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        <article-title>PERCURSO DO ARTIGO DEFINIDO DIANTE DE N PRÓPRIO NA FALA DE CRIANÇAS EM FASE DE AQUISIÇÃO</article-title>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="jul/dez 2009" />
      <volume>8</volume>
      <issue>2</issue>
      <fpage>117</fpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-f0c3f14de87314c604af9e45ba259811">Este artigo focaliza a emergência do uso variável de artigo definido frente a N próprio por crianças que estão adquirindo o Português como L1. Procedemos a uma análise de situações reais de uso da língua, conjugando um estudo longitudinal e um estudo estratificado. Nossa análise evidenciou que a aquisição da variação do artigo definido se organiza em determinados padrões que são paralelos, em alguns aspectos, à fala do adulto.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">This article is focused on the upcoming variable use of the definite article before proper N by children who are acquiring Portuguese as L1. We proceed in the analysis of situations of real language use, putting together a longitudinal and stratified study as well. Our analysis put on evidence that the acquisition of the variation of the definite article is organized under determined patterns that parallel, in some aspects, the speech of the adult.</italic>
        </p>
      </abstract>
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          <italic id="italic-bbbb7f39a57298808e2e28a483ec6bfa">Acquisition</italic>
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          <italic id="italic-67ef79a41893b73a85bdda06499804f5">Definite article</italic>
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          <italic id="italic-64e452828440726224649775545ceb42">First language</italic>
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          <italic id="italic-e9fecef874e9d28048c425ed7aeb5e27">Variable use</italic>
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    <sec id="heading-b7450865c47c9c24f56a491402fc1689">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-992f964bd4a3a804734784f09adcfdde">Neste trabalho, expomos parte da análise apresentada em nossa tese de Doutorado (ALENCAR, 2006) sobre o percurso aquisitivo do artigo definido no contexto variável “Art + N próprio”, conforme os exemplos “Cadê <bold id="bold-1">a Quistina</bold>?” (MA 2;02 p.2) / “Cadê Ø Quistina”. Trata-se de uma pesquisa calcada no arcabouço teórico-metodológico da Teoria da Variação de orientação Laboviana e que se orienta pelo estudo da aquisição baseada nas situações reais de uso da língua.</p>
      <p id="paragraph-d74ef46a068502b5678770187660af21">Nosso principal objetivo foi verificar a emergência e incorporação dos padrões que regulam a variação do artigo frente a N próprio no discurso da criança, de modo a confrontar a variação da fala infantil com os padrões de variação da fala dos adultos com os quais interagiram nas amostras analisadas para investigar até que ponto o discurso da criança reflete o <italic id="italic-2bb9255b48d8232441aab0e6bc57536d">input </italic>a que teve acesso.</p>
      <p id="paragraph-df8d317f59c1c4f12b5080db517e421d">Uma das hipóteses levantadas na pesquisa é que a variação no uso do artigo frente a N próprio segue uma trajetória que reflete, em grande parte, características do <italic id="italic-2">input </italic>variável a que a criança tem acesso durante o processo aquisitivo de L1. Assim, pressupomos que o artigo, no contexto variável focalizado, é incorporado primeiro nos contextos mais favoráveis à presença do determinante na fala do adulto, já que esses contextos estariam mais salientes no <italic id="italic-3">input </italic>a que a criança está exposta, e vai, gradativamente, se expandindo para outros contextos até que a fala da criança passe a espelhar a regularidade da variação observada na comunidade.</p>
      <p id="paragraph-f94e9f1d4a790211873faa5f19da8166">Na comparação entre a fala das crianças e a fala dos adultos, partimos da hipótese de que a variação no uso do artigo frente a N próprio no discurso infantil pode não refletir inteiramente o padrão observado na fala dos adultos, em função de fatores maturacionais, ou seja, de pressões associadas ao desenvolvimento linguístico e cognitivo mais geral da criança.</p>
      <p id="paragraph-ad72409cf3758ee30a894320ef96e4fc">As principais questões que nortearam este estudo foram: (1) Estaria a fala da criança refletindo os padrões de variação da fala do adulto (C<italic id="italic-4">hild<italic id="italic-5"/></italic> <italic id="italic-6"/><italic id="italic-7"/><italic id="italic-8">Directed Speech</italic>)? Neste caso, como o <italic id="italic-9">input </italic>opera no processo aquisitivo? Considerando que a trajetória aquisitiva do artigo definido frente a N próprio pode sofrer restrições em razão do próprio desenvolvimento cognitivo da criança, em que medida fatores de ordem maturacional podem estar motivando a variação?</p>
    </sec>
    <sec id="heading-1">
      <title>1 Amostra e Metodologia</title>
      <p id="paragraph-2">Conjugamos dois tipos de estudo da fala de crianças em fase de aquisição da linguagem: um estudo longitudinal, através do qual acompanhamos o desenvolvimento linguístico de uma criança da amostra da Unicamp<xref id="xref-b8d56941fcb53b6d708c161e572a454f" ref-type="fn" rid="footnote-829096e71eca022a0c9b916ee8ceba8f">1</xref>, no período de 1;2 a 4;10 e um estudo estratificado baseado na fala de 10 crianças (7 da amostra da Puc-SP e 3 da amostra da Unicamp) subdividida em cinco pontos etários (1;6, 2;00, 2;6, 3;00 e 4;00).</p>
      <p id="paragraph-4">Realizamos também a análise da variação na fala dos adultos presentes nas situações interacionais consideradas. Os procedimentos para a análise da fala da criança foram, então, aplicados na fala do adulto.</p>
      <p id="paragraph-5">Comparamos ainda os resultados deste estudo aos de pesquisas que investigaram o uso do artigo definido frente a N próprio na comunidade, a fim de minimizar os possíveis efeitos da limitação imposta por um estudo que controla a fala dos adultos unicamente em situações de interação com as crianças analisadas.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-0606eea366eaad8d90528e45c810414c">
      <title>2     Resultados mais significativos</title>
      <sec id="heading-56b71b20771b945e93979661e0d6bb80">
        <title>2.1.   Análise qualitativa</title>
