clítico. Bem diferente é a situação do PE: conquanto também já se encontrem na escrita essas duas variantes alternativas ao clítico, não chegam a ameaçar a hegemonia deste, pois juntas só representam 23% das ocorrências. Tal como na modalidade oral, o objeto nulo ocorre em sentenças matrizes/raízes ou completivas, não ocorrendo em contextos de “ilhas sintáticas”, o que é possível no PB.</p>
        <p id="paragraph-fac72dfe1a20aa08f3904ff4b5ddab87">Deve-se registrar ainda um fato bastante interessante: os resultados da escrita do PB muito se aproximam dos dados de fala do PE (cf. tabela 1). Por conseguinte, infere-se que o efeito da escolarização sobre os adultos letrados brasileiros no que diz respeito à recuperação do clítico acusativo é mais pujante na escrita, todavia o índice de uso desse elemento (47%) não consegue superar a ocorrência das demais variantes somadas, como acontece no PE (77%). Tal fato sinaliza que a gramática do letrado adulto brasileiro não seria a mesma do letrado português, porquanto a ocorrência do clítico acusativo não apresenta o mesmo <italic id="italic-afba6537995b4dbf58a98dc19f94f196">status </italic>nas duas variedades.</p>
        <p id="paragraph-c8966b56bb8e0ec3333b848b983dba43">O exame da distribuição dessas variantes através do contínuo oralidade-letramento pode contribuir para explicitar as diferenças quantitativas e qualitativas entre elas nas duas variedades do português. A tabela exibe a distribuição do número de ocorrências.</p>
        <fig id="figure-panel-2bbeac3dda4503908ff686990cd731a4">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <title>TABELA 2: Função acusativa: distribuição das variantes no contínuo oralidade-letramento</title>
            <p id="paragraph-77803d6501d2b35ff20c259bbb05f479" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-2c6663657ce8b9fb1a674494db9635f9" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Captura de tela 2021-06-01 164811_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-9b24c8e6c95028771e3b9b9b7012430d">Sobre o PB, a tabela evidencia que, nos textos que se situam nos dois primeiros níveis do contínuo, as características da fala apontadas nos trabalhos linguísticos se mantêm, isto é, o clítico aparece em desvantagem em relação à soma das demais estratégias na representação do acusativo anafórico de terceira pessoa, sobretudo no extremo [+ ORALIDADE/ – LETRAMENTO], em que ele é a variante menos frequente de todas. Em contrapartida, parece ser justamente no extremo [– ORALIDADE/ + LETRAMENTO] que a variante prestigiada pela escola se apresenta como a forma mais produtiva de realização da variável em foco. No entanto, tal constatação não causa surpresa alguma, já que era natural esperar que os textos representantes desse nível do contínuo tivessem um compromisso maior com a tradição literária e gramatical: conforme lembra Bortoni-Ricardo (2004, p. 52), a imprensa é uma das “agências padronizadoras”, responsáveis por codificar a língua numa cultura de letramento. Por conseguinte, aquilo que prescreve a tradição deverá aparecer com mais força numa das extremidades do contínuo. Não obstante isso, os dados relativos à variedade brasileira mostraram que nem no extremo [– ORALIDADE/+ LETRAMENTO] essa mesma tradição é absoluta, porquanto até nesse ponto do contínuo o clítico está em competição com outras variantes, que juntas chegam a constituir quase 30% das ocorrências.</p>