        <p id="paragraph-08568e0301e49810d396da07f2d0853f">A trajetória da incorporação do artigo definido frente a nome próprio pode ser sintetizada e observada na figura 1 em que dispusemos, na parte superior, o tipo de nome próprio que ocorreu com ausência categórica de artigo a partir do ponto etário em que está localizado e, na parte inferior, os nomes que ocorreram com presença variável de artigo de acordo com os pontos etários a partir dos quais passaram a ocorrer. Importa ressaltar que a análise qualitativa esquematizada na figura 1 corresponde à fala de R, criança com cujo discurso fizemos o estudo longitudinal:</p>
        <fig id="figure-panel-1a040c971d0b0742e0786b035b7b1058">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-0669bc70b76dcefd8660971d327d372f" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-1dfdfec443b65c2fc268d32b8d8348cd" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-38a27aeea1f0d24cfd4296dc62f416f0">A figura 1 <xref id="xref-6179b1d997bb68890d5bc033019a8d6b" ref-type="fig" rid="figure-panel-75263d9e925bd418048769017d671358">???</xref> mostra evidências de que a idade de 3;00 é um marco para a trajetória percorrida pelo artigo definido diante de nome próprio. A fase anterior a 3;00 é marcada pela emergência do artigo nos contextos preferenciais, evidenciando certa restrição lexical vinculada a nomes mais familiares. A partir dos 3;00, observa-se uma expansão no uso do artigo com a sua extensão a um conjunto mais amplo de N próprios.</p>
        <p id="paragraph-03436ced7902c173d7c74ca25edd5073">Ao longo dessa análise, puderam ser depreendidos alguns aspectos relevantes para a compreensão da trajetória aquisitiva do artigo definido. Ressaltou-se a prevalência da função dêitica do artigo, no início do processo aquisitivo, a estreita correlação entre presença da preposição e ocorrência do artigo, desde a sua emergência, e a importância do fator familiaridade. Através de uma análise multivariacional, procuramos verificar a validade estatística dessas indicações, assim como o paralelismo entre os padrões variáveis depreendidos na fala da criança e os padrões verificados na fala do adulto, confrontando-os com os resultados obtidos para uso do artigo na comunidade. A seguir, apresentamos parte dos principais resultados de nossa pesquisa quantitativa. </p>
      </sec>
      <sec id="heading-c61b8015604cb4ced94d66985c39cd32">
        <title>2.2.   Análise quantitativa</title>
        <p id="heading-9e081cfe8604bbb4ddc4e34840f5d196">Nesta seção, focalizamos a incorporação dos padrões de variação no uso do artigo frente a N próprio, confrontando os padrões de variação identificados na fala infantil com os dados verificados na fala dos adultos. Através dessa comparação, buscamos verificar o paralelismo entre as amostras e a importância do <italic id="italic-0e395fc26665d592ba1f7d1113351078">input </italic>no processo aquisitivo, já que a fala a que a criança está exposta é considerada fator importante no desenvolvimento da linguagem e na incorporação de processos variáveis.</p>
        <p id="paragraph-9101561b5323dfc3edac88969b24be60">Discutimos o efeito de seis variáveis independentes que se mostraram relevantes para o uso do artigo antes de nome próprio. São elas: “Estrutura do SN”, “Função Sintática”, “Forma de recuperação do referente”, “Especificidade do referente”, “<italic id="italic-d29612ebe017fb738a0e431877f8fa02">Status </italic>Informacional” e “Introdução do referente”. Analisamos a trajetória aquisitiva do artigo definido frente a nome próprio em cada grupo de fatores mencionado de acordo com a análise multivariacional possibilitada pelo pacote computacional VARBRUL (PINTZUK, 1988). Procedemos, ainda, a um cruzamento entre as variáveis “Faixa etária” e as demais mencionadas, a fim de identificar o momento em que a variação na fala da criança espelha a variação observada na fala do adulto. Essa análise permite traçar as regularidades que regem a emergência e ampliação no uso do artigo definido antes de N próprio na fala infantil.</p>
        <p id="paragraph-6048fc9baf84cf9878e217f51a4de521">Adotamos na discussão das variáveis relevantes o seguinte procedimento: partimos dos resultados do estudo longitudinal e comparamos tais resultados àqueles obtidos no estudo estratificado. Tal procedimento nos permite observar, num primeiro momento, os contextos mais favoráveis para a emergência do artigo diante de N próprio, bem como o ponto mais específico do <italic id="italic-1d904216708fef56b2d5d4342a62028d">continuum </italic>aquisitivo em que esses contextos se sistematizam. A comparação com as tendências verificadas no estudo estratificado nos permite, assim, verificar a sistematicidade e a regularidade dos padrões constatados.</p>
        <p id="paragraph-2077e6951ab8effd837e8a2b136819dd">Como já dissemos, dada a impossibilidade de um estudo controlado do fenômeno na comunidade a que pertencem os informantes que compõem nossa amostra, tomamos os resultados apontados por outros trabalhos como um parâmetro indicativo do comportamento da variação na comunidade.</p>
        <p id="paragraph-c1de3ae59aacd00ff74e134a0e6b297d">A comparação entre os padrões de variação na fala das crianças e na fala dos adultos está sujeita aos limites impostos pelos problemas inerentes à questão do <italic id="italic-c4e1cafd299e10e070c3c178d8408511">input </italic>durante o desenvolvimento da linguagem. Estudos sobre as trocas comunicativas entre a criança em fase de aquisição e os adultos com quem ela interage evidenciam que a mediação entre a criança e a ação com o mundo, provocada pela maneira como o adulto se dirige à criança, é fator fundamental para o desenvolvimento linguístico (GUY e BOYD, 1990 e ROBERTS, 2002). É importante ressaltar, no entanto, que a comparação entre a fala infantil e a fala dos adultos apresenta limitações, uma vez que, como mostram diversos trabalhos (SNOW, 1994, PINE, 1994, LIEVEN, 1994 e RICHARDS, 1994), a fala que o adulto dirige à criança, principalmente em estágios iniciais de aquisição, em muitos aspectos, pode não corresponder ao seu uso linguístico nas interações com adultos ou mesmo com crianças mais velhas. Ao se dirigir a crianças em fase aquisitiva, o adulto usa uma espécie de fala infantilizada (“<italic id="italic-e9f97d97e6e5d9989d860442591c0025">Baby Talk</italic>” ou “<italic id="italic-b34d4e882d38511f4d9e89e541c514f8">Child Directed Speech</italic>”), expondo as crianças a amostras de fala que não correspondem inteiramente ao uso linguístico estabilizado.</p>
        <p id="paragraph-008712ee05325b9b835500450d97a8b9">Em função do espaço limitado comum a artigos, apresentamos aqui apenas os resultados mais significativos de dois grupos de fatores imprescindíveis para a análise da incorporação do artigo, a saber: “Estrutura do SN” e “Forma de Recuperação do Referente”. Indicamos a leitura da tese (ALENCAR, 2006) para um acesso mais detalhado à análise.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-2412416dca3c889f36f70adac2fbf900">
        <title>2.2.1   Estrutura do SN</title>
        <p id="heading-1e8e6d42b7573f3e9792dfe0c0d9c6e6">Um dos aspectos apontados como relevante pela análise multivariacional para o uso do artigo definido frente a nome próprio na fala infantil diz respeito à configuração estrutural do SN. Os resultados estatísticos referentes tanto à fala infantil quanto à fala adulta mostram que a presença da preposição é atuante na ocorrência do artigo, confirmando a tendência já apontada na análise qualitativa.</p>
        <p id="paragraph-6db573505556a7ca79a5cd260d92ae42">Controlamos, inicialmente, diferentes estruturas de SN, conforme os exemplos abaixo:</p>
        <p id="paragraph-6e655f792c0dffe3f24a09802ac113ba">
          <italic id="italic-82a6407c6d4802ee0c6dc81477b61653">Artigo + Nome Próprio<italic id="italic-364dbffbe5b62c52ecbcff86a6f6758f"/></italic>
        </p>
        <p id="paragraph-6919eb67ea658480e3de8111e9c12f93">(26) “Cadê <bold id="bold-3a274391d105b150ac58ba99c59cfe46">a Quistina</bold>?” (MA 2;02 p.2)</p>
        <p id="paragraph-047bcfd5fa2a67e548082a9c0498a56c">
          <italic id="italic-afd2d0c35c9bdd7e63c03fac5ea07b0f">Artigo + Atributo<xref id="xref-1cdc25bc32a512e344fdbb5bd47ac321" ref-type="fn" rid="footnote-eb11eb162e8b9b7ca184bf622b395f15">2</xref> + Nome Próprio</italic>
        </p>
        <p id="paragraph-75cacd1541d26096068602e62dc2a643">(27) “<bold id="bold-2">Titiu Ricardo</bold>” (BGL 2;00 p.1)</p>
        <p id="paragraph-7">
          <italic id="italic-8f66ccb3d69ce8f2650c8f7a6b743c68">Preposição</italic>
          <italic id="italic-a8316fa68900466ad8aa8a1121330958" />
          <italic id="italic-774c555c33e74f280e2e635eaa24e9fa">+ Artigo + Nome Próprio<italic id="italic-10"/></italic>
        </p>
        <p id="paragraph-8">(28) “Casa <bold id="bold-3">do Leandro</bold>” (MA 2;02 p.1)</p>
        <p id="paragraph-10">
          <italic id="italic-11">Ø Preposição + Artigo + Nome Próprio<italic id="italic-12"/></italic>
        </p>
        <p id="paragraph-11">(29) “Eu di um besu <bold id="bold-4">Ø</bold><bold id="bold-5"> </bold><bold id="bold-6">Tátia</bold>” (MA 2;00 p.3)</p>
        <p id="paragraph-4a7a9f3b1595719e5116b5bb0cc27d8c">É necessário destacar, antes de tudo, que se fez necessária uma reorganização desse grupo de fatores, em função da própria natureza dos dados. Uma análise estatística prévia indicou maciça concentração dos dados das crianças na configuração estrutural mais simples “Art + Nprop”<xref id="xref-6ba0188aa9cce729be296b2c83d0b67f" ref-type="fn" rid="footnote-e8fb3d13f4d6dc12d62df51a9682cd44">3</xref>. Em função do número pouco expressivo de dados na estrutura “Art + Atributo + Nprop”<xref id="xref-282a1672d0086ce7aa066de0be124336" ref-type="fn" rid="footnote-c8e88df77b62bb77d6e5fa9c9926397c">4</xref> e das semelhanças na configuração dos SNs, reagrupamos os dados das duas estruturas em questão. Do amálgama de tais estruturas resultou a configuração “Art + (Atributo) + Nprop”, em que a ocorrência de “atributo” é facultativa.</p>
        <p id="paragraph-321f482e4134226334655c5a385d039f">Os resultados de nossa pesquisa permitem constatar a estreita correlação entre a presença da preposição e a presença do artigo. O gráfico 1 mostra que a distribuição de taxas de artigo na fala infantil é perfeitamente paralela à que se verifica na fala dos adultos.</p>
        <fig id="figure-panel-5390968defe400fdcc172157bb1804fe">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b359bc2ce3a16e6c4a4a1ca998dd2bbc" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-54825f5ef9144f9cd71162f2e1e9ba73" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-e9c3c61ff0afe2b171f9703510b9f198">O paralelismo entre a fala infantil e a fala dos adultos no que se refere à presença categórica de artigos em SN`s encaixados em sintagmas preposicionais leva a crer que o <italic id="italic-1e6aeb7c2da5518e06f04e3d504d13bf">input </italic>atua no processo aquisitivo.</p>
        <p id="paragraph-590a8b1ab48c57778fe1ab9eea3faef6">Outros trabalhos também já haviam apontado tal tendência no uso variável do artigo definido, principalmente os que se voltaram para o estudo da comunidade. Oliveira e Silva (1996), a partir da análise de amostras de fala do Rio de Janeiro, mostra que a preposição leva ao uso do artigo em grande parte dos dados, conduzindo a autora a excluí-los (Op. Cit: 128):</p>
        <p id="paragraph-8f7b11d24101c0a15ea0d17457d2d3bc">Foram também eliminados da computação eletrônica todos os dados do tipo “O livro do Pedro está na minha mesa” em que os artigos são precedidos por preposição que possa contrair-se com os mesmos, já que estes casos, como vimos, mostram-se praticamente categóricos, no sentido de sempre favorecerem a presença do artigo.</p>
        <p id="paragraph-4f61f63206bfde418b14f6df8f2c13d4">Tendência semelhante foi encontrada em Callou e Oliveira e Silva (1997) e Callou (2000), sobre amostras de outras comunidades, o que sugere que essa correlação entre preposição e artigo definido é uma tendência mais geral e sistemática.</p>
        <p id="paragraph-6eb2cf710dde021abfb24c4cf27a67a3">Uma hipótese possível é que a influência do input se faça mais presente em estágios incipientes de aquisição e, gradativamente, deixe de ser relevante, o que pode ser examinado através de uma análise que procede ao cruzamento da faixa etária<xref id="xref-5e174dfef41d8da81495b68f260d9389" ref-type="fn" rid="footnote-7c8fbd1984a8f61ffd3ef3bfe6611cf2">5</xref> e da configuração estrutural do SN que pode ser vista na tabela 1.</p>
        <table-wrap id="table-figure-2817b53cc80e91cac91b57f4ad80952b">
          <label>Table 1</label>
          <caption>
            <title>Tabela 1</title>
            <p id="paragraph-d31e6ebfc9ad7ff19ed81a69e9b0a87b">Cruzamento entre Idade e Estrutura do SN – Estudo Estratificado</p>
          </caption>
          <table id="table-68c2dc9cefef2fe75e28340879aeb9c5">
            <tbody>
              <tr id="table-row-310595cc1427bc5e73af2a7497b3b6bf">