        <p id="paragraph-e34a4a53e815ab2e8e188baf01a49967">Quanto ao PE, vê-se que o clítico desponta em todos os pontos do contínuo como a variante majoritária, exibindo larga vantagem sobre as demais. No que diz respeito a estas, nota-se que ocorrem equilibradas entre si e, apesar de quantitativamente inferiores ao clítico, mantêm uma frequência estável ao longo do contínuo. Do mesmo modo, percebe-se que essas mesmas variantes se mostram mais expressivas no extremo [+ ORALIDADE/– LETRAMENTO], pois somadas constituem 34% das ocorrências. Guardando as devidas proporções, esse ponto do contínuo mostra certa similaridade com a língua oral: nos dados de Freire (2000) sobre a fala de informantes portugueses com nível superior completo, o SN anafórico (25%) e o objeto nulo (31%), se considerados separadamente, ficavam abaixo do índice do clítico (44%), mas juntos conseguiam uma pequena vantagem sobre este último, deixando equilibrada a disputa pelo número de ocorrências.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-4ddce045e06a2ebf0669334552333d29">
        <title>2.2. Função dativa</title>
        <p id="heading-1f0c260134c1b68640c611e3ba2c9d9f">Os trabalhos acadêmicos registram a substituição do clítico dativo por uma categoria vazia ou por um SP anafórico, sendo este com a forma tônica do pronome ou com SN pleno (cf. Gomes, 1999; Silveira, 2000; Freire, 2000). Observem-se os exemplos das variantes candidatas à realização do dativo anafórico em cada ponto do contínuo:</p>
        <p id="paragraph-3c8398067e54e96f1eece7640d01a693">a) [+ ORALIDADE/ – LETRAMENTO]</p>
        <p id="paragraph-866074eed44f35ba098b776216b3acad">
          <bold id="bold-7c089e19d9b07b5bef33af071c61e93b">(i)  clítico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-889c9579e96b8181a81bf851553b0e70">(21) <underline id="underline-92c80c63cfe1a581442fb5da421816a0">Minha filha</underline> ainda cabe no meu colo… E gosta de ouvir canções de ninar… E gosta de chocalho… E chupeta… E de comer a papinha que eu <bold id="bold-400bf7340ac88ef2e9aba2f341e2a6b4"><italic id="italic-daec51c3944d5ed5173b3a5d4f20ce45">lhe </italic></bold>dou… (PB: <italic id="italic-7ae3ae98b9d4ee31d29f31b6843d6961">Almanaque do Cebolinha</italic>, n.º 78, dezembro de 2003 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-4">(22) “Acredita em mim, Brigite! <underline id="underline-02a889d26a600ad5f3bf6b47515d4b52">O Patacôncio</underline> quer apenas a tua receita!” “Eu sei! Só <bold id="bold-70ade14875910e0fc74a222fa851cbfa"><italic id="italic-3742a046b900781910f3ee70e1d922a5">lhe </italic></bold>dei atenção para te provocar ciúmes! A receita foi sempre tua!” (PE: <italic id="italic-5f42c0b51f1dacb79e66c4fddddeef98">Tio Patinhas</italic>, n.º 224, agosto de 2004 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-0f5ba2f5e3a6698ecfa2ba7995ab4abd">
          <bold id="bold-05765a4e1a8daefcd3e8f67c9cac7f17">(ii)  SP anafórico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-5">(23) <underline id="underline-564f9643ce3504a0e7fdd47fa70d3be4">O Cebolinha</underline> vai adorar o computador! […] Vou aproveitar que <underline id="underline-1491da62c569b9d4045da0b54ac5ac6d">ele</underline> está dormindo pra montá-lo e dar uma boa lida no manual! E amanhã cedo ensino tudo direitinho <bold id="bold-be5d93314651b2c31f848e8a0cadebd0"><italic id="italic-94f8fa65c1d7be61e31f0c8d2c418d72">pra ele</italic></bold>! (PB: <italic id="italic-9d0b4b86594546f4394779336a623e91">Almanaque do Cebolinha</italic>, n.º 77, outubro de 2003 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-6">(24) Regulei o relógio para atirar uma pedra ao telhado d<underline id="underline-7bd9094c93bcc914bed6d607bf7c5f78">os</underline> <underline id="underline-008bfe6a38392256e26346d14f3a842b">porquinhos</underline> de cinco em cinco minutos… a noite toda! Acho que vou dar <bold id="bold-504fef440121173d02261c2764365ec1"><italic id="italic-6c1f044f94bf00230cd6113301d456c2">àqueles gorduchos </italic></bold>uma amostra do que está para acontecer! (PB: <italic id="italic-3518d7a7f789bbebb151c7eb4fe569b4">Disney Especial</italic>, n.º 222, outubro de 2004 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-5a813d77689e8cafeb85f1a054545e27">