                <td id="table-cell-4406706d02dc3139f1b179c2c6118e10"> Idade </td>
                <td id="table-cell-5313bbe7b37d51cde319e98be9f89c32"> Art + (Mod) + Nprop </td>
                <td id="table-cell-daa8eda751504ed20d7336854636db3d"> Prep + Art + Nprop </td>
                <td id="table-cell-ecab3cde2bae61c74a782b363535d3b3"> Øprep + Art + Nprop </td>
                <td id="table-cell-20dbf295ef057407fda87db4d7b59e4c"> Total </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-be19e22faadb29e03bcc0a7983ac96fa">
                <td id="table-cell-f9bc40102057be1ce93979b3908c04db"> 1 ano e 6 meses </td>
                <td id="table-cell-3f0719ec9e591ff1461c87401898941c"> - </td>
                <td id="table-cell-699b6ff13fe3d3ff27e35e77d987569a"> - </td>
                <td id="table-cell-fb86d7855dbc89ff34332ba2f7994c4a"> - </td>
                <td id="table-cell-ab3f84cb35805c93d01674e2f465ccc6"> - </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-3876d5b832fab6061d4cd253d9fb2654">
                <td id="table-cell-fa24acffe67f482b452108b2c5142641"> 2 anos </td>
                <td id="table-cell-e3013de6d7ca2180c862acc9920ec1f9"> 16/23 = 70% </td>
                <td id="table-cell-6e03a6b12f03ced9ef117f16e7210470"> 1/1 = 100% </td>
                <td id="table-cell-a24a565c36a7640a5682310c77bd6078"> 0/8 = 0% </td>
                <td id="table-cell-96798242db5804b43fab6a9590b7089a"> 32 </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-e578e6bbdc07031c2932ebc9e71cefd9">
                <td id="table-cell-8d5fa7a694701784b8cb52b3bdb8c94b"> 2 anos e 6 meses </td>
                <td id="table-cell-68d03bde4d80a99a5c64f1ed6be2b4d1"> 6/9 = 67% </td>
                <td id="table-cell-1b06f66277689a9050b1eb35e7ab86c3"> 1/1 = 100% </td>
                <td id="table-cell-b86080be6bc4b38ee373fec22da46985"> - </td>
                <td id="table-cell-c8158951a391d19117355692f6787306"> 10 </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-c3e0b1efc771c5353781ea331e5550ed">
                <td id="table-cell-e44872c8363d714f356a4c662d438961"> 3 anos </td>
                <td id="table-cell-adfaec4827fb65a8f5ed936a44ae82aa"> 8/11 = 73% </td>
                <td id="table-cell-f5edee07974af94e4054d57f15b7fa88"> 4/4 = 100% </td>
                <td id="table-cell-6c0cb551aa1422d3dd2ec7ef01362601"> - </td>
                <td id="table-cell-b3c18e4b8796b11f7ba0d3bcfb543f9e"> 15 </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-67efe095e2989dd75d59e93270fee8d0">
                <td id="table-cell-e8919c2d293ba4c34b6876ca1e96458f"> 4 anos </td>
                <td id="table-cell-f4fe94e53bad0c08d016c6139daf02ee"> 16/18 = 88% </td>
                <td id="table-cell-f4af2e54e89d0be4ee1e053081e81415"> 3/3 = 100% </td>
                <td id="table-cell-16e84d10f67c19ca43ec322e60532495"> - </td>
                <td id="table-cell-2add724c2c0d2da1a21264d535aad6be"> 21 </td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-9f9701a6574555c1dce9be2039e4bf27">Como já era esperado, os resultados da tabela 1, mostram que, assim que é incorporada na fala infantil, a preposição leva ao uso categórico do artigo definido diante de N próprio. De forma complementar, a ausência de preposição leva ao cancelamento categórico da preposição. É interessante salientar, no entanto, que a estrutura “ØPrep + Art + Nprop” está circunscrita à faixa correspondente a 2 anos, sinalizando que este tipo de estrutura pode ser decorrente de etapas do desenvolvimento da linguagem.</p>
        <p id="paragraph-c921b212a7a8d7219cfd6bb6ce4e2dd3">Na análise qualitativa, já destacamos, considerando o desenvolvimento linguístico de R, que essa estrutura específica fica mais concentrada no período anterior aos 2;00 (um dado em cada idade a saber: 1;06, 1;10 e 2;00), ocorrendo apenas um único caso de estrutura com omissão da preposição aos 4;08. As generalizações apontadas pelo estudo estratificado somadas ao maior detalhamento proporcionado pela análise qualitativa nos possibilitaram depreender, portanto, que a estrutura “ØPrep + Art + Nprop” ocorreu de modo mais expressivo por volta dos 2 anos de idade, podendo ser esta uma fase fundamental do processo aquisitivo em que se observa maior diversificação de estruturas. </p>
        <p id="paragraph-35a7c6984d19adb5a4e275ea3cc2e508">Ainda de acordo com a tabela 1, podemos notar que a estrutura “Art + (Atributo) + Nprop” se caracteriza como contexto de maior variabilidade desde a sua emergência no processo aquisitivo. As frequências das faixas etárias correspondentes a 2;00, 2;06 e 3;00 praticamente se mantêm ao longo do desenvolvimento da linguagem: 70%, 67% e 73%, respectivamente. Por outro lado, aos 4;00, a fala infantil demonstra taxa (88%) próxima à da variação encontrada na fala dos adultos (94% nos dois estudos). Tal resultado pode ser uma evidência de que é por volta dos 4;00 que a fala infantil reflete de forma mais próxima os padrões de variação da fala do adulto.</p>
        <p id="paragraph-4a5614828194e1276c5f5ecf6a0a175e">Resultados de outros trabalhos apresentam evidências para essa conclusão. Assim, por exemplo, Roberts (1994), no seu estudo sobre o apagamento variável de /t/ e /d/ finais no inglês e da variação na produção do –<italic id="italic-0fe523f339cf323e2975841ec36ed407">ing </italic>já havia verificado que os padrões de variação da fala do adulto já se encontram incorporados na fala de crianças em fase pré- escolar (entre 3 e 4 anos de idade). Ao analisar como as crianças adquirem os padrões de variação estabilizados na fala dos adultos, a autora conclui: (Op. Cit: 176):</p>
        <p id="paragraph-731cfbf90d92b382a2fd5994f54edd8a">Assim como para as regras categóricas, o período pré-escolar parece ser crítico para a aprendizagem das bases para as regras variáveis de apagamento de (t/d) e produção de (ing). Algumas das restrições sobre as regras são refinadas em anos posteriores, mesmo na fase adulta, como foi apontado por Guy e Boyd (1990). Na idade de três ou quatro, entretanto, muitas dessas restrições internas já foram adquiridas, incluindo as dialetamente específicas como a restrição colocada por uma pausa seguinte sobre o apagamento de (t/d), o que insere essas crianças como membros da comunidade de fala da Filadélfia. A aquisição de restrições sociais sobre a variação se inicia na infância remota, mas o volume de acesso a este conhecimento parece acontecer na idade de 4 anos<xref id="xref-35be9e9b47961062991cc3ee6cf945c5" ref-type="fn" rid="footnote-65666b336656d2a7ceeeaf2c2cbcc71b">6</xref>.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-a8d2ee36c68758bb66db2b863b52745a">