          <bold id="bold-799f6072224f8527a1de2c8a76883e10">(iii) objeto nulo</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-aa492bc6ff15fcc4ecdaea2a612a2b88">(25) <underline id="underline-50b956cffc05bad50a705b330974dc84">A mamãe</underline> gastou um tempão preparando refeição para nós! Tudo o que tinha a dizer<underline id="underline-00b30b7ca7a56713f7c8d873739066f1"> </underline>era um “obrigado”… e não “como estão seus pulsos depois de abrir todas essas latas?” (PB: <italic id="italic-5478aced9b1445a647aa64f3f1164c58">Zé do Boné </italic>em <italic id="italic-15a60f6ad863cc9e348681ed362c332a">O Globo</italic>, 04-08-2004 – Tira em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-9c2b0acdd2127052c6d4b32bb5e4ff83">(26) “Já sei! É <underline id="underline-3f76d12d5199a263cd36edab1ec505c5">o tio Donald</underline> que ainda está a tocar!” “Acho que fomos malvados ao deixá-<underline id="underline-97e812f79995e83113dec12f08456724">lo</underline> sozinho!” “Vamos dizer<underline id="underline-0de33ccf5c73bb64b88c9f6cbb0c270c"> </underline>que agimos mal!” (PE: <italic id="italic-70fb5af41447af058d3816d9ad793853">Disney Especial</italic>, n.º 222, outubro de 2004 – História em quadrinhos)</p>
        <p id="paragraph-29a27f95990534f7dd736cf03251aa76">b) [+ ORALIDADE/ + LETRAMENTO]</p>
        <p id="paragraph-5919faad4ac386b98b66a9faa9815e45">
          <bold id="bold-1e1fc8815af70eb8a057d9e7c3ef1fef">(i) clítico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-5d6d0a4ad1c276e778fd879706452da4">(27) São divertidos <underline id="underline-76051be6c20eccd0cfbc7804835f8ecb">os candidatos</underline>: querem que os eleitores <bold id="bold-f70bdb67f97ea1fb296cb2f236f2a2a8"><italic id="italic-8f9c169555bb226358aa83bf88a08d6f">lhes </italic></bold>confiem a gestão dos impostos que pagam […] (PB: <italic id="italic-3102064e93f3e23a2e35bbe2b85e7b78">O Globo</italic>, 12-09-2004 – Crônica)</p>
        <p id="paragraph-3718b23b11d24a04e8353802d4d0ec0a">(28) Mas também já pensei que não me vou realizar através d<underline id="underline-8ada45b65c10b53a8e628abc3260a818">a</underline> <underline id="underline-d9e0785ccfd2c49d48d1587051a87946">minha filha</underline>. […] Preocupa-me, não, tenho essa atenção: transmitir-<bold id="bold-43e5308624fe97e00cdd1fe738bb42cf"><italic id="italic-8775956801081744c9183cbf5de9a0ec">lhe </italic></bold>uma série de valores que muitas vezes estão em desuso, mas que não consigo não ter. (PE: Suplemento <italic id="italic-18d8f54fee638a241e868ac7113f9790">DNA </italic>do <italic id="italic-0abc8f1c9a6b45b8c9cee97db6c71a5a">Diário de Notícias</italic>, 08-04-2000 – Entrevista)</p>
        <p id="paragraph-c6df3ca054734586e275a57301b4a67e">
          <bold id="bold-d1bd2da36bd7283bd52debfcf724110b">(ii) SP anafórico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-ab10f0911dadff67fece80623f367218">(29) Fiz essa música belíssima em especial para <underline id="underline-6f119cfa94d47f191e979fa7150a71fd">Roberto</underline>, mandei <bold id="bold-363f2fa3d4f54b965df1a4ad94446fe1"><italic id="italic-5b24ab45af79c8882e289abb57eac295">para ele</italic></bold>, mas não foi possível para ele gravar. (PB: Revista <italic id="italic-98bd71c84c8ae6c8eee3e7a1e18ed5b2">Domingo </italic>do <italic id="italic-ef82206a23187c3e93d8c4371117d52d">Jornal do Brasil</italic>, 03-10-1999 – Entrevista)</p>
        <p id="paragraph-b146aa80ae3d1fcddf86b4b81871dd82">
          <bold id="bold-9a26e34245662d42d9fcbe5c707be83a">(iii) objeto nulo</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-f8b78b9d49c0417fbfc6a0bc60e65f5d">(30) O atendimento é sofrível. Já avisei a<underline id="underline-e47b970885f48dfc7ed84cdba5a85958">o gerente</underline> e dei um prazo para que o atendimento melhore. (PB: <italic id="italic-3d4c864c76476f135cbfefe75a8189b3">O Globo</italic>, 12-09- 2004 – Trecho de fala em reportagem)</p>
        <p id="paragraph-c972350c24f7e94c0dfd6bb41d0e772a">(31) <underline id="underline-9e2f2090a3c2ea2259d061f50eab584a">O jovem interno</underline>, através do mesmo sistema computadorizado, intercalou a informação escrita e os gráficos acompanhantes, de uma forma digna de um Spielberg, fazendo mesmo aparecer pequenos excertos de intervenções cirúrgicas. Fiquei de tal modo encantado com a tecnologia que tive de pedir<underline id="underline-da2da4bfba748864d66447118e7c43d3"> </underline>uma repetição para me concentrar apenas na crítica científica. (PE: Suplemento <italic id="italic-f01d7e66489a8edaa1ae0b52245e2028">DNA </italic>do <italic id="italic-c53782a9c4ccd20f70ace6e93cd6daf7">Diário de Notícias</italic>, 04-03-2000 – Crônica)</p>
        <p id="paragraph-bcfd1385feb19f063eb8cd9a7747800c">c) [– ORALIDADE/ + LETRAMENTO]</p>
        <p id="paragraph-32d12004bb1a2bef4a71a1f6490a73f0">
          <bold id="bold-5789ac3058187b63492ef3d24677aa1b">(i) clítico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-1f4a14209bb6b1bd9773b024aeeacc85">(32) Hoje <underline id="underline-4dea4ff46e7a6a893753c756263ed76a">Ricardo</underline> tem uma pequena agência de publicidade e só aceita a quantidade de clientes que <bold id="bold-e1f0f12a65c47870c380082095339e02"><italic id="italic-58bc047433a860e1fbc772b9a7b675c9">lhe </italic></bold>permita trabalhar direito e sem estresse. (PB: <italic id="italic-cd3b93406066581eb9c57e58ec996d7b">Jornal da Família </italic>de <italic id="italic-fae43f5217f46f49f2b36e4981f1dae5">O Globo</italic>, 16-05- 2004 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-4b2d78aae915aaf5719595c0e204020e">(33) <underline id="underline-14">Margarida</underline><underline id="underline-15"> </underline><underline id="underline-16">Marinho</underline> tem 37 anos, um filho chamado Manuel, um amor pelo teatro, uma paixão pela escrita, um medo invulgar da morte, e uma lucidez que <bold id="bold-229c776c44c007934fce8eb2755cdcc8"><italic id="italic-b075fde2f0075d5cf45111c47747a151">lhe </italic></bold>permite afirmar, peremptoriamente, não saber onde vai “montar a tenda amanhã”. (PE: Suplemento <italic id="italic-470fe78e59d1cbe4ea0ddde51aee51d2">DNA </italic>do <italic id="italic-20">Diário de Notícias</italic>, 19-02- 2000 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-d3a0b89b36ccc19df3ab252bf165e76f">
          <bold id="bold-3a27dc88e876ba0b54155e84e40c7941">(ii) SP anafórico</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-f04623e6753e73d085516b487a1c7b4c">(34) A nova lei permite que <underline id="underline-17">os pequenos partidos</underline> formem uma “federação”. Esse ponto garante que cada um mantenha sua própria organização, ao mesmo tempo que permite <bold id="bold-98bdf604d8b1fa891eff212b7a30c116"><italic id="italic-21">a eles </italic></bold>disputar as eleições sob uma mesma sigla partidária. (PB: <italic id="italic-22">O </italic><italic