        <title>2.2.2   Forma de recuperação do referente</title>
        <p id="heading-e80b578b55a48a6fda8d30017a4727ed">Nesta seção, investigamos a atuação do processo de recuperação do N próprio antecedido por artigo definido, embora tal grupo não tenha sido selecionado pelo programa estatístico, para checar até que ponto a referência dêitica, apontada como um dos fatores mais favoráveis para a incorporação do artigo definido nos períodos iniciais de aquisição, conforme já mencionamos, mostra-se estatisticamente relevante durante o processo aquisitivo de L1. Torna-se relevante ressaltar que os estudos sobre a comunidade não levam em conta a questão da forma de recuperação do referente na análise do uso do artigo definido. Sob este aspecto, nosso trabalho se particulariza, já que testa qual das funções do artigo é mais atuante no contexto variável investigado tanto na fala infantil como na fala do adulto, pelo menos, no que se refere à maneira como se dirige linguisticamente à criança.</p>
        <p id="paragraph-c1f6e9efaa063b3ce3a7f9e7a7367cf7">Conforme já assinalado na literatura, o artigo definido pode ocorrer diante de um elemento cuja referência é recuperada na situação de fala (extralinguística) ou no plano discursivo, através das relações anafóricas do texto (MOURA NEVES, 2000: 391-392 e LYONS, 1999). No primeiro caso, trata-se de uma referência exofórica e no segundo caso de uma referência endofórica. O artigo pode ser considerado, então, um item fórico já que instrui a busca de recuperação semântica no texto ou na situação.</p>
        <p id="paragraph-0e0d866b5e98f22b12559f378ae7353f">Ressaltamos que, nesta oportunidade, não vamos nos aprofundar e nem desenvolver um estudo específico sobre <italic id="italic-670c1d5881520b25721acc69593a71d2">dêixis </italic>já que uma discussão dessa natureza fugiria aos propósitos deste trabalho. Vamos discutir apenas os aspectos pertinentes ao estudo da maneira como a forma de recuperação do referente atua no padrão de variação do artigo na fala infantil.</p>
        <p id="paragraph-b21aede2d333d89d5cdbf77fa10fcd12">Há um consenso quanto ao fato de que a dêixis ocupa um espaço central não só no desenvolvimento da linguagem pela criança, como no seu desenvolvimento cognitivo em geral (LEVINSON, 1992 e TOMASELLO, 2003). Um dos primeiros recursos de expressão utilizados pela criança é o de mostrar ou apontar referentes disponíveis na situação de fala seja para nomeá-los seja para chamar a atenção para determinados referentes ou buscar a satisfação dos próprios desejos. Dessa forma, a criança aponta/orienta, por meio linguístico, o elemento da situação imediata ao qual se refere fazendo intervir os objetos perceptíveis e os interlocutores. Segundo Tomasello (Op. Cit: 200), “mesmo antes de aprenderem qualquer língua, as crianças pequenas são capazes de dirigir a atenção dos outros para objetos exteriores. Elas o fazem principalmente através de gestos, mais frequentemente apontando”<xref id="xref-cbea142fe3ae3d94a3aa7f553f749b76" ref-type="fn" rid="footnote-49e6ab16fb4707a53d3afbc87b67a81a">7</xref>.</p>
        <p id="paragraph-085317b17c5709f41b4c549df754138a">Como já vimos, o artigo desempenha igualmente importante papel na construção das relações anafóricas do discurso. Assim, neste estudo, controlamos duas situações possíveis no que se refere à forma de ancoragem da referência do N próprio:</p>
        <p id="paragraph-97ae43bbd3daf8358f23badc927d822f">Referêcia e<italic id="italic-fbd8b16de5e0b80fbd472e828487358e">xofórica </italic>- Nome próprio cujo referente, introduzido no discurso pela primeira vez, pode ser identificado na situação de fala.</p>
        <p id="paragraph-25db8db9bde77879b174d50b2bc1a6a8">(34) (A criança deita no chão ao lado da boneca Barbie)</p>
        <p id="paragraph-2f3b8df3072cc399a823f8073993e8ad">Criança: “<bold id="bold-112b4799e3655cf820997cf46a6e8b5a">Babi </bold>joga a bola”</p>
        <p id="paragraph-6f27ef8d3535ff8f78860e1f3fd87cf1">Adulto: “Joga!” (MGL 2; 06 p.14)</p>
        <p id="paragraph-781a06992e4b0990f3a9e53e0105d553">O nome “Barbie”, citado pela criança, está disponível na situação de fala, mostrando que o referente descrito pode ser identificado diretamente no contexto em que a interação ocorre. Salientamos que o artigo, neste caso, parece exercer a mesma função ostensiva que o demonstrativo “esta”, por exemplo, desempenharia: “<bold id="bold-0ec5147bf0aeaa238802114b3e8832f1">A/Esta Babi </bold>joga a bola”.</p>
        <p id="paragraph-bad42586ccc8eb3f7168b0209c53341b"><italic id="italic-c34d2ca4093044a1691232e78343c660">Referência anafórica </italic>– Nome próprio que já foi citado no discurso. Trata-se da referência recuperada no plano linguístico<xref id="xref-e4104b912905ff524ffaec5146499fa8" ref-type="fn" rid="footnote-082e53ba543f0eadde5825a73d5f3ac6">8</xref>.</p>
        <p id="paragraph-58ae4799bd7f61b8f7527bfc1fbee95d"> (34) Adulto: “Como que chama o seu titio que operou seu pintinho, A?</p>
        <p id="paragraph-ad3a7fe70b4b1c176588c49a20d630ac">Criança: “Aimô”</p>
        <p id="paragraph-537d78974525c35777cf30d214759c16">Adulto: “Como?”</p>
        <p id="paragraph-48c53994b3305fac68155e61f981fd48">Criança: “Nocho”</p>
        <p id="paragraph-25d33cdb6025389cff4d4c8c575acf6d">Adulto: “Tio o quê?</p>
        <p id="paragraph-c5f8b3f27418f1a749f3fb143281e392">Criança: “Tio”</p>
        <p id="paragraph-1ca2476bea76808151cdb9833f38fb9b">Adulto: “Gustavo”</p>
        <p id="paragraph-22341d89482dee187e6c45baf358783b">Criança: “Foi <bold id="bold-989e6c617b9dbc40c3b9c9d3070bcb01">o Gustão</bold>”</p>
        <p id="paragraph-e8d58e462f57ab299244f99811041d91">Adulto: “Foi o Gustavo! O Dr. Gustavo, né?! (GEM 3;02 p.12)</p>
        <p id="paragraph-59b9dc7be5fe930dda61fdba58b1b91e">No exemplo acima, o nome “Gustavo” já havia ocorrido na cadeia discursiva. Neste caso, o SN destacado na fala da criança retoma anaforicamente o referente que já havia sido mencionado pelo adulto.</p>