id="italic-23">Globo</italic>, 12-09-2004 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-cd3093710dbd7c0379259ef9f4547905">(35) Rui Sá não está disposto a permitir que a Câmara do Porto lave as mãos das responsabilidades quanto ao destino d<underline id="underline-18">os inquilinos</underline> <underline id="underline-19">privados</underline> que foram ou estão em vias de ser despejados devido ao risco de ruína dos prédios em que vivem. Na reunião camarária de ontem, o comunista apresentou uma proposta, a votar na reunião da próxima semana, em que recomenda que a autarquia assegure um tecto <bold id="bold-7"><italic id="italic-24">a esses inquilinos</italic></bold>, imputando aos senhorios o custo desse mesmo realojamento. (PE: <italic id="italic-25">Público</italic>, 10-11-2004 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-267a349f7a5498c84339f5cdce1d8cc0">
          <bold id="bold-031ae15534700b9da9987a96c8b222db">(iii) objeto nulo</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-d20f0043b25f82679f5741c1eb1735dc">(36) Em seus ensinamentos <underline id="underline-20">ao Príncipe</underline>, Maquiavel recomendou <underline id="underline-21"/>que más notícias e decisões amargas sejam anunciadas de uma vez só. (PB: <italic id="italic-26">Jornal do Brasil</italic>, 25-04-2004 – Editorial)</p>
        <p id="paragraph-889a295fc4483b65e920305fedfc9bfe">(37) Lá em baixo, no palco, <underline id="underline-22">os estudantes de Direito</underline> faziam uma espécie de aquecimento (…) Pedro Wilson olhava para eles, mandava uma piada, respondia às provocações bem humoradas de um elemento da produção ou de um actor. (PE: Suplemento <italic id="italic-27">DNA </italic>do <italic id="italic-28">Diário de Notícias </italic>– 08-04-2000 – Reportagem)</p>
        <p id="paragraph-d589e2cf67f919135d7f5c6398a3ef81">Veja-se a tabela seguinte com os resultados gerais:</p>
        <fig id="figure-panel-054710ad4c2744a53879e1bcff719d62">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <title>TABELA 3: Função dativa: distribuição dos dados segundo a variante usada</title>
            <p id="paragraph-df5b152063cd342eff865d7087bc767b" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-87e33d49fa09fb8ecf8b77a08f918edb" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Captura de tela 2021-06-01 165537_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-6c9ab2e95e16ded9f26c8cdd4fd24ea6">Os resultados gerais apresentados na tabela acima apontam que, do ponto de vista quantitativo, a diferença entre as duas variedades quanto ao emprego do clítico é bem mais profunda do que a encontrada na função acusativa: na variedade brasileira, a variante prestigiada pela tradição constitui apenas um quarto do total de dados. Quanto à variedade lusitana, essa mesma variante representa quase a totalidade das ocorrências de dativo anafórico de terceira pessoa. Por conseguinte, enquanto no PE as estratégias alternativas ao clítico se mostram bastante periféricas, no PB ostentam, somadas, o expressivo índice de 72%, destacando-se dentre elas o SP anafórico. Tal constatação sinaliza um fato contundente na variedade brasileira: também na função dativa as estratégias alternativas à variante considerada padrão já estão plenamente infiltradas na escrita, o que evidencia uma influência limitada da tradição escolar na recuperação do clítico na modalidade escrita brasileira.</p>
        <p id="paragraph-fc01685ff447998f24358d73d5c78d8e">Como na função acusativa, procedeu-se à análise da ocorrência dessas variantes no contínuo oralidade-letramento. Observe-se a próxima tabela com a distribuição do número de ocorrências:</p>
        <fig id="figure-panel-16bd7e6d9878382e46d3e768e218af23">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <title>TABELA 4: Função dativa: distribuição das variantes no contínuo oralidade-letramento</title>
            <p id="paragraph-e34f2566d00685a9b2b34712cd900ed5" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-c6df6d56127f3cb2afe7bbc347d3afb0" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="Captura de tela 2021-06-01 170200_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-ccb93c9ed4cd3401ffa876eebc5dcf55">A respeito do PB, a tabela evidencia que a frequência do clítico dativo na escrita está diretamente relacionada a eventos de comunicação que se aproximem do extremo de [+ LETRAMENTO]. Por outro lado, nos dois primeiros pontos do contínuo, sobretudo no extremo [+ oralidade/ – letramento], mantêm-se as características da fala descritas pelos trabalhos linguísticos sobre a função dativa, isto é, o abandono progressivo da variante prescrita pela tradição em favor do SP anafórico e do objeto nulo. Além disso, mesmo no extremo [– oralidade/ + letramento], constatou- se que o clítico dativo está longe de ser uma variante dominante, uma vez que ainda tem de competir duramente com as duas outras estratégias de realização do dativo anafórico de terceira pessoa, que juntas constituem mais da metade dos dados levantados.</p>
        <p id="paragraph-5d249dc1b1f5008499a042d7d7d774e8">Acerca do PE, percebe-se de imediato que não há diferenças substanciais entre os extremos do contínuo, porquanto o clítico sempre aparece como a variante majoritária, superando com larga vantagem as demais estratégias em todos os pontos do contínuo, o que vem corroborar a afirmação de Berlinck (1996), segundo a qual a expressão do dativo anafórico de terceira pessoa na variedade lusitana corresponde ao paradigma proposto para a língua padrão nas gramáticas que servem de base ao ensino de português no Brasil, isto é, o uso da forma &lt;<italic id="italic-e36d40b9a82f2484c018f16b3ca8c6de">lhe</italic>&gt;. Isso é revelador quando se pensa na imensa distância entre a prescrição gramatical e o uso brasileiro. Com relação às demais variantes, chama a atenção o SP anafórico que, em contraste com o largo uso encontrado na variedade brasileira, fica ausente num dos pontos do contínuo. Já o objeto nulo, apesar de quantitativamente inferior ao clítico, manifesta-se ao longo de todo o contínuo, exibindo índices mais expressivos que o SP anafórico, particularmente no extremo [+ ORALIDADE/ – LETRAMENTO]. Por fim, observa-se que é nesse mesmo extremo que a escrita portuguesa manifesta uma variação maior na realização do dativo anafórico de terceira pessoa, visto que as estratégias alternativas ao clítico somadas constituem 33% do total de dados desse ponto do contínuo, o que obviamente não chega a ameaçar a hegemonia do pronome dativo.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-acfae683bb350830f478e7062f5d5eba">
      <title>Conclusão</title>
      <p id="paragraph-bdb4ab1186a356b7b728f30872d27f63">A análise da frequência dos clíticos e das variantes que com eles competem na representação do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa através do contínuo oralidade-letramento permitiu observar diferenças fundamentais entre as duas variedades do português.</p>