        <p id="paragraph-064dae238807bbd9b2f7e2588ad2d78c">Esperamos encontrar, como já assinalamos, um número maior de ocorrências de artigo definido diante de N próprios com referência exofórica, cujo referente pode ser recuperado na situação comunicativa imediata. Nossa hipótese é que, no início do processo aquisitivo, a função dêitica se torne mais saliente já que a referência está relacionada diretamente com o que está em volta da criança. Trata-se de seres nomeados que estão disponíveis fisicamente. Neste caso, pode-se esperar que a dêixis seja determinante para a aquisição do artigo definido frente a N próprio, dada a sua importância na organização dos sistemas linguísticos e no desenvolvimento da linguagem, como mostra Crystal (2000: 75), para quem:</p>
        <p id="paragraph-0da1d8f7388aed78e86890ff9dcdb35c">A noção de dêixis mostrou-se produtiva em diversas áreas da Linguística, principalmente na Pragmática, e nos estudos de aquisição da linguagem, onde os pesquisadores consideram o aprendizado destes itens pelas crianças como um traço significativo do desenvolvimento precoce.</p>
        <p id="paragraph-5fadd3280aecf769ac041e9537478e05">Nossa hipótese encontra evidências também no estudo da aquisição de outros fenômenos variáveis. Assim, Roncarati (2000: 173) mostra, no seu estudo sobre a gênese e a variação da negação com base em corpora longitudinais, que, na fase pré-linguística, há estreita correlação entre a negação e a dêixis. A autora ressaltou que “uma das estratégias adaptativas mais empregadas pelas crianças é simultaneamente chamar a atenção do interlocutor e apontar para um referente intencionado presente no ambiente imediato” (Op. Cit: 176). Trata-se, segundo a autora, de um recurso comum no estágio icônico no qual a negação é codificada, entre outras coisas, por gesto caracterizante. Para a autora, “a NEG é iconicamente codificada: exibe estreita correlação com a referenciação dêitica do contexto imediato.” (Op. Cit: 173)</p>
        <p id="paragraph-07ed9fbb14d061a42713e68dc6e7675d">Também na aquisição de aspectos não variáveis da gramática, como o uso de preposições, a dêixis desempenha um papel saliente. Ramos (2005;73)<xref id="xref-350ec03247202c4379f1954355f5b443" ref-type="fn" rid="footnote-c14227936c774f22eed14fa8aa05e9b5">9</xref>, no seu estudo sobre a emergência e incorporação da preposição ‘de’ na fala infantil destaca que:</p>
        <p id="paragraph-3">No momento em que emergem as primeiras ocorrências da preposição DE na fala de R (estudo longitudinal) verifica-se um conjunto importante de “progressos” linguísticos. Com 1;07, a criança observada longitudinalmente passa a fazer maior remissão aos elementos do contexto extralinguístico e o gesto de apontar objetos se faz acompanhar mais frequentemente do uso do demonstrativo <italic id="italic-c94e56a5c981aa2a908f15214afb66cf">‘esse’</italic>. Verifica-se também nessa fase a intensificação no uso da negação.</p>
        <p id="paragraph-067527dd47a11c7b3cea59834821fe2a">As direções encontradas na escala aquisitiva refletem o padrão encontrado na fala do adulto no tocante à influência da dêixis na ocorrência do artigo, como se pode constatar no gráfico 2.</p>
        <fig id="figure-panel-b3aebbcdb252fee7e1af53d83ad2eab0">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-09eed9c41bd9cffdd49584752e532fdc" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a70e1b4df1e79fff90402a02bb3be827" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="3.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-62b7c2f3aad7ae0c587fec8f915d21f1">O paralelismo observável no gráfico 2 pode conduzir à seguinte questão: a atuação da dêixis é decorrente de mera reprodução do <italic id="italic-544946c221e956989e487f73fc29929e">input </italic>ou trata-se de restrições comuns a etapas do desenvolvimento linguístico da criança?</p>
        <p id="paragraph-0cdedcb24e68bc86b8398d63f641c41b">É interessante ressaltar que o fato de o artigo ocorrer em maior escala na fala dos adultos diante de N próprio cujos referentes são ancorados deiticamente pode ser uma característica da forma como os adultos se dirigem à criança. No entanto, a falta de resultados relativos ao efeito desse fator na comunidade dificulta verificar essa afirmação. Considerando, no entanto, as evidências encontradas em nosso trabalho e nas pesquisas retomadas, há indícios de que, pelo menos em parte, a aquisição no uso do artigo antes de N próprio é influenciada por etapas aquisitivas, o que explica por que um fator que possui efeito menos nítido na fala do adulto intervém de forma mais relevante no padrão de variação da linguagem infantil.</p>
        <p id="paragraph-f198617a599e3fd29cda7b7931ed77fd">Uma análise do cruzamento entre as variáveis idade e forma de identificação do referente, mostrada na tabela 2, permite ressaltar de forma mais nítida a importância da função dêitica do artigo nos estágios mais incipientes de aquisição. De acordo com as considerações feitas acima e as indicações da análise qualitativa, podemos esperar que, nas faixas etárias iniciais, o artigo ocorra predominantemente antes de nomes com referência exofórica para depois se expandir a núcleos nominais com referência anafórica, de modo a apresentar uma distribuição de uso ao longo do continuum etário. Essa expectativa encontra evidências favoráveis nos resultados dispostos na tabela 2.</p>
        <table-wrap id="table-figure-43b81525e1e91e1e3806a2b0e8500e76">
          <label>Table 2</label>
          <caption>
            <title>TABELA 2</title>
            <p id="paragraph-d3baaa00bb59713f96f285fe92265fdf">Cruzamento entre Idade, forma de recuperação do referente e realização do artigo antes de N próprio.</p>
          </caption>
          <table id="table-9a5d9ebbff82c2d189c16f5f898c43a1">
            <tbody>
              <tr id="table-row-bbf47bd4f957517204a0f94c2929975c">
                <td id="table-cell-20b378698df5c05018177c9a588ac6e4"> Idade </td>
                <td id="table-cell-8370d2ea7767be79e851735eda3a6386"> Referência anafórica </td>
                <td id="table-cell-1c4e6de4e1cdffa4c52effa16fd9be4c"> Referência exofórica </td>
                <td id="table-cell-cce85ad31bc953b986ee5fe0cdef1bf6"> Total </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-33bb79cbecca8d804aade6919ecaba10">
                <td id="table-cell-9a2df9e27265359a7a43d750818cfd77"> 1 ano e 6 meses </td>
                <td id="table-cell-eea01e61939a1b8bfb9ddc5a7cd3bd19"> - </td>
                <td id="table-cell-2b700c1fe878b7983a01a5641493c5a1"> - </td>
                <td id="table-cell-4df2be020857df6bd1f1566c91c3adcb"> - </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-d0e8da014e22f3ddb01bc693a7b397c5">
                <td id="table-cell-6fc0dfb05358e059006f89fccbc74913"> 2 anos </td>