      <p id="paragraph-ae36732d236eacfe18c2b0e6fb241e52">Enquanto no PE os clíticos são bastante robustos e sobrepujam as demais variantes ao longo de todo o contínuo, no PB eles só alcançam semelhante condição na extremidade [– ORALIDADE/ + LETRAMENTO], cuja configuração é muito similar ao quadro geral do PE, haja vista a ausência do pronome lexical em função acusativa nesse extremo do contínuo e o índice mais baixo de ocorrência das demais variantes em favor dos clíticos. Essa similaridade se deve muito provavelmente ao fato de o modelo de língua considerada culta no Brasil ter sido estabelecido “à imagem e semelhança” do português europeu moderno. Por esse motivo, a tradição escolar, codificada nas gramáticas que servem de base ao ensino do português, estabelece os clíticos &lt;<italic id="italic-59e8c2398549350e86ba0c2146132324">o</italic>&gt; e &lt;<italic id="italic-d676a96468b13e6c970f3eefe8e6d07c">lhe</italic>&gt; como únicas estratégias legítimas de representação do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa, entre outras tantas prescrições. Contudo, a julgar pela distribuição desses elementos no contínuo oralidade-letramento do PB, essa tradição parece obter certo êxito somente num dos extremos, o que é esperado num sistema em que os clíticos acusativo e dativo já não fazem parte do processo de aquisição natural da linguagem. Ficou, pois, evidente que a representação do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa pelo clítico na variedade brasileira está fortemente relacionada a eventos de comunicação que contenham traços de [+ letramento], que estão sujeitos à pressão da tradição escolar ou, como prefere Bortoni-Ricardo (2004), da cultura de letramento.</p>
      <p id="paragraph-cadf4f9c4306e138144e344babf178e2">A diferença de frequência e de comportamento dos clíticos acusativo e dativo encontrada na modalidade escrita do PB em cotejo com a do PE vem justamente confirmar as hipóteses levantadas por Kato (2005) sobre duas grandes questões discutidas por ela: a natureza da escrita do adulto letrado brasileiro e a maneira como ele obtém esse conhecimento. Sobre a primeira questão, os resultados deste trabalho fornecem argumentos que ratificam a hipótese, defendida pela referida autora, segundo a qual a escrita do letrado adulto brasileiro não representa o conhecimento gramatical de sincronias passadas, nem se identifica com o conhecimento do falante português contemporâneo. Na verdade, no que diz respeito à realização do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa, pode-se dizer que o conhecimento do letrado brasileiro manifesta uma característica bem peculiar: mesmo nos contextos de [+ LETRAMENTO], paralelamente ao uso do clítico, há uma expressiva ocorrência de variantes alternativas não discriminadas pela escola, como o uso irrestrito do objeto nulo na função acusativa e o emprego avassalador do SP anafórico na função dativa. Note-se que tais variantes têm ocorrência muito marginal na escrita portuguesa.</p>
      <p id="paragraph-87506f3ffe1889b31ec9f84e96921d9f">Quanto à segunda questão, o presente trabalho levanta alguns aspectos que vão ao encontro da hipótese de Kato (2005), que postula o acesso indireto do indivíduo à <italic id="italic-c12539ab6593ea6fb0b61bc062d90b17">GU </italic>(Gramática Universal) na aquisição/ aprendizagem da escrita, uma vez que os resultados obtidos sinalizam que o letrado brasileiro parece obter o seu conhecimento da escrita através do acesso à primeira gramática, a língua falada, o que seria confirmado pela presença de clíticos na escrita brasileira em forte competição com as variantes largamente empregadas na língua oral, conforme foi sobejamente demonstrado durante a análise dos dados. Em outras palavras, há uma periferia marcada na gramática do indivíduo, em que os valores paramétricos opostos aos da gramática nuclear estão presentes e são acionados durante o processo de escolarização, de modo que o adulto letrado brasileiro desenvolve uma gramática que comporta elementos ausentes da sua Língua-I, que passam a compor, junto com aqueles que lá estão, uma outra gramática possível, que se revela na escrita e nas situações mais formais de fala.</p>
      <p id="paragraph-245600991bb1bc1792499cd2004da193">Em suma, a análise ora empreendida revelou que as diferenças encontradas na língua falada entre as duas variedades sobre o uso dos clíticos nas funções acusativa e dativa também se manifestam na escrita: enquanto no PB esses elementos aparecem preferencialmente em eventos de letramento, mas ainda em competição com outras variantes, no PE eles se mostram sempre estáveis, muito robustos e independem do grau de letramento, o que certamente constitui uma forte evidência de que a gramática do adulto brasileiro letrado não é a mesma do letrado português.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-29729a4ab45bbcec6998b1c214ce4129">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-1c183502aa49b2db97c60eb9fde4cd08">BERLINCK, Rosane de Andrade. <bold id="bold-0e3a0ea2ac460b533909426864b5fb47">The Portuguese dative</bold>. In: BELLE, W.; LANGENDONCK, W. (eds.) <bold id="bold-fd3d4e1e144b3352ae312b2197ed1668">The dative</bold>: Descriptive studies, vol. 1. Amsterdam/ Phidadelphia: John Benjamins Publishing Company, 1996. p. 119-149.</p>
      <p id="paragraph-ee658ed0b8352f3dd3d9d437fefc2ee9">BORTONI-RICARDO, Stella Maris. <bold id="bold-379a992475e442cfd96b7199611d486c">Educação em língua materna</bold><italic id="italic-d250d5843fd61f6a8cbfa01df1eb4228">: </italic>a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.</p>
      <p id="paragraph-c587049045c9229cab53cebe73f40784">DUARTE, M. Eugênia Lamoglia. <bold id="bold-902cd393ac89d1337c839e1321522ce8">Clítico acusativo, pronome lexical </bold><bold id="bold-329a077c98ad0cae1040e3dd09e1b621">e categoria vazia no português do Brasil</bold>. In: TARALLO, F. (org.) <bold id="bold-e6e0cd3df0810a1ca649336a3a7cf49d">Fotografias sociolinguísticas</bold>. Campinas: Pontes, 1989. p. 19-34.</p>
      <p id="paragraph-8">FREIRE, Gilson Costa. <bold id="bold-c79a28143bc148247b1f5f244ccee2a7">Os clíticos de terceira pessoa e as estratégias </bold><bold id="bold-8">para sua substituição na fala culta brasileira e lusitana</bold>. 2000. 103 fls. Dissertação (Mestrado em Letras Vernáculas) — Faculdade de Letras, UFRJ, Rio de Janeiro, 2000.</p>
      <p id="paragraph-9">________. <bold id="bold-9">A realização do acusativo e do dativo anafóricos de terceira pessoa na escrita brasileira e lusitana</bold>. 2005. 204 fls. Tese (Doutorado em Letras Vernáculas) — Faculdade de Letras, UFRJ, Rio de Janeiro, 2005.</p>
      <p id="paragraph-11">GOMES, Christina Abreu. <bold id="bold-10">Embedded processes in dative alternation: </bold>a comparative study about three contemporary varieties of Portuguese. NWAV(E) 28. Toronto, Canadá, 1999. Mimeo.</p>
      <p id="paragraph-13">KATO, Mary A. <bold id="bold-11">A gramática do letrado: </bold>questões para a teoria gramatical. In: MARQUES, M. A.; KOLLER, E.; TEIXEIRA, J.;</p>
      <p id="paragraph-14">LEMOS, S. (orgs.) <bold id="bold-12">Ciências da Linguagem</bold>: trinta anos de investigação e ensino. Braga: CEHUM, Universidade do Minho, 2005.</p>
      <p id="paragraph-16">SILVEIRA, Gessilene. <bold id="bold-13">A realização variável do objeto indireto (dativo) na fala de Florianópolis. </bold>Letras de Hoje, Porto Alegre: EDIPUCRS, v. 35, n. 1, p. 189-207, 2000.</p>
    </sec>
  </body>
  <back />
</article>