                <td id="table-cell-7a6b098640ecb54f0fa48aa5eef72d41"> 13/24 = 54% </td>
                <td id="table-cell-9870684839dd81897ba6e3fbe472d724"> 8/13 = 62% </td>
                <td id="table-cell-e9b464e064a5e4fc14b833bbcac40f37"> 37 </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-92cb0e61808bc2f76fe68c89c6f0f3d5">
                <td id="table-cell-8e7b70e9eaba3fc7076fd778dac2eafb"> 2 anos e 6 meses </td>
                <td id="table-cell-6071f7ea0eab12fffc5bef5a131ce3b2"> 3/5 = 60% </td>
                <td id="table-cell-96445e942247f5440b917e0e575de4ba"> 4/5 = 80% </td>
                <td id="table-cell-6f09082250f3bc4477d9695942a9bb29"> 10 </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-f95f6dbfad08469910408661dc823f64">
                <td id="table-cell-eb9513f4244d93ad87201cab5172da80"> 3 anos </td>
                <td id="table-cell-820d5e86c4392635a6e31f80bc894551"> 8/12 = 67% </td>
                <td id="table-cell-21420b9ff09759cefc3392da72dd186d"> 7/8 = 88% </td>
                <td id="table-cell-6ea897a527a6857ebe79e6df3695d573"> 20 </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-19b489535e2791bbe8e8d2c50ff42d8d">
                <td id="table-cell-1bf4903668aaeaf6b4f77d625e505f2c"> 4 anos </td>
                <td id="table-cell-087297885e36a1a0281e79eaba9bf2a7"> 15/17 = 88% </td>
                <td id="table-cell-54b686cd66e1f116b7f68a37e0e70c89"> 3/3 = 100% </td>
                <td id="table-cell-913ebb9aea1987c0431a496213ddf83b"> 20 </td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-98d4235cfe0c96e3b888b29f9990bb0e">A distribuição das frequências da tabela 2 permite depreender a trajetória de uso do artigo em termos da oposição exofórico/anafórico, mantida a cautela necessária em função do desequilíbrio no número de dados por célula. Pode-se observar que o artigo definido emerge por volta de 2;00 com percentual considerável quando se trata de referência exofórica (62%). Na fase correspondente a 2;06, o fator “exofórico” favorece significativamente o uso do artigo (80%) e continua atuando de forma significativa aos 3;00 (88%) para, culminar, aos 4;00, na realização categórica do artigo definido frente a N próprio.</p>
        <p id="paragraph-1fb5329baeee04a32827d22a5aab8115">Para o artigo que antecede N próprio que já foi mencionado, por outro lado, o percentual mostra ainda grande variação no início do processo aquisitivo (54%, aos 2;00). Com 2;06, o fator “anafórico” já se mostra um pouco mais relevante para a presença do artigo (60%) e aos 3:00, mantém-se taxa equivalente (67%). Somente no final da escala aquisitiva, aos 4;00, notamos percentual de ocorrência do artigo próximo ao dos adultos (88%).</p>
        <p id="paragraph-94a7fa876101ed2d10132b69278c1c33">As tendências verificadas acima evidenciam uma gradação na aquisição dos padrões de variação do artigo de tal modo que ele começa a ser incorporado diante de N próprio com referência exofórica, funcionado como marcador de referente que faz parte da situação imediata, para, ao longo do <italic id="italic-85d08eded2ec9fb4eefab37c0d4a5808">continuum </italic>aquisitivo, expandir seu uso para outros contextos, assumindo, portanto, outras funções.</p>
        <p id="paragraph-5d315c01c309acab92f338f2a97f031e">A análise qualitativa desenvolvida permite acrescentar, no entanto, um aspecto importante: ao que tudo indica, no início do processo aquisitivo, destaca-se a função ostensiva do artigo diante de N próprio. Com o progresso da maturação na língua materna, a criança passa a dominar outras funções realizadas pelo artigo e o papel de “mostração” perde em relevância para dar lugar à ampliação contextual da variação.</p>
        <p id="paragraph-27c49c167cfe511761ef258ed1774b5d">Nesta seção, mostramos a forte correlação entre a presença do artigo e a dêixis durante o processo aquisitivo. As evidências encontradas em nossa análise quantitativa confirmam os resultados apontados na análise qualitativa, mostrando haver similaridade entre o comportamento linguístico das crianças do estudo longitudinal e da criança estudada longitudinalmente. Vimos que há indicações de que o artigo é incorporado incialmente como um recurso de ancoragem dêitica, principalmente de ostensão. A dêixis atua, portanto, tanto qualitativa quanto quantitativamente durante a emergência e a variação do artigo definido na fala de crianças em processo de aquisição de L1.</p>
        <p id="paragraph-78cad30a29c929b75a05c09fb4c4d188">Um certo paralelismo entre os padrões identificados na fala das crianças e na fala dos adultos, embora a forma de recuperação do referente pareça ser menos relevante entre esses, leva a crer que, em situações interativas entre adultos e crianças, que estão adquirindo os padrões da língua materna, a dêixis sobressai como um dos recursos que caracterizam o CDS – Child Directed Speech (PINE, 1994). Mas, se, por um lado, o <italic id="italic-4925d45623b02c6c96ef095b144638fd">input </italic>responde por alguns aspectos refletidos na fala da criança, por outro, o efeito significativo da dêixis não pode ser atribuído somente à influência exercida pelo <italic id="italic-7713bc8ec8cd2b7bc2a9e669031fff84">input. </italic>Questionamos até que ponto o CDS é simplesmente reproduzido pela criança ou se determinados padrões de variação encontrados na fala infantil refletem etapas do processo aquisitivo mais geral, (PINE, Op. Cit), como a ancoragem dêitica, que coloca em relevo o contexto de fala. </p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-90e6f22c06d4a0feb506d0623483eb05">
      <title>3 Considerações finais</title>
      <p id="paragraph-27a60fc11fad60664e1658f29c56c2ad">Nossa pesquisa pôde evidenciar que a direcionalidade apontada na análise qualitativa foi, em grande parte, confirmada pela análise multivariacional. Houve sistematicidade acentuada entre as tendências dos estudos longitudinal e estratificado, bem como houve correspondências entre os padrões de variação da fala do adulto e os padrões de variação da fala infantil em diferentes fases aquisitivas.</p>
      <p id="paragraph-132b862684847c71e229a9ae84a8a83b">Vimos que a presença da “preposição” foi determinante para o uso do artigo já nos estágios iniciais de aquisição, seguindo a tendência dos adultos, de tal modo que torna-se difícil precisar até que ponto o fato de a criança usar “preposição + artigo” pode ser atribuído à falta de segmentação comum ao período inicial de aquisição linguística, ou se a criança está reproduzindo uma tendência disponível no <italic id="italic-8515b1306bd053491742013d986a4c72">input</italic>. Verificamos que houve algumas divergências entre os padrões da fala infantil e da fala dos adultos que, ao que tudo indica, evidenciam que outros fatores ligados à aquisição intervêm durante o percurso aquisitivo de processos variáveis. Assim, a função dêitica do artigo (“Forma de recuperação do referente”) assume maior importância no início da escala aquisitiva.</p>
      <p id="paragraph-90de115f344567ce447c6609b6721c1b">Os resultados de nossa análise puderam evidenciar que há uma expansão gradativa na fala infantil, conforme o avanço da faixa etária, das funções do artigo encontradas no discurso do adulto. Tal reflexo parcial da fala adulta no percurso aquisitivo mostra que a interferência do <italic id="italic-5a279bc9ac971e1bab3603c88a70b909">input </italic>no processo de aquisição não se limita a uma representação exata da fala do adulto, confirmando conclusões de outros trabalhos que investigaram a aquisição de fenômenos variáveis.</p>
      <p id="paragraph-f663804bd632aa1afc4623446c7d3616">O paralelismo entre os contextos de uso do artigo na fala da criança e os contextos de uso da fala do adulto confirma apenas parcialmente a hipótese da atuação do <italic id="italic-540b86365b48b9717e698a518c5b7fad">input </italic>já que o <italic id="italic-7b74b4a98cd64cf15a39921ae98ffdf9">continuum </italic>de expansão do artigo parece ser determinado também por fatores maturacionais, como já foi assinalado em pesquisas que se inserem no referencial teórico adotado neste trabalho.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-647ae87832485d4ee50a19d2925ddc42">
      <title>Referências</title>
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    <fn-group>
      <fn id="footnote-829096e71eca022a0c9b916ee8ceba8f">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-7987eefb40bc2530d29471be07e583dc">Trata-se de uma amostra cujos dados constituem o corpus do “Projeto Aquisição da Lingua- gem Oral”, coordenado pela professora Cláudia Lemos, do Instituto de estudos da Linguagem (IEL)/UNICAMP. Com o objetivo de descrever e analisar o processo de aquisição do português como primeira língua em 12 crianças com idades que recobrem o período de 11 meses a 6 anos, a amostra foi composta por gravações de áudio e videoteipe realizadas com crianças paulistas da classe média, entre as décadas de 70 e 80, filhas de pais universitários. Grande parte dos entrevistadores é composta pelos professores do IEL que gravaram os seus próprios filhos. A amostra encontra-se organizada cronologicamente e apresenta informações sobre o contexto de gravação como, por exemplo, a data da realização, idade do falante, investigador, acompanhante, descrição física, entre outras.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-eb11eb162e8b9b7ca184bf622b395f15">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-49fff9740619ec35157afbc5a24e3175">A palavra “atributo” diz respeito a qualquer elemento situado entre o artigo e o nome próprio que qualifica este último, como “titio”, “vó”, “Dona” etc.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e8fb3d13f4d6dc12d62df51a9682cd44">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-ea8fdaf084ba33200ade01168219d6c0">Estudo Longitudinal da fala infantil: “Art + Nprop”: 141/187 = 75%. Estudo Estratificado da fala infantil: “Art + Nprop”: 45/60 = 75%</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c8e88df77b62bb77d6e5fa9c9926397c">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-656e06b1f2a9d840860e708c879964d6">Estudo Longitudinal da fala infantil: “Art + Atributo + Nprop”: 1/7 = 14%. Estudo Estratificado da fala infantil: “Art + Atributo + Nome”: 1/1 = 100%</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-7c8fbd1984a8f61ffd3ef3bfe6611cf2">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-2d3cc7179b6ed230998aae028a03fcab">Como os resultados provenientes do cruzamento entre a idade da criança e as demais variáveis do estudo longitudinal se revelaram pouco esclarecedores em função, principalmente, de haver células com poucos dados e até mesmo sem dado algum, consideramos, em grande parte da pes- quisa, a correlação da idade e demais grupos de fatores do estudo estratificado cujos resultados revelaram com maior clareza a direcionalidade da aquisição.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-65666b336656d2a7ceeeaf2c2cbcc71b">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-bc724c6b0064142f67a63bdc5ee282fc">“As is the case for categorical rules, the preschool period appears to be the critical one for learning the foundations of the variable rules (-t,d) deletion and (ing) production. Some of the constraints on rules are refined in later years, even up through adulthood, as pointed out by Guy and Boyd (1990). By the age of three and four, however, the many of these internal constraints have already been acquired, including the dialect specific following pause constraint on (-t,d) deletion, firmly establishing these children as members of the Philadelphia speech community. The acquisition of social constraints on variation has its beginning in early childhood, but the bulk of this learning appears to take place the age of four.” (Roberts, 1994: 176)</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-49e6ab16fb4707a53d3afbc87b67a81a">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-8ed510044ef379a691edd815c02593df">“Even before they learn any language, young children are able to direct the attention of oth- ers to outside objects. They do this mainly gesturally, most often by pointing.” (Tomasello, 203: 200).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-082e53ba543f0eadde5825a73d5f3ac6">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-d4225272abe37ad0069d2cd117d1af4d">É importante ressaltar que o nome próprio que foi mencionado pela segunda vez na cadeia linguística foi classificado como referente anafórico mesmo que estivesse fazendo parte do con- texto situacional.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c14227936c774f22eed14fa8aa05e9b5">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-3b45fbe261a75b334c5464c8a21cf7ad">A análise de Ramos (2005) é baseada nos mesmos <italic id="italic-40289020939c9f7ab25035580263f21b">corpora </italic>usados em nossa pesquisa (Cf. seção destinada à amostra).</p>
      </fn>
    </fn-group>